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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A preocupação das potências ocidentais não é mais com a esquerda, é com o capitalismo de estado

(clique nas imagens para ampliar)

O liberalismo econômico, como conhecíamos, vive seus estertores. E podemos dizer que a concordata do Lehmann Brothers, em setembro de 2008, equivale, para os liberais, ao que significou a queda do muro de Berlim para as esquerdas. No mínimo, os dois acontecimentos estão intimamente ligados. Com a Queda do Muro (1989), o liberalismo, que tinha ganhado fôlego com Reagan e Thatcher, radicalizou. O laissez-faire tornou-se o Pai nosso de cada dia. A dissolução da União Soviética passou a ser a garantia de que a política de descontrole total é que estava certa e que representava a evolução da humanidade. Mas os “Ninjas” (No Income, No Job, no Assets – crédito concedido a tomadores que não podiam comprovar renda, nem emprego, nem a propriedade de ativos) deram um golpe mortal nessa pretensão. De 2008 para cá testemunhamos, meio incrédulos, as potências ocidentais em desespero, quase rastejando, tentando entregar os dedos para salvar os anéis. Enquanto isso, os chamados países emergentes, para quem todos torciam o nariz, tornam-se protagonistas da nova economia mundial. “The era of free-market triumphalism has come to a juddering halt, and the crisis that destroyed Lehman Brothers in 2008 is now engulfing much of the rich world”, diz The Economist em sua matéria de capa da semana passada. Pior: o Fraser Institute, canadense, que tem medido a “liberdade econômica” (!!!) nos últimos quarenta anos e que tinha visto o seu índice subir implacavelmente de 5,5 (de 0 a 10) em 1980 para 6,7 em 2007, a partir de 2008 viu tudo andar pra trás. Pior ainda: ganhou força entre os “emergentes” o capitalismo de estado, que funde os poderes do estado com os poderes do capitalismo.
The crisis of liberal capitalism has been rendered more serious by the rise of a potent alternative: state capitalism, which tries to meld the powers of the state with the powers of capitalism. It depends on government to pick winners and promote economic growth. But it also uses capitalist tools such as listing state-owned companies on the stockmarket and embracing globalisation. Elements of state capitalism have been seen in the past, for example in the rise of Japan in the 1950s and even of Germany in the 1870s, but never before has it operated on such a scale and with such sophisticated tools.
O capitalismo de estado, argumentam, representa um esforço significativo sobre seus predecessores em vários aspectos: está se desenvolvendo em escala maior, mais rapidamente e com instrumentos mais sofisticados.
Obviamente, a reportagem procura lançar senões sobre os novos rumos do mundo fora das garras das potências ocidentais. Levanta dúvidas sobre a capacidade de renovação e de correção de erros, e alerta que o “capitalismo de estado é atormentado pelo nepotismo e pela corrupção” – como se nada disso acontecesse no chamado “primeiro mundo”. Mas a reportagem lembra que a ascensão do capitalismo de estado está derrubando algumas “verdades” sobre os efeitos da globalização. Por exemplo, Kenichi Ohmae tinha dito que a nação-estado tinha acabado. Thomas Friedman argumentava que os governos teriam que usar a camisa de força dourada de disciplina do mercado. Naomi Klein apontava que as maiores companhias são maiores do que muitos países. E Francis Fukuyama declarou que a história tinha acabado com o triunfo do capitalismo democrático. O fato é que a “fórmula” do liberalismo econômico fracassou completamente e seus defensores têm motivos de sobra para se preocuparem com esse mundo que avança livre de sua tutela. Acima de tudo porque, olhando para a crise americana, para o caos europeu e para as trapalhadas do grande capital financeiro, podemos dizer que as esquerdas sempre estiveram mais perto de uma proposta de mundo melhor, onde o estado pode de fato ser o protagonista na condução harmonizada de políticas econômicas e sociais. Evidentemente, estamos longe de viver o melhor dos mundos. Mas já é um alívio saber que nos distanciamos da truculência do liberalismo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"A Europa está entregue aos especuladores. É preciso romper com os neoliberais", declarou Mário Soares


Entrevista publicada no Globo do ex-presidente português.

RIO - Mário Soares respirou política e socialismo a maior parte de seus 86 anos. Referência na esquerda portuguesa e europeia, ele abre o verbo diante do terremoto econômico e político que ameaça seu país e o continente, ao defender a democracia do assédio dos mercados. De sua boca saem palavras como "vergonha", "roubalheira", "criminosos" quando se refere aos especuladores e às agências de classificação de risco e à forma como vêm se impondo sobre os governantes europeus. Ex-premier, ex-presidente e europeísta, Soares acaba de lançar em Portugal a autobiografia "Um político assume-se". Na véspera da segunda greve geral no país este ano, há dez dias, ele encabeçou, com outros políticos e intelectuais, o manifesto "Mudança de rumo", atacando o neoliberalismo e incentivando os portugueses a saírem às ruas para protestar contra as medidas de austeridade: "Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina", diz ele, por telefone, da fundação que leva seu nome, em Lisboa.

Sandra Cohen: O senhor declarou que se a Europa não mudar, haverá uma revolução. O que é preciso mudar diante de tão grave cenário econômico?
MÁRIO SOARES: É mudar o modelo econômico, acabar com essas aventuras do neoliberalismo, com essas roubalheiras, com a economia virtual, com as agências de risco, que estão a descontrolar completamente a vida não só da Europa, mas do mundo inteiro. É preciso uma mudança de paradigma, uma ruptura. O que é extraordinário é que os dirigentes políticos atuais, aqueles que mandam ou que julgam que mandam, como é o caso da senhora Merkel e do senhor Sarkozy, não mandam. Quem efetivamente manda hoje são os mercados, não são os Estados. Os mercados e as agências de classificação de risco começam a dizer coisas, e as finanças mudam completamente às custas deles. Os Estados só obedecem. É absurdo que sejam os mercados a mandar. Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina.  
Sandra Cohen: Houve então uma distorção dos princípios da União Europeia?
SOARES: Houve uma total distorção e não só na União Europeia como em toda parte. Mesmo na ONU. Quando aparece uma série de organizações, como G-7, G-8 e o G qualquer coisa, são criações para acabar e destruir com a ONU e que paralisam os fenômenos. Veja, por exemplo, os Objetivos do Milênio, que foram assinados por cerca de cem chefes de Estado. Eram as melhores metas e não se fez nada até agora. Está tudo assim, descontrolado. E não é só na Europa e por causa do euro. Tudo está em causa. Li um artigo de uma autoridade do Reino Unido já cogitando o futuro depois do euro. Por que a libra esterlina não acaba? Porque há emissões sobre emissões, assim como se faz com o dólar nos EUA. Se o Banco Central Europeu fabricasse moeda, esses problemas desapareceriam. Mas tudo está entregue aos especuladores, que só se interessam em ganhar dinheiro e fazer fortuna.
Sandra Cohen: O senhor estava à frente de Portugal quando o país aderiu à União Europeia...
SOARES: Aderimos no mesmo dia que a Espanha, após oito anos de negociações difíceis. Foi um acontecimento imenso para a Península Ibérica e para a América Latina. Depois da nossa Revolução dos Cravos e da redemocratização da Espanha, após a morte de Franco, houve uma série de rupturas e mudanças em diversos países. Mas veio a queda da ideologia comunista e os americanos se acharam donos do mundo e lançaram o neoliberalismo, do qual estão sendo vítimas, como nós, europeus. Queremos agora outra revolução, uma ruptura com o neoliberalismo. Começaremos vida nova, com novo projeto de desenvolvimento.
Sandra Cohen: Qual a responsabilidade dos socialistas nessa crise?
SOARES: As duas famílias ideológicas que fundaram a UE foram, de um lado, os socialistas ou social-democratas, que são a mesma coisa exceto em Portugal. E de outro, as democracias cristãs. Foram essas famílias que fizeram esse projeto europeu, que era um farol e um exemplo no mundo inteiro. Foi o projeto mais importante que se fez no mundo, um projeto de paz, de justiça social e bem-estar para as populações, respeito pelos direitos humanos e pelas democracias. Isso nos deu um grande desenvolvimento. O mundo olhava para a União Europeia como um projeto extraordinário. Não é por acaso que povos que se debateram em duas guerras cruentas no século XX tenham vivenciado mais de 50 anos em paz. É isso tudo que está em causa hoje com essas mudanças econômicas e com esses especuladores, que são verdadeiros criminosos.
Sandra Cohen: Mas em que os socialistas erraram?
SOARES: Houve um socialista inglês chamado Tony Blair, que nunca foi socialista, que enganou as pessoas, mas não a mim. Ele tentou colonizar o Partido Socialista em função do que chamou de Terceira Via, que era uma ligação ao neoliberalismo. E muitos socialistas europeus prevaricaram com seus partidos, que entraram em crise e em decadência. E, por outro lado, houve quem colonizasse as democracias cristãs como partidos populares, que são outra coisa.
Sandra Cohen: Como o senhor vê os governos que são liderados por tecnocratas, como Grécia e Itália?
SOARES: Da pior maneira, isso ofende a democracia, onde tudo deve ser decidido pelo voto. Não faz o menor sentido.
Sandra Cohen: O que o senhor acha do governo do primeiro-ministro português, o social-democrata Pedro Passos Coelho?
SOARES: Ele é um homem sério, decente e um patriota. Mas é um neoliberal. Não é da minha família política. Não é com austeridade que se resolvem problemas como os que temos em Portugal. Temos que ter uma certa austeridade, mas não que arrase o crescimento econômico e faça subir o desemprego como está ocorrendo. Senão, daqui a um ano, teremos imposto muitos sacrifícios aos portugueses e estaremos ainda pior.
Sandra Cohen: Na semana passada, o senhor liderou um manifesto criticando as medidas de austeridade em Portugal...
SOARES: Não fui contra. Num momento em que Portugal estava numa situação muito difícil e sem liquidez, fui partidário de pedir dinheiro à Europa. Mas não é justo que senhores que vêm da troika (comitê formado por FMI, do BCE e Comissão Europeia) possam governar Portugal porque temos pouco dinheiro ou estamos em dificuldade.
Sandra Cohen: O senhor cogitou criar um novo movimento paralelo ao Partido Socialista, como foi especulado?
SOARES: Não, de jeito nenhum, é pura especulação. Fui um dos fundadores do PS, fui socialista durante toda a minha vida política ativa e nunca deixarei de ser. Nunca pensei em criar um movimento próprio.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

It’s the unemployment, stupid!


Obama herdou o pior dos mundos possíveis para um presidente americano. O país todo-poderoso no centro de uma crise econômica internacional, recessão, conflitos armados pipocando por toda parte, e pior ainda – a autoestima da população em queda livre. A descrença com o presidente – e os políticos de um modo geral – atingiu níveis altíssimos, e a reeleição do fenômeno eleitoral Barack Obama entrou em área de alto risco. Afinal, como satisfazer os milhões de novos (e futuros) desempregados de uma sociedade que aparentava ser imune às desgraças do mundo moderno?
Mas parece que Obama encontrou o rumo para dar a volta por cima na próxima eleição. É verdade que está sendo favorecido pelo fato de o Partido Republicano não contar ainda com nenhum nome eleitoralmente forte nem com respostas para a crise que eles mesmos, os republicanos, criaram, com seu neoliberalismo extremado e sua geopolítica troglodita. Já é possível perceber que Obama coloca de volta nos braços da oposição o fardo econômico que carrega desde que assumiu o governo. Usou a discussão sobre o teto do endividamento público para demonstrar que os republicanos estão sendo intransigentes em questões econômicas por motivos puramente eleitoreiros. Aproveitou o pânico generalizado com o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos, com a crise europeia e com os índices recordes de pobreza (15,1%) e de desemprego (9,6%) para fortalecer suas propostas de recuperação da economia. E finalmente apresentou um plano mais ousado de combate ao desemprego, colocando os republicanos em uma saia justa: ou eles apoiam o plano – e com isso ajudam Obama; ou eles não apoiam – e com isso assumem o ônus de não combaterem o desemprego e igualmente ajudam Obama. Consegue dessa forma que a crise tenha nome (desemprego) e sobrenome (republicanos). A melhor equação para a reeleição.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Tighten the belt – o mercado sumiu!


O G-20 encerrou o último show e deixou seu recado: cada um por si e Deus contra todos. No caso, “Deus” são os Estados Unidos, com auxílio do dragão chinês. A desvalorização do dólar, a enxurrada de dólar especulativo, a crise europeia e o freio na compra de commodities pela China são as principais ameaças do momento. O Brasil – como todos os emergentes – obviamente serão afetados. Felizmente, ainda temos a nosso favor um excelente mercado interno (na mira de todos), economia bem fundamentada, bom controle da inflação e temos energia. Além de medidas defensivas temos que aumentar a ofensiva em busca de novos mercados. Não basta apertar o cinto – é preciso também usá-lo para abrir caminho.
Abaixo, artigo de Delfim Netto publicado hoje na Folha:

Amarrem os cintos!

Antonio Delfim Netto

O encontro do G20 em Seul, na Coreia do Sul, foi uma reunião lítero-musical de qualidade duvidosa. O seu resultado, pífio. A "solução prática" foi a cínica entrega da questão aos cuidados do FMI.
No ano que vem, ele deve apresentar um programa factível que distribua equanimente os custos do ajuste. Em poucas palavras e sem nhe-nhe-nhem: cada um que volte para casa, trate de cuidar dos seus interesses e ponha as barbas de molho.
Há uma grande dificuldade em dar peso adequado ao problema dos EUA e às malfeitorias da China, o que provoca ataques cruzados.
Os EUA meteram-se numa grave crise e, desde 2007, destruíram 10 milhões de empregos. Para retornar à taxa de desemprego aceitável de 5%, precisam reconstruí-los. Devido ao crescimento da população, para manter apenas o inaceitável nível atual de desemprego, de 9,6%, precisam criar 1,5 milhão de empregos por ano, ou seja, 125 mil por mês.
Mesmo que haja uma rápida recuperação e a economia possa absorver 600 mil empregos por mês (que é o dobro da média dos anos 90!), serão precisos dois anos antes que se volte ao nível de 2007.
Não se trata de um problema de liquidez, mas de confiança: as empresas não financeiras têm em caixa US$ 3 trilhões e não investem a não ser em tecnologias poupadoras de mão de obra. As instituições financeiras têm excesso de reserva de US$ 1 trilhão e não emprestam porque não há tomadores (o nível de endividamento das famílias é da ordem de 100% do PIB).
O único tomador de recursos é o próprio Tesouro dos EUA, cujo endividamento só poderá ser sustentado com a volta ao crescimento, que, por sua vez, depende do investimento do setor privado e do consumo das famílias.
Os EUA pagam agora o preço de sua miopia. Aumentaram o emprego nas finanças e na habitação enquanto transferiam alegremente (graças à valorização do dólar) para a China suas fábricas e seus empregos industriais e para a Índia os do setor de serviços.
Com a explosão das duas "bolhas", no setor financeiro e no imobiliário, o emprego no primeiro talvez nunca se recupere, e o do segundo demorará muito tempo. Uma coisa é certa. Se a demanda interna nos EUA não se recuperou, porque o governo foi incapaz de restabelecer a confiança no circuito econômico interno, só lhe resta a saída das exportações e a substituição do petróleo importado por biocombustíveis. Ele vai persegui-la com a desvalorização do dólar.
Devemos "amarrar os cintos" e aguentar a competição que vem por aí! Parece que com a taxa de câmbio de R$ 1,60 já podemos importar o etanol de milho dos EUA...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Recado do G-20: Bretton Woods virou “Woodstock”


Em 44, quando os países vencedores da Segunda Guerra resolveram se reunir para botar ordem na economia mundial, os Estados Unidos eram literalmente os donos do pedaço. Em situação diferenciadamente robusta, eles davam as cartas. Nas Conferências de Bretton Woods, como ficou conhecido o encontro, o ouro, representado pelo dólar, passou a ser “moeda padrão”. No Governo Nixon, diante de dificuldades na economia, foi interrompida a paridade ouro-dólar. Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no comando, até que a crise do Lehman Brothers embaralhou tudo. Os herdeiros de Bretton Woods ficaram parecendo herdeiros de Woodstock – o mundo ficou "doidão". Os Estados Unidos ficaram profundamente abalados pelas dificuldades internacionais que eles ajudaram a criar. E agora está praticamente impossível manter o dólar como referência internacional. Principalmente após a enxurrada de 600 bilhões de dólares com que Obama inundou o mundo. O dever do G-20 que se reúne a partir de hoje é transformar Seul em “Seul Woods”, criar uma nova ordem para as relações entre as economias mundiais. É muito saudável a proposta de Mantega de criar uma cesta de moedas para substituir o dólar como moeda-referência. Nessa cesta, estariam dólares, euros, ienes, libras (que já participam do FMI), e também o real e o Yuan. Vai dar muito bate-boca nesse “Seul Woods”, mas a verdade é que os Estados Unidos não têm mais “condições de ser o país com a moeda de reserva universal”. O próprio Capitalismo aplaudirá essa mudança. E o mundo ficará menos “pirado”.
Leiam esse artigo do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli publicado hoje no Globo:

G-20, o espetáculo da soberania
Demétrio Magnoli
Aquilo que o ministro Guido Mantega define como guerra cambial é a paisagem superficial da longa crise do sistema de Bretton Woods. O desequilíbrio entre os superávits chineses e os déficits americanos forma o relevo destacado nessa paisagem, mas não a esgota nem a explica. A crise de fundo tem uma dimensão econômica mas uma raiz geopolítica. No fim das contas, as engrenagens institucionais da ordem econômica global parecem emperradas, pela primeira vez desde o pósguerra.
O G-20, palco da estreia de Dilma Rousseff na cena internacional, não é a ferramenta milagrosa de solução da crise. Antes, figura como uma expressão singular do impasse evidenciado desde a quebra do Lehman Brothers.
Na sua versão original, o edifício de Bretton Woods praticamente excluía a necessidade de interferência política no sistema monetário. O dólar refletia o ouro, que lhe servia de lastro nominal, e uma coleção de moedas orbitava em torno do dólar segundo um mecanismo de paridades quase fixas. As fundações do edifício estavam assentadas na rocha da escassez de dólares, num tempo em que os EUA eram os credores do mundo. O arranjo promoveu as três décadas gloriosas de crescimento acelerado das economias de mercado. Voluntariamente, para salvar o capitalismo, os EUA ajudaram a criar centros independentes de poder econômico, sacrificando no caminho a posição de hegemonia absoluta adquirida durante a guerra.
Quando a escassez de dólares desapareceu, premido pelo financiamento da Guerra do Vietnã, Richard Nixon levantou a âncora da paridade com o ouro. Bretton Woods 2 não emanou de uma conferência, mas de um gesto unilateral do gerente do sistema: a retomada da prerrogativa soberana de imprimir moeda. No novo ambiente de flutuação cambial, a interferência política dos principais atores tornouse um imperativo. O G-5 e o G-7, seu sucessor, nasceram como respostas à necessidade de tecer consensos em torno da governança econômica global.
Eles operaram como um clube seleto, que compartilhava uma visão de mundo similar e tomava decisões informais em reuniões fechadas, protegidas do assédio da imprensa.
Desde 1971, os EUA agem de olho nas suas prioridades nacionais, dividindo com o resto do sistema internacional o custo das políticas domésticas.
A desvalorização de Nixon difundiu para o mundo as pressões inflacionárias geradas no interior da economia americana. Dez anos depois, a “revolução econômica” de Ronald Reagan provocou a elevação dos juros globais, o desvio da liquidez mundial na direção de Wall Street e uma forte apreciação do dólar. Poucos anos mais tarde, tornou-se inadiável uma brusca correção de rumo, com a depreciação do dólar frente ao marco e ao yen, algo que demandava a aquiescência da Alemanha e do Japão. Washington obteve o que desejava no Acordo do Plaza de 1985, uma prova indiscutível da eficácia política do clube das potências.
Há dois anos, os EUA buscam uma reedição do Acordo do Plaza, sob a forma de um pacto de limitação de superávits ao máximo de 4% dos PIBs nacionais, o que implicaria forte apreciação do renminbi chinês. A proposta faz sentido, mas não decola, pela conjunção de dois motivos. Um: a China não admite reproduzir a função desempenhada pelo Japão há um quarto de século.
Dois: o G-20 não é um G7 ampliado.
Os chineses temem repetir a trajetória do Japão depois do Plaza, quando o influxo de capitais coagulou-se em bolhas especulativas nos mercados de imóveis e ações, que explodiram na crise financeira de 1990 e redundaram numa estagnação de quase dez anos. O consenso interno em torno do renminbi depreciado estendese do núcleo dirigente do Partido Comunista, que resiste a conferir direitos econômicos à população, até as empresas transnacionais estabelecidas no país, que funcionam como plataformas de exportações.
O G-20, consolidado após a quebra do Lehman Brothers, reflete o declínio relativo dos EUA e a multiplicação dos centros de poder econômico gerados pela globalização. Ele não é um clube, mas um fórum. Seus integrantes, especialmente a China, não compartilham a visão de mundo que moldou o sistema de Bretton Woods. Suas reuniões, escancaradas ao escrutínio público, são teatros do espetáculo da soberania. Hoje, em Seul, chineses, alemães, brasileiros e sul-africanos erguerão suas vozes para acusar os EUA. Todos eles estarão de olhos postos nas manchetes dos telejornais e das publicações impressas.
A decisão do Federal Reserve de inundar o mercado com uma torrente de US$ 600 bilhões assinala um ponto de inflexão. Os EUA cansaram de esperar e resolveram mudar unilateralmente o cenário mundial. A China retrucou num tom incomum, anunciando que erguerá uma “muralha de fogo” contra o ingresso de capitais especulativos.
A guerra cambial assume a configuração de um confronto político e ameaça converter o G-20 em praça de combates. Em meio aos disparos, o governo brasileiro transforma a justificada indignação com a iniciativa americana em pretexto para circundar o debate sobre a conexão entre os gastos públicos, as taxas de juros e a apreciação do real.
Uma falência do G-20 não serviria a nenhum dos atores de uma ordem econômica global que precisa da “mão visível” da política para conservar alguma estabilidade.
Mas o espetáculo da soberania, por sua própria dinâmica, pode desandar em guerra cambial e comercial, arrastando o mundo pela ladeira da depressão.
Hoje, só o FMI, que faz reuniões fechadas, propícias à separação entre a soberania e seu exercício espetacular, tem as condições políticas para exercer a mediação entre as potências do G-20.
Depois dos retumbantes fracassos dos anos 90, o FMI pode encontrar um novo papel útil nessa função de intermediação.
Se isso acontecer, o Brasil de Dilma Rousseff reconhecerá na antiga instituição de Bretton Woods um parceiro insubstituível.
Ironias da história.

terça-feira, 31 de março de 2009

Pesquisa Financial Times/Ipsos Mori esqueceu de pesquisar nossa Oposição...

O Financial Times está publicando o resultado de uma pesquisa do Ipsos Mori realizada em 22 países (23.000 entrevistados, pouco mais de 1.000 para cada país) sobre a confiança da população com a situação da economia global. Desde abril de 2007, quando surgiram os primeiros sinais de grandes problemas com as hipotecas americanas até novembro passado, essa confiança afundou, com tendência inversa apenas no Brasil. Os pessimistas superam os otimistas na base de 2 para 1. O FT fala de erros de comunicação dos governos e acrescenta observação de Gideon Skinner, diretor do Ipsos Mori: “Com o encontro do G20 esta semana em Londres, seria importante os governos comunicarem um sentido de esperança. Com os líderes políticos e do mundo dos negócios em pânico, não é surpreendente que a população também se sinta assim”. Como se pode comprovar, a estratégia da marola fez a diferença – para desespero da Oposição...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Crise internacional: a confiança começa a dar sinais de vida

Wall Street começou a sentir que o ritmo de queda da economia começou a diminuir, e por isso os índices começaram a subir nessa quinta-feira. Pelo menos é o que pensam analistas citados pelo New York Times em reportagem de hoje (Investors See a Glimmer and Shares Soar Worldwide). Não é que as notícias tenham deixado de ser ruins. É que não são tão ruins quanto se esperava. E, para os investidores, “menos ruim é bom demais” (less bad was good enough). Os economistas ainda alertam que a economia não vai ficar ok logo logo, mesmo com os números indicando que os consumidores não estão com a cabeça inteiramente negativa. Mas alguns já veem ligeira mudança na psicologia do investidor. Há, nos investidores, um desejo de acreditar, e eles já começam a reconsiderar os seus medos. Nick Bloom, economista da Stanford University, disse que “a volatilidade do Mercado de ações, embora ainda esteja alta, está em declínio” e ele acredita que a recuperação da atual crise pode ser razoavelmente rápida. Tudo depende, segundo ele, de medidas consistentes para aliviar o nó do crédito e restaurar a confiança.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A crise da Oposição

Na véspera da divulgação do PIB brasileiro no quarto trimestre do ano passado, ouvi o Presidente do PT, Ricardo Berzoini, dizer: “Amanhã deve ser divulgada a queda do PIB do quarto trimestre do ano passado. A mídia e a Oposição não vão falar de outra coisa. Claro que é um número ruim, mas, ainda assim, o índice geral é excelente e mostra um país bem preparado” (algo assim). A Oposição em crise, obviamente, vai tentar aproveitar tudo que pode dessa crise internacional. O DEM, através das inserções partidárias, do Ex-Blog de César Maia e de outros pronunciamentos, já está fazendo isso há algum tempo. O PSDB, por causa de dilemas táticos e divisões internas, ainda não conseguiu afinar o discurso anti-Lula através da crise, mas logo, logo, vai chegar lá, porque, por enquanto, não existe nada mais forte do ponto de vista político-eleitoral. O problema desse discurso é que ele pode se esvaziar logo ali, dobrando a esquina. A crise é ampla, intensa e difícil de controlar. Mas é difícil de acreditar que ela se prolongue o suficiente para derrotar Lula em 2010. Antes de radicalizar seu “discurso da crise”, tentando transformar marola em tsunami, talvez fosse o caso da Oposição ler atentamente o que disse ontem, na sua posse, o novo presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi:
“O país tem uma capacidade de crescimento e o mercado interno é a grande apólice de seguro que o Brasil tem para ultrapassar a crise mundial. A confiança do Bradesco no crescimento do país vem da mobilidade social que o país tem. A emergência de classes sociais vai ser uma boa perspectiva para o futuro do país”.
Para ele, o Brasil vai sofrer menos que o resto do mundo. E é o que pensa também o presidente do Conselho de Administração do banco, Lázaro de Mello Brandão, que disse que é muito cedo para se falar em recessão:
“Não estamos no pior dos mundos. Acho que no segundo semestre vamos inverter esse quadro de queda do PIB e o país voltará a crescer”.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Será que a Míriam Leitão está se sentindo bem?

Parece que já é normal ver a comentarista do Grupo Globo, Míriam Leitão, demonstrar raiva contra tudo que possa significar algo positivo do atual governo brasileiro. Notícia ruim, pra ela, é pura felicidade. Por isso estranhei esse trecho de sua coluna de hoje (é verdade que raramente leio) no Globo:
"Para quem se assustou com a queda da produção industrial e a diminuição de demanda e produção nos últimos dias, vale uma conversa com o economista John Welch, analista de economia global do Itaú. Filho de americano com brasileira, John passou os últimos tempos em bancos americanos e europeus.
— Estou feliz de estar no Brasil. O ambiente aqui é muito melhor. Na Europa e nos Estados Unidos a crise é muito maior. Principalmente na Europa, onde a crise não é apenas contágio como se imagina. Eles têm também um problema imobiliário grave, como a Inglaterra, a Irlanda e a Espanha, e demoraram muito mais que os EUA a agir contra a crise e, por isso, entraram em recessão primeiro — conta ele".
Deve existir uma explicação pra isso, mas não sei qual é. A jornalista da sala ao lado, que acaba de voltar de um tour pela Europa, berrou: "É verdade! O que esse John tá falando é pura verdade! Lá todo mundo só trata o Brasil como o país sem crise!"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

É oficial: os Estados Unidos estão há um ano em recessão.

O New York Times está divulgando o que todo mundo já sabia: os Estados Unidos estão mesmo em recessão, como acaba de declarar o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica (apartidário). Ele esclarece que "recessão é um declínio significativo na atividade econômica durante mais do que uns poucos meses, normalmente visível em produção, emprego, ganho real e outros indicadores" e que a atual recessão americana teve início em dezembro do ano passado. Eles acrescentam também uma definição bisonha de recessão (ou será que estou lendo mal?): “A recession begins when the economy reaches a peak of activity and ends when the economy reaches its trough.” Leiam a reportagem completa clicando aqui.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

César Maia e Keynes

Gostei também desse texto de César Maia, mas quero fazer comentários e certos reparos (em itálico-negrito):
LÁ SE FORAM OS NEOLIBERAIS E MONETARISTAS PELO MESMO RALO! E ESTÃO LEVANDO O GOVERNO LULA JUNTO!
1. A crise afogou primeiro os neoliberais, defensores de um mercado máximo e de um estado mínimo. Nunca os estados intervieram tanto, estatizaram tanto, maximizaram tanto suas ações. (Corretíssimo, claro.)
2. Agora com os 2 trilhões de dólares liberados pelos bancos centrais para compensar a quebradeira e a depressão possível, afogam-se também os monetaristas. Ou com esta emissão mundial cavalar a inflação volta intensamente, ou a tese básica dos monetaristas se foi pelo ralo também. (Não acredito que virá uma inflação intensa, nem que isso destrói a tese básica dos monetaristas; talvez um economista possa explicar melhor, mas essa emissão cavalar me parece que vai preencher o "vácuo" de um dinheiro que de fato não existia, era miragem.)
3. As medidas que vão sendo adotadas nem keynesianas são, pois não são direcionadas, são apenas reativas num jogo de bafo-bafo, atrás dos buracos que vão surgindo. (Ninguém em sã consciência pode "acusar" o bushianismo de keynesiano, mas ninguém pode negar que é a inspiração keynesiana que está por trás das ações mundiais no momento.)
4. No Brasil, quando numa reunião ministerial se adotam duas medidas sôfregas e risíveis, é porque o governo Lula está mais perdido que pingüim arrastado pelas correntes. Fazer propaganda para dar ânimo e estimular o consumo, sem comunicar a verdade, lembra Goebells. E dizer que o PAC é o gasto compensatório à crise, é o mesmo que dizer que o governo já conhecia a crise ano passado quando lançou os projetos relativos. Certamente não será um gasto compensatório, mesmo que ganhe agilidade. (Aqui, é puro embate político. Claro que é importante nesse momento a utilização de diversas formas de comunicação para estimular o consumo. E também é claro que o Governo Lula não está exatamente escondendo a verdade. Ocorre que já existem informações desanimadoras em excesso e estimulá-las não ajuda em nada, significaria simplesmente insistir no desânimo. Quanto ao PAC, é óbvio que ele não surgiu em função da crise, já que foi lançado há dois anos. Mas trata-se certamente de uma política de investimentos públicos que pode funcionar, sim, como gasto compensatório à crise.)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Camisinha: Coréia do Sul enfrenta a crise na cama

É na cama que o sulcoreano mede o tamanho da crise. Como por lá a educação dos filhos sai muito cara, assim que uma crise econômica aponta no horizonte, a população trata de evitar explosão demográfica e a venda de camisinha cai vertiginosamente. Se a moda pega, daqui a pouco o resto dp mundo vai ficar desabitado. Leia aqui a reportagem de Kim Junghyun para Reuters:
Com economia pior, venda de camisinhas dispara na Coréia do Sul
A desaceleração da economia sul-coreana levou a um aumento das vendas de preservativos, já que mais adultos estão esperando a situação financeira melhorar para ter filhos, disseram varejistas na terça-feira.
A grande rede de lojas de conveniência sul-coreana GS 25 disse que as vendas de camisinhas aumentaram em 19 por cento desde agosto em relação ao mesmo período do ano passado --as vendas aumentaram assim que a moeda e as ações sul-coreanas começaram a se desvalorizar.
"Mais casais planejam adiar a concepção devido à desaceleração econômica", disse a GS Retail, operadora da GS 25, em um comunicado.
As vendas aumentaram mais ainda em novembro, quando o mercado de ações teve sua pior fase em anos, segundo a operadora.
A Coréia do Sul tem a menor taxa de fertilidade do mundo desenvolvido. Especialistas dizem que uma das principais razões para isso é o alto custo da educação no país, que é altamente competitivo.
"As vendas de preservativos geralmente são à prova de recessão e tem pico de venda no Natal e nas festas de fim de ano", disse um representante da loja Condomania à Reuters.