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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Fernando Henrique quer avançar com um passo à frente e dois pra trás.




Fernando Henrique é esperto. Bem formado e informado, usa as palavras astutamente na busca de vender o seu pássaro, digo, o seu peixe. No artigo que publicou domingo, “Inovar na política”, tenta convencer que inovar significa retroceder ao passado tucano. Aponta suas penas em várias direções, na esperança de provar que os tucanos não voam para trás. E nesse afã acaba, com todo o respeito, cometendo algumas papagaiadas.
Diz que “na última década renasceu no Brasil a ilusão de que tudo seria feito e ‘salvo’ pelo Estado”. Quem afirmou algo assim?
Está cabendo ao Estado fazer o que é preciso fazer e que não era feito (ou não era bem feito) nem pelo Estado nem pelo não-Estado. Alguém tinha que fazer. E os governos dos últimos 12 anos fizeram o possível e o impossível para preencher lacunas deixadas. Conseguiram alguns sucessos importantes. Por exemplo, quando Fernando Henrique deixou o governo, o analfabetismo era 11,9% – em 2013 (os dados da última administração publicados pelo Globo no dia 1º são praticamente todos de 2013) tinha caído para 8,5%. A mortalidade infantil era de 26,04% – caiu para 15,02%. A população com acesso à rede de esgoto era 44% – subiu para 55,9%. A inflação estava em 12,53% – caiu para 6,38%. A taxa de desemprego, 9,1% – caiu para 6,5%. O PIB per capita era R$ 8.382,24 – subiu para R$ 24.065,00. O investimento estrangeiro direto era de US$ 16,6 bilhões – subiu para US$ 60 bilhões. O salário mínimo era de 200 reais – chegou ao final de 2014 a 724 reais (em 2015 já está em 788 reais). Isso sem falar do Minha Casa Minha Vida, que antes não existia nada similar. Você vai perguntar agora – e o crescimento econômico? Realmente o crescimento econômico sobre o PIB está longe do desejado – era de 2,7% em 2002 e a previsão para 2014 é de 0,14%. E houve outros problemas sérios. Corrupção e reação neoliberal muito forte (no Brasil e no mundo). Mas nada justifica bater asas rumo ao passado, a não ser a decisão pura e simples de aninhar-se na ideologia tucana. Nesse ponto, Fernando Henrique manda um dos seus tijolaços (perdão, Brizola; desculpa, Fernando Brito) para acariciar o neoliberalismo: “Quem sabe superaremos o primitivismo político de considerar como 'neoliberal' tudo o que é necessário fazer para que as finanças públicas e a administração funcionem bem, respeitando suas possibilidades reais, mais ou menos elásticas conforme as circunstâncias, mas nunca infinitas, propiciando um clima favorável para que as pessoas, as organizações e as empresas possam expandir suas potencialidades”. Ora, Fernando Henrique, não tergiverse. A questão é de foco. Hoje, o foco está direcionado ao campo social, uma busca incessante para atender em primeiro lugar à população mais pobre. Já o “mercado”, por pior que esteja, vai bem, obrigado. Não precisa exatamente ser focado. Ao contrário, deveria apoiar (desculpe a ingenuidade...) o enfoque predominante. O seu governo baixou a crista, tirou o sapato, diante do Consenso de Washington, o laissez-faire econômico que levou à crise de 2008. Fica até engraçado quando lemos: “Sendo progressista, portanto, 'de esquerda', desejo que se consiga alcançar ‘consensos’ (aspas minhas) que melhorem o sistema político partidário, dando-lhe certa coerência ideológica”. Que Fernando Henrique me desculpe, mas não há consenso em considerá-lo “progressista” e/ou “de esquerda”. No passado remoto, pode ser; mais recentemente, o passado condena. Quando apresenta propostas para a reforma política, até que inicialmente parece estar no caminho certo: “Para dar passos iniciais bastam três emendas à Constituição: voltar a aprovar a 'cláusula de barreira' (...); proibir as coligações entre partidos nas eleições proporcionais; e vedar o uso de marketing político nas TVs. A TV seria usada apenas para debates entre candidatos ou para suas falas diretas à audiência”. Aqui, no final, há certo despreparo, já que tanto “debates entre candidatos” quanto “falas diretas à audiência” são também partes do marketing político. Para controlar os altos custos de campanhas (e torná-las mais democráticas) basta o fim do financiamento empresarial . Os partidos terão com isso que reduzir radicalmente seus custos de produção (a veiculação já é gratuita, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, que é paga e com efeitos negativos para a democracia).
Logo em seguida, Fernando Henrique defende o voto distrital, hoje criticado em países que adotam (vale consultar o Fair Vote americano). Mas todo o seu blábláblá tem o objetivo único de tentar vender para o seu bando tucano a diferença que ele faz entre o PSDB e o PT. Tenta parecer agradável, quando diz que os dois partidos são “primos”. Mas logo em seguida enche o texto de bicadas. Segundo ele, o PSDB seria mais contemporâneo, porque “reconhece explicitamente a necessidade de dar ao mercado o papel que lhe corresponde nas sociedades contemporâneas, da mesma forma que não atribui ao Estado todas as virtudes”. Ora, isso o PT também faz. A questão é, primeiro, definir exatamente que papel do mercado é esse e, segundo, não atribuir ao mercado todas as virtudes. Com os pés firmes no chão, fico com a certeza de que voar é com os pássaros. Mas voar pra trás é com os tucanos de Fernando Henrique.

domingo, 15 de agosto de 2010

Sapato Alto X Perna de Pau




A corrida presidencial chega a sua etapa conclusiva, a do Horário Eleitoral Gratuito, com a candidata de Lula, Dilma Roussef, disparando na frente (como já era esperado por este Blog). Começa agora o velho discurso do “não podemos ter sapato alto”. É sempre bom pensar assim, quando sapato alto significa arrogância (como foi o caso de FHC x Jânio, em 85) ou estímulo para baixar a guarda. Por outro lado, não podemos esquecer que o clima de “já ganhou” nem sempre é ruim. Ninguém gosta de perder o voto e grande parte do eleitorado procura votar em quem vai ganhar. É importantíssimo mostrar a cara vitoriosa, principalmente nos primeiros dias de programa na TV e também no final, para garantir o chamado “voto útil”. Tendo Lula ao lado isso vai ser tarefa fácil.
Para quem corre pela Oposição a coisa está cada vez mais complicada – está em queda livre, não pode nem bater nem apoiar Lula, está sem propostas arrebatadoras e o candidato Serra mostrou-se um verdadeiro perna de pau. Hoje mesmo o Vice Governador Pezão, do Rio de Janeiro, me ligou e comentamos o “desempenho” de Serra comendo churrasco com o povão em uma laje na Baixada Fluminense. Cheio de dedos, parecendo um extraterrestre. Não é à toa que a Folha de hoje comenta que Serra “caiu nos três Estados que ele mais visitou nas últimas três semanas, segundo o último Datafolha”. Entre as duas últimas pesquisas, “de 23 de julho até anteontem, ele teve pelo menos sete agendas de campanha em São Paulo, cinco em Minas Gerais e três no Rio de Janeiro (...) os maiores colégios eleitorais do país”. Em São Paulo, sua principal base eleitoral, caiu de 44% para 41%. No Rio, terra do seu índio, caiu de 31% para 25%. Em Minas, terra de Aécio, caiu de 38% para 34% (e Anastasia não quer vê-lo por perto). No único lugar que não visitou nesse período, o Distrito Federal, foi onde não caiu – continua com os mesmos 27%...
Onde Dilma pisa com segurança, Serra dá no pé. Tudo leva a crer que será uma vitória no primeiro turno, com muitos corpos à frente.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

LatinPanel: um Brasil como nunca se viu

O estudo feito pela LatinPanel e divulgado pelo Estadão (reportagem de Márcia Chiara) deixa bem clara a diferença entre o Governo Lula e os governos anteriores: “Pobres já gastam 5% mais que ricos”. Alguém conseguiria imaginar essa manchete no Governo Fernando Henrique, por exemplo? A opção pelos mais pobres e por uma política mais nacionalista é a marca registrada do Governo Lula, e quero ver alguém ter marca que supere essa nos próximos anos. O estudo da LatinPanel mostra avanço do consumo das classes D e E do Norte e Nordeste em relação às classes A e B do Sudeste. “Nos últimos 12 meses até setembro deste ano, as classes D e E das regiões Norte e Nordeste do País gastaram R$ 8,8 bilhões com uma cesta de alimentos, produtos de higiene pessoal e limpeza. Essa cifra é 5% maior que a desembolsada pelas camadas A e B (R$ 8,4 bilhões) que vivem no Sudeste do País no mesmo período com esses itens”, revela o estudo. “Inflação em baixa, que dá mais poder de compra ao consumidor, ganhos de renda dos trabalhadores que recebem salário mínimo e o fato de a crise não ter afetado as camadas de menor renda explicam o avanço do consumo dos bens não duráveis pelos mais pobres”, segundo Christine Pereira, diretora da empresa e responsável pela pesquisa. Os dados da pesquisa foram obtidos a partir de visitas semanais a 8,2 mil domicílios para auditar o consumo de 65 categorias de produtos. Diz a reportagem que, para o economista chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, “boa parte do avanço do consumo dos mais pobres se deve ao aumento real do salário mínimo de 5,7% concedido neste ano – e o salário mínimo pesa muito nas regiões Norte e Nordeste”. Se a coisa continuar assim, para desespero de gregos e tucanos, teremos que alterar a famosa frase de Maria Antonieta para: “Se não têm brioches, que comam pão”. Leia mais clicando aqui.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

The Wall Street Journal diz como o FMI deve funcionar: "É nós contra eles"

The Wall Street Journal abriu o jogo e abriu o bico: os países emergentes que se danem. O editorial do jornalão dos poderosos (Debtors to the Front) não entende por que os países emergentes devem ter mais poder de decisão dentro do FMI. Ele não entende por que "devedores" devem decidir como os "credores". E ainda faz questão de distinguir os "credores de longo prazo" dos "credores de curto prazo", onde se incluiria o Brasil, um dos líderes dessa verdadeira revolução (dentro dos conceitos do WSJ). O editorial acha que os "credores" deveriam ter deixado claro que aquilo não é uma democracia e que para ter mais direito a voto é preciso botar mais dinheiro no fundo, o que não foi feito. O board do FMI aprovou transferir mais 5% de poder de voto para os emergentes - para desespero do WSJ, que propõe que os constribuintes americanos parem de contribuir com o fundo. O que o jornalão esconde é que foram esses "credores" todo-poderosos que inventaram o Consenso de Washington (que acabou tendo o consenso do "nosso" FHC e sua trupe...), que levaram o mundo a uma crise sem precedentes e que só estão se safando agora graças a esses países emergentes que eles amaldiçoam. Com todo o respeito aos editorilistas do WSJ, esse não é o momento para "eles" (no casos os chamados "países credores") radicalizarem. Se não dialogarem com "nós", "eles" não têm muito futuro.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Newsweek sobre o Brasil de Lula: “The crafty superpower”

Bem interessante esse texto da Newsweek sobre o novo Brasil, projetando-o entre os BRICs por estar se tornando uma “superpotência habilidosa”. A política externa do Governo Lula ganha destaque especial, inclusive em comparação com a de Fernando Henrique, que teria iniciado esse processo. Nas palavras de Donna Hrinak, ex-embaixadora americana em vários países latinoamericanos, “"Lula put Cardoso's foreign policy on steroids”, ou algo como “Lula hormonizou (ou anabolizou”) a política externa de Fernando Henrique”. Nenhum governo foi tão determinado quanto o de Lula em ampliar a marca do Brasil no campo internacional. Ao contrário dos outros BRICs, o Brasil não precisa de grande investimento militar. Tem mantido congelado os gastos militares em cerca de 1,5% do PIB, um quarto dos gasto das China e cerca de 60% do que gastam Rússia e Índia. Na América Latina, o destaque é igual. Em vez de tropas, prefere diplomatas. A revista cita frase de Lula para Chávez “Ô, meu Deus, pra que você quer arma?” e ainda dá o exemplo do Haiti: “quando a força de paz da Onu entrou em choque com as gangues haitianas, os brasileiros não procuraram aumento da tropa, mas, sim, os jogadores Ronaldinho, Robinho e Ronaldo, que fizeram um jogo amistoso na zona de guerra – e agora os jovens haitianos se enfrentam com chuteira, não com Kalashnikovs”.

domingo, 5 de abril de 2009

Lula, afinal?

A coluna de Fernando Henrique neste domingo é bem interessante. Trata da reunião do G-20 que está “sendo saudada com alívio”. Diz ele que foi preciso “uma crise dessa gravidade para despertá-los para a natureza da questão: há um descompasso no plano mundial entre as formas institucionais e o mercado”. Fernando Henrique diz em seguida: “Disso há muito se sabia”. E completa a abertura do texto com “não faltaram vozes isoladas a clamar por uma reordenação global, não só do mercado, mas das instituições financeiras e da sua regulação”. Apesar da clara tentativa de se inserir de qualquer maneira nesse novo momento de superação da crise, o texto é bom e até bem humorado, quando ele acrescenta um “sic” após a expressão “talibãs moderados” de Hillary Clinton – ironia de quem sabe muito bem que é contraditório associar “moderação” com “talibãs” (fundamentalistas islamitas). O problema do texto é que ele não se refere em momento algum ao grande vitorioso desse encontro do G-20 em Londres. Mas, pelo título que ele escolheu (“Luz, afinal?”), imaginamos que a figura sorridente de Lula ficou-lhe bruxuleando o tempo todo. Veja o texto completo:
Luz, afinal?
Diante da crise, o revigoramento da ordem global começa a ganhar fôlego
A reunião do G-20, em Londres, está sendo saudada com alívio. Finalmente os líderes mundiais começam a acertar o passo. Foi preciso uma crise dessa gravidade para despertá-los para a natureza da questão: há um descompasso no plano mundial entre as formas institucionais e o mercado. Disso há muito se sabia. Nos anos 90, quando a globalização financeira começara a se fazer sentir com força, o problema já se colocava: a falta de regas internacionais mais objetivas complicava a situação de vários países que, eventualmente, nada tinham a ver com o estopim da crise. Desde então, não faltaram vozes isoladas a clamar por uma reordenação global, não só do mercado, mas das instituições financeiras e da sua regulação. Clamava-se, ainda, por uma reordenação comercial (vejamse os esforços de Doha), pela reordenação das políticas de meio ambiente (os acordos de Kioto), pela reordenação bélica (com o empenho nos tratados de não proliferação atômica ou no controle dos mísseis), pela reforma do Conselho de Segurança e assim por diante. Mesmo os esforços globais de redução da pobreza e de melhoria da qualidade de vida foram objeto dos acordos que resultaram nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados pela ONU em 2000. Tudo isso caminhou a passos de tartaruga porque não é fácil complementar as ações que se devem dar no plano nacional com as que são de outra natureza e dependem de regras e decisões globais. Desde Kant se sabe que a paz universal requer um direito universal. Por que as finanças globalizadas escapariam dessa condição? Mas também se sabe que o fracasso da Liga das Nações, se não foi responsável pela Segunda Grande Guerra, abriu espaço para que a crise de 1929 despedaçasse o mundo em isolacionismos protecionistas e, no final, em guerras de conquista. Foi pela visão generosa de um mundo de paz e prosperidade que Roosevelt — como se vê em sua correspondência com Stalin durante a guerra — cedeu tanto aos soviéticos. Queria construir a ONU mantendo a União Soviética comprometida com a ordem global. Apesar da Guerra Fria e de tantos avatares mais, a ONU evitou uma guerra mundial. Hoje, diante da impossibilidade de os Estados nacionais controlarem a crise financeira, o revigoramento da ordem global começa a ganhar fôlego. Até aqui, com a impotência das instituições de Bretton Woods para enfrentar a maré de papéis tóxicos espalhados pelo mundo, o que vimos foi o Banco Central dos Estados Unidos e o Tesouro americano espalhando recursos aos trilhões de dólares, tentando irrigar o sistema bancário. Os resultados, entretanto, foram magros até agora. O mercado permanece amortecido pelo temor dos bancos em fazer novos empréstimos e pela preferência dos eventuais tomadores em se resguardarem. Só deseja empréstimo quem já está quebrado. Os europeus, ingleses à frente, mais prudentes, injetaram capital nos bancos e assumiram parcialmente o seu controle. Consequentemente, surgiu um cisma que poderia paralisar as decisões em Londres: de um lado, a Europa tratando de impedir que os estímulos fiscais arruínem o futuro de sua moeda e, do outro, os americanos, donos da mágica de produzir dinheiro lastreado na confiança no governo e em sua economia, provendo liquidez e aumentando os déficits sem muita preocupação com equilíbrios fiscais. Entretanto, como o mundo agora é mais plano, os chineses deram o grito de alarma pela boca do primeiroministro: e se o dólar desvalorizar? Por certo, o problema hoje não é a inflação, mas a deflação; as taxas de juros americanas podem se manter rentes a zero. Mas será assim amanhã se a dívida crescer a tal ponto que coloque em questão, ao longo do tempo, a capacidade de recuperação dos orçamentos americanos? Foi significativo ver que no G-20 falou-se de uma cesta de moedas que sirva de reserva, e houve a decisão de aumentar o capital do FMI e até de utilizar os direitos especiais de saque, uma espécie de dinheiro internacional próprio do FMI. Noutros termos: há no horizonte distante o que Keynes previra e desejava, a formação de uma Autoridade Monetária Central. Não será o Banco Central Europeu uma antevisão do que poderá ocorrer em décadas adiante? O Conselho de Estabilidade Financeira não poderá exercer papel efetivo na coordenação das políticas e em seu controle? Reordenação mais profunda do sistema financeiro global implicaria em um novo arranjo político, do qual estamos distantes. Mas, assim como o unilateralismo dos neoconservadores e do governo Bush esticou a corda nos dois lados, invadindo países e dando licença aos mercados para fazer o que quisessem sem consultar ninguém, a atitude do governo Obama (Hillary Clinton falando até de incluir os talibãs “moderados” (sic) na mesa de negociações) prenuncia algo melhor para o mundo. Gordon Brown foi perspicaz e procurou os emergentes para aumentar suas chances de liderança apostando em mais regulamentação. Isso, com maior legitimidade, ampliando-se o número de atores que decidem, talvez seja a fórmula para se falar com mais seriedade em um outro e melhor mundo. Georges Soros, voz dissidente e clarividente nas finanças, colocou a outra condição para um ponto de partida positivo: será necessário prover muito dinheiro para evitar tragédias maiores nos países pobres e em algumas economias emergentes. O G-20 falou de US$ 1 trilhão. É um começo. Os ativos globais perderam de US$ 30 trilhões a US$ 50 trilhões! Os socorros de todo tipo, incluindo-se estímulos fiscais, devem roçar os US$ 2 trilhões, as promessas vão aos US$ 5 trilhões. Em Londres, os líderes esperam que lá pelo fim de 2010 a economia flua outra vez. Tomara. Isso se houver restabelecimento da confiança e do crédito e avanços no reordenamento político e financeiro do mundo. Se, entretanto, houver fracasso, o protecionismo e o nacionalismo bélicos podem voltar à cena. Espero, por isso, que a reunião do G-20 não se resuma a uma oportunidade fotográfica.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Fernando Henrique, um marqueteiro envergonhado

Fernando Henrique tentando a reeleição, em 1998 (foto de Roberto Stuckert Filho) Todos nós sabemos que a Oposição vive momentos difíceis, sem discurso, sem encontrar o caminho de ao mesmo tempo se opor a Lula e ter resultados eleitorais positivos. Fernando Henrique Cardoso, por seu passado de Sorbonne e de Presidente da República, acha-se (com alguma razão, claro) no direito e no dever de apontar a direção certa para a Oposição, ser o seu marqueteiro-mor. O seu artigo “O gesto e a palavra” publicado ontem no Globo e Estadão é um verdadeiro guia de marketing político – embora meio às avessas e bastante envergonhado. Antes, tentando mostrar que é um intelectual acima de qualquer populismo suspeito, ele cita momentos memoráveis de Churchill, Roosevelt e até Vargas, quando a palavra (em época de rádio, sem o poder da TV) teria mais valor do que imagens ou gestos: “Quando me recordo do “sangue, suor e lágrimas” dito por Churchill ao tornar-se primeiro-ministro em plena guerra contra o nazismo, do discurso em Fulton quando disse que uma ‘Cortina de Ferro descia sobre a Europa’, ou de vários pronunciamentos de Roosevelt como o de posse em plena Depressão, célebre pela frase ‘nada há a temer, exceto o próprio medo’ ou ainda de Getúlio Vargas no estádio do Vasco da Gama apelando aos trabalhadores, e comparo com a retórica atual, há um abismo a separá-los”. À margem das desculpas intelectuais, Fernando Henrique reconhece que há “algo de encantatório no modo pelo qual a política do gesto sem palavras (ou nos quais as palavras contam menos do que a forma) funciona substituindo o discurso tradicional”. Tentando resolver "o enigma da mensagem política", ele afirma que a Oposição precisa “inventar uma maneira de comunicar a indignação e as críticas que toque na alma das pessoas”. Fernando Henrique ainda esclarece que não está “dizendo que a comunicação política se resolve pela supressão do discurso analítico”. Mas conclui afirmando que programa político “só mobiliza a sociedade quando é vivido por intermédio do desempenho de personagens que tratam como próprias as questões sentidas pelo povo”. Na verdade, o texto marqueteiro de Fernando Henrique Cardoso trata de seu enigma político pessoal. Subir ou não subir em jegue? Comer ou não comer buchada? Ser ou não ser Sorbonne? Reportagem da Veja de 16 de setembro de 1998 mostra bem esse dilema:
Nas pesquisas qualitativas de Fernando Henrique, Nizan detectou que os eleitores viam o presidente como um homem distante dos dilemas do povo. Para corrigir, pediu a ele que desse mais entrevistas, num linguajar simples, e, em vez de falar que "os pescadores terão incentivos", deveria dizer que "você, pescador, terá incentivos". Recomendou que não fizesse o que não lhe é natural, como comer buchada de bode ou subir em lombo de jegue, coisas que FHC fez no passado. Por fim, copiou a campanha americana. Em 1992, o partido de Clinton tinha a mesma imagem de frieza com o povo e seu slogan foi feito sob medida: To put people first. Nizan só traduziu: colocou nas vinhetas da campanha: "Gente em primeiro lugar".
Vivendo atônito em um mundo onde uma imagem fala mais do que mil palavras, Fernando Henrique vai endoidar de vez quando concluir que a palavra "Lula" vale mais do que um bilhão de pixels...

domingo, 1 de março de 2009

Economista alemão repete Lula

O Globo de hoje apresenta boa entrevista com Reinhard H. Schmidt, professor de política financeira da Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt, sobre a crise global. A correspondente, Graça Magalhães-Ruether, em certo momento pergunta: “Os países emergentes, como China, Índia e Brasil, tiveram desaceleração em consequência da crise. O senhor acha que esses países terão mais problema em superar a crise?” Vejam se a resposta de Schmidt não lembra (para desespero da Oposição, principalmente Fernando Henrique) as palavras de Lula?
O mais importante é que, pela primeira vez, esses países vão a uma reunião internacional como atores e não com um papel passivo de aceitar as regras ditadas pelo Primeiro Mundo e pelas instituições financeiras. E os países que antigamente sofriam com as regras impostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) podem agora, de cabeça erguida, dizer: “Não criem regras que vocês mesmos não são capazes de cumprir”.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Dossiê do Cartão: a questão é saber se Fernando Henrique também ajudou a vazar

A Globo conseguiu brilhantemente tirar do ar o sucesso do depoimento de Dilma Roussef. No lugar entrou o assessor que teria repassado os dados sobre os gastos do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso para o Senador Álvaro Dias (PSDB). Daí, essas informações - que eram tidas como sigilosas - teriam voado até a Folha, que tratou de publicá-las. OK, vamos dizer que tenha sido exatamente assim. A questão principal agora é saber por que Álvaro Dias decidiu pelo vazamento, já que ele é (ou supomos que seja) aliado de Fernando Henrique. O objetivo (considerando-se o resultado) parece ter sido o de comprometer o Governo Lula, dando a impressão de que ele chantageava a Oposição. Ao mesmo tempo, o vazamento daria a desculpa necessária para a divulgação completa dos dados sigilosos. No final, o tiro saiu pela culatra. Mas resta uma grande dúvida: Álvaro Dias teria feito tudo isso sem consultar Fernando Henrique? Se foi assim, será que ele teria algum interesse em prejudicar o seu líder maior? Se, ao contrário, ele agiu em sintonia com Fernando Henrique, o que podemos concluir - que o ex-Presidente é apenas mais um politicozinho que transita com naturalidade nesse mundinho sórdido? Tomara que não, em nome de alguma dignidade no meio político brasileiro.

Oposição, atônita, lança Dilma Rousseff candidata à Presidência da República

Finalmente a Oposição conseguiu o que queria: perder-se completamente. E não adianta dizer que isso foi obra exclusiva do Senador Agripino Maia. Na verdade, a Oposição tem trabalhado uníssona em caminhar para o abismo. A CPI dos Cartões, por exemplo, é toda ela um tiro no pé, que serviu, desde os primeiros passos, para projetar o nome de Dilma. Nem mesmo Fernando Henrique Cardoso está mais interessado no assunto (que pena, logo agora que sabemos que dados sobre ex-presidente não são sigilosos). A Oposição, que estava se escondendo, dando graças a Deus a distração da mídia que corria célere atrás do caso Isabela, dos travecos do Ronaldinho e dos campeonatos de futebol, agora vai ter encontrar um caminho até as próximas eleições municipais. As eleições presidenciais eles já entregaram a Dilma.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Eleição no Rio: César Maia aposta tudo em Crivella

A essa altura do campeonato, o Prefeito César Maia (DEM, ex-PFL) já sabe perfeitamente que não tem como fazer seu sucessor na Prefeitura do Rio. Até pouco tempo, ele ainda tinha alguma esperança, porque contava com a possibilidade de uma aliança com o PMDB de Picciani e Garotinho. Acreditou... dançou. O PMDB de Sérgio Cabral aliou-se ao PT de Lula e está apoiando o candidato Deputado Alessandro Molon. Além disso, veio a epidemia da dengue (que virou DEMgue...) e veio também uma percepção cada vez mais forte e abrangente de que a cidade está abandonada e de que César Maia não está mais interessado em administrar. Como resultado, as pesquisas não deixam a sua candidata, Deputada Solange Amaral, decolar. Diante desse cenário nada favorável, César Maia debruça-se sobre o tabuleiro de xadrez pensando apenas em 2010. Claro que ele ainda vai tentar o que pode para eleger alguns Vereadores e massificar a nova sigla e o número de seu partido. Mas a sua sobrevivência política passa por sua eleição ao Senado e a reeleição de seu filho, Rodrigo Maia, como Deputado Federal. O melhor modo de conquistar uma das duas vagas em disputa para o Senado é tirar o Senador Marcelo Crivella (PRB) do caminho e ainda conquistar o seu apoio. Para isso, César Maia já está se preparando para apoiar Crivella no segundo turno das eleições para Prefeito. Assim, poderemos ter um confronto curioso. De um lado, Crivella, da base de apoio de Lula e do mesmo partido do Vice Zé Alencar, contando com o apoio do DEM (ex-PFL) de César Maia, do PTB de Roberto Jefferson, da Igreja Universal e da Record. Do outro lado, pelo menos duas hipóteses no segundo turno: 1ª hipótese) Molon, do PT do Presidente Lula, com o apoio do PMDB do Governador Sérgio Cabral, do PP de Dornelles, da Igreja Católica e da Globo; 2ª hipótese) Gabeira, do PV dele mesmo, com apoio do PSDB de Fernando Henrique e do PPS de Roberto Freire (nessa hipótese, o PT de Lula pode apoiar Crivella, enquanto o PMDB de Sérgio Cabral pode apoiar Gabeira). Seja como for, a César Maia só interessa a vitória de Crivella.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Elio Gaspari: "Se uma mentira, repetida mil vezes, acaba virando verdade, o que dizer de uma verdade repetida mil vezes?"

Na sua coluna de hoje, Elio Gaspari, falando sobre Lula, acaba dando uma boa aula de marketing político para a Oposição desorientada. Publico na íntegra:
Lula é o mesmo, mas o cenário é outro
Bendita a cidade que ganha fama com uma palestra. Foi isso o que aconteceu com Araraquara depois que o filósofo francês Jean Paul Sartre terminou sua conferência no auditório da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, em setembro de 1960. Daí em diante ela se tornou conhecida como “a Conferência de Araraquara”. Era uma época em que as pessoas iam a esses eventos de terno e gravata. Sartre tratou de arcanas questões filosóficas e teve Jorge Amado na mesa, Fernando e Ruth Cardoso, mais Antônio Candido e Gilda de Mello e Souza na primeira fila. Há uma semana, discursando em Araraquara, na inauguração da escola que ganhou o nome da professora Gilda, morta em 2005, Nosso Guia fez um discurso que merece atenção. Foi um improviso, menor que a conferência de Sartre, mas ainda assim longo. Tem seis vezes o tamanho deste artigo e, à primeira vista, pode ser confundido com mais um Opus Lula.
Nosso Guia trocou de cenário.
Ele cavalga o desempenho da economia e os avanços sociais ocorridos durante seu reinado. Não formula idéias novas, apenas arruma velhos esplendores. Lula faz isso de uma forma que seus adversários devem pensar melhor antes de continuar com uma oposição de frases feitas e CPIs para alimentar noticiário.
Alguns exemplos: • “Todo sacrifício que nós fizemos permitiu que a gente pudesse estar vivendo o momento que estamos vivendo hoje. (…) Hoje temos quase 200 bilhões de dólares de reservas, não devemos nada ao FMI, não devemos nada ao Clube de Paris e não devemos nada a ninguém.” • “Aqui no Brasil, pobre não tinha acesso a banco. Aliás, os bancos tinham desaprendido a atender pobre. (…) O que nós fizemos? Nós resolvemos fazer crédito para o povo pobre. (…) Criamos o crédito consignado. (…) Eu acho que a gente colocar dinheiro na mão do pobre é investimento neste país.” • “Quando eu tomei posse, a indústria automobilística me procurou dizendo: ‘nós estamos quebrados’. (…) E ontem eu recebi uma carta: eles saíram de 2,2 milhões de carros e estão prometendo produzir 4 milhões de carros em 2009. Qual foi o milagre? O milagre foi uma coisa que a gente vinha dizendo há 20 anos: Com 24 meses de prestação, só pode comprar carro o setor da classe média. Se vocês quiserem que o pobre compre um carro, aumentem o número de prestações . ” • “Noventa e seis por cento dos acordos feitos pelos sindicatos são acordos feitos acima da inflação, com aumento real de salário.” • “Este ano, nós vamos ter a primeira turma formada pelo ProUni.São 60 mil jovens que tiraram o diploma pelo ProUni e 40% desses são negros e negras.”
Nosso Guia teve até o seu “momento Obama”: “O grande desafio (…) é acreditar que a gente pode.” Não há um novo Lula, o que há é uma nova conjuntura. Sua falação pode ser repetitiva, mas tem duas características. Primeiro, ele não está enrolando. Depois, leva para a rua uma agenda de progresso e otimismo, deixando para a oposição o penoso exercício do mau humor. Se uma mentira, repetida mil vezes, acaba virando verdade, o que dizer de uma verdade repetida mil vezes? O Brasil bem pensante, que até hoje procura entender a conferência de Sartre, precisa ler o discurso de Araraquara. Ele está na internet, basta passar no Google “discurso lula araraquara gilda”. Em 1960, aos 15 anos, Nosso Guia corria atrás de seu único diploma. O do Senai.

sexta-feira, 7 de março de 2008

César Maia atirou na ave certa, mas com plumagem ligeiramente diferente

Ontem o Ex-Blog de César Maia conseguiu enxergar um bico tucano no anúncio da entrada de Gabeira (PV) na disputa pela Prefeitura do Rio. Percebeu que o tucanato estava se movimentando para ganhar espaço no Rio na campanha de 2010. Mas pensou que o tucano bicão era o paulista Serra, quando na verdade era o tucano mineiro (como Gabeira) Aécio Neves. (Ontem, um leitpr deste Blog propôs "Gabeira para Prefeito de Caxias". Será que alguém vai propor agora "Gabeira para Prefito de Belô"?) Vejam o texto de César Maia:
COMO ESTE EX-BLOG ANALISOU ONTEM: PSDB ANTECIPA 2010 EM 2008!
Vamos ao jogo, derrotá-lo em 2008 antecipando 2010! Aguardem os próximos lances!
Globo-on
Aécio recebe Gabeira e anuncia apoio. FH também aprova candidatura de deputado a prefeito do Rio.
Uma conversa de pouco mais de 30 minutos foi suficiente para que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), anunciasse o seu apoio à candidatura do deputado federal, Fernando Gabeira (PV), a prefeito do Rio de Janeiro, e sua participação na campanha. Aécio, por sua vez, disse que o PSDB, apesar de ter legitimidade de lançar um candidato no Rio, optou pelo apoio a Gabeira. Segundo o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também foi escalado para tentar convencer Otávio Leite a desistir de concorrer à sucessão municipal.