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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

TUCANO PASSA, TUCANO VOA, E AS MANCHETES DO SEU TEMPO PUNGUEIAM NUMA BOA...



Fernando Henrique sentiu o golpe. Foi só Dilma lembrar que a roubalheira deveria ter sido investigada desde a década de 90 que ele subiu nas tamancas e levou o seu sorbonês ao nível mais baixo do momento. Insinuou que a Presidente é punguista!!! Não entendo mesmo esse Fernando Henrique – além de querer se passar por rei da cocada preta, faz de conta que não lembra dos seus desatinos de governo, tenta insinuar que hoje vivemos muito pior do que nos tempos dele. Para refrescar a memória, recuperamos algumas manchetes publicadas pelo Globo há exatamente 16 anos, quando Fernando Henrique – como Dilma – iniciava o seu segundo mandato. Hoje é 23 de fevereiro? Então vejamos o Globo do dia 23 de fevereiro de 1999: “ACM diz que intromissão do FMI fere a soberania”, “Inflação sobe para 2,64% após a desvalorização do real”, “Quem foge de problemas é traidor, diz FH”.
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Outras manchetes históricas: “FMI pedirá ao Governo novas medidas de ajuste fiscal” (dia 1º/ fev), “Juros vão a 39% e dólar cai pela primeira vez em 20 dias” (2/fev), “Mudança no comando do BC faz o dólar despencar” (3/fev), “Governo propõe congelar prestação em dólar até abril” (4/fev), “Revisão de acordo com o FMI prevê ajuste ainda mais duro” (5/fev), “Manifesto de governadores irrita FH e interrompe o diálogo” (6/fev), “Ajuste fiscal vai conter o aumento do mínimo” (7/fev), “Fundação Getúlio Vargas prevê inflação de 8% no primeiro trimestre” (10/fev). Tem essa bem atual: “Carnaval da crise lota Sapucaí de estrangeiros” (15/fev). E olha essas: “Crescimento da economia no Brasil é o pior desde 1992” (20/fev), “Queixas contra o sistema financeiro batem recorde” (21/fev). Temos também: “BC intervém de novo mas não consegue acalmar o mercado” (25/fev) e “ACM: Senado não permitirá que FMI decida onde cortar” (28/fev).
Como dá para perceber, as manchetes econômicas do tempo de Fernando Henrique não deixam nada a desejar. São arrasadoras. Com o agravante de que as notícias na área social nem existiam... Mas você agora vai perguntar: “E a corrupção? E a Petrobras?” Pois é, fiz a busca com essas palavras e surgiram 93 páginas para o ano de 1999. Mas não encontrei grande destaque no mês de fevereiro. As manchetes devem ter sido pungueadas...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Ocidente perdeu a autoconfiança

Bem interessante esse texto de Gideon Rachman (Financial Times). Dá uma boa discussão. Reproduzo, com tradução rápida.

O Ocidente perdeu a autoconfiança
(The west has lost intellectual self-confidence)
Gideon Rachman

Na primeira metade da minha vida, a política internacional foi definida pela Guerra Fria. A queda do Muro de Berlim encerrou aquela era e começou outra: a era da globalização. Agora, 25 anos depois, parece que estamos mais uma vez testemunhando o fim de uma era.
A sensação de que as coisas estão mudando é mais forte no campo das ideias. Nos últimos anos, o Ocidente perdeu a confiança na força dos três pilares em que o mundo pós-guerra fria foi construído: o mercado, a democracia e o poder americano.
Os sucessos dessas três ideias estavam, evidentemente, interligados. Terminada a guerra fria, era natural perguntar por que o sistema ocidental prevaleceu. A conclusão óbvia foi que os sistemas baseados no mercado e na democracia tinham simplesmente superado economias e  políticas sob comandos autoritários. Como dizia o ditado popular: "A liberdade funciona". Acontece que os EUA não eram apenas a única superpotência sobrevivente. Os Estados Unidos também gostavam de hegemonia intelectual.
Após a queda do Muro, houve um novo vigor a partir da expansão da economia de mercado e das políticas democráticas em todo o mundo. Era natural que o consenso de mercado livre defendido pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional viesse a ser conhecido como o "Consenso de Washington".
A política resultante do Consenso de Washington teve a crença de que a democracia acabaria por triunfar não apenas no leste da Europa, mas em todo o mundo. E nos anos 90, em países tão diversos como a África do Sul, o Chile e a Indonésia, de fato houve transições inteiramente bem sucedidas para a democracia. Por trás desses desenvolvimentos econômicos e políticos havia o fato de que os EUA eram incontestavelmente a superpotência global e o centro do sistema militar e estratégico em todo o mundo – da América Latina à Ásia Oriental, Oriente Médio e Europa.
De certo modo, esse é o mundo em que vivemos até hoje. No entanto, há dúvidas crescentes no Ocidente sobre a trindade de ideias em torno do qual o mundo pós-guerra fria foi construído: o mercado, a democracia e o poder americano. Em cada caso, houve fatos que minaram a certeza disso.
A fé nos mercados livres foi fortemente abalada pela crise financeira de 2008 e a subsequente Grande Recessão – e nunca se recuperou disso. Embora a depressão global que muitos temiam tenha sido evitada, a crença exuberante na capacidade dos mercados livres para elevar os padrões de vida em todo o mundo não voltou. Em grande parte do Ocidente, em vez disso, o debate econômico foi dominado pela discussão sobre a desigualdade de renda – com a Europa contribuindo com uma ansiedade extra em relação ao Euro e à alta taxa de desemprego. As estrelas dos mercados emergentes, como o Brasil e a Índia, perderam o charme, e até mesmo a China está reduzindo o ritmo. A crença de que existe uma fórmula baseada no mercado em que todos os formuladores de políticas sensatas podem se basear – um "consenso de Washington" – evaporou-se, para ser substituída por uma falta de consenso mundial.
Por sua vez, o “evangelismo democrático” foi abalado pelos horrores desencadeados pelas revoltas árabes. A onda de mudança revolucionária que atingiu o Oriente Médio em 2011, inicialmente, parecia o equivalente árabe da queda do Muro de Berlim. Sistemas autoritários foram caindo e novas democracias pareciam estar surgindo. Mas o fracasso da democracia em criar raízes em qualquer um dos países que sofreram revoluções – com a exceção da Tunísia – minou a fé no avanço inevitável da liberdade política.
Da mesma forma, é preocupante uma crescente descrença na capacidade das democracias tradicionais em garantir governos competentes. Nos EUA, o respeito pelo Congresso alcança seus níveis mais baixos. Em países europeus, como Itália e França, os sistemas políticos parecem incapazes de garantir reformas ou crescimento – e os eleitores estão flertando com partidos extremistas.
O terceiro pilar da globalização era o poder americano. Isso também parece menos confiável do que há uma década. Aqui, o fator principal foi a guerra do Iraque. Esse conflito, desencadeado pelo presidente George W. Bush, inicialmente parecia uma demonstração triunfante do poder americano com Saddam Hussein sendo varrido. Mas a incapacidade dos Estados Unidos para estabilizar o Iraque ou o Afeganistão, apesar de muitos anos de esforço, demonstraram que, apesar de os militares americanos poderem destruir um regime hostil em semanas, não podem garantir um pós-guerra estável. Mais de uma década depois da queda de Bagdá, os Estados Unidos estão de volta à guerra no Iraque – e no Oriente Médio inteiro há um violento estado de anarquia.
A ascensão da China também levantou questões sobre como é que o longo reinado dos Estados Unidos como "superpotência única" pode continuar. Em outubro, o FMI anunciou que – em termos de poder de compra – a China é hoje a maior economia do mundo. Ela ainda está a quilômetros de alcançar o nível americano na política internacional. Mas a capacidade e a vontade dos Estados Unidos de manter o seu papel de hegemonia global é uma questão em aberto.
Dito isso, vale lembrar que a queda do Muro de Berlim aconteceu num momento em que muitos nos EUA estavam obcecados pela ascensão do Japão. Isso serve como lembrete de quão rápido o mundo das ideias pode se transformar e as preocupações da moda podem desaparecer. Mas, enquanto esse início de ano mostra um renascimento da economia norte-americana, o renascimento da autoconfiança ocidental ainda parece bem distante.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Rubens Ricupero: arrogância X arrogância


O jurista, diplomata e Ministro da Fazenda do Plano Real, Rubens Ricupero, aproveitou esta segunda de Carnaval para escrever, na Folha, um artigo que parece procurar rasgar todas as fantasias. “Perdão pela Crise” é um texto muito bom celebrando “os 30 anos do início do Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento da Unctad, um dos raríssimos estudos que advertiram sobre a ameaça que se avizinhava”. Mas ele acusa os todo-poderosos da economia mundial de menosprezarem a advertência sobre a crise econômico-financeira que explodiu em 2008. “Os sabichões, alguns ganhadores do Nobel, seguros da infalibilidade de seus cálculos sobre o sistema financeiro, haviam tomado seus desejos pela realidade e tinham sido culpados de  hubris, a soberba que desafia os deuses. Em relação às advertências prevalecera naqueles anos uma psicologia da negação”, escreve ele, que também disse: “Tão logo passem os piores efeitos na economia, os sabichões voltarão com a arrogância de sempre”. Tudo bem, se Ricupero ele próprio não tivesse se tornado célebre por uma frase bem arrogante que vazou dos microfones da Globo para todo o Brasil, em setembro de 94, em plena campanha pela eleição de Fernando Henrique:  "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde".
Arrogâncias à parte, vale a pena ler o texto completo.
Perdão pela crise
Rubens Ricupero

Tão logo passem os piores efeitos na economia, os sabichões voltarão com a arrogância de sempre
Noventa e quatro vezes pediu o papa João Paulo 2º perdão pelos crimes cometidos pelos cristãos ao longo de 2.000 anos. Seria demais esperar que ao menos uma vez as organizações internacionais e os economistas convencionais admitam a parte de responsabilidade que lhes cabe na crise financeira em que mergulharam o mundo?
Quando for publicada esta coluna, estarei iniciando desse modo o discurso de abertura no Palais des Nations em Genebra da reunião para celebrar os 30 anos do início do Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento da Unctad, um dos raríssimos estudos que advertiram sobre a ameaça que se avizinhava.
Em visita à London School of Economics, em 2008, a rainha Elizabeth 2ª fez a pergunta inocente que estava em todos os lábios: "Como foi que ninguém havia previsto a crise?". Após meses de silêncio embaraçado, um grupo de economistas britânicos se desculpou: "Majestade, o fracasso em prever o momento, a extensão e a gravidade da crise e em evitá-la (...) foi, sobretudo, uma falha da imaginação coletiva de muitas pessoas brilhantes (...) em entender os riscos que corria o sistema como um todo".
Os sabichões, alguns ganhadores do Nobel, seguros da infalibilidade de seus cálculos sobre o sistema financeiro, haviam tomado seus desejos pela realidade e tinham sido culpados de "hubris", a soberba que desafia os deuses. Em relação às advertências prevalecera naqueles anos uma "psicologia da negação".
Essa é a verdadeira explicação para a imprevisão e as suas devastadoras consequências. Nem todos estiveram cegos para os perigos da orgia de liberalização financeira. A Unctad, no começo dos anos 1990, em pleno auge do triunfalismo da globalização como ideologia (para distingui-la da versão autêntica e histórica), já previa que a década se caracterizaria pela frequência, intensidade e caráter destrutivo das crises financeiras e monetárias.
Poucos prestaram atenção. No Brasil, os mestres do "saber superficial, pretensioso e tendencioso" (mas de grande prestígio em Washington e Davos), julgavam a Unctad um dinossauro em extinção. Ao contrário do Fundo Monetário Internacional, que na véspera da crise asiática de 1997 proclamava em seu relatório: "O futuro da economia mundial é cor-de-rosa"! Ou que, um ano após o início da atual crise, insistia que tudo não passava de perturbação passageira.
Não é o feio pecado da "alegria do profeta" que me leva a dizer tais coisas. É que, tão logo passem os piores efeitos da crise, esse pessoal, hoje de rabo entre as pernas, há de voltar com a arrogância de sempre. Basta atentar na teimosia do FMI em só aceitar controles de capital como último remédio, e não como arma normal do arsenal para evitar crises.
 Não foi a falha de imaginação ou inteligência a culpada da imprevisão. A causa é a ideologia, o disfarce de interesses de classe e setores sob roupagem científica. Os que dão as cartas no Departamento do Tesouro e equivalentes na Europa são os mesmos homens do setor financeiro que prepararam a crise. E o único arrependimento que deles se pode esperar é o daqueles que choram o tempo todo no trajeto para depositar no banco seus bônus milionários.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Tighten the belt – o mercado sumiu!


O G-20 encerrou o último show e deixou seu recado: cada um por si e Deus contra todos. No caso, “Deus” são os Estados Unidos, com auxílio do dragão chinês. A desvalorização do dólar, a enxurrada de dólar especulativo, a crise europeia e o freio na compra de commodities pela China são as principais ameaças do momento. O Brasil – como todos os emergentes – obviamente serão afetados. Felizmente, ainda temos a nosso favor um excelente mercado interno (na mira de todos), economia bem fundamentada, bom controle da inflação e temos energia. Além de medidas defensivas temos que aumentar a ofensiva em busca de novos mercados. Não basta apertar o cinto – é preciso também usá-lo para abrir caminho.
Abaixo, artigo de Delfim Netto publicado hoje na Folha:

Amarrem os cintos!

Antonio Delfim Netto

O encontro do G20 em Seul, na Coreia do Sul, foi uma reunião lítero-musical de qualidade duvidosa. O seu resultado, pífio. A "solução prática" foi a cínica entrega da questão aos cuidados do FMI.
No ano que vem, ele deve apresentar um programa factível que distribua equanimente os custos do ajuste. Em poucas palavras e sem nhe-nhe-nhem: cada um que volte para casa, trate de cuidar dos seus interesses e ponha as barbas de molho.
Há uma grande dificuldade em dar peso adequado ao problema dos EUA e às malfeitorias da China, o que provoca ataques cruzados.
Os EUA meteram-se numa grave crise e, desde 2007, destruíram 10 milhões de empregos. Para retornar à taxa de desemprego aceitável de 5%, precisam reconstruí-los. Devido ao crescimento da população, para manter apenas o inaceitável nível atual de desemprego, de 9,6%, precisam criar 1,5 milhão de empregos por ano, ou seja, 125 mil por mês.
Mesmo que haja uma rápida recuperação e a economia possa absorver 600 mil empregos por mês (que é o dobro da média dos anos 90!), serão precisos dois anos antes que se volte ao nível de 2007.
Não se trata de um problema de liquidez, mas de confiança: as empresas não financeiras têm em caixa US$ 3 trilhões e não investem a não ser em tecnologias poupadoras de mão de obra. As instituições financeiras têm excesso de reserva de US$ 1 trilhão e não emprestam porque não há tomadores (o nível de endividamento das famílias é da ordem de 100% do PIB).
O único tomador de recursos é o próprio Tesouro dos EUA, cujo endividamento só poderá ser sustentado com a volta ao crescimento, que, por sua vez, depende do investimento do setor privado e do consumo das famílias.
Os EUA pagam agora o preço de sua miopia. Aumentaram o emprego nas finanças e na habitação enquanto transferiam alegremente (graças à valorização do dólar) para a China suas fábricas e seus empregos industriais e para a Índia os do setor de serviços.
Com a explosão das duas "bolhas", no setor financeiro e no imobiliário, o emprego no primeiro talvez nunca se recupere, e o do segundo demorará muito tempo. Uma coisa é certa. Se a demanda interna nos EUA não se recuperou, porque o governo foi incapaz de restabelecer a confiança no circuito econômico interno, só lhe resta a saída das exportações e a substituição do petróleo importado por biocombustíveis. Ele vai persegui-la com a desvalorização do dólar.
Devemos "amarrar os cintos" e aguentar a competição que vem por aí! Parece que com a taxa de câmbio de R$ 1,60 já podemos importar o etanol de milho dos EUA...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Recado do G-20: Bretton Woods virou “Woodstock”


Em 44, quando os países vencedores da Segunda Guerra resolveram se reunir para botar ordem na economia mundial, os Estados Unidos eram literalmente os donos do pedaço. Em situação diferenciadamente robusta, eles davam as cartas. Nas Conferências de Bretton Woods, como ficou conhecido o encontro, o ouro, representado pelo dólar, passou a ser “moeda padrão”. No Governo Nixon, diante de dificuldades na economia, foi interrompida a paridade ouro-dólar. Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no comando, até que a crise do Lehman Brothers embaralhou tudo. Os herdeiros de Bretton Woods ficaram parecendo herdeiros de Woodstock – o mundo ficou "doidão". Os Estados Unidos ficaram profundamente abalados pelas dificuldades internacionais que eles ajudaram a criar. E agora está praticamente impossível manter o dólar como referência internacional. Principalmente após a enxurrada de 600 bilhões de dólares com que Obama inundou o mundo. O dever do G-20 que se reúne a partir de hoje é transformar Seul em “Seul Woods”, criar uma nova ordem para as relações entre as economias mundiais. É muito saudável a proposta de Mantega de criar uma cesta de moedas para substituir o dólar como moeda-referência. Nessa cesta, estariam dólares, euros, ienes, libras (que já participam do FMI), e também o real e o Yuan. Vai dar muito bate-boca nesse “Seul Woods”, mas a verdade é que os Estados Unidos não têm mais “condições de ser o país com a moeda de reserva universal”. O próprio Capitalismo aplaudirá essa mudança. E o mundo ficará menos “pirado”.
Leiam esse artigo do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli publicado hoje no Globo:

G-20, o espetáculo da soberania
Demétrio Magnoli
Aquilo que o ministro Guido Mantega define como guerra cambial é a paisagem superficial da longa crise do sistema de Bretton Woods. O desequilíbrio entre os superávits chineses e os déficits americanos forma o relevo destacado nessa paisagem, mas não a esgota nem a explica. A crise de fundo tem uma dimensão econômica mas uma raiz geopolítica. No fim das contas, as engrenagens institucionais da ordem econômica global parecem emperradas, pela primeira vez desde o pósguerra.
O G-20, palco da estreia de Dilma Rousseff na cena internacional, não é a ferramenta milagrosa de solução da crise. Antes, figura como uma expressão singular do impasse evidenciado desde a quebra do Lehman Brothers.
Na sua versão original, o edifício de Bretton Woods praticamente excluía a necessidade de interferência política no sistema monetário. O dólar refletia o ouro, que lhe servia de lastro nominal, e uma coleção de moedas orbitava em torno do dólar segundo um mecanismo de paridades quase fixas. As fundações do edifício estavam assentadas na rocha da escassez de dólares, num tempo em que os EUA eram os credores do mundo. O arranjo promoveu as três décadas gloriosas de crescimento acelerado das economias de mercado. Voluntariamente, para salvar o capitalismo, os EUA ajudaram a criar centros independentes de poder econômico, sacrificando no caminho a posição de hegemonia absoluta adquirida durante a guerra.
Quando a escassez de dólares desapareceu, premido pelo financiamento da Guerra do Vietnã, Richard Nixon levantou a âncora da paridade com o ouro. Bretton Woods 2 não emanou de uma conferência, mas de um gesto unilateral do gerente do sistema: a retomada da prerrogativa soberana de imprimir moeda. No novo ambiente de flutuação cambial, a interferência política dos principais atores tornouse um imperativo. O G-5 e o G-7, seu sucessor, nasceram como respostas à necessidade de tecer consensos em torno da governança econômica global.
Eles operaram como um clube seleto, que compartilhava uma visão de mundo similar e tomava decisões informais em reuniões fechadas, protegidas do assédio da imprensa.
Desde 1971, os EUA agem de olho nas suas prioridades nacionais, dividindo com o resto do sistema internacional o custo das políticas domésticas.
A desvalorização de Nixon difundiu para o mundo as pressões inflacionárias geradas no interior da economia americana. Dez anos depois, a “revolução econômica” de Ronald Reagan provocou a elevação dos juros globais, o desvio da liquidez mundial na direção de Wall Street e uma forte apreciação do dólar. Poucos anos mais tarde, tornou-se inadiável uma brusca correção de rumo, com a depreciação do dólar frente ao marco e ao yen, algo que demandava a aquiescência da Alemanha e do Japão. Washington obteve o que desejava no Acordo do Plaza de 1985, uma prova indiscutível da eficácia política do clube das potências.
Há dois anos, os EUA buscam uma reedição do Acordo do Plaza, sob a forma de um pacto de limitação de superávits ao máximo de 4% dos PIBs nacionais, o que implicaria forte apreciação do renminbi chinês. A proposta faz sentido, mas não decola, pela conjunção de dois motivos. Um: a China não admite reproduzir a função desempenhada pelo Japão há um quarto de século.
Dois: o G-20 não é um G7 ampliado.
Os chineses temem repetir a trajetória do Japão depois do Plaza, quando o influxo de capitais coagulou-se em bolhas especulativas nos mercados de imóveis e ações, que explodiram na crise financeira de 1990 e redundaram numa estagnação de quase dez anos. O consenso interno em torno do renminbi depreciado estendese do núcleo dirigente do Partido Comunista, que resiste a conferir direitos econômicos à população, até as empresas transnacionais estabelecidas no país, que funcionam como plataformas de exportações.
O G-20, consolidado após a quebra do Lehman Brothers, reflete o declínio relativo dos EUA e a multiplicação dos centros de poder econômico gerados pela globalização. Ele não é um clube, mas um fórum. Seus integrantes, especialmente a China, não compartilham a visão de mundo que moldou o sistema de Bretton Woods. Suas reuniões, escancaradas ao escrutínio público, são teatros do espetáculo da soberania. Hoje, em Seul, chineses, alemães, brasileiros e sul-africanos erguerão suas vozes para acusar os EUA. Todos eles estarão de olhos postos nas manchetes dos telejornais e das publicações impressas.
A decisão do Federal Reserve de inundar o mercado com uma torrente de US$ 600 bilhões assinala um ponto de inflexão. Os EUA cansaram de esperar e resolveram mudar unilateralmente o cenário mundial. A China retrucou num tom incomum, anunciando que erguerá uma “muralha de fogo” contra o ingresso de capitais especulativos.
A guerra cambial assume a configuração de um confronto político e ameaça converter o G-20 em praça de combates. Em meio aos disparos, o governo brasileiro transforma a justificada indignação com a iniciativa americana em pretexto para circundar o debate sobre a conexão entre os gastos públicos, as taxas de juros e a apreciação do real.
Uma falência do G-20 não serviria a nenhum dos atores de uma ordem econômica global que precisa da “mão visível” da política para conservar alguma estabilidade.
Mas o espetáculo da soberania, por sua própria dinâmica, pode desandar em guerra cambial e comercial, arrastando o mundo pela ladeira da depressão.
Hoje, só o FMI, que faz reuniões fechadas, propícias à separação entre a soberania e seu exercício espetacular, tem as condições políticas para exercer a mediação entre as potências do G-20.
Depois dos retumbantes fracassos dos anos 90, o FMI pode encontrar um novo papel útil nessa função de intermediação.
Se isso acontecer, o Brasil de Dilma Rousseff reconhecerá na antiga instituição de Bretton Woods um parceiro insubstituível.
Ironias da história.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O jornal russo Pravda fez o oposto do que nossa mídia faz: rasgou-se em elogios ao Brasil de Lula


Com o título de “Brasil: o gigante desperta” (na versão em inglês “Brazil: the giant awakens”), o russo Pravda publicou nessa quinta um artigo destacando as grandes conquistas econômicas, sociais e diplomáticas do Brasil de Lula. “Apesar de seus imensos recursos naturais, de seu amplo mercado interno e um sólido sistema de educação pública, esse colosso latino americano patinava em um mar de má gestão e incompetência – até que chegou Lula”, diz o texto de Timothy Bancroft-Hinchey.
O artigo fala da dívida com o FMI de 30 bilhões de dólares herdada de Fernando Henrique e que foi quitada bem antes do vencimento. Fala que o Brasil é a locomotiva da economia latinoamericana, que tornou-se personagem-chave no mundo diplomático e que tem influência crescente em vários mercados globais. Fala também do PAC, da nova classe média, da Copa 2014, da Rio 2016, e da contribuição de Lula por um mundo multipolar, valorizando o BRIC e o G20. Destaca que estão sendo criadas as condições para que a economia brasileira supere (até 2036) as da Itália, da France e do Reino Unido. Ah, sim, e fala do sucesso brasileiro no acordo de Teerã.
Quem poderia imaginar que um dia seria preciso ler jornal russo para termos boas notícias sobre o Brasil...

domingo, 1 de março de 2009

Economista alemão repete Lula

O Globo de hoje apresenta boa entrevista com Reinhard H. Schmidt, professor de política financeira da Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt, sobre a crise global. A correspondente, Graça Magalhães-Ruether, em certo momento pergunta: “Os países emergentes, como China, Índia e Brasil, tiveram desaceleração em consequência da crise. O senhor acha que esses países terão mais problema em superar a crise?” Vejam se a resposta de Schmidt não lembra (para desespero da Oposição, principalmente Fernando Henrique) as palavras de Lula?
O mais importante é que, pela primeira vez, esses países vão a uma reunião internacional como atores e não com um papel passivo de aceitar as regras ditadas pelo Primeiro Mundo e pelas instituições financeiras. E os países que antigamente sofriam com as regras impostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) podem agora, de cabeça erguida, dizer: “Não criem regras que vocês mesmos não são capazes de cumprir”.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Meninos, eu vi: a dívida externa não é mais impagável!

Em janeiro/fevereiro de 75, o Grupo dos 24, formado por países-membros do FMI, aprovou o Plano Kissinger-Simon, que em tese seria "um esquema de segurança para ser acionado em casos de emergência nos países industrializados". Era baseado em um fundo de 25 bilhões de dólares (administrado pela OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), formado em sua maior parte pelos depósitos de países produtores de petróleo em bancos ocidentais - os famosos petrodólares. Nessa época, o então Ministro da Fazenda do Brasil Mário Henrique Simonsen reivindicava o direito de nosso país ter uma fatia desse bolo. Mas, de acordo com algumas cláusulas, para participar dos empréstimos, um país precisaria primeiro comprovar déficit global no balanço de pagamentos e que não tivesse reservas suficientes. O Brasil não se enquadrava nesse perfil, já que, apesar de ter déficit de 5 bilhões de dólares, tinha reservas mais ou menos iguais. Claro que as cláusulas iniciais desapareceram logo. Os donos internacionais do dinheiro estavam mais interessados em colocar os petrodólares para circular. Se um país não tivesse dívida externa, que tratasse de ter! E foi o que aconteceu com o Brasil, que mergulhou em uma dívida externa monumental, considerada durante décadas como impagável e principal responsável por uma inflação brutal que solapava nossas energias. Ontem o Governo Lula teve o prazer de anunciar que a dívida não era mais impagável. E mais: com os juros que estão sendo praticados e com nossas reservas crescentes, é melhor continuar fazendo essa "dívida que não é mais dívida". Isso contado 6 anos atrás ninguém ia acreditar.