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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Eleição na Grã-Bretanha: Conservadores vencem, mas talvez não levem


Desde 1974 não acontecia isso entre os britânicos: o partido vencedor não tem votos suficientes para garantir a eleição do Primeiro Ministro. Nas últimas contagens divulgadas, os Conservadores (David Cameron) estão com 291 cadeiras garantidas e com projeção de chegar a 306 - mas precisariam de 326 para ter maioria absoluta.
Gordon Brown, o atual Primeiro Ministro trabalhista (251 cadeiras, podendo chegar a 266), argumenta que, nessa situação, quem está no posto tem prioridade para formar o próximo Governo. Ele conta com as quase 60 cadeiras que os Liberais Democratas devem conquistar mais uma ou outra de pequenos partidos. Aliás, o maior derrotado acabou sendo o "fenômeno" Nick Clegg (Liberais Democratas), que parecia que poderia vencer, mas seu partido ficou com menos cadeiras do que tinha - erro brutal das primeiras pesquisas de opinião... (Números do instituto YouGov, no mês passado, apontaram o liberal-democrata com 34% das intenções de voto, à frente de conservadores, 31%, e trabalhistas, 26%). Leia mais no The Independent e BBC.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval da desglobalização

Separei para esses dias carnavalescos postagem sobre o texto publicado ontem na The Economist, “Globalisation - Turning their backs on the world”, uma peça rara de alegoria e prestidigitação. Todo o artigo é fundamentado com um único objetivo: provar que a globalização fez bem ao mundo e que, apesar da trapalhada em que mergulhamos, ela continua apontando o melhor caminho. O seu ponto de partido tem mérito altamente discutível (para dizer o mínimo...): “ajudar os países mais pobres a desenvolver-se tem sido um benefício-meta da globalização”. Isso é dito com base nos dados que mostram os países mais pobres, nos últimos anos, crescendo mais rápido do que os mais ricos. “A diferença entre o crescimento real nos mercados emergentes e nos países ricos foi ampliado de zero, em 1991, para cerca de 5 pontos, em 2007 – e, segundo o FMI, deve manter-se em 5,3 pontos em 2008 e 2009”, diz a revista. Ora, para começar, não existe isso de “ajudar” os países mais pobres. Os mais ricos precisavam de novos e melhores mercados, novas fontes de lucros, e a globalização foi a solução. Depois é ridículo apresentar esse recente crescimento maior entre os países mais pobres como um “benefício”. Qualquer crescimento para quem vive abaixo da linha de pobreza torna-se um acontecimento fabuloso, quase miraculoso. A revista conceitua globalização como “a integração global dos movimentos de bens, capital e empregos”. Mostra como cada um desses alicerces foi abalado pela crise atual, mas faz questão de sublinhar que a culpa de tudo está na recessão, não na globalização. Engraçado? Muitíssimo, mas tem sentido. O que se busca com isso é provar que o problema está no neoliberalismo, não na globalização. O que se pretende agora é uma globalização de novo tipo para reoxigenar o capitalismo, ou seja, a Social-Democracia Global (SDG) de que fala Walden Bello, economista filipino, autor de Deglobalisation, Ideas for a New World Economy. “Dada a necessidade de legitimação global para promover seus interesses em um mundo cujo equilíbrio de poder está se deslocando para o Sul, pode ser mais atrativo para as elites ocidentais optar por uma mistura da social-democracia europeia e do liberalismo New Deal que poderíamos chamar de Social-Democracia Global (SDG)”, escreve Walden Bello. Para ele, um dos principais nomes da SDG é o atual primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que propôs o que chamou de “capitalismo fundado na aliança entre o mercado e as instituições estatais, capaz de reproduzir em escala global o que (para Gordon Brown) teria feito Franklin Delano Roosevelt em escala econômica nacional, a saber: garantir os lucros gerados pelo mercado e, ao mesmo tempo, domar seus excessos”. Walden Bello apresenta alguns destaques das posições defendidas pelos partidários da SDG, entre eles: “a globalização é essencialmente benéfica para o mundo; os neoliberais é que arruinaram a sua gestão, por isso é urgente salvar e resgatar a globalização, arrancando-a das mãos neoliberais” (algo assim). O que podemos concluir desse artigo da revista The Economist (e de outros textos e propostas pululando por aí) é que as chamadas forças progressistas ou de esquerda devem se preparar muito bem para o novo embate pós-crise que começa a desfilar. São as próximas décads que estão em jogo. E não podemos permitir que tudo acabe outra vez em quarta-feira de cinzas... (A imagem acima é uma carnavalização que fiz sobre a excelente ilustração de Claudio Munoz para The Economist)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Eleição israelense: Estados Unidos e Europa perto de escolherem o novo Gabinete

Os governos americanos e europeus já mandaram o recado: não querem ver um governo de direita assumindo em Israel. O direitista Benjamin Netanyahu (que pretende ser o Primeiro Ministro, apesar do seu partido, o Likud ter ficado em segundo lugar) seria um desastre para as negociações de paz com os palestinos. Pior ainda para a pretensão da formação de dois estados e para a melhoria nas relações com o Hesbolá e com o Irã. Estados Unidos e União Europeia trabalham para que Kadima e Likud se aliem, de preferência sob o comando de Tzipi Livni. Ou pelo menos que o Kadima ocupe postos chaves como Relações Exteriores, Defesa e Fazenda. Seja como for, nada avançará sem o voto de Obama, Sarkozy, Gordon e Merkel. Leia mais nas reportagens U.S., EU say prefer Kadima-Likud unity gov't e King of comeback do jornal Haaretz.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Vergonha sem fim: Oriente Médio

Faça "paz" ou faça guerra, testemunhamos o massacre do povo palestino. Nos períodos de "paz", o massacre é principalmente pelo racionamento de água; nos períodos de guerra, o massacre é pelo fogo indiscriminado das bombas israelenses. Já escrevi aqui (Como Israel destrói mais: com bombas ou com o racionamento de água?):
A região palestina conta com 3 principais fontes de água – o Rio Jordão (aquele de Jesus e João Batista, que vai do Mar Morto ao Galileu), o Aqüífero (espécie de rio subterrâneo) da Montanha (na chamada “Margem Ocidental”) e o Aqüífero Litorâneo (na Faixa de Gaza). Antes da famosa Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel só detinha 3% da Bacia do Rio Jordão, apesar de já ter construído uma complexa infraestrutura de canais, estações, reservatórios e aquedutos que desviava 75% do Jordão para o usufruto israelense. Depois de 1967, Israel passou a ter controle total. A Síria e a Jordânia ainda têm direito a algum uso, mas os palestinos são proibidos de beber das águas do Rio Jordão. Têm que se virar com os aqüíferos e seus caminhões-pipa. Mesmo assim, apenas 19% da água estão disponíveis para os palestinos... O grupo de direitos humanos chamado “Se eles soubessem” (If They Knew) descreve mais problemas: “Na Margem Ocidental (região a oeste do Rio Jordão, encampada por Israel), cerca de 50 poços e 200 cisternas foram destruídos ou separados de seus proprietários pelo Muro construído na área – que também precisou da destruição de outros 25 poços e cisternas, além de 35 km de aquedutos somente na sua construção. Ao considerar Gaza e Margem Ocidental como duas coisas independentes, Israel também proíbe que os palestinos gazeanos utilizem a água do Aqüífero da Montanha e tratem de sobreviver com o Aqüífero Litorâneo e seus 90% de água não-potável! Pior: os palestinos não têm outra escolha a não ser beber essa água não-potável, que se degrada ainda mais. Seguindo as cotas israelenses, os palestinos da Margem Ocidental têm direito a 70 litros de água por pessoa/dia e os da Faixa de Gaza têm direito a apenas 13 litros, enquanto o mínimo humanamente concebível é de 100 litros, de acordo com a Organização Mundial de Saúde! As conseqüências são óbvias. Desespero, doenças, destruição lenta e sofrida de todo um povo. É como se estivessem planejando uma espécie de “lavagem étnica”.
Quanto ao atual bombardeio, prefiro transcrever o texto de Robert Fisk, colunista do Independent, que o Globo publica hoje:
Líderes mentem e civis morrem
Estamos tão acostumados a ver carnificinas no Oriente Médio que não ligamos mais.
Não está claro quantos dos mortos em Gaza são civis, mas a resposta do governo Bush, sem mencionar a pusilânime reação do premier britânico Gordon Brown, reafirma para os árabes o que eles sabem há décadas: o Ocidente está sempre do lado de Israel.
Como de costume, o banho de sangue foi culpa dos árabes que, como todos sabem, só entendem o uso da força.
Desde 1948, ouvimos dos israelenses e dos nacionalistas árabes e depois árabes muçulmanos a lengalenga de que Jerusalém será “libertada”. E sempre Bush pai e depois o filho, Bill Clinton, Tony Blair ou Gordon Brown chamam os dois lados e pedem moderação, como se ambos tivessem caças F-18, tanques Merkava e artilharia pesada. Os foguetes caseiros do Hamas mataram apenas 20 israelenses em oito anos. Mas num único dia a Força Aérea de Israel matou quase 300 palestinos, e apenas como parte de uma operação.
Sim, o Hamas provocou a ira de Israel, assim como Israel provocou a do Hamas. E o que isso quer dizer? O Hamas lança foguetes em Israel e Israel joga bombas no Hamas. Entendeu? Pedimos pela segurança de Israel, mas ignoramos o desproporcional massacre realizado por Israel.
No fim de semana tivemos 298 palestinos mortos para um israelense. Em 2006, a proporção era de 10 libaneses mortos para cada israelense que perdia a vida. Este fim de semana foi marcado pela inflação do número de mortos. O maior desde a guerra de 1973? Desde a Guerra dos Seis Dias, de 1967? De Suez, em 1956? Da Guerra de Independência de 1948? É um obsceno e nojento jogo que Ehud Barak, o ministro da Defesa de Israel, inconscientemente admitiu quando falou este fim de semana na Fox: “Nossa intenção é mudar totalmente as regras do jogo”, disse Barak.
Vários dos mortos do fim de semana pareciam ser do Hamas.
Mas o que isso resolverá? O Hamas dirá: “Oh, esse ataque foi impressionante e nós reconheceremos o Estado de Israel, entraremos na linha, renunciaremos às armas e rezaremos para sermos levados prisioneiros e trancafiados indefinidamente, e daremos apoio a um novo ‘processo de paz’ promovido pelos EUA no Oriente Médio!” Será que é isso mesmo que os israelenses e os americanos pensam que o Hamas fará? Vamos relembrar o cinismo do Hamas, o cinismo de todos os grupos armados islâmicos.
A necessidade de produzir mártires muçulmanos é crucial para eles e Israel os está criando.
A lição que Israel pensa estar dando não é a lição que o Hamas está aprendendo. O Hamas precisa da violência para enfatizar a opressão dos palestinos e conta com Israel para providenciar isso. Basta lançar uns foguetes em Israel e Israel lhes faz esse favor.
E nem sequer uma lamentação de Tony Blair, o enviado de paz para o Oriente Médio que nunca esteve em Gaza na atual encarnação. Nem uma palavra. Mas nós ouvimos o habitual discurso de Israel. O general Yaakov Amidror, ex-diretor da “divisão de pesquisa e avaliação” do Exército, anunciou que “nenhum país no mundo permitiria que seus cidadãos fossem feitos de alvos para foguetes sem tomar medidas vigorosas para defendê-los”. Exato.
Mas quando o Exército Republicano Irlandês (IRA) lançava foguetes na Irlanda do Norte, quando suas guerrilhas vinham da Irlanda para atacar delegacias de polícia e protestantes, o Reino Unido usou a Força Aérea para bombardear a república irlandesa? A Força Aérea britânica por acaso atacou igrejas e delegacias e matou de uma só vez 300 pessoas para ensinar à Irlanda uma lição? Não, o Reino Unido não fez isso. Não fez porque o mundo veria um ataque assim como uma ação criminosa. Não queríamos nos rebaixar ao nível do IRA.
Sim, Israel tem o direito à segurança. Mas esses banhos de sangue não lhe trarão segurança. Nem desde 1948 trouxeram algum tipo de proteção para Israel. Os israelenses bombardearam o Líbano milhares de vezes desde 1975 e isso não eliminou o terrorismo. Então o que foi o fim de semana? Os israelenses ameaçam fazer ataques por terra. O Hamas espera por outra batalha. Os políticos do Ocidente encolhem-se covardemente. E em algum lugar do Oriente numa caverna? Num porão? Numa montanha? Bem, em algum lugar, um muito conhecido homem de turbante sorri.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Os 50 Todo-Poderosos da Newsweek

A revista Newsweek lançou a lista dos que considera as 50 personalidades mais poderosas do mundo. Barack Obama em primeiro lugar é apenas óbvio. Mas três outras posições me chamaram atenção. Sarkozy em terceiro lugar, ultrapassando Gordon Brown. Ou seja, a Inglaterra de Tony Blair definitivamente ficou pra trás. O 18º lugar para Lula também me surpreendeu. Demonstra o altíssimo conceito que seu governo conquistou no cenário internacional. É longe o melhor colocado dos dois únicos latinoamericanos da lista (o outro, em 45º lugar, é o Mexicano Carlos Slim Helú, o segundo homem mais rico do mundo). E também me surpreendeu o 30º lugar, conquistado por David Axelrod. Ele é apresentado como amigo do futuro presidente americano, mas foi como estrategista da campanha vitoriosíssima de Obama que ele ganhou respeito nos quatro cantos do mundo. Veja a lista completa:
1: Barack Obama
2: Hu Jintao
3: Nicolas Sarkozy
4-5-6: Economic Triumvirate (4. Ben Bernanke 5. Jean-Claude Trichet 6. Masaaki Shirakawa)
7: Gordon Brown
8: Angela Merkel
9: Vladimir Putin
10: Abdullah bin Abdulaziz Al-Saud
11: Ayatollah Ali Khamenei
12: Kim Jong Il
13-14: The Clintons (Hillary e Bill)
15: Timothy Geithner
16: Gen. David Petraeus
17: Sonia Gandhi
18: Luiz Inácio Lula da Silva
19: Warren Buffett
20: Gen. Ashfaq Parvez Kayani
21: Nuri al-Maliki
22-23: The Philanthropists (Bill and Melinda Gates)
24: Nancy Pelosi
25: Khalifa bin Zayed Al Nahyan
26: Mike Duke
27: Rahm Emanuel
28: Eric Schmidt
29: Jamie Dimon
30-31: Friends of Barack (David Axelrod and Valerie Jarrett)
32: Dominique Strauss-Kahn
33: Rex Tillerson
34: Steve Jobs
35: John Lasseter
36: Michael Bloomberg
37: Pope Benedict XVI
38: Katsuaki Watanabe
39: Rupert Murdoch
40: Jeff Bezos
41: Shahrukh Khan
42: Osama bin Laden
43: Hassan Nasrallah
44: Dr. Margaret Chan
45: Carlos Slim Helú
46: The Dalai Lama
47: Oprah Winfrey
48: Amr Khaled
49: E. A. Adeboye
50: Jim Rogers

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Eleições britânicas e o problema dos "sucessores"

Todo político, quando se afasta do poder, quer fazer o seu sucessor. Mas de preferência que seja um sucessor sem condições de obter sucesso independente do "padrinho". Mesmo porque, muitas vezes, esse "padrinho" tem planos de voltar ao poder e não pode ser atrapalhado pelo sucesso do "apadrinhado". Quando o "apadrinhado" tenta ganhar vôo próprio, ofuscando o seu "padrinho", costumamos testemunhar batalhas políticas sanguinárias. O sucessor bom é o sucessor sem brilho, raciocinam os grande líderes políticos. O Brasil está cheio de exemplos desse tipo, mas isso acontece no mundo inteiro. Esse premier britânico, Gordon Brown, o "escolhido" de Tony Blair, é um grande exemplo. Sem carisma algum, Brown teve que suceder o "padrinho" super carismático levando a tiracolo a herança maldita da Guerra do Iraque e da crise econômica (diga-se de passagem que ele era o responsável pela política econômica britânica desde o Governo Blair). O resultado disso foi traduzido pelas eleições municipais desta quinta-feira. O seu Partido Trabalhista está tendo os piores resultados dos últimos 40 anos, com risco humilhante de ficar atrás até dos Liberais-Democratas. Com mais de dois terços das urnas apuradas, os Trabalhistas já tinham perdido 184 cadeiras (enquanto os Conservadores ganhavam 166 e os os Liberais-democratas ganhavam 17). Esse presente britânico que Tony Blair deixou deve ser primo próximo do presente de grego...