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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Recado do G-20: Bretton Woods virou “Woodstock”


Em 44, quando os países vencedores da Segunda Guerra resolveram se reunir para botar ordem na economia mundial, os Estados Unidos eram literalmente os donos do pedaço. Em situação diferenciadamente robusta, eles davam as cartas. Nas Conferências de Bretton Woods, como ficou conhecido o encontro, o ouro, representado pelo dólar, passou a ser “moeda padrão”. No Governo Nixon, diante de dificuldades na economia, foi interrompida a paridade ouro-dólar. Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no comando, até que a crise do Lehman Brothers embaralhou tudo. Os herdeiros de Bretton Woods ficaram parecendo herdeiros de Woodstock – o mundo ficou "doidão". Os Estados Unidos ficaram profundamente abalados pelas dificuldades internacionais que eles ajudaram a criar. E agora está praticamente impossível manter o dólar como referência internacional. Principalmente após a enxurrada de 600 bilhões de dólares com que Obama inundou o mundo. O dever do G-20 que se reúne a partir de hoje é transformar Seul em “Seul Woods”, criar uma nova ordem para as relações entre as economias mundiais. É muito saudável a proposta de Mantega de criar uma cesta de moedas para substituir o dólar como moeda-referência. Nessa cesta, estariam dólares, euros, ienes, libras (que já participam do FMI), e também o real e o Yuan. Vai dar muito bate-boca nesse “Seul Woods”, mas a verdade é que os Estados Unidos não têm mais “condições de ser o país com a moeda de reserva universal”. O próprio Capitalismo aplaudirá essa mudança. E o mundo ficará menos “pirado”.
Leiam esse artigo do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli publicado hoje no Globo:

G-20, o espetáculo da soberania
Demétrio Magnoli
Aquilo que o ministro Guido Mantega define como guerra cambial é a paisagem superficial da longa crise do sistema de Bretton Woods. O desequilíbrio entre os superávits chineses e os déficits americanos forma o relevo destacado nessa paisagem, mas não a esgota nem a explica. A crise de fundo tem uma dimensão econômica mas uma raiz geopolítica. No fim das contas, as engrenagens institucionais da ordem econômica global parecem emperradas, pela primeira vez desde o pósguerra.
O G-20, palco da estreia de Dilma Rousseff na cena internacional, não é a ferramenta milagrosa de solução da crise. Antes, figura como uma expressão singular do impasse evidenciado desde a quebra do Lehman Brothers.
Na sua versão original, o edifício de Bretton Woods praticamente excluía a necessidade de interferência política no sistema monetário. O dólar refletia o ouro, que lhe servia de lastro nominal, e uma coleção de moedas orbitava em torno do dólar segundo um mecanismo de paridades quase fixas. As fundações do edifício estavam assentadas na rocha da escassez de dólares, num tempo em que os EUA eram os credores do mundo. O arranjo promoveu as três décadas gloriosas de crescimento acelerado das economias de mercado. Voluntariamente, para salvar o capitalismo, os EUA ajudaram a criar centros independentes de poder econômico, sacrificando no caminho a posição de hegemonia absoluta adquirida durante a guerra.
Quando a escassez de dólares desapareceu, premido pelo financiamento da Guerra do Vietnã, Richard Nixon levantou a âncora da paridade com o ouro. Bretton Woods 2 não emanou de uma conferência, mas de um gesto unilateral do gerente do sistema: a retomada da prerrogativa soberana de imprimir moeda. No novo ambiente de flutuação cambial, a interferência política dos principais atores tornouse um imperativo. O G-5 e o G-7, seu sucessor, nasceram como respostas à necessidade de tecer consensos em torno da governança econômica global.
Eles operaram como um clube seleto, que compartilhava uma visão de mundo similar e tomava decisões informais em reuniões fechadas, protegidas do assédio da imprensa.
Desde 1971, os EUA agem de olho nas suas prioridades nacionais, dividindo com o resto do sistema internacional o custo das políticas domésticas.
A desvalorização de Nixon difundiu para o mundo as pressões inflacionárias geradas no interior da economia americana. Dez anos depois, a “revolução econômica” de Ronald Reagan provocou a elevação dos juros globais, o desvio da liquidez mundial na direção de Wall Street e uma forte apreciação do dólar. Poucos anos mais tarde, tornou-se inadiável uma brusca correção de rumo, com a depreciação do dólar frente ao marco e ao yen, algo que demandava a aquiescência da Alemanha e do Japão. Washington obteve o que desejava no Acordo do Plaza de 1985, uma prova indiscutível da eficácia política do clube das potências.
Há dois anos, os EUA buscam uma reedição do Acordo do Plaza, sob a forma de um pacto de limitação de superávits ao máximo de 4% dos PIBs nacionais, o que implicaria forte apreciação do renminbi chinês. A proposta faz sentido, mas não decola, pela conjunção de dois motivos. Um: a China não admite reproduzir a função desempenhada pelo Japão há um quarto de século.
Dois: o G-20 não é um G7 ampliado.
Os chineses temem repetir a trajetória do Japão depois do Plaza, quando o influxo de capitais coagulou-se em bolhas especulativas nos mercados de imóveis e ações, que explodiram na crise financeira de 1990 e redundaram numa estagnação de quase dez anos. O consenso interno em torno do renminbi depreciado estendese do núcleo dirigente do Partido Comunista, que resiste a conferir direitos econômicos à população, até as empresas transnacionais estabelecidas no país, que funcionam como plataformas de exportações.
O G-20, consolidado após a quebra do Lehman Brothers, reflete o declínio relativo dos EUA e a multiplicação dos centros de poder econômico gerados pela globalização. Ele não é um clube, mas um fórum. Seus integrantes, especialmente a China, não compartilham a visão de mundo que moldou o sistema de Bretton Woods. Suas reuniões, escancaradas ao escrutínio público, são teatros do espetáculo da soberania. Hoje, em Seul, chineses, alemães, brasileiros e sul-africanos erguerão suas vozes para acusar os EUA. Todos eles estarão de olhos postos nas manchetes dos telejornais e das publicações impressas.
A decisão do Federal Reserve de inundar o mercado com uma torrente de US$ 600 bilhões assinala um ponto de inflexão. Os EUA cansaram de esperar e resolveram mudar unilateralmente o cenário mundial. A China retrucou num tom incomum, anunciando que erguerá uma “muralha de fogo” contra o ingresso de capitais especulativos.
A guerra cambial assume a configuração de um confronto político e ameaça converter o G-20 em praça de combates. Em meio aos disparos, o governo brasileiro transforma a justificada indignação com a iniciativa americana em pretexto para circundar o debate sobre a conexão entre os gastos públicos, as taxas de juros e a apreciação do real.
Uma falência do G-20 não serviria a nenhum dos atores de uma ordem econômica global que precisa da “mão visível” da política para conservar alguma estabilidade.
Mas o espetáculo da soberania, por sua própria dinâmica, pode desandar em guerra cambial e comercial, arrastando o mundo pela ladeira da depressão.
Hoje, só o FMI, que faz reuniões fechadas, propícias à separação entre a soberania e seu exercício espetacular, tem as condições políticas para exercer a mediação entre as potências do G-20.
Depois dos retumbantes fracassos dos anos 90, o FMI pode encontrar um novo papel útil nessa função de intermediação.
Se isso acontecer, o Brasil de Dilma Rousseff reconhecerá na antiga instituição de Bretton Woods um parceiro insubstituível.
Ironias da história.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Eleição americana: retorno histórico

Boa a coluna de Mauro Santayana hoje, no Jornal do Brasil, sobre as eleições americanas. Reproduzo na íntegra:
ELEIÇÕES HISTÓRICAS. Repetindo hábito antigo, o New York Times declarou apoio à indicação da senadora Hillary Clinton, candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, e à do republicano John McCain, seu provável adversário no pleito de novembro. A simpatia maior é para com a senhora Clinton, por sua postura ideológica, bem mais nítida do que a do senador pelo Arizona - mesmo porque o jornal sempre optou pelos democratas no poder. Todas as eleições, em qualquer país, acarretam riscos. O povo vota corretamente, de acordo com as informações recebidas e o discurso do candidato. Vitorioso, o candidato desaparece, para dar lugar ao poderoso. Nós, brasileiros, temos boa experiência disso. Raramente (Juscelino foi um caso positivo) o presidente cumpre a plataforma eleitoral. Em nossa memória recente há certo caçador de marajás. A experiência nacional dos Estados Unidos é caso único na História. As circunstâncias prepararam as 13 colônias da Nova Inglaterra para que alguns homens prudentes fundassem a mais democrática e a mais poderosa república dos tempos modernos. O que os distinguiu foi o conhecimento do pensamento antigo e da História Política, e a capacidade de pactuar-se em nome de sua comunidade. As doutrinas britânicas, deles mais próximas, os levaram de Locke e Hobbes aos romanos e gregos, passando pelos escolásticos e pelo inigualável renascentista Maquiavel, mas não os distanciaram dos iluministas franceses e alemães. Sua inquietação autonomista foi contemporânea ao processo revolucionário francês. Com Lafayette e seu corpo expedicionário que lutou contra os ingleses na América, Luís XVI ajudara a independência dos Estados Unidos, mas não se tratava de apoio do monarca à futura república e, sim, de manobra lateral contra os britânicos, seus adversários históricos na Europa. Como a virtude não caminha sem a companhia do vício - conforme a afirmação paradoxal de Chesterton - o que era sonho da construção de uma sociedade solidária e feliz se viu comprometido, desde o início, pela arrogante presunção de domínio. Entre os dois sentimentos antagônicos, os Estados Unidos têm percorrido os últimos 232 anos. Os fundadores da República se preocuparam em construir sistema constitucional que pudesse servir à alternância de homens e idéias no poder, mas preservasse a unidade nacional. Graças a essa precaução inteligente, o sistema funcionou bem durante dois séculos. As garantias constitucionais não foram violadas, embora sofressem restrições durante a Guerra da Secessão, quando os Estados do Sul quiseram manter a liberdade de escravizar. Mas, nos últimos decênios, sobretudo a partir da eleição de Nixon, os princípios dos pais fundadores passaram a ser esquecidos. Os homens de negócios e as figuras populares substituíram os políticos de formação humanística (advogados em sua maioria), no governo da União. Podemos dizer que, com a eleição de Nixon, o sistema começou a perder estrada, e, a partir de Reagan, perdeu sua orientação cardeal. Com todos os problemas pessoais, Bill Clinton foi o que mais se aproximou da linha anterior, ao realizar um governo mais próximo do povo, o que agora credencia sua mulher à disputa. No pronunciamento editorial, o New York Times não teme ficar contra o senador Barack Obama: para o jornal, a senhora Clinton é intelectualmente superior a seu oponente. Não porque ele seja mestiço, mas, simplesmente, porque parece menos capacitado para ocupar o cargo. O jornal ainda comenta o fato de que é a primeira vez que um "afro-americano" e uma senhora disputam o mais alto cargo público nos Estados Unidos. Mas adverte que a firstness não é, em si mesma, razão para a escolha. Os Estados Unidos se encontram no pior momento de sua História, desde a Guerra Civil de 1860 a 1865. Acossada economicamente pela China e outros países emergentes, a grande nação dispõe de potencialidade para recuperar-se de seus desacertos internacionais, e restaurar a confiança daqueles que a admiravam. Para isso, sem embargo, o governo terá que abandonar a aliança republicana com os empreiteiros do mercado da guerra, e buscar, sob os democratas, a antiga integração política com o povo. Para os americanos - e para todos - seria bom que eles voltassem às velhas virtudes e abandonassem a arrogância, exacerbada pela presença de certos homens de negócios na direção do Estado, e o afastamento dos intelectuais humanistas. Uma coisa era a presença de Chester Bowles ao lado de Roosevelt e Truman, outra a de Karl Rove junto a Bush. É difícil retornar na História, mas talvez fosse possível aos norte-americanos reinventar a democracia de massas do tempo de Andrew Jackson - o grande presidente que enfrentou os banqueiros e os venceu.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Um monumento para Bush

Recebi de uma amiga - que é meio escocesa, meio paulista - esse texto bem engraçado sobre Bush:
Tenho a honra de ser do Comitê para arrecadar 5 milhões de dólares para um monumento de George W. Bush. Primeiro a gente pensou em colocá-lo no Monte Rushmore, mas descobrimos que não havia espaço para duas caras. Então decidimos erguer a estátua de George em Washington, no Hall da Fama. Mas ficamos em dúvida sobre como colocá-la. Não ficava bem ao lado da estátua de George Washington (que nunca disse uma mentira) nem ao lado da estátua de Richard Nixon (que nunca disse uma verdade), já que George nunca soube a diferença. Finalmente decidimos colocá-la ao lado de Cristóvão Colombo, o maior Republicano de todos. Afinal, ele não deixou ninguém saber onde estava indo, e quando chegou lá não sabia onde estava; voltou sem saber onde esteve, dizimou a maioria da população enquanto esteve lá – e ainda fez tudo isso com o dinheiro dos outros. Obrigado. Comitê pelo Monumento de George W. Bush. P.S. Até agora arrecadamos $ 0,35 (cortesia de Dick Cheney)