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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A preocupação das potências ocidentais não é mais com a esquerda, é com o capitalismo de estado

(clique nas imagens para ampliar)

O liberalismo econômico, como conhecíamos, vive seus estertores. E podemos dizer que a concordata do Lehmann Brothers, em setembro de 2008, equivale, para os liberais, ao que significou a queda do muro de Berlim para as esquerdas. No mínimo, os dois acontecimentos estão intimamente ligados. Com a Queda do Muro (1989), o liberalismo, que tinha ganhado fôlego com Reagan e Thatcher, radicalizou. O laissez-faire tornou-se o Pai nosso de cada dia. A dissolução da União Soviética passou a ser a garantia de que a política de descontrole total é que estava certa e que representava a evolução da humanidade. Mas os “Ninjas” (No Income, No Job, no Assets – crédito concedido a tomadores que não podiam comprovar renda, nem emprego, nem a propriedade de ativos) deram um golpe mortal nessa pretensão. De 2008 para cá testemunhamos, meio incrédulos, as potências ocidentais em desespero, quase rastejando, tentando entregar os dedos para salvar os anéis. Enquanto isso, os chamados países emergentes, para quem todos torciam o nariz, tornam-se protagonistas da nova economia mundial. “The era of free-market triumphalism has come to a juddering halt, and the crisis that destroyed Lehman Brothers in 2008 is now engulfing much of the rich world”, diz The Economist em sua matéria de capa da semana passada. Pior: o Fraser Institute, canadense, que tem medido a “liberdade econômica” (!!!) nos últimos quarenta anos e que tinha visto o seu índice subir implacavelmente de 5,5 (de 0 a 10) em 1980 para 6,7 em 2007, a partir de 2008 viu tudo andar pra trás. Pior ainda: ganhou força entre os “emergentes” o capitalismo de estado, que funde os poderes do estado com os poderes do capitalismo.
The crisis of liberal capitalism has been rendered more serious by the rise of a potent alternative: state capitalism, which tries to meld the powers of the state with the powers of capitalism. It depends on government to pick winners and promote economic growth. But it also uses capitalist tools such as listing state-owned companies on the stockmarket and embracing globalisation. Elements of state capitalism have been seen in the past, for example in the rise of Japan in the 1950s and even of Germany in the 1870s, but never before has it operated on such a scale and with such sophisticated tools.
O capitalismo de estado, argumentam, representa um esforço significativo sobre seus predecessores em vários aspectos: está se desenvolvendo em escala maior, mais rapidamente e com instrumentos mais sofisticados.
Obviamente, a reportagem procura lançar senões sobre os novos rumos do mundo fora das garras das potências ocidentais. Levanta dúvidas sobre a capacidade de renovação e de correção de erros, e alerta que o “capitalismo de estado é atormentado pelo nepotismo e pela corrupção” – como se nada disso acontecesse no chamado “primeiro mundo”. Mas a reportagem lembra que a ascensão do capitalismo de estado está derrubando algumas “verdades” sobre os efeitos da globalização. Por exemplo, Kenichi Ohmae tinha dito que a nação-estado tinha acabado. Thomas Friedman argumentava que os governos teriam que usar a camisa de força dourada de disciplina do mercado. Naomi Klein apontava que as maiores companhias são maiores do que muitos países. E Francis Fukuyama declarou que a história tinha acabado com o triunfo do capitalismo democrático. O fato é que a “fórmula” do liberalismo econômico fracassou completamente e seus defensores têm motivos de sobra para se preocuparem com esse mundo que avança livre de sua tutela. Acima de tudo porque, olhando para a crise americana, para o caos europeu e para as trapalhadas do grande capital financeiro, podemos dizer que as esquerdas sempre estiveram mais perto de uma proposta de mundo melhor, onde o estado pode de fato ser o protagonista na condução harmonizada de políticas econômicas e sociais. Evidentemente, estamos longe de viver o melhor dos mundos. Mas já é um alívio saber que nos distanciamos da truculência do liberalismo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

The Economist põe nossos PIBs estaduais no mapa do mundo

Reportagem da The Economist faz a equivalência do PIB dos estados brasileiros (como já fez com estados de outros lugares) com o PIB de outros países. Procura com isso dar uma noção mais exata do que realmente representa hoje esse Brasil em ascensão no cenário mundial.  (Clique no mapa para ampliar)

Comparando os PIBs dos estados brasileiros com países
A ideia de que o Brasil está na vanguarda de um grupo de países emergentes em seu caminho para o estrelato das superpotências econômicas é tão amplamente aceita que se tornou banal. Mas até que ponto chegou o Brasil rumo a esse estrelato? Uma maneira de obter resposta rápida é comparar os estados brasileiros com países. O mapa abaixo apresenta os países equivalentes para todos os estados em termos de PIB, PIB per capita e população. Ele levanta algumas curiosidades: quem sabia que Alagoas, um Estado no Nordeste que atualmente é mais famoso por sua taxa de homicídio do que por suas magníficas praias, tem o mesmo PIB per capita da China? Ele também sugere que mesmo os estados comparativamente ricos nas regiões Sul e Sudeste ainda têm algum caminho a percorrer antes que possam ser comparados com os lugares ricos no Hemisfério Norte. Os gaúchos do Rio Grande do Sul não ficarão necessariamente felizes ao saber que o PIB per capita de seu estado é próximo ao do Gabão.
Clique aqui para ver o mapa completo.
Aqui para ver o dos Estados Unidos.
Aqui, China.
E aqui Índia.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tsunami em 2050: Brasil será a 4ª economia do mundo


(clique nas imagens para ampliar)

A PwC, empresa inglesa da área de consultoria econômica, acaba de divulgar projeções dos cenários da economia mundial, a partir dos PIBs (Banco Mundial) de 2009, até 2050. “The World in 2050 The accelerating shift of global economic power: challenges and opportunities” é o nome do trabalho que você tem acesso aqui. A principal conclusão é que “a recente crise financeira acelerou a passagem do poder econômico global para as economias emergentes”. Essa mudança na ordem mundial, diz o estudo, “traz novos desafios e oportunidades para as atuais economias avançadas. (...) o rápido crescimento nos mercados de consumo associado a um rápido crescimento da classe média possibilitará grandes oportunidades para as empresas ocidentais, que poderão se estabelecer nesses mercados”. Bem diferente do que faz, no momento, a Grã-Bretanha, que tem apenas 7% de suas exportações para os BRICs – o mesmo índice de suas exportações para a Irlanda. No estudo, obviamente, há várias curiosidades.
  • Em 2050, China, Índia, Estados Unidos, Brasil e Japão serão as cinco maiores economias.
  • Ainda em 2011 a Índia deve ultrapassar o Japão e o Brasil deve ultrapassar a França.
  • O Brasil deve ultrapassar a Alemanha em 2024, a Rússia em 2035 e o Japão em 2038.
  • A China deve ultrapassar os Estados Unidos em 2019.
  • Em 2020, a economia dos 7 países emergentes (China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México e Turquia) atuais (2009) deverá superar a economia dos atuais (2009) 7 países mais ricos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).
  • Em 2050, Vietnam e Nigéria deverão estar entre os G20 e Austrália e África do Sul deverão estar fora.
Leia matéria na última The Economist ("Guarde bem essa data").

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O mapa da democracia: curiosidades

(CLIQUE PARA AMPLIAR)

A revista The Economist tem um instituto de pesquisa, Economist Intelligence Unit, que divulga a cada dois anos o ranking dos países com relação à prática da democracia. Os critérios são de “Processo Eleitoral e Pluralismo”, “Funcionamento do Governo”, “Participação Política”, “Cultura Política” e “Liberdades Civis”. E as faixas das classificações dos países são “Democracias Plenas” (26 países), “Democracias Imperfeitas” (53 países), “Regimes Híbridos” (43 países), “Regimes Autoritários” (55 países), além de alguns países que não foram classificados. O Brasil continua na faixa das “Democracias Imperfeitas” (chegou a cair na classificação) e os Estados Unidos continuam entre as “Democracias Plenas”. Mas existem algumas surpresas interessantes:
  • Os Estados Unidos estão em ligeira queda na sua pontuação, mas subiram da 18ª para a 17ª posição – ainda assim atrás de países como a República Tcheca e Malta.
  • Os únicos países das América Latina classificados como “Democracias Plenas” são o Uruguai (21º) e a Costa Rica (24º).
  • Dos 21 países da Europa Ocidental, 15 sentiram erosão na democracia, sendo que 3 nomes tradicionais da “Democracias Plenas”, França, Itália e Grécia, caíram para “Democracias Imperfeitas”.
  • E agora a grande surpresa, especialmente para a mídia que se preocupa mais em criticar do que analisar: o Brasil vence os Estado Unidos em dois critérios: “Processo Eleitoral e Pluralismo” e em “Liberdades Civis”.


Acesse a reportagem completa clicando aqui ou aqui para se cadastrar na Economist Intelligence Unit

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Economist repete as palavras de Lula sobre a crise

Enquanto a nossa Oposição e a nossa Mídia vivem ironizando as frases de Lula sobre os efeitos da crise aqui no Brasil, a revista The Economist prefere praticamente repetir as suas palavras. Agora mesmo, dia 9, Lula voltou a dizer "eu continuo acreditando, pelos números, que nós fomos o último país a entrar na crise e que vamos ser o primeiro a sair". No dia 11, The Economist abre a reportagem a Brazil's recovering economy: Ready to roll again dizendo que "Among the last to fall into recession, Brazil may be among the first to grow out of it". Em seguida, escreve: "Many analysts believe that Brazil is now starting to grow again, and will return to annual growth of 3.5% to 4% next year. If so, that would mean that the country has escaped with only a brief recession". Isso quer ou não quer dizer que aqui no Brasil provavelmente a crise será apenas uma marolinha?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval da desglobalização

Separei para esses dias carnavalescos postagem sobre o texto publicado ontem na The Economist, “Globalisation - Turning their backs on the world”, uma peça rara de alegoria e prestidigitação. Todo o artigo é fundamentado com um único objetivo: provar que a globalização fez bem ao mundo e que, apesar da trapalhada em que mergulhamos, ela continua apontando o melhor caminho. O seu ponto de partido tem mérito altamente discutível (para dizer o mínimo...): “ajudar os países mais pobres a desenvolver-se tem sido um benefício-meta da globalização”. Isso é dito com base nos dados que mostram os países mais pobres, nos últimos anos, crescendo mais rápido do que os mais ricos. “A diferença entre o crescimento real nos mercados emergentes e nos países ricos foi ampliado de zero, em 1991, para cerca de 5 pontos, em 2007 – e, segundo o FMI, deve manter-se em 5,3 pontos em 2008 e 2009”, diz a revista. Ora, para começar, não existe isso de “ajudar” os países mais pobres. Os mais ricos precisavam de novos e melhores mercados, novas fontes de lucros, e a globalização foi a solução. Depois é ridículo apresentar esse recente crescimento maior entre os países mais pobres como um “benefício”. Qualquer crescimento para quem vive abaixo da linha de pobreza torna-se um acontecimento fabuloso, quase miraculoso. A revista conceitua globalização como “a integração global dos movimentos de bens, capital e empregos”. Mostra como cada um desses alicerces foi abalado pela crise atual, mas faz questão de sublinhar que a culpa de tudo está na recessão, não na globalização. Engraçado? Muitíssimo, mas tem sentido. O que se busca com isso é provar que o problema está no neoliberalismo, não na globalização. O que se pretende agora é uma globalização de novo tipo para reoxigenar o capitalismo, ou seja, a Social-Democracia Global (SDG) de que fala Walden Bello, economista filipino, autor de Deglobalisation, Ideas for a New World Economy. “Dada a necessidade de legitimação global para promover seus interesses em um mundo cujo equilíbrio de poder está se deslocando para o Sul, pode ser mais atrativo para as elites ocidentais optar por uma mistura da social-democracia europeia e do liberalismo New Deal que poderíamos chamar de Social-Democracia Global (SDG)”, escreve Walden Bello. Para ele, um dos principais nomes da SDG é o atual primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que propôs o que chamou de “capitalismo fundado na aliança entre o mercado e as instituições estatais, capaz de reproduzir em escala global o que (para Gordon Brown) teria feito Franklin Delano Roosevelt em escala econômica nacional, a saber: garantir os lucros gerados pelo mercado e, ao mesmo tempo, domar seus excessos”. Walden Bello apresenta alguns destaques das posições defendidas pelos partidários da SDG, entre eles: “a globalização é essencialmente benéfica para o mundo; os neoliberais é que arruinaram a sua gestão, por isso é urgente salvar e resgatar a globalização, arrancando-a das mãos neoliberais” (algo assim). O que podemos concluir desse artigo da revista The Economist (e de outros textos e propostas pululando por aí) é que as chamadas forças progressistas ou de esquerda devem se preparar muito bem para o novo embate pós-crise que começa a desfilar. São as próximas décads que estão em jogo. E não podemos permitir que tudo acabe outra vez em quarta-feira de cinzas... (A imagem acima é uma carnavalização que fiz sobre a excelente ilustração de Claudio Munoz para The Economist)