domingo, 29 de abril de 2012

O marketing da baixaria, um mal sem fim da política




Em 98, logo após a campanha vitoriosa de Garotinho para governador do estado do Rio de Janeiro, escrevi um “Diário de Campanha” (que você pode ler na íntegra, clicando na foto da capa, aqui ao lado), e um de seus capítulos foi sobre “O Marketing da Baixaria”. Meu alvo principal era a campanha do terror que Cesar Maia desenvolveu na época, principalmente contra Brizola e Garotinho. Começo dizendo: “A baixaria, infelizmente, está incorporada às campanhas políticas. De tal maneira, que virou regra”.
Marketing, como diz Al Ries, é guerra de percepções, e o marketing político não é diferente. Talvez até seja mais intenso. O problema é que há uma linha de pensamento entre políticos e marqueteiros políticos que acredita que construir uma percepção negativa do adversário é mais importante do que construir (ou fortalecer) a sua própria imagem positiva. Nessa campanha de 98, foi assim. Cesar Maia tinha grandes realizações para mostrar, sua administração como prefeito era bem avaliada – mas o complexo de escorpião falou mais alto e ele preferiu atacar Brizola e associá-lo com o adversário Garotinho.
“César diz que Brizola criou a Fetranscoca”, noticiava o jornal Extra. Ou “Cesar quer a cabeça de Marcello” (jornal O Dia). Ou “César fará vídeo-denúncia” (JB). Nada disso adiantou. Ou melhor, funcionou ao contrário: Cesar Maia acabou personificando todo o noticiário negativo, sua imagem virou sinônimo de trevas. É verdade que em 92 tinha dado certo. Ele conseguiu associar Benedita aos arrastões que, misteriosamente, surgiram na praia e foram bem documentados. Apropriou-se também de uma história de um filho da Benedita que teria comprado um diploma escolar (só muitos anos depois a Benedita teve conhecimento da história verdadeira e completa). Mas a situação era outra. A campanha petista era extremamente ingênua, ainda despreparada para um enfrentamento mais pesado, e tinha feito a bobagem de levantar a bandeira da honestidade. Lembro até a história de um irmão do Cesar Maia que teria ido à produtora petista disposto a “revelar os podres de Cesar Maia”, mas a Coordenação não achou correto divulgar, porque não existiam provas concretas. Se fosse o contrário, bem provavelmente o depoimento teria ido ao ar, dentro da lógica de que “em campanha política a única coisa que não se pode fazer é perder”.
Quando vejo os ataques de baixo nível que Garotinho faz agora contra o Sérgio Cabral, lembro de todos esses momentos, e me impressiono. Ou talvez nem tanto. Afinal, esse tipo de ataque é típico do desespero. Garotinho e Cesar Maia – hoje, aliados – estão sem alternativas, com imagem em queda, não veem outro caminho que não seja o de desqualificar o principal adversário regional. Procuraram pegar carona no escândalo de Cachoeira (que obviamente deve ser noticiado e investigado) para tentar envolver Sérgio Cabral (de certa forma, até contribuindo para desvio do foco principal) e para isso divulgaram cenas que – independentes do que realmente representam – podem causar grande imagem negativa. O maior prejudicado, no entanto, é o eleitor, que fica perdido nesse tiroteio da guerra de percepções. Talvez seja o caso de recuperar a reportagem da Tribuna de 22 de julho de 1998 que manchetava: “Garotinho pede a César para elevar o nível da campanha”.


Benedita 70

Recebi cópia da carta que Dilma enviou a Benedita, dando parabéns pelo aniversário de 70 anos. "Ela desafiou uma realidade dura e venceu: negra e pobre, enfrentou preconceitos e quebrou todas as barreiras que a vida lhe impôs", diz Dilma. Fico igualmente feliz pelas vitórias de Benedita, e feliz por também ter contribuído para algumas delas. Parabéns, Benedita.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dessa vez, nem a sogra salvou Dicró


Fiz vários trabalhos com o Dicró, para Sonoleve, Governo do Estado e campanhas políticas. Era realmente uma figura que tinha mil e uma histórias sobre a sogra. Chegava lá na agência e dizia: "Gadelha, você tem que me contratar pra Criação. Sou melhor do que todo esse pessoal que você tem aí. Pode demitir todo mundo que faço o trabalho deles". Sempre bem humorado, alto astral. Tão alto que decolou de vez... Fará falta.
(Se não me engano, a mulher com cara de sogra que aparece no final do comercial estava na praia, viu o Dicró e resolveu participar das filmagens...)

sábado, 7 de abril de 2012

Inflação: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil?


Na quinta-feira, dia 5, o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman publicou um artigo, Not Enough Inflation (traduzido hoje na Folha com o título de “Mais inflação, por favor”, reproduzido mais abaixo), que certamente deixou nossos analistas econômicos de plantão com o estômago embrulhado. Afinal, ele diz com todas as letras que o Fed (Banco Central de lá) deve “preocupar-se com a oferta de empregos e também com a estabilidade dos preços”. Aliás, vai além: “A direita quer que o Fed se mantenha obsessivo com a inflação, quando a verdade é que estaríamos melhor se, em vez disso, ele se preocupasse mais com o desemprego”. Isso nos lembra muito do desvario que tomou conta de nossos “analistas de mercado” quando o nosso Banco Central, em agosto do ano passado, decidiu reduzir os juros para 12% ano. Foi um Deus nos acuda, todos dizendo que era irresponsabilidade, que a inflação ia voltar, etc, etc. Este Blog fez questão de sair em defesa do Banco Central e esclarecer, como Paul Krugman, que a sua função não se restringe a garantir inflação baixa, de forma submissa ao cassino financeiro. O Banco Central acima de tudo tem que ter responsabilidade social – e às vezes isso pode significar criar estímulos a mais empregos, mesmo que represente inflação. Krugman  reconhece que “uma política mais agressiva para lutar contra o desemprego talvez levasse a inflação acima dos 2%”, mas ressalta que “se a taxa tivesse uma alta maior, para 3% ou 4%, seria terrível? Pelo contrário, iria ajudar a economia”, e se o Fed desistisse de combater o desemprego seria o mesmo que “violar seu próprio estatuto”. Na nossa postagem do dia 2 de setembro passado (A autonomia do Banco Central está em “cheque” ; ver também Paul Krugman e os bancos centrais, do dia 10 de setembro de 2011), igualmente afirmamos que “não existe sistema financeiro forte e eficiente sem princípios sociais”. Será que isso tudo quer dizer, como diria o ministro da ditadura, Juracy Magalhães, que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil? Nessa questão do papel dos bancos centrais, estamos de acordo. Mas, aqui entre nós, se apesar do desemprego o Fed aumentasse um pouco os seus juros e valorizasse mais o dólar, nossas exportações agradeceriam...
Mais inflação, por favor
Paul Krugman
O Fed tem mandato duplo: se preocupar com a estabilidade dos preços e também os empregos
Há alguns dias, Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano), fez um discurso em defesa de seu sucessor. Ataques de republicanos a Ben Bernanke, ele disse, são "completamente inapropriados e destrutivos".
Mas por que os ataques são tão devastadores? Afinal de contas, ninguém na América deveria ser imune a críticas, muito menos aqueles -como os diretores do Fed- que têm o poder de fazer nossas vidas melhores ou piores.
Não. O real motivo dos ataques a Bernanke serem tão negativos é que eles são um esforço para induzir o Fed a tomar a decisão errada. Quem critica a política da instituição quer que ela sufoque a recuperação, ao invés de acelerá-la.
A direita quer que o Fed se mantenha obsessivo com a inflação, quando a verdade é que estaríamos melhor se, em vez disso, ele se preocupasse mais com o desemprego.
Na realidade, um pouco mais de inflação não seria uma má ideia.
O Fed tem, segundo a lei, um mandato duplo: preocupar-se com a oferta de empregos e também com a estabilidade dos preços.
E uma política mais agressiva para lutar contra o desemprego talvez levasse a inflação acima dos 2%.
Mas lembre-se das obrigações do Fed: se ele se recusar a aceitar os riscos no campo da inflação, mesmo com a desastrosa performance do emprego, seria o mesmo que violar seu próprio estatuto.
E, mais que isso, se a taxa tivesse uma alta maior, para 3% ou 4%, seria terrível? Pelo contrário, iria ajudar a economia.
A maioria do setor privado continua a ser prejudicada pelo excesso de dívida acumulada durante o período da bolha imobiliária. Esse débito é, sem dúvida, o principal fator a impedi-lo de investir e, por consequência, perpetua a crise.
Uma taxa modesta de inflação poderia, no entanto, reduzir essa ameaça -fazendo com que a dívida assuma seu real valor- e ajudar a promover a melhora de que o setor privado necessita.
Ao mesmo tempo, outras áreas do setor privado acumularam grandes quantias; uma inflação moderada faria esse montante estagnado menos atraente, agindo como um estímulo ao investimento.
Em resumo, longe de temer que medidas contra o desemprego levem a uma escalada da inflação, o Fed deveria desejar essa previsão.
Esse raciocínio me leva de volta às criticas republicanas e seu efeito negativo na política.
Realmente, Bernanke gosta de insistir que ele e seus colegas não são afetados pela política. Mas essa afirmação não é coerente com o comportamento do Fed -ou, às vezes, com a falta de medidas tomadas pela entidade.
Como muitos analistas têm notado, a própria previsão do Fed indica que, enquanto as coisas têm melhorado um pouco, ainda são esperados inflação baixa e desemprego alto nos próximos anos.
A mais recente reunião desse órgão mostrou que o Fed está inclinado a não tomar providências, a não ser esperar que as coisas se direcionem para o pior caminho.
Então, o que está acontecendo? Creio que os membros do Fed, admitam eles ou não, estão se sentindo intimidados -e são os trabalhadores americanos que estão pagando o preço por essa timidez.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Dilma, Ibope e a classe média, segundo Merval


Na sua coluna de hoje no Globo, “Dilma agrega apoios”, Merval Pereira faz uma análise bem correta sobre os resultados da pesquisa CNI/Ibope de ontem, que aponta aprovação de Dilma com 77%, novo recorde. Diz ele que esse Ibope “pode ser explicado por uma conjunção de apoios, pois ela mantém a hegemonia na Região Nordeste (82%) e entre os cidadãos que ganham entre um e dois salários (59%), mas conseguiu ser igualmente bem avaliada entre os eleitores com renda familiar superior a dez salários mínimos (60% de ótimo e bom) e na Região Sudeste (75%) (grifo nosso). Em seguida conclui: “Isso quer dizer que a maneira de governar de Dilma tem agradado à classe média, sem perder o apoio das classes mais populares”.
Perfeito. O que me espanta é a demora que a mídia mais conservadora, bem representada por Merval, teve para compreender isso tudo. O primeiro grande nome da oposição a perceber o que estava ocorrendo foi Fernando Henrique, demonstrando sua preocupação no artigo “O Papel da Oposição”, pré-divulgado no dia 12 de abril do ano passado. Na época, escrevi aqui no Blog (FHC: finalmente o grão-tucano mostra bom-senso), aplaudindo a sua perspicácia: “Isso significará que Fernando Henrique, além de reconhecer as realizações de Lula, já percebeu o estrago que Dilma está fazendo no seu eleitorado preferencial. A capacidade que ela tem tido de agradar a classe média (e a mídia) mostrou-se complementar ao que Lula fez e está deixando a oposição em polvorosa. Fernando Henrique ainda terá a ‘ousadia’ de sugerir que a oposição deve buscar a classe média ‘em lugares onde os partidos praticamente não existem, como as redes sociais da internet’”.  Dois dias depois, quando ele finalmente publicou seu artigo pré-divulgado(!), escrevi (“Povão” ou “Classe Média”: em defesa de Fernando Henrique): “Fora do poder e na entressafra eleitoral, a oposição tucana, de perfil mais elitizado, tem mesmo que tentar se manter forte e unida através do discurso classe média, principalmente diante da 'ameaça Dilma', que conquista brilhantemente largas fatias não só da classe média, como da classe mídia... FHC ainda demonstra mais um momento de lucidez ao aconselhar o partido 'a priorizar as novas classes médias, gente mais jovem e ainda não ligada a partido nenhum e suscetível de ouvir a mensagem da socialdemocracia'”.
No dia 19 de agosto de 2011, escrevi (A herança mal dita de Lula):  "Apesar de toda a campanha contra, Lula conseguiu eleger Dilma para sucedê-lo. Inicialmente, ela era tratada como marionete, burocrata, politicamente despreparada para o cargo. Ninguém foi capaz de dar valor a seu trabalho na Casa Civil, e pré-anunciavam uma administração fracassada. Espertamente, Dilma tratou de passar a mão na cabeça da classe média mal amada – e deu certo. Deu certo até demais".
Em outras palavras: esse Ibope da Dilma já estava previsto antes de sua eleição. Só não viu quem não acreditava no que via.

sábado, 24 de março de 2012

Chico Anísio pra valer

Quem diria, Chico Anísio morreu. Será? Desde que me entendo por gente que vejo ele por perto, fazendo graça da vida. Talvez às vezes nem tivesse graça, mas foi sempre genial, indispensável para a cultura nacional. Fico feliz de ter tido a ideia de fazer esse comercial utilizando o seu quadro da Escolinha do Professor Raimundo, isso na década de 80, quando era redator da MPM Propaganda, que tinha a conta de publicidade do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Mergulhei no espírito da coisa assistindo vários programas e as falas saíram exatamente como escrevi. A direção foi de Carlos Manga. Obrigado pela inspiração, Chico Anísio.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Blog do Gadelha no Mundo da Disney



Pelo menos uma vez por mês, o Blog do Gadelha tem sido reproduzido em Orlando, pelo Jornal B&B (Brasileiras & Brasileiros), que conta com a designer Inez Oliveira na sua coordenação. Na edição que está no ar, foi reproduzido o post "... E o vento levou os Republicanos", que você pode ver na imagem acima e ler na íntegra aí abaixo. O endereço do Jornal B&B é http://www.jornalbb.com.

quinta-feira, 15 de março de 2012

... E o vento levou os Republicanos



Teve uma época em que os Republicanos tinham esperanças em derrotar Barack Obama nas eleições de novembro. Mas isso faz tanto tempo... é uma coisa tão antiga... Naqueles tempos, eles acreditavam que o governo Democrata afundaria junto com a herança maldita deixada por Bush, uma economia em crise, governo desacreditado, a produção solapada, o desemprego em alta constante. Obama soube reagir com tranquilidade, com precisão e com um timing perfeito. Apostou no investimento no mercado interno e na recuperação do setor produtivo e soube jogar de volta a responsabilidade pelas dificuldades econômicas no colo dos Republicanos – graças à incompetência de seus congressistas que, ávidos em atrapalhar o desempenho do governo, radicalizaram na politização das soluções econômicas e impuseram medidas antipopulares.
Começaram as prévias e o discurso oposicionista mostrou-se cada vez mais vazio. O principal candidato, Mitt Romney, avançou, mas não convenceu. Sua visão da economia foi um fiasco. Fracassou até mesmo na sua terra, Detroit, onde as montadoras voltaram a crescer e os empregos voltaram a surgir – contra todas as suas previsões e propostas. Foi aí que o Sul Republicano se rebelou, iniciou uma espécie de Segunda Guerra da Secessão. Os “Novos Confederados” lançaram-se à luta com uma agenda ultraconservadora, priorizando questões como o aborto, homossexualismo, imigração, sempre com um discurso sectário. Ao contrário da Guerra da Secessão do século XIX, quando o Sul defendia a escravidão dos negros, esses “Novos Confederados” querem também escravizar mulheres, homossexuais e imigrantes. E empunhando essa bandeira partiram para batalhas sangrentas, ferindo de morte a candidatura Republicana. Bem que o Rhett (Mitt Romney) Butler revivido tenta conquistar o coração de Scarlett (Sul) O’Hara. Nas até agora não teve o mínimo sucesso. Pode ser que – como no melodrama imortalizado por Clark Gable e Vivien Leigh – nossa Scarlett O´Hara descubra que ama Rhett Butler. Mas, assim como na ficção, será tarde demais.

terça-feira, 6 de março de 2012

Resposta a Merkel: quem vive o azedo do “agressionismo” não pode falar de protecionismo


Angela Merkel tenta desviar a atenção de sua política extremamente agressiva, expansionista, atacando o Brasil como protecionista. Que moral ela tem para falar assim? A Alemanha é um dos maiores países exportadores do mundo, com saldo na balança comercial no ano passado de cerca de 17% superior a suas importações. Enquanto isso, no acumulado de 12 meses, nosso saldo foi negativo em janeiro e apenas 7% superior às importações no acumulado de 12 meses em fevereiro. E não é só isso. A Alemanha é um dos principais responsáveis pela aniquilação da economia da Grécia (e de outros países europeus) por impor um comércio desigual entre eles, com um euro super forte que encarecia os produtos dos países vizinhos economicamente mais fracos. Foi sugando essas economias que ela cresceu mais. Como a fonte secou, ataca os emergentes com movimento inverso: desvaloriza o euro, através de seu tsunami monetário, para avançar mais facilmente sobre nossas economias. Foi mais de 1 trilhão de euros o total de empréstimos que o Banco Central Europeu concedeu ao sistema financeiro com juros subsidiados. (Similar ao que fazem os Estados Unidos com sua política de juros a quase zero.) Isso provoca uma avalanche de dólares em nossa economia, valorizando o real, prejudicando nossas exportações e dificultando ainda mais nosso setor produtivo. Felizmente temos um mercado interno forte, ainda em expansão (graças à política de inclusão social iniciada por Lula e continuada por Dilma), que garante um PIB em crescimento constante. Nossas medidas “protecionistas” foram bem tímidas e atingem muito mais os países asiáticos. Por isso, é melhor escolher palavras menos azedas, Dona Angela. E trate de vender seu Sauerkraut em outro lugar!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O SuperPAC de Obama


Os SuperPAC são Comitês de Ação Política sem limites. Eles podem arrecadar o que bem entendem para apoiar aliados ou destruir adversários políticos. Ganharam destaque muito especial graças à campanha milionária que os Republicanos colocaram no ar. Segundo levantamento do Washington Post, só no mês de janeiro, os  SuperPAC pró-Republicanos arrecadaram 22,1 milhões de dólares – contra apenas 60 mil dólares dos pró-Obama. Apesar de milionária, a campanha Republicana é literalmente primária. Primeiro por ser autofágica – uma verdadeira aula sobre o que realmente significa “fogo amigo”. Depois por ter caído na armadilha da crise econômico-financeira montada por Obama. Esqueceram o que significa ter “a máquina na mão” e acreditaram que Obama ficaria de mãos atadas. Primeiro, ele tratou de colocar boa parte do abacaxi do desemprego na conta dos Republicanos (os impasses que eles, ingenuamente, provocaram no Congresso foram decisivos).  Depois, fez o oposto do que estão fazendo os europeus, com sua fórmula recessiva de enfrentar a crise. Obama investiu na recuperação do setor produtivo, está trazendo empregos de volta, fortalecendo o mercado interno. Por último, temos que considerar que ele lidera a melhor equipe de marketing político do momento. Cada passo que dá, seja no cenário internacional, seja na vida pessoal, é meticulosamente calculado. Veja por exemplo o comercial da Chrysler com Clint Eastwood no intervalo do SuperBowl – garanto que tem dedo da equipe. Ou os exemplos das “canjas” que Obama deu, primeiro cantando Al Green e depois, a pedido de Buddy Guy e Mick Jaegger, cantando no show da Casa Branca reunindo vários artistas. Tem dinheiro que pague isso? Enquanto os Republicanos gastam milhões para se destroçar, Obama amplia espaço rumo à re-eleição simplesmente cantarolando “Sweet Home Chicago”. Aliás, foi essa mesma música que a Banda de Dan Aykroyd e John Belushi apresenta no filme “Blues Brothers” para arrecadar o dinheiro que os irmãos Jake e Elwood Blues precisam para investir em um orfanato. Isso é ou não é mais forte do que os SuperPAC Republicanos?

Blues Brother cantando "Sweet Home Chicago":

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Churrasquinho grego



O neoliberalismo, à moda dos generais, conseguiu acabar com a democracia grega. O tal acordo comemorado, que garante 130 bilhões de euros para supostamente fortalecer a economia do país, trata-se de uma intervenção descarada para garantir os lucros de bancos alemães e franceses. O premier grego, Lucas Papademos, feliz por estar momentaneamente salvando o couro, delirou:  “Agora seremos capazes de progredir com estabilidade, limitar a incerteza e aumentar a confiança na economia grega”. Que progresso será esse que prevê que até 2020 a dívida será de “apenas” 120,5% do PIB? Muito mais lúcido do que o premier é o vendedor de frutas Raptis Michalis, de 67 anos, que declarou à Reuters: “É como se não tivéssemos na Grécia pessoas capazes de governar o país”. Ele sabe que as altas taxas de desemprego que estão sendo impostas eliminarão os clientes de seu mirrado negócio. E deve perceber também que dificilmente esse governo se manterá por muito tempo, principalmente porque haverá eleições agora em abril. O povo irá para as ruas protestar, defender seus direitos e seus empregos. Os políticos tentarão fazer média para conquistar votos. O calote da dívida certamente acontecerá. Talvez a Grécia saia da Zona do Euro. Seja como for, o futuro grego será espeto.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Rubens Ricupero: arrogância X arrogância


O jurista, diplomata e Ministro da Fazenda do Plano Real, Rubens Ricupero, aproveitou esta segunda de Carnaval para escrever, na Folha, um artigo que parece procurar rasgar todas as fantasias. “Perdão pela Crise” é um texto muito bom celebrando “os 30 anos do início do Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento da Unctad, um dos raríssimos estudos que advertiram sobre a ameaça que se avizinhava”. Mas ele acusa os todo-poderosos da economia mundial de menosprezarem a advertência sobre a crise econômico-financeira que explodiu em 2008. “Os sabichões, alguns ganhadores do Nobel, seguros da infalibilidade de seus cálculos sobre o sistema financeiro, haviam tomado seus desejos pela realidade e tinham sido culpados de  hubris, a soberba que desafia os deuses. Em relação às advertências prevalecera naqueles anos uma psicologia da negação”, escreve ele, que também disse: “Tão logo passem os piores efeitos na economia, os sabichões voltarão com a arrogância de sempre”. Tudo bem, se Ricupero ele próprio não tivesse se tornado célebre por uma frase bem arrogante que vazou dos microfones da Globo para todo o Brasil, em setembro de 94, em plena campanha pela eleição de Fernando Henrique:  "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde".
Arrogâncias à parte, vale a pena ler o texto completo.
Perdão pela crise
Rubens Ricupero

Tão logo passem os piores efeitos na economia, os sabichões voltarão com a arrogância de sempre
Noventa e quatro vezes pediu o papa João Paulo 2º perdão pelos crimes cometidos pelos cristãos ao longo de 2.000 anos. Seria demais esperar que ao menos uma vez as organizações internacionais e os economistas convencionais admitam a parte de responsabilidade que lhes cabe na crise financeira em que mergulharam o mundo?
Quando for publicada esta coluna, estarei iniciando desse modo o discurso de abertura no Palais des Nations em Genebra da reunião para celebrar os 30 anos do início do Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento da Unctad, um dos raríssimos estudos que advertiram sobre a ameaça que se avizinhava.
Em visita à London School of Economics, em 2008, a rainha Elizabeth 2ª fez a pergunta inocente que estava em todos os lábios: "Como foi que ninguém havia previsto a crise?". Após meses de silêncio embaraçado, um grupo de economistas britânicos se desculpou: "Majestade, o fracasso em prever o momento, a extensão e a gravidade da crise e em evitá-la (...) foi, sobretudo, uma falha da imaginação coletiva de muitas pessoas brilhantes (...) em entender os riscos que corria o sistema como um todo".
Os sabichões, alguns ganhadores do Nobel, seguros da infalibilidade de seus cálculos sobre o sistema financeiro, haviam tomado seus desejos pela realidade e tinham sido culpados de "hubris", a soberba que desafia os deuses. Em relação às advertências prevalecera naqueles anos uma "psicologia da negação".
Essa é a verdadeira explicação para a imprevisão e as suas devastadoras consequências. Nem todos estiveram cegos para os perigos da orgia de liberalização financeira. A Unctad, no começo dos anos 1990, em pleno auge do triunfalismo da globalização como ideologia (para distingui-la da versão autêntica e histórica), já previa que a década se caracterizaria pela frequência, intensidade e caráter destrutivo das crises financeiras e monetárias.
Poucos prestaram atenção. No Brasil, os mestres do "saber superficial, pretensioso e tendencioso" (mas de grande prestígio em Washington e Davos), julgavam a Unctad um dinossauro em extinção. Ao contrário do Fundo Monetário Internacional, que na véspera da crise asiática de 1997 proclamava em seu relatório: "O futuro da economia mundial é cor-de-rosa"! Ou que, um ano após o início da atual crise, insistia que tudo não passava de perturbação passageira.
Não é o feio pecado da "alegria do profeta" que me leva a dizer tais coisas. É que, tão logo passem os piores efeitos da crise, esse pessoal, hoje de rabo entre as pernas, há de voltar com a arrogância de sempre. Basta atentar na teimosia do FMI em só aceitar controles de capital como último remédio, e não como arma normal do arsenal para evitar crises.
 Não foi a falha de imaginação ou inteligência a culpada da imprevisão. A causa é a ideologia, o disfarce de interesses de classe e setores sob roupagem científica. Os que dão as cartas no Departamento do Tesouro e equivalentes na Europa são os mesmos homens do setor financeiro que prepararam a crise. E o único arrependimento que deles se pode esperar é o daqueles que choram o tempo todo no trajeto para depositar no banco seus bônus milionários.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O estilo “miguelito” ajuda a inflar as greves?


Tempos atrás participei da organização de várias greves, em um grupo político de esquerda ou como diretor da CUT. Uma das que lembro, com grande sucesso pela mobilização, foi a greve do Arsenal da Marinha, em 85, a famosa “Greve dos Mascarados”. Acredito que tenha sido a única realizada pelos trabalhadores do Arsenal da Marinha, com seus piquetes feitos à distância, porque se tratava de área de segurança nacional. Nas discussões sobre como agir, sempre havia sugestões do tipo “vamos espalhar miguelitos por toda parte!”, ou seja, parar a cidade com aqueles pregos de 4 pontas que furam pneus de carros. O bom senso acabava prevalecendo, porque é importante que a população apoie, ao invés de reagir contra a greve.
Foi principalmente na conquista da simpatia popular que os policiais falharam dessa vez. Acreditaram que poderiam repetir o que os bombeiros do Rio fizeram no ano passado e, com essa ideia na cabeça e uma arma na mão, tentaram fazer imensa mobilização nacional. Foram ingênuos, deixaram-se levar por politiqueiros excitados com a chance de faturar mais uns votinhos logo no início desse ano eleitoral. O primeiro erro foi a escolha do momento pré-carnavalesco. Ameaçar a realização da festa do povo? Onde já se viu fazer uma escolha dessas!?! Isso deixou o país inteiro em pânico - o folião, os pequenos comerciantes, os blocos e escolas de samba, a indústria do turismo, a TV Globo, por aí vai. Outro grande erro foi o estímulo ao vandalismo. Queimar caminhão para bloquear estradas é pior do que “miguelito”. As dezenas de assassinatos que surgiram de uma hora pra outra foram aterrorizantes – mães impedindo que os filhos fossem à escola, amigos organizando grupos para saírem à rua com mais segurança, o medo lado a lado com a população. Os tiros contra bancos, viaturas da polícia e emissoras de TV também foram inteiramente desnecessários. O terceiro grande erro foi o de organização, com seus líderes deixando-se grampear facilmente, parecendo estagiários de vigia.
Do outro lado, vimos os governos federal e estaduais extremamente atentos e eficientes. Souberam informar corretamente e venceram logo de cara a guerra das percepções. Aquela onda vermelha e romântica dos grevistas do ano passado transformou-se rapidamente em nuvem negra, ameaçadora, indesejável. Lideranças atrás das grades e um movimento frustrado, que não conseguiu acrescentar nada ao soldo/salário de cada um. A greve dos policiais/bombeiros fracassou e deixou pelo menos duas lições. A primeira reafirma que, para ter sucesso, a greve primeiro tem que vencer a guerra de percepções. A outra deixa claro que os problemas na área de segurança são bem maiores do que a simples reposição salarial, exigem, na verdade, reposição da política nacional de segurança. Que país é esse que, no lugar de uma polícia única e eficiente, tem em cada estado duas polícias em conflito entre si? Que país é esse onde parte da polícia é militar? Investir em uma polícia única em cada estado, que seja civil, que seja eficiente e que esteja a serviço da população – é por esse objetivo que nossos políticos devem lutar. A boa remuneração dos policiais é praticamente consequência natural.
Quanto aos grevistas, é bom aprender de uma vez por todas que esse estilo “miguelito” que só faz agredir a população é sempre uma furada.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Eleições 2012: São Paulo vai virar Brasil de Lula e Dilma



Como até Gilmar Mendes diria, até as pedras sabem que São Paulo quer mudar. Garanto que tem pesquisa de intenção de voto para Prefeito da Capital que já captou isso, mas o que se viu até agora foram velhos nomes liderarem a preferência popular. Aliás, isso é natural. Nesse momento de candidaturas ainda não divulgadas amplamente, é mais do que lógico que se responda o primeiro nome que vem à cabeça. Daí políticos tradicionais como Russomano, Serra e Netinho aparecerem na liderança. Mas são nomes que também devem liderar os índices de rejeição até o final – principalmente Serra. E o apoio de Alckmin e Kassab só faz piorar as coisas.
O que está acontecendo, afinal? O povo paulistano está vendo no Brasil que está à sua volta um mundo inteiramente novo e bem melhor, no qual ele não está inteiramente inserido. O paulistano quer renovação, quer viver 100% o Brasil de Lula e Dilma. Por isso tenho certeza que quando Haddad (que deve estar em quarto lugar nas intenções de voto, logo atrás dos velhos conhecidos) é associado a Lula e Dilma, ele pula para a liderança, com uns 40% a 50% das intenções. Os nomes de Andrea Matarazzo e Afif Domingos, associados a Serra e Alckmin (o primeiro) e a Kassab (o segundo), juntos, não devem nem mesmo chegar a 30%.
A opção do PT por Haddad atende perfeitamente os anseios da população. A mudança é inexorável, e Lula percebeu isso de longe. Hoje, quem se informa bem também sabe disso.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Alô, mídia, vê se não atrapalha com essa história da Yoani Sánchez!

Não sei do que a nossa grande imprensa gosta mais, se é de bater em Lula e Dilma ou de bater em Cuba. Por isso gostei de ver esse artigo publicado hoje, na Folha, de Julia Sweig. Ela nasceu em Chicago e é uma estudiosa de América Latina. É diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations. É autora de "Inside the Cuban Revolution" e "Cuba: What Everyone Needs to Know". É PhD da Universidade Johns Hopkins University (Escola de Estudos Internacionais Avançados), entre outras coisas.

Na ilha, não é o blog de Yoani Sánchez que merece atenção
Julia Sweig

Uma confissão: a viagem da presidente Dilma a Cuba me faz sentir "inveja de política externa". Como historiadora e analista política que vem viajando à ilha e escrevendo sobre ela há 25 anos, já teci fantasias sobre ter a oportunidade de assistir a meu próprio presidente fazer uma viagem dessas.
Mas, nos EUA, a ideia de que eleitores e financiadores de campanhas cubano-americanos puniriam um presidente que fosse longe demais nos leva a ignorar as transformações monumentais, embora lentamente implementadas, advindas sob Raúl. Perda nossa, ganho do Brasil.
Quando primeiro decidi escrever uma coluna sobre a viagem de Dilma a Cuba, imaginei que eu falaria sobre o teor das reformas econômicas, sociais e políticas -empresas privadas, acúmulo de capital e produtividade agora são coisas patrióticas, e não contrarrevolucionárias- abrangidas no eufemismo governamental sobre "atualização do socialismo cubano".
Mas, quando uma jornalista de uma séria agência de notícias internacional me telefonou para falar sobre a visita, ela me surpreendeu ao apresentá-la, como a imprensa brasileira vem fazendo, como um teste da política de direitos humanos de Dilma.
Após um ano na Presidência, Dilma vem lentamente, e com alguns desvios incômodos, assinalando a intenção de fazer dos direitos humanos uma parte de sua agenda nacional e internacional.
Em Cuba, porém, não são o blog de Yoani Sánchez nem a comparação autoelogiosa e historicamente falsa que ela traçou com Dilma na juventude que merecem atenção ou são medidas de avanço dos direitos humanos.
Os tuítes dela não se comparam às críticas aguçadas e profundamente focadas ao governo que podem ser encontradas, por exemplo, em nada menos que o site da Arquidiocese de Havana, www.espaciolaical.org.
Ali, uma gama inusitada e ideologicamente diversificada de vozes critica o governo, a burocracia e o Partido Comunista por sua opressão desumanizadora dos cidadãos cubanos. As críticas não medem palavras, mas sua intenção é serem construtivas, e não histriônicas -escritas no espírito de uma oposição leal, nacionalista.
A Igreja Católica não é a única outra voz ativa no país, mas sua voz, e a de numerosos outros acadêmicos, figuras culturais e jornalistas, torna obrigatório perguntar "o que significa a dissidência na Cuba de Raúl? E qual seria a melhor maneira de potências externas apoiarem o movimento em Cuba em direção a uma sociedade e economia abertas?".
O "diálogo político" que o ministro Patriota e a presidente Dilma pretendem realizar com Cuba, além da geração de empregos (o porto de Mariel) e os primeiros passos em direção ao aumento do comércio e dos investimentos, tem muito mais chances de reforçar transformações positivas do que se poderia conseguir brincando de favorito com este ou aquele "dissidente".
Nos EUA já tivemos mais de um século de experiência tentando e não conseguindo identificar vencedores na política interna cubana.
Se não posso ter meu presidente em Havana, permita-me a liberdade de oferecer uma sugestão não solicitada a Dilma: falar com Raúl sobre opções para a imprensa brasileira abrir sucursais em Havana em tempo para a viagem do papa Bento 16, em março.
A cobertura das transformações na ilha e das vozes que fazem parte dela só poderá ajudar a vocês e seu público, no momento em que o Brasil se abre para Cuba e Cuba se abre para o Brasil. E talvez também ajudar Washington a ver Cuba além de sua política doméstica.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Republicanos: prévias imprevisíveis


Os Republicanos estão mais perdidos do que mórmon monogâmico. Pensavam que o seu pré-candidato à presidência em 2012, Mitt Romney, ia dar um passeio na primária (caucus) de Iowa – mas foi Rick Santorum, correndo por fora, em uma campanha baseada no tostão contra o milhão, quem venceu. E ainda foi pior: durante dias, Romney teve que conviver com a humilhação de ter vencido por apenas 8 votos, mas, com a recontagem, a humilhação foi maior – ele perdeu por 34 (ou algo assim). Vieram as primárias de New Hampshire, terreno de Mitt Romney, e ele fez o feijão com arroz, vencendo dentro do esperado. No terceiro estado, South Carolina, tudo levava a crer que, apesar de pesquisas inconclusivas apontando vitória de Gingrich, Romney faria barba, cabelo e bigode, e sairia consagrado como candidato oficial do Partido Republicano. Venceu Gingrich. Agora começam as primárias da Flórida, com muito mais eleitores, e mais uma vez Romney aparece como provável vitorioso. Será? Qual dos três chegará à segunda vitória: o conservador católico (Santorum), o conservador protestante (Gingrich) ou o liberal (!) mórmon (Romney)? Talvez não tenha a menor importância. Seja quem for o vitorioso, ele já começa derrotado. O imbróglio Republicano é tão grande que dificilmente terá capacidade de motivar o seu eleitorado. Enquanto isso, Obama posa de Mickey, canta soul, ameaça os aiatolás e reduz o desemprego. Não dá pra saber que vencerá as prévias Republicanas, mas o resultado final, em novembro, está cada vez mais previsível.

A preocupação das potências ocidentais não é mais com a esquerda, é com o capitalismo de estado

(clique nas imagens para ampliar)

O liberalismo econômico, como conhecíamos, vive seus estertores. E podemos dizer que a concordata do Lehmann Brothers, em setembro de 2008, equivale, para os liberais, ao que significou a queda do muro de Berlim para as esquerdas. No mínimo, os dois acontecimentos estão intimamente ligados. Com a Queda do Muro (1989), o liberalismo, que tinha ganhado fôlego com Reagan e Thatcher, radicalizou. O laissez-faire tornou-se o Pai nosso de cada dia. A dissolução da União Soviética passou a ser a garantia de que a política de descontrole total é que estava certa e que representava a evolução da humanidade. Mas os “Ninjas” (No Income, No Job, no Assets – crédito concedido a tomadores que não podiam comprovar renda, nem emprego, nem a propriedade de ativos) deram um golpe mortal nessa pretensão. De 2008 para cá testemunhamos, meio incrédulos, as potências ocidentais em desespero, quase rastejando, tentando entregar os dedos para salvar os anéis. Enquanto isso, os chamados países emergentes, para quem todos torciam o nariz, tornam-se protagonistas da nova economia mundial. “The era of free-market triumphalism has come to a juddering halt, and the crisis that destroyed Lehman Brothers in 2008 is now engulfing much of the rich world”, diz The Economist em sua matéria de capa da semana passada. Pior: o Fraser Institute, canadense, que tem medido a “liberdade econômica” (!!!) nos últimos quarenta anos e que tinha visto o seu índice subir implacavelmente de 5,5 (de 0 a 10) em 1980 para 6,7 em 2007, a partir de 2008 viu tudo andar pra trás. Pior ainda: ganhou força entre os “emergentes” o capitalismo de estado, que funde os poderes do estado com os poderes do capitalismo.
The crisis of liberal capitalism has been rendered more serious by the rise of a potent alternative: state capitalism, which tries to meld the powers of the state with the powers of capitalism. It depends on government to pick winners and promote economic growth. But it also uses capitalist tools such as listing state-owned companies on the stockmarket and embracing globalisation. Elements of state capitalism have been seen in the past, for example in the rise of Japan in the 1950s and even of Germany in the 1870s, but never before has it operated on such a scale and with such sophisticated tools.
O capitalismo de estado, argumentam, representa um esforço significativo sobre seus predecessores em vários aspectos: está se desenvolvendo em escala maior, mais rapidamente e com instrumentos mais sofisticados.
Obviamente, a reportagem procura lançar senões sobre os novos rumos do mundo fora das garras das potências ocidentais. Levanta dúvidas sobre a capacidade de renovação e de correção de erros, e alerta que o “capitalismo de estado é atormentado pelo nepotismo e pela corrupção” – como se nada disso acontecesse no chamado “primeiro mundo”. Mas a reportagem lembra que a ascensão do capitalismo de estado está derrubando algumas “verdades” sobre os efeitos da globalização. Por exemplo, Kenichi Ohmae tinha dito que a nação-estado tinha acabado. Thomas Friedman argumentava que os governos teriam que usar a camisa de força dourada de disciplina do mercado. Naomi Klein apontava que as maiores companhias são maiores do que muitos países. E Francis Fukuyama declarou que a história tinha acabado com o triunfo do capitalismo democrático. O fato é que a “fórmula” do liberalismo econômico fracassou completamente e seus defensores têm motivos de sobra para se preocuparem com esse mundo que avança livre de sua tutela. Acima de tudo porque, olhando para a crise americana, para o caos europeu e para as trapalhadas do grande capital financeiro, podemos dizer que as esquerdas sempre estiveram mais perto de uma proposta de mundo melhor, onde o estado pode de fato ser o protagonista na condução harmonizada de políticas econômicas e sociais. Evidentemente, estamos longe de viver o melhor dos mundos. Mas já é um alívio saber que nos distanciamos da truculência do liberalismo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Financiamento de campanha nos Estados Unidos é o melhor incentivo para adotarmos o financiamento público de campanha


O Globo de hoje traz uma excelente reportagem sobre financiamentos privados de campanha. A correspondente Fernanda Godoy escreve (“O nonsense do financiamento eleitoral nos EUA”) sobre os Super PAC (Comitês de Ações Política), “os maiores financiadores da campanha deste ano, com estimativas bilionárias”. Segundo a reportagem, os Super PACs estão viabilizando “anúncios com pouco controle e muita negatividade”. Os Super PACs “não têm limites para receber doações, ao contrário do que ocorre com candidatos e partidos, que só podem aceitar contribuições individuais de até US$ 2.500.”
Para Hedrick Smith, ex-chefe da sucursal do “New York Times” em Washington, autor do clássico “Powergame: how Washington works” (O jogo do poder: como Washington funciona), vencedor do prêmio Pulitzer, “o dinheiro dos PACs tem um efeito enorme na campanha e nas políticas públicas”. Diz ele:
— Esses doadores usam dinheiro para comprar acesso ao Congresso e à Casa Branca. Eles não compram votos porque seria crime, mas exercem uma influência tremenda. E agora os Super PACs multiplicam esse efeito.
“Power game” relata a criação dos PACs nos anos 70, como um veículo para canalizar doações de sindicatos, e a expansão de sua influência nos anos 80.
— A partir do momento em que a FEC (Comissão para Eleições Federais) autorizou as doações de corporações, os portões foram arrombados. Nas eleições de 2010 (para o Congresso) as doações de corporações para o Partido Republicano foram de US$ 1 bilhão; as dos sindicatos para o Partido Democrata somaram US$ 10 milhões - disse.
O Center for Responsive Politics também denuncia “a falta de transparência dos Super PACs, que só emitirão o primeiro relatório das doações recebidas no dia 31 de janeiro, quando as primárias já poderão estar decididas”.
Aqui no Brasil, o financiamento público através do Horário Eleitoral Gratuito é muito bom, mas é insuficiente. É preciso que o financiamento público seja total, sem um único centavo de financiamento privado. Evita manipulções e sai bem mais barato para os cofres públicos. Acrescente-se a isso o voto unicamente em partidos, onde ficará mais fácil a identificação do eleitor com a proposta política que melhor vai representá-lo. Isso seria uma verdadeira aula de democracia à chamada “maior democracia”.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Romney perdeu feio em Iowa


Mitt, o mórmon pré-candidato do Partido Republicano, precisava vencer muito bem na primária de Iowa, ontem, porque sairia praticamente indicado depois da vitória que promete ser retumbante na próxima terça, em New Hampshire. Ganhou apenas por 8 votos (99,5% da apuração) do segundo colocado, Rick Santorum, que disparou na reta final. Resultado dos três primeiros: Romney 30.015, Santorum 30.007 e Paul 26.219. Romney venceu em apenas 16 dos 99 municípios, contra 65 de Santorum, 16 de Paul e 2 de Perry (Santorum e Ron empataram em primeiro em um deles). Santorum, que venceu na capital, gastou apenas 3% do total gasto em TV, enquanto Romney gastou 28%, Paul 16% e Perry 47%! Dificilmente Romney conservará os delegados que ganhou ontem (são 28 no total, e nenhum é obrigado a seguir a orientação das urnas) na convenção estadual de 10 de março. Rick Santorum é o Republicano do momento.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Iowa: Republicanos à beira de um ataque de nervos

(clique para ampliar quadro de pesquisas do Real Clear Politics)

Hoje os Republicanos fazem sua primeira eleição primária para saber quem vai ser derrotado por Obama em novembro. As pesquisas mostram um empate técnico entre Mitt Romney, o ex-governador de Massachussets que é mórmon, e Ron Paul, o coroa (76 anos) que é representante do Texas no Congresso. Correndo por fora vem Rick Santorum, o ex-senador pela Filadélfia (derrotado na última eleição) que virou comentarista da Fox News. Mitt Romney parece ter leve vantagem entre os eleitores Republicanos de Iowa, mas o sistema de dois turnos dos caucuses e a grande vantagem que ele tem na primária de New Hampshire, na próxima terça, pode prejudicá-lo (mesmo considerando que no momento é ele que teria mais chances de derrotar Obama). Se Mitt Romney vencer as duas seguidas pode se tornar imbatível. Por isso, os eleitores dos candidatos que ficarem fora do segundo turno podem investir em Ron Paul. Isso é só o começo do calvário dos Republicanos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vergonha! Preparem-se para 2014: Espanha 4x0 Brasil...

 Ontem vimos o retrato do futebol brasileiro: triste, sem imaginação, decadente. Aliás, confesso que nem vi direito o jogo de ontem – estava assistindo a apresentação de balé de minha filha, só vi trechos através do meu smartphone. Mas não perdi nada, porque é o futebol que praticamos todo dia, sob a batuta dos mano menezes da vida. Se ontem foi vergonhoso, imaginem na Copa de 2014: dificilmente estaremos na final... Nosso destino é ser musse do messi.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O desarranjo europeu


O ideograma chinês para se referir a Europa (ōu, em pinyin) significa “desarranjo”.  Talvez, infelizmente, seja exatamente isso o que melhor retrata a Europa que estamos vivendo. Talvez, não. Talvez “desarranjo” seja o que melhor retrata a Europa desde sempre, com suas guerras, seus desequilíbrios permanentes. Mas uma coisa é certa, o sonho da União Europeia é de um arranjo equilibrado, harmônico, bem diferente do que se vê. Talvez fosse apenas mais uma utopia (no grego – epa! – um “não-lugar”) tipicamente europeia. Os idealizadores da União Europeia talvez tenham sido apenas isso, idealistas. Não perceberam que na selva neoliberal “união” não faz parte do vocabulário – é cada um por si, Deus contra todos, como disse brilhantemente nosso “herói sem caráter”, repetido por Werner Herzog como título de filme (“Jeder für sich und Gott gegen alle”, apresentado no Brasil como "O Enigma de Kasper Hauser"). Percebemos, hoje, que na verdade a União Europeia nasceu para aprofundar a desigualdade e, consequentemente, para ser mais desunida. Como bem observou Francesco Saraceno, economista do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas, em entrevista a Deborah Berlinck publicada hoje no Globo (Com desequilíbrio externo, Europa ‘caminha na direção da depressão’), fizeram uma “Europa baseada na ideia de que o crescimento virá de fora. O que tentam fazer hoje é conter a demanda doméstica e a política macroeconômica, esperando que o crescimento venha das exportações. É o modelo alemão, o que é uma loucura”. Uma loucura principalmente porque tentaram empurrar um modelo padrão sem compensações em realidades tão diversas. Como é que a Grécia pode pôr seus produtos no mercado externo com uma economia frágil e uma moeda (euro) supervalorizada? Não dá, não deu. Nem mesmo a Alemanha está conseguindo se dar bem, com endividamento de 81,7% do PIB, bem acima dos 60% estabelecidos para a zona do euro. Depois desse massacre à economia europeia (ou às economias europeias...), o próximo alvo, natural, é a democracia, com forte ameaça de ressurgimento de governos autoritários. Sinceramente, a Europa não merece passar por mais uma dessas. Não existe desarranjo maior do que virar terra de gregos e germanos.

Abaixo, entrevista de Francesco Saraceno, texto distribuído pela Agência O Globo.
É melhor uma Europa menor e mais integrada
Francesco Saraceno
O economista Francesco Sarace­­no, do Observatório Francês de Con­­junturas Econômicas (OFCE), es­­tá inquieto: para ele, a nova União Europeia (UE) que está emergindo sob as rédeas da Ale­­manha vai caminhar para o buraco, se seguir o modelo rigoroso e ex­­por­­tador da chanceler Angela Merkel.
Mas a decisão de 26 países de avançar na integração, deixando de fora o Reino Unido, que se recusa a seguir, diz ele, vai salvar o euro. Melhor uma Europa integrada menor, do que uma grande ineficaz, argumenta.
O Globo: A cúpula de Bruxelas decidiu por uma UE em duas velocidades: um grupo avança com a reforma do euro, outro fica de fora. Não é isso que deveria ser evitado?
Francesco Sarace­­no: Esta é praticamente a única boa notícia. Houve um reconhecimento de que não é possível avançar com toda a UE. E ficou clara a vontade dos que querem avançar. A cúpula não poderia acabar sem uma decisão. Precisamos de uma Europa mais integrada. Se isso só vai acontecer com uma parte dos 27 países mem­­bros da UE, que seja. É arriscado, há algumas armadilhas, mas no longo prazo é melhor uma zona do euro menor, integrada e que coopera, do que uma maior que funciona mal.
O Globo: Um novo tratado com 26 países não será difícil de negociar?
Francesco Sarace­­no:Tentar um novo tratado com 27 países, alguns deles resistindo, nunca vai funcionar. Precisamos deixar claro que a Europa vai avançar com quem quiser realmente. Um novo tratado não deverá ser problema, porque a decisão foi bastante consensual. E não será problema especialmente se os europeus convencerem os mercados e outros atores de que o que estão fazendo faz sentido. Se você me perguntar: a direção que estão tomando é boa? Não. Acho que estão na direção errada. Falar sobre isso é como abrir uma caixa de Pandora [segundo a mitologia grega, ela libera todos os males do mundo, quando aberta]. O importante é que, metodologicamente, comecemos a pensar em fazer algo sério com os querem fazer parte. E os que não querem… Não significa que a UE não vai trabalhar com eles ou que a UE não funcionará.
O Globo: O Reino Unido está se distanciando da UE. O que pode acontecer com o país?
Francesco Sarace­­no: Não sei. Não estou nem certo de que isso é duradouro. Não sei como os britânicos vão conseguir resolver, até mesmo diante da opinião pú­­blica deles, o fato de que são os únicos que não querem avançar na integração. Quantos meses ou anos o Reino Unido vai conseguir se isolar? Em 1960, o país optou por ficar fora da UE. Só queria ter acordo de livre comércio com Áus­­tria, Suíça, Noruega etc. Isso durou menos de um ano. A força da atração da UE foi tão grande que o Rei­­no Unido rapidamente voltou [pa­­ra a Comunidade Europeia, como era chamada a UE na época]. Se con­­­­seguirmos construir um bloco integrado e bem-sucedido, a médio prazo isso atrairá quem estiver fora.
O Globo: O Reino Unido resistiria estando fora da UE?
Francesco Sarace­­no: Não poderia ficar fora de uma UE que funciona. Se ela fun­­cionar, aposto que em cinco, seis ou sete anos, os britânicos voltam.
O Globo: Que UE está surgindo?
Francesco Sarace­­no: A Alemanha conseguiu quase tudo o que queria: um euro baseado em austeridade fiscal, que nega qualquer papel para política macroeconômica, e acha que é virtude ter superávit na conta corrente. É uma Europa baseada na ideia de que o crescimento virá de fora. O que tentam fazer hoje é conter a demanda doméstica e a política macroeconômica, esperando que o crescimento venha das exportações. É o modelo alemão, o que é uma loucura.
O Globo: Por quê?
Francesco Sarace­­no: É uma loucura porque se todo mundo fizer isso, vamos ter de fazer comércio com o planeta Marte. Não se pode ter um mundo em que todos só exportam. Até os chineses entenderam isso. A China tem passado os últimos dez anos tentando reequilibrar o seu modelo de crescimento na direção da demanda interna.
O Globo: A Alemanha no comando da UE então é ruim?
Francesco Sarace­­no: Não necessariamente. Na His­­tória, há sempre um país dominante liderando o caminho. Logo no início, foi a França, com Jean Monnet, depois a França, com François Mitter­­rand, de­­pois França com a Alemanha de Helmut Kohl [ex-chanceler do período da reunificação alemã]. Está claro que é preciso li­­derança. Mas a Alemanha está liderando a UE na direção errada e impondo uma visão que não vai mudar. Acham que fizeram tudo certo, então, defendem que todo mundo tem que agir como eles. Isso é um erro, porque os problemas da Europa são de desequilíbrio externo: alguns países exportando muito e outros importando muito. Os países do sul precisam gastar menos e arrumar a casa. Mas, ao mesmo tempo, os que gastam pouco precisam gastar mais. Se o Sul para de gastar e o Norte também não gasta, o resultado será depressão. E estamos indo nessa direção.
O Globo: O senhor não está otimista quanto ao futuro do euro?
Francesco Sarace­­no: É uma questão difícil. Acho que o custo do fim da zona do euro seria tão alto que o euro não vai acabar. Nesse sentido, não estou pessimista: não sou o profeta do pior. Acho que vão fazer o que for necessário. Minha preocupação é o modelo que estão escolhendo, que é frágil. O maior risco não é a implosão do euro: é uma década perdida para a economia europeia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sarah Palin será a adversária de Obama?


Sarah Palin, aquela figura estranha que foi Governadora do Alaska e concorreu à vice-presidência na última eleição americana, ainda pode ser a escolhida do Partido Republicano para enfrentar Obama em 2012. Quem avisa é Rhodes Cook, colunista sênior do Sabato’s Crystal Ball, em artigo de hoje (texto completo clicando aqui). Segundo ele, a chance de Sarah Palin aumenta em função do calendário das primárias republicanas que, dessa vez, concentra maior número de eleições mais para o final. Se os principais nomes republicanos não desencantarem logo de início, darão chance aos ultraconservadores para lançar um nome como o de Sarah Palin. Vejam o texto (parcial):
Corrida republicana 2012: o cenário talvez não esteja definido 
Rhodes Cook
A sabedoria convencional diz que o cenário republicano na corrida à presidência está definido, e que é tarde demais para um novo candidato entrar na corrida.
Nos últimos anos, isso seria absolutamente correto. Ao longo das últimas décadas, dezenas de primárias e caucuses foram encaixadas na semana de abertura do ano eleitoral, com a tendência, no campo republicano, de seu candidato líder realizar nocaute rápido.
Mas, no próximo ano, o arranjo do calendário das primárias é muito diferente. É menos condensado no início, muito mais carregado de eleições na parte final, com a perspectiva bem real de um candidato de última hora tornar-se uma alternativa viável.
Não quer dizer que isso vá acontecer, mas é uma possibilidade. Tal cenário não poderia acontecer em 2008, quando as eleições de janeiro foram seguidas de perto pelas votações de uma Super Terça-Feira de Fevereiro que envolveu quase metade do país.
Mas o perfil alongado do calendário de votações de 2012 cria a oportunidade para um candidato de última hora. Se Mitt Romney se der mal nas primárias de janeiro em Iowa, New Hampshire, Carolina do Sul e Flórida, outro republicano talvez possa entrar na corrida no início de fevereiro e ainda competir diretamente em estados com pelo menos 1.200 dos 2.282 delegados do Partido Republicano. Muitos deles estarão na disputa após 1º de abril, com as primárias do tipo “leva-tudo” de alguns estados.
Da mesma forma, se as alternativas Newt Gingrich, Michele Bachmann e Rick Perry caírem por terra em janeiro, haverá tempo para a ala conservadora do partido encontrar um novo líder para levar a sua bandeira pela maior parte das primárias.
Em alguns aspectos, o perfil do calendário das primárias de 2012 assemelha-se ao de 1976, começando no auge do inverno com as eleições de Iowa e New Hampshire e crescendo com a da Califórnia no início de junho. Naquele ano, o presidente Gerald Ford e o ex-governador da Califórnia Ronald Reagan lutaram delegado por delegado até Ford prevalecer na convenção do verão em Kansas City. Foi a primária republicana mais acirrada e mais longa dos últimos 40 anos.
No lado democrata, esse arranjo de final de calendário estimulou duas pré-candidaturas no final de 1976, a do governador Jerry Brown, da Califórnia, e a do senador Frank Church, de Idaho. Cada um venceu várias primárias de primavera. Mas eles montaram suas campanhas muito tarde para compensar os delegados conquistados pelo ex-governador da Geórgia, Jimmy Carter, em sua campanha longa.
Oito anos antes, o senador Robert Kennedy, de Nova York, teve muito mais sucesso em sua estratégia de campanha curta. Ele entrou na corrida democrata após a primária de New Hampshire e começou a colecionar vitórias importantes, culminando com um triunfo “leva-tudo” na Califórnia no início de junho. Se ele não tivesse sido baleado na noite de sua vitória na Califórnia, Kennedy poderia ter tomado do vice-presidente Hubert Humphrey a indicação para a candidatura. A campanha inacabada de Kennedy é um dos mais intrigantes "e se fosse diferente?" da história americana.

Henfil continua



Sempre admirei o Henfil. E admiro também a batalha do Ivan para manter o trabalho do pai mais vivo do que nunca. Recebi esse e-mail do Ivan:
Amanhã (hoje, dia 8), vai ter aqui no Rio a entrega do 3º troféu Henfil, da Associação dos Voluntários do HemoRio.
No meio de 2009, eu adaptei este desenho da Graúna, que tinha sido feito pelo meu pai na dedicatória de um livro, e desenhei o fundo de uma bolsa de sangue, oferendo para a campanha do HemoRio. Entrei em contato com as pessoas que eu conheço na Globo, e consegui fazer veicular uma animação na programação, e sair também no O Globo (meia página), umas 4 ou 5 vezes.
A Associação já dava este prêmio aos voluntários (pessoas físicas, gráficas, imprensa, agências, empresas) que ajudavam de alguma maneira, mas ele nunca teve nome, e neste ano (2009), resolveram batizá-lo de "Troféu Henfil" e usar a imagem para confeccionar o troféu. Fico contente por minha iniciativa ter rendido frutos.
Quem puder, apareça por lá e divulgue este prêmio, que incentiva a imprescindivel participação de voluntários nas atividades do HemoRio.
Abraços
Ivan

Instituto Henfil
Ivan Cosenza de Souza
21-2229 4850
21-9872 3269

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Classificação real do Brasileirão


Não gosto de discutir futebol, porque é tudo baseado em muita paixão, onde ninguém tem razão. Por isso resolvi criar um Código Secreto de Objetividade (CSO) para definir os dez melhores (de fato) times desse Brasileirão:   
  1. Santos (Neymar e Ganso fazem a diferença)
  2. Vasco (Ricardo Gomes/Cristóvão, Juninho Pernambucano, Felipe, Dedé, Diego Souza, etc. fizeram um novo Vasco)
  3. (nenhum mereceu ser o terceiro melhor)  
  4. Flamengo, Fluminense, Internacional (saíram-se muito bem; destaque para Ronaldinho, Felipe, Fred e Dorival Júnior)
  5. ...   
  6. ...   
  7. Figueirense (emocionante)
  8. Coritiba (bela surpresa)
  9. São Paulo (grande decepção)
  10. Corinthians, Palmeiras (empataram na ruindade)
Obs.: bem que eu gostaria que o Botafogo estivesse entre os 10, mas o rigor do CSO não permitiu - que pena...
E não se discute!

domingo, 4 de dezembro de 2011

"A Europa está entregue aos especuladores. É preciso romper com os neoliberais", declarou Mário Soares


Entrevista publicada no Globo do ex-presidente português.

RIO - Mário Soares respirou política e socialismo a maior parte de seus 86 anos. Referência na esquerda portuguesa e europeia, ele abre o verbo diante do terremoto econômico e político que ameaça seu país e o continente, ao defender a democracia do assédio dos mercados. De sua boca saem palavras como "vergonha", "roubalheira", "criminosos" quando se refere aos especuladores e às agências de classificação de risco e à forma como vêm se impondo sobre os governantes europeus. Ex-premier, ex-presidente e europeísta, Soares acaba de lançar em Portugal a autobiografia "Um político assume-se". Na véspera da segunda greve geral no país este ano, há dez dias, ele encabeçou, com outros políticos e intelectuais, o manifesto "Mudança de rumo", atacando o neoliberalismo e incentivando os portugueses a saírem às ruas para protestar contra as medidas de austeridade: "Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina", diz ele, por telefone, da fundação que leva seu nome, em Lisboa.

Sandra Cohen: O senhor declarou que se a Europa não mudar, haverá uma revolução. O que é preciso mudar diante de tão grave cenário econômico?
MÁRIO SOARES: É mudar o modelo econômico, acabar com essas aventuras do neoliberalismo, com essas roubalheiras, com a economia virtual, com as agências de risco, que estão a descontrolar completamente a vida não só da Europa, mas do mundo inteiro. É preciso uma mudança de paradigma, uma ruptura. O que é extraordinário é que os dirigentes políticos atuais, aqueles que mandam ou que julgam que mandam, como é o caso da senhora Merkel e do senhor Sarkozy, não mandam. Quem efetivamente manda hoje são os mercados, não são os Estados. Os mercados e as agências de classificação de risco começam a dizer coisas, e as finanças mudam completamente às custas deles. Os Estados só obedecem. É absurdo que sejam os mercados a mandar. Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina.  
Sandra Cohen: Houve então uma distorção dos princípios da União Europeia?
SOARES: Houve uma total distorção e não só na União Europeia como em toda parte. Mesmo na ONU. Quando aparece uma série de organizações, como G-7, G-8 e o G qualquer coisa, são criações para acabar e destruir com a ONU e que paralisam os fenômenos. Veja, por exemplo, os Objetivos do Milênio, que foram assinados por cerca de cem chefes de Estado. Eram as melhores metas e não se fez nada até agora. Está tudo assim, descontrolado. E não é só na Europa e por causa do euro. Tudo está em causa. Li um artigo de uma autoridade do Reino Unido já cogitando o futuro depois do euro. Por que a libra esterlina não acaba? Porque há emissões sobre emissões, assim como se faz com o dólar nos EUA. Se o Banco Central Europeu fabricasse moeda, esses problemas desapareceriam. Mas tudo está entregue aos especuladores, que só se interessam em ganhar dinheiro e fazer fortuna.
Sandra Cohen: O senhor estava à frente de Portugal quando o país aderiu à União Europeia...
SOARES: Aderimos no mesmo dia que a Espanha, após oito anos de negociações difíceis. Foi um acontecimento imenso para a Península Ibérica e para a América Latina. Depois da nossa Revolução dos Cravos e da redemocratização da Espanha, após a morte de Franco, houve uma série de rupturas e mudanças em diversos países. Mas veio a queda da ideologia comunista e os americanos se acharam donos do mundo e lançaram o neoliberalismo, do qual estão sendo vítimas, como nós, europeus. Queremos agora outra revolução, uma ruptura com o neoliberalismo. Começaremos vida nova, com novo projeto de desenvolvimento.
Sandra Cohen: Qual a responsabilidade dos socialistas nessa crise?
SOARES: As duas famílias ideológicas que fundaram a UE foram, de um lado, os socialistas ou social-democratas, que são a mesma coisa exceto em Portugal. E de outro, as democracias cristãs. Foram essas famílias que fizeram esse projeto europeu, que era um farol e um exemplo no mundo inteiro. Foi o projeto mais importante que se fez no mundo, um projeto de paz, de justiça social e bem-estar para as populações, respeito pelos direitos humanos e pelas democracias. Isso nos deu um grande desenvolvimento. O mundo olhava para a União Europeia como um projeto extraordinário. Não é por acaso que povos que se debateram em duas guerras cruentas no século XX tenham vivenciado mais de 50 anos em paz. É isso tudo que está em causa hoje com essas mudanças econômicas e com esses especuladores, que são verdadeiros criminosos.
Sandra Cohen: Mas em que os socialistas erraram?
SOARES: Houve um socialista inglês chamado Tony Blair, que nunca foi socialista, que enganou as pessoas, mas não a mim. Ele tentou colonizar o Partido Socialista em função do que chamou de Terceira Via, que era uma ligação ao neoliberalismo. E muitos socialistas europeus prevaricaram com seus partidos, que entraram em crise e em decadência. E, por outro lado, houve quem colonizasse as democracias cristãs como partidos populares, que são outra coisa.
Sandra Cohen: Como o senhor vê os governos que são liderados por tecnocratas, como Grécia e Itália?
SOARES: Da pior maneira, isso ofende a democracia, onde tudo deve ser decidido pelo voto. Não faz o menor sentido.
Sandra Cohen: O que o senhor acha do governo do primeiro-ministro português, o social-democrata Pedro Passos Coelho?
SOARES: Ele é um homem sério, decente e um patriota. Mas é um neoliberal. Não é da minha família política. Não é com austeridade que se resolvem problemas como os que temos em Portugal. Temos que ter uma certa austeridade, mas não que arrase o crescimento econômico e faça subir o desemprego como está ocorrendo. Senão, daqui a um ano, teremos imposto muitos sacrifícios aos portugueses e estaremos ainda pior.
Sandra Cohen: Na semana passada, o senhor liderou um manifesto criticando as medidas de austeridade em Portugal...
SOARES: Não fui contra. Num momento em que Portugal estava numa situação muito difícil e sem liquidez, fui partidário de pedir dinheiro à Europa. Mas não é justo que senhores que vêm da troika (comitê formado por FMI, do BCE e Comissão Europeia) possam governar Portugal porque temos pouco dinheiro ou estamos em dificuldade.
Sandra Cohen: O senhor cogitou criar um novo movimento paralelo ao Partido Socialista, como foi especulado?
SOARES: Não, de jeito nenhum, é pura especulação. Fui um dos fundadores do PS, fui socialista durante toda a minha vida política ativa e nunca deixarei de ser. Nunca pensei em criar um movimento próprio.

O futebol ficou mais fraco: morreu o Doutor...



Obrigado, Sócrates, por tudo que fez. Não precisava ter tomado tanta "cicuta"...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Bonner & Fati

O Meia Hora, do Rio, ganhou destaque no hall da fama dos grandes mancheteiros com essa manchete:

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Manuel Castells, o euro e a democracia na Europa


“A quem serve o euro?”, pergunta o sociólogo Manuel Castells, dando destaque à verdadeira questão europeia do momento. É a resposta a essa pergunta que define os rumos das velhas democracias do Velho Mundo. Como temos dito neste Blog, a defesa do euro, nesse cenário de crise, serve unicamente aos bancos e governos franceses e alemães. São eles que estão decidindo pela mídia e pela política da UE. E já demonstraram claramente o desprezo pela democracia, quando ameaçaram a Grécia de Papandréou por convocar um referendo legítimo para decidir sobre a economia. Também demonstram esse desprezo ao influenciar no enfraquecimento de líderes e na eleição de novas lideranças neoliberais sintonizadas com seu poder. Não há salvação para o povo europeu enquanto se der prioridade à salvação do euro – basicamente é o que conclui Castells em seu artigo (publicado dia 12 no La Vanguardia e que, para minha surpresa, Cesar Maia traduz trecho no seu Ex-Blog de hoje).
A seguinte, o trecho traduzido por Cesar Maia e em seguida o artigo completo em espanhol.
MANUEL CASTELLS: "NÃO SE TRATA DE SALVAR O POVO, MAS DE SALVAR O EURO"!           
(La Vanguardia, 20)  1. O problema não é a complexidade da crise, mas a democracia. O que os políticos mais temem nesses momentos é que os substituamos, que roubemos deles esse poder delegado que mantêm, por um mecanismo controlado de eleições entre opções enquadradas nos limites do sistema, e legitimadas pela mídia.
2. Na realidade, não se trata de salvar o povo, mas de salvar o euro, como se fossem a mesma coisa. Por que tanto interesse? E de quem? Porque dez dos 27 membros da União Europeia vivem sem o euro e algumas de suas economias (Reino Unido, Suécia, Polônia) são muito mais sólidas que a média da União Europeia? Defender o euro até o último grego é a primeira linha de defesa para uma moeda que está condenada porque expressa economias divergentes e que não têm um estado que a respalde. Com Portugal e Irlanda na UTI, a Espanha na corda bamba, e uma Itália em permanente crise política e endividada até o pescoço de seu ex-líder, a defesa franco-germânica do euro tem outras explicações.
3. A primeira razão é obvia: salvar os bancos, principalmente os alemães e franceses, que emprestaram sem garantias para a Grécia e aos demais PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) mediante a manipulação de contas praticada, pelo menos no caso da Grécia, pela consultoria da Goldman Sachs (certamente, deve ser simples coincidência que Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu também foi empregado da Goldman Sachs).  De início, já aceitam que precisarão esquecer 50% da dívida da Grécia. Mas os outros 50% têm que ser tirados do sangue, suor e lágrimas dos gregos, para que o não pagamento não acabe impune.
4. Quebram os países para que os bancos não quebrem. Mas por que se faz isso? No fim, os Merkozy [Merkel e Sarkozi] não são funcionários dos bancos. Têm seus interesses políticos, nacionais e pessoais. A Alemanha necessita realmente que o euro seja a moeda europeia e que seus sócios não possam desvalorizá-la. Porque o modelo de crescimento alemão é na realidade, o mesmo que o chinês: crescer por meio de exportações favorecidas por uma moeda subvalorizada. Se houvesse um euro-marco forte, a Alemanha perderia mercados na Europa perderia competitividade em relação a exportações espanholas ou italianas.
5. Mas há outra dimensão político-pessoal. Tanto Merkel quanto Sarkozy precisam estabelecer sua liderança europeia por razões de política interna e por projeto de grandeza nacional que é preciso disfarçar, para não despertar velhos fantasmas. E as outras elites políticas europeias? O sentimento de serem europeus, em um mundo em mudanças desde a América do Norte até a Ásia, dá-lhes a impressão de ser algo mais que produtos aldeanos do aparato de partido que tanto desprezam.
6. E o sonho europeu? Ele pode ser construído com as pessoas, amando-nos uns aos outros, em vez de ver quem paga a conta. Quando pensar em euro, pense fraude. Quando pensar em Europa, pense amigos.
¿A quién sirve el euro?
Manuel Castells
Ya no cabe duda sobre el talante antidemocrático de la UE. La propuesta de Papandreu de preguntar a sus conciudadanos si aceptaban vivir en austeridad espartana para poder pagar en euros desencadenó una tormenta financiera y política que entre amenazas e improperios de Merkozy y Cameron provocó la crisis del Gobierno griego y puso al país patas arriba.
¿Qué hay de malo en que la gente decida sobre su salud, su educación y su empleo? ¿Son temas demasiado complejos para el populacho? No exageren, que algunos tenemos más estudios que los mandamases. Con algunos colegas me comprometo a explicar clarito a los ciudadanos de qué va el euro y su crisis y a quiénes benefician y perjudican y cuáles son las distintas opciones posibles, incluida el repatriar al euro a Bruselas. A condición naturalmente de tener la misma información que se reservan financieros y gobernantes. El problema no es de complejidad, sino de democracia. A lo que más temen los políticos en estos momentos es a que los ocupen, a que les arrebaten ese poder delegado que mantienen mediante un mecanismo controlado de elecciones entre opciones encerradas dentro de límites sistémicos y legitimadas mediáticamente. Un referéndum, sin ser una forma perfecta de decisión popular, abre el abanico de posibilidades, siempre y cuando sea limpio. Había que ver a asesores políticos europeos aconsejando que si se hacia el referéndum se hiciera con una pregunta inteligente, o sea sesgada hacia lo que conviene. Hay, profundamente, arrogancia elitista y repulsión hacia la voluntad popular, por mucho que se disimule. Porque aunque se equivocara el pueblo, tiene derecho a hacerlo. Ya pasó el tiempo de los que nos salvaban porque no sabíamos lo que hacíamos.
En realidad no se trata de salvar al pueblo, sino de salvar al euro, como si esto fuera equivalente. ¿Por qué tanto interés? ¿Y de quién? Porque diez de los veintisiete miembros de la UE viven sin euro y algunas de sus economías (Reino Unido, Suecia, Polonia) son mucho más sólidas que la media de Unión. Defender el euro hasta el ultimo griego es la primera línea de defensa para una moneda que está condenada porque expresa economías divergentes y no tiene un estado que la respalde. Con Portugal e Irlanda en la UVI, España en la cuerda floja y una Italia en permanente crisis política y endeudada hasta las orejas de su histriónico ex líder, la franco-germana defensa del euro tiene otras explicaciones que la historia de terror que nos cuentan sobre la catástrofe financiera que ello implicaría con efectos devastadores en nuestro cotidiano como si la vida dependiera de la bolsa. La primera razón es obvia: salvar a los bancos, sobre todo alemanes y franceses, que prestaron sin garantías a Grecia y demás PIGS mediante la manipulación de cuentas que, al menos en el caso de Grecia, hizo la consultoría de Goldman Sachs (Por cierto, debe ser simple casualidad que Draghi, el flamante nuevo presidente del BCE también fuera empleado de Goldman Sachs). De entrada ya tienen que olvidarse del 50% de la deuda de Grecia, aunque no está claro quién acabará pagándola. Pero el otro 50% lo tienen que sacar de la sangre, sudor y lágrimas de los griegos, prestándoles nuestro dinero, para que el impago no quede impune. Si Grecia denunciara la deuda, como hizo Islandia a quien le va tan ricamente, un dracma devaluado en 60% haría impagable el resto de la deuda. Más aun, el efecto contagio en mercados financieros llevaría al impago de gran parte de la deuda soberana, llevando a la quiebra a los bancos que se aprovecharon del euro para prestar sin solvencia.
O sea, se trata de salvar a unos bancos concretos y, en términos más amplios, evitar una nueva crisis del sistema financiero. Se quiebran países para no quebrar bancos. ¿Pero por qué se hace? Al fin y al cabo, los Merkozy no son empleados de banca. Tienen sus intereses políticos, de país y personales. Alemania es la que realmente necesita que el euro sea la moneda europea y que sus socios no puedan devaluar. Porque el modelo de crecimiento alemán es en realidad el chino: crecer mediante exportaciones favorecidas por una moneda subvalorada y reducir salarios (reducción del 2% en términos reales en el último quinquenio). Si hubiese un euro-marco fuerte, Alemania perdería mercados en Europa y competitividad respecto a exportaciones españolas o italianas. Pero hay otra dimensión político-personal: tanto Merkel como Sarkozy necesitan establecer su liderazgo europeo tanto por razones de política interna como por proyecto de grandeza nacional que se tiene que disfrazar de europeo para no despertar viejos fantasmas. ¿Y las otras élites políticas europeas? Algo semejante ocurre, su importancia personal y de país se realza siendo cola del león europeo porque la ratonez de su ámbito les viene estrecha. Sentirse europeos, en un mundo en tránsito desde Norteamérica a Asia, les da la impresión de ser algo más que productos aldeanos del aparato de partido que tanto desprecian.
¿Y nosotros en todo esto? Cierto que el desbarajuste financiero que ocasionará (no hay errata de tiempo de verbo) el advenimiento de la euro-peseta causará problemas de transición en la economía y en nuestros bolsillos, en condiciones que dependen de cómo se produzca la transición. Pero se recuperaría la soberanía de política económica, se ajustaría la realidad monetaria y financiera a la economía real, se incrementaría la competitividad, ganando mercados externos e internos, habría una explosión de turismo que sería a precios de ganga. Se podría reactivar la economía emitiendo moneda. Y por tanto se incrementaría el empleo. Porque lo esencial es crecer, no flagelarse. Claro: habría inflación. Pero es la mejor receta para reducir deuda, incluida la de su hipoteca.
¿Y el sueño europeo? Pues hagámoslo con la gente, amándonos los unos a los otros, en lugar de ver quién paga la cuenta. Cuando piense euro, piense estafa. Cuando piense Europa, piense amigas.