Mostrando postagens com marcador Ronald Reagan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ronald Reagan. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Recado do G-20: Bretton Woods virou “Woodstock”


Em 44, quando os países vencedores da Segunda Guerra resolveram se reunir para botar ordem na economia mundial, os Estados Unidos eram literalmente os donos do pedaço. Em situação diferenciadamente robusta, eles davam as cartas. Nas Conferências de Bretton Woods, como ficou conhecido o encontro, o ouro, representado pelo dólar, passou a ser “moeda padrão”. No Governo Nixon, diante de dificuldades na economia, foi interrompida a paridade ouro-dólar. Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no comando, até que a crise do Lehman Brothers embaralhou tudo. Os herdeiros de Bretton Woods ficaram parecendo herdeiros de Woodstock – o mundo ficou "doidão". Os Estados Unidos ficaram profundamente abalados pelas dificuldades internacionais que eles ajudaram a criar. E agora está praticamente impossível manter o dólar como referência internacional. Principalmente após a enxurrada de 600 bilhões de dólares com que Obama inundou o mundo. O dever do G-20 que se reúne a partir de hoje é transformar Seul em “Seul Woods”, criar uma nova ordem para as relações entre as economias mundiais. É muito saudável a proposta de Mantega de criar uma cesta de moedas para substituir o dólar como moeda-referência. Nessa cesta, estariam dólares, euros, ienes, libras (que já participam do FMI), e também o real e o Yuan. Vai dar muito bate-boca nesse “Seul Woods”, mas a verdade é que os Estados Unidos não têm mais “condições de ser o país com a moeda de reserva universal”. O próprio Capitalismo aplaudirá essa mudança. E o mundo ficará menos “pirado”.
Leiam esse artigo do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli publicado hoje no Globo:

G-20, o espetáculo da soberania
Demétrio Magnoli
Aquilo que o ministro Guido Mantega define como guerra cambial é a paisagem superficial da longa crise do sistema de Bretton Woods. O desequilíbrio entre os superávits chineses e os déficits americanos forma o relevo destacado nessa paisagem, mas não a esgota nem a explica. A crise de fundo tem uma dimensão econômica mas uma raiz geopolítica. No fim das contas, as engrenagens institucionais da ordem econômica global parecem emperradas, pela primeira vez desde o pósguerra.
O G-20, palco da estreia de Dilma Rousseff na cena internacional, não é a ferramenta milagrosa de solução da crise. Antes, figura como uma expressão singular do impasse evidenciado desde a quebra do Lehman Brothers.
Na sua versão original, o edifício de Bretton Woods praticamente excluía a necessidade de interferência política no sistema monetário. O dólar refletia o ouro, que lhe servia de lastro nominal, e uma coleção de moedas orbitava em torno do dólar segundo um mecanismo de paridades quase fixas. As fundações do edifício estavam assentadas na rocha da escassez de dólares, num tempo em que os EUA eram os credores do mundo. O arranjo promoveu as três décadas gloriosas de crescimento acelerado das economias de mercado. Voluntariamente, para salvar o capitalismo, os EUA ajudaram a criar centros independentes de poder econômico, sacrificando no caminho a posição de hegemonia absoluta adquirida durante a guerra.
Quando a escassez de dólares desapareceu, premido pelo financiamento da Guerra do Vietnã, Richard Nixon levantou a âncora da paridade com o ouro. Bretton Woods 2 não emanou de uma conferência, mas de um gesto unilateral do gerente do sistema: a retomada da prerrogativa soberana de imprimir moeda. No novo ambiente de flutuação cambial, a interferência política dos principais atores tornouse um imperativo. O G-5 e o G-7, seu sucessor, nasceram como respostas à necessidade de tecer consensos em torno da governança econômica global.
Eles operaram como um clube seleto, que compartilhava uma visão de mundo similar e tomava decisões informais em reuniões fechadas, protegidas do assédio da imprensa.
Desde 1971, os EUA agem de olho nas suas prioridades nacionais, dividindo com o resto do sistema internacional o custo das políticas domésticas.
A desvalorização de Nixon difundiu para o mundo as pressões inflacionárias geradas no interior da economia americana. Dez anos depois, a “revolução econômica” de Ronald Reagan provocou a elevação dos juros globais, o desvio da liquidez mundial na direção de Wall Street e uma forte apreciação do dólar. Poucos anos mais tarde, tornou-se inadiável uma brusca correção de rumo, com a depreciação do dólar frente ao marco e ao yen, algo que demandava a aquiescência da Alemanha e do Japão. Washington obteve o que desejava no Acordo do Plaza de 1985, uma prova indiscutível da eficácia política do clube das potências.
Há dois anos, os EUA buscam uma reedição do Acordo do Plaza, sob a forma de um pacto de limitação de superávits ao máximo de 4% dos PIBs nacionais, o que implicaria forte apreciação do renminbi chinês. A proposta faz sentido, mas não decola, pela conjunção de dois motivos. Um: a China não admite reproduzir a função desempenhada pelo Japão há um quarto de século.
Dois: o G-20 não é um G7 ampliado.
Os chineses temem repetir a trajetória do Japão depois do Plaza, quando o influxo de capitais coagulou-se em bolhas especulativas nos mercados de imóveis e ações, que explodiram na crise financeira de 1990 e redundaram numa estagnação de quase dez anos. O consenso interno em torno do renminbi depreciado estendese do núcleo dirigente do Partido Comunista, que resiste a conferir direitos econômicos à população, até as empresas transnacionais estabelecidas no país, que funcionam como plataformas de exportações.
O G-20, consolidado após a quebra do Lehman Brothers, reflete o declínio relativo dos EUA e a multiplicação dos centros de poder econômico gerados pela globalização. Ele não é um clube, mas um fórum. Seus integrantes, especialmente a China, não compartilham a visão de mundo que moldou o sistema de Bretton Woods. Suas reuniões, escancaradas ao escrutínio público, são teatros do espetáculo da soberania. Hoje, em Seul, chineses, alemães, brasileiros e sul-africanos erguerão suas vozes para acusar os EUA. Todos eles estarão de olhos postos nas manchetes dos telejornais e das publicações impressas.
A decisão do Federal Reserve de inundar o mercado com uma torrente de US$ 600 bilhões assinala um ponto de inflexão. Os EUA cansaram de esperar e resolveram mudar unilateralmente o cenário mundial. A China retrucou num tom incomum, anunciando que erguerá uma “muralha de fogo” contra o ingresso de capitais especulativos.
A guerra cambial assume a configuração de um confronto político e ameaça converter o G-20 em praça de combates. Em meio aos disparos, o governo brasileiro transforma a justificada indignação com a iniciativa americana em pretexto para circundar o debate sobre a conexão entre os gastos públicos, as taxas de juros e a apreciação do real.
Uma falência do G-20 não serviria a nenhum dos atores de uma ordem econômica global que precisa da “mão visível” da política para conservar alguma estabilidade.
Mas o espetáculo da soberania, por sua própria dinâmica, pode desandar em guerra cambial e comercial, arrastando o mundo pela ladeira da depressão.
Hoje, só o FMI, que faz reuniões fechadas, propícias à separação entre a soberania e seu exercício espetacular, tem as condições políticas para exercer a mediação entre as potências do G-20.
Depois dos retumbantes fracassos dos anos 90, o FMI pode encontrar um novo papel útil nessa função de intermediação.
Se isso acontecer, o Brasil de Dilma Rousseff reconhecerá na antiga instituição de Bretton Woods um parceiro insubstituível.
Ironias da história.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

César Maia apoia medida de Lula contra a crise

No seu Ex-Blog de hoje César Maia destaca trecho de artigo de Paul Krugman no New York Times aplaudindo o fato de Obama não ter feito como a iniciativa privada que segurou os gastos. Krugman escreveu ainda (e César Maia não reproduziu): "Ronald Reagan se equivocó: a veces el sector privado es el problema y el gobierno es la solución" (El Mercurio). Ou seja, exatamente como fez o Governo Lula, que já ganhou elogios por isso por toda parte. Faltava esse elogio - mesmo que indireto - desse representante da Oposição. Veja a nota do Ex-Blog:
KRUGMAN: OBAMA ACERTOU PELO QUE NÃO FEZ! (Reuters-El Mercurio-on, 11/09) Provavelmente o aspecto mais importante do papel do governo nesta crise não é o que fez, mas o que não fez. À diferença do setor privado, o governo federal não recortou o gasto quando caíam suas receitas, escreveu Paul Krugman. O governo dos EUA salvou o país de uma "repetição completa" da Grande Depressão, disse o ganhador de um Nobel, Paul Krugman, em uma coluna publicada na segunda, no New York Times. Krugman disse ademais do efeito estabilizador "automático" criado pelo governo, quando se evitou também uma depressão devido à ajuda governamental na hora de resgatar o setor financeiro e o plano de estímulo de presidente Barack Obama.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Chomsky X Obama: uma entrevista importante

Saiu hoje no Globo essa entrevista feita por Miguel Conde, través de e-mail, com Noam Chomsky. Transcrevo na íntegra:
'Na política externa não há sinal de mudança'
Para intelectual, governo de Barack Obama pode ser até mais agressivo do que o de Bush na arena internacional
ENTREVISTA Noam Chomsky
Mais conhecido intelectual americano, nome destacado da esquerda nos EUA desde os protestos contra a Guerra do Vietnã, o linguista Noam Chomsky critica o próprio país em seu novo livro, o recém-lançado “Estados fracassados” (Bertrand Brasil). Fazendo uma análise detalhada das premissas que orientam as intervenções militares americanas no exterior, o livro argumenta com ironia que, pelos critérios usados pelos EUA, os próprios EUA seriam um alvo legítimo para uma invasão. Por e-mail, Chomsky falou ao GLOBO sobre a obra e sobre o atual quadro político do país, prevendo que Obama deve acabar com o extremismo de Bush na política interna, mas não no conturbado front externo.
GLOBO: O senhor poderia explicar por que o conceito de “Estado fracassado”, criado pelo governo dos Estados Unidos, em sua opinião se aplica aos EUA?
NOAM CHOMSKY: Os especialistas concordam que esse conceito é vago, mas envolve três características principais: a incapacidade ou desinteresse em proteger a população; o desrespeito a leis e normas internacionais; e a existência de instituições democráticas formais, mas que funcionam apenas de forma limitada. É fácil mostrar que os EUA preenchem em boa medida os três requisitos.
GLOBO: O senhor enfatiza a responsabilidade dos EUA no crescimento do terrorismo islâmico, mas há quem observe que um movimento como a al-Qaeda, por exemplo, não se opõe a políticas específicas dos EUA, mas à democracia secular como um todo. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
CHOMSKY: Há duas perguntas separadas aqui: quais são as causas do crescimento do terrorismo islâmico? E quais são os objetivos dos terroristas islâmicos? A resposta à primeira é indiscutível. O governo de Ronald Reagan, em particular, teve um papel decisivo e muito consciente na criação do terrorismo islâmico. Sua meta declarada era “matar russos”. Para atingir essa meta, o governo Reagan reuniu os maiores extremistas islâmicos que conseguiu encontrar ao redor do mundo, enviou-os para o Afeganistão, e forneceu a eles uma crucial ajuda militar. Os objetivos da al-Qaeda e de outros movimentos são uma questão separada, que não tem relação com a maneira como eles cresceram.
GLOBO: O senhor acredita que sob a presidência de Barack Obama os EUA continuarão a ser, em sua política externa, um Estado fora-da-lei, como o senhor diz?
CHOMSKY: Haverá mudanças de política interna, em direção a uma posição mais de centro. O extremo radicalismo do governo Bush sem dúvida será cancelado; McCain faria mais ou menos a mesma coisa. Mas na arena internacional, não há indicação de ne nhuma mudança significativa em relação ao segundo mandato de Bush, a não ser na retórica. As políticas são mais ou menos as mes mas, em alguns casos mais violentas e agressivas, como no Paquistão e no Afeganistão. Comentando o fervor despertado pela campanha de Obama, a escritora Joan Didion observou que de repente a ironia saiu de moda nos EUA. O cinismo deu lugar à credulidade.
GLOBO: Qual sua opinião sobre esse entusiasmo?
CHOMSKY: A resposta mais definitiva a respeito da campanha foi dada pela indústria de relações públicas, que comanda as eleições. O principal órgão deles, “Advertising Age” (“Era da propaganda”), deu a Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano, derrotando os computadores da Apple. Desde Reagan os candidatos são vendidos como bens de consumo, e este é o maior caso de sucesso que os publicitários já tiveram. Quanto ao entusiasmo, Bush era tão impopular que até seu partido se lançou contra ele, um fenômeno sem precedentes; 80% do país pensam estar indo na direção errada e querem mudança desesperadamente. Por isso Obama usou os slogans “mudança” e “esperança”. O surpreendente é o quanto a margem da vitória foi pequena. Sob as circunstâncias, era de se esperar uma vitória de lavada do partido de oposição. Mas Obama ganhou por pouco — e entre eleitores brancos, McCain ganhou. Se o colapso financeiro tivesse demorado um pouco mais, McCain talvez ganhasse, apesar da performance desastrosa dos republicanos nos últimos oito anos em praticamente todos os setores.
GLOBO: O procurador-geral dos EUA, Eric Holder, disse recentemente que os Estados Unidos são uma nação de covardes no que diz respeito ao debate sobre racismo. A eleição de Obama não prova o contrário?
CHOMSKY: A eleição de Obama foi, sem dúvida, um evento histórico, e é muito importante ter uma família negra na Casa Branca — embora haja um tanto de racismo na ideia que esse é um momento mágico que só poderia acontecer nos EUA. As eleições na Bolívia e no Brasil foram muito mais “mágicas” em termos de mostrar como uma dura opressão pode ser vencida dentro do sistema eleitoral. O fato de os dois principais candidatos democratas à presidência serem um negro e uma mulher mostra que os EUA se tornaram um país muito mais civilizado nas últimas décadas. É um tributo ao ativismo dos 1960, mas ainda há um longo caminho pela frente, como Holder presumivelmente quis enfatizar.
GLOBO: Como o senhor, crítico feroz dos EUA, compararia os históricos de política externa e de direitos humanos do seu país com os da China, que para alguns está a caminho de se tornar a próxima potência global?
CHOMSKY: É muito improvável que a China substitua os EUA como principal potência global. Ela tem enormes problemas internos, desconhecidos no ocidente. Uma indicação disso é seu ranking na lista de Desenvolvimento Humano da ONU: em torno de 80º A China também enfrenta crises ecológicas severas, e embora seu crescimento industrial seja impressionante, muito dele é de capital estrangeiro, em particular nos setores mais avançados. Quanto à política externa, a China hoje é o mais pacifista dos grandes poderes. É por isso que importantes analistas americanos como John Steinbrunner têm defendido que a China lidere uma coalizão de Estados pacifistas para conter o militarismo agressivo dos EUA. Já o histórico chinês de direitos humanos é claramente horrível, muito pior do que o dos EUA.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Barack Obama, a queda do neoconservadorismo e Lula

Bem interessante a entrevista desta segunda, na Folha, feita por Sérgio Dávila com Immanuel Wallerstein, o sociólogo americano progressista, conhecido pela "teoria do sistema mundial". Leiam o que foi publicado:
Obama é resposta contra reação conservadora
Para sociólogo progressista, se eleito, democrata marcará fim da ascensão neoconservadora nos anos 80, ocorrida com a eleição de Ronald Reagan e em resposta às idéias de 1968
A ELEIÇÃO de Barack Obama criará um espaço hoje inexistente para ações sociais nos Estados Unidos. As mudanças que constam do slogan do democrata só ocorrerão de verdade se houver pressão popular. É a entrada da questão social ou de classe na agenda política norte-americana, segundo o teórico de esquerda da Universidade Yale, questão essa que o país esconde atrás do termo "problema econômico".
SÉRGIO DÁVILA, DE WASHINGTON
Immanuel Wallerstein está animado. Aos 77 anos, esse sociólogo de esquerda da Universidade Yale acredita que seu candidato, Barack Obama, será eleito e que, se pressionado, reagirá com mudanças sociais nos Estados Unidos. De qualquer forma, para o autor de "O Declínio do Poder Americano" (Contraponto, 2004) e freqüentador do Fórum Social de Porto Alegre, só a candidatura do democrata já traz a questão ao centro da política norte-americana. "Isso é muito saudável, pois, superada essa discussão primitiva de raça e sexo, chegamos à discussão sobre classe, que é para onde caminha essa eleição." É essa questão, defende, que levou as pessoas a comparecerem em número recorde à fase de prévias partidárias, encerrada na última terça, e deve fazer o mesmo em novembro, nas eleições gerais. Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista à Folha, por telefone, de New Haven (Connecticut).
FOLHA - A eleição presidencial deste ano ressuscita de alguma maneira as questões de 1968, não?
IMMANUEL WALLERSTEIN - Primeiro, devo dizer que apóio Barack Obama, acredito que ele vá ser eleito, batendo com facilidade o republicano John McCain, e terá maioria no Congresso. Minha análise é à luz dessa hipótese. Assim, a relação é muito simples. Se pensarmos que aquele 1968 quebrou as barreiras para os chamados grupos minoritários nos EUA, sua candidatura é uma das conseqüências. Se pensarmos que 1968 proporcionou uma abertura para os EUA repensarem seu papel no mundo, eis outra conseqüência atual. Mas não esqueçamos do intervalo no meio do período entre 1968 e 2008, que foi a contra-revolução neoconservadora dos anos 80 [com a chegada de Ronald Reagan ao poder], com a tentativa de fazer o país retroceder à era pré-1968, tanto em termos de influência cultural quanto de economia global. Agora, o pêndulo está indo rapidamente em direção oposta. Onde vai parar é uma incógnita. Mas, em geral, a era dos neoconservadores parece estar chegando ao fim nos EUA e, conseqüentemente, no mundo.
FOLHA - Ainda assim, não é um retrocesso que o país esteja discutindo racismo e sexismo 40 anos depois?
WALLERSTEIN - [Risos] Esse país vem discutindo raça e sexo há cem anos. A discussão vai continuar. O sexismo é um elemento fundamental do capitalismo mundial, não vai sumir. Mas hoje essa discussão tem menos impacto político imediato nos EUA do que antes. Isso é muito saudável, sobretudo porque superada essa discussão de certa maneira primitiva de raça e sexo, chegamos à discussão sobre classe, que é para onde caminha essa eleição. Nos EUA nós não dizemos questões sociais, questões de classe, preferimos usar o eufemismo "problemas econômicos", mas é apenas sintaxe para mascarar a realidade. O fato é que a questão mais premente da corrida será a crise econômica mundial em geral e dos EUA em particular.
FOLHA - Classe, não raça, mesmo com um dos candidatos majoritários sendo negro?
WALLERSTEIN - Veja, há pessoas nos EUA que nunca votarão em um negro, como há pessoas que nunca votariam numa mulher. Mas há muito menos do que antes, esse é o primeiro aspecto, e basicamente a maioria, se não a totalidade, já vota em republicanos de qualquer maneira. Então, não importarão do ponto de vista da candidatura de Barack Obama.
FOLHA - Daí o domínio do que o sr. chama de questão de classe.
WALLERSTEIN - Sim. Isso tem levado aos altos índices de comparecimento às urnas até agora nas prévias. E indica claramente que caminhamos para uma participação recorde nas eleições de novembro. E esses votos vêm basicamente de pessoas das classes mais baixas, que normalmente não votam porque não acham que as coisas vão mudar de verdade. Essas pessoas estão sendo impelidas a votar por suas necessidades e porque acham que algo pode realmente acontecer.
FOLHA - O sr. escreveu que a pergunta não é que mudanças um candidato como Obama fará mas sim quais conseguirá fazer. Quais?
WALLERSTEIN - Por ser uma democrata, ele tentará minimizar as perdas dos americanos que foram mais atingidos pela crise econômica. Mas não acho que as ações do presidente dos EUA nesse momento histórico importem muito para a economia mundial. Essa já tem uma dinâmica própria, que passa ao largo da Casa Branca. Acredito que a maior mudança que o próximo presidente poderá fazer será no campo doméstico. Por exemplo, os juizes indicados para os tribunais federais. Poderá reverter a situação terrível deixada pelo governo de George W. Bush em termos de direitos civis e individuais. Poderá agir para integrar negros, hispânicos e mulheres à nossa cultura política. Essas mudanças são internas, mas muito importantes. E Obama sofrerá uma grande pressão popular para implementá-las.
FOLHA - O sr. não acha que a frustração seria inevitável? A grande expectativa de mudança, e de certa maneira definida por ele em termos tão vagos como foi até agora, não levaria a isso?
WALLERSTEIN - Sim, é indubitavelmente verdade que as expectativas sobre o que ele pode fazer são exageradas. Por outro lado, tudo depende do grau de influência e pressão que os movimentos sociais norte-americanos terão sobre as eleições. Se eles conseguirem fazer as pessoas sentirem que devem ser levadas em conta, certas coisas serão alcançadas. A verdadeira questão é quanta pressão conseguirão fazer depois que ele for eleito. Minha impressão é que a eleição de Obama criará um espaço para ação popular, mas ele não será o ator dessas mudanças, apenas responderá à pressão por elas.
FOLHA - O sr. foi um dos primeiros acadêmicos a escrever que os EUA como potência hegemônica sofreriam declínio. Foi ridicularizado. Sente-se vingado?
WALLERSTEIN - [Risos]Quando escrevi na revista "Foreign Policy" o artigo "The Eagle has Crash Landed" [A águia se estatelou, em tradução livre], em 2002, fui praticamente chamado de maluco. Agora, menos de seis anos depois, muita gente relevante fala o mesmo. Venho dizendo isso em artigos pelo menos desde os anos 80.
FOLHA - Em seu livro sobre "sistema-mundo" [em que analisa o que chama de globalização do capitalismo], os países são classificados em centrais, semiperiféricos e periféricos. Mas a ascensão de economias como Índia e Brasil não é prevista. O sr. não acredita que essas economias possam vir a ser centrais?
WALLERSTEIN - Meu modelo analítico prevê que, sob condições como as atuais, alguns países semiperiféricos como o Brasil podem se tornar centrais. Mas prevê também um espaço limitado para que tais países sejam centrais. Ou seja, alguém tem de sair para outro entrar. Mas falamos de países muito grandes, com populações enormes, e, em termos de acumulação capitalista, não é possível que tantas pessoas acumulem tanto capital, pois há um montante limitado de riqueza, com distribuição limitada. Para resumir uma teoria mais complexa, não acho que os EUA como potência hegemônica serão substituídos por outro ou outros países com as mesmas características. Embora ache que os países do Leste Asiático estejam se tornando mais poderosos.
FOLHA - O sr. esteve algumas vezes no Brasil. Como vê o governo Lula?
WALLERSTEIN - Lula tem sido uma força positiva na política brasileira, mas ele realizou bem menos do que as pessoas esperavam. Tem uma política econômica muito complicada cujo sucesso não é claro no momento. Um dos problemas de Lula é que ele nunca teve maioria legislativa e não tenho certeza se alguém um dia vai ter no Brasil, com o sistema atual. Em geral, no entanto, minha atitude parece com a adotada pelo MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] nas últimas eleições presidenciais: não há alternativa senão apoiá-lo.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O neoliberalismo acabou

Na Folha de hoje, Luiz Carlos Bresser Pereira, professor emérito da FGV e ex-Ministro dos governos Sarney e Fernando Henrique, escreveu excelente artigo chamado "Fim da onda neoliberal", que reproduzo na íntegra. Lembro também que em 18 de março escrevi aqui sobre o mesmo tema ("O laissez-faire posto em questão"). Vamos ao artigo de Bresser Pereira:
Fim da onda neoliberal
Chegou ao fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no quadro da hegemonia americana. Dois fatos ocorridos nas últimas semanas marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 países hoje seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos. Essa ideologia reacionária que visava reformar o capitalismo global para fazê-lo voltar aos tempos do capitalismo liberal do século 19 revelou ter fôlego curto. E não poderia ser de outra forma, já que estava em contradição com os avanços políticos e institucionais que transformaram o Estado liberal do século 19 no Estado democrático e social da segunda metade do século 20. Apoiada na hegemonia americana, a onda ideológica neoliberal teve início em 1980, com a eleição de Ronald Reagan, e chegou ao auge nos anos 1990, com o colapso da União Soviética, mas nos anos 2000 entrou em declínio. Três fatores contribuíram para a crise: 1) o fracasso das reformas e da macroeconomia neoliberais em promover o desenvolvimento econômico dos países periféricos que a aceitaram; 2) o desastre político e humano representado pela guerra contra o Iraque; e 3), mais recentemente, a grande crise bancária que a desregulamentação financeira facilitou. Nos últimos dias, a intervenção para salvar um banco de investimento e a ameaça de fome causada pela elevação dos preços dos alimentos marcam definitivamente o fim da utopia neoliberal de uma sociedade regulada principalmente pelo mercado. Não preciso de maior argumentação para demonstrar por que o socorro do Bear Stearns tem esse sentido. Conforme afirmou na ocasião Martin Wolf abrindo seu artigo semanal, "lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu". (Folha, 26/ 3/08). Engana-se, porém, Wolf em falar em "sonho". Trata-se antes de um pesadelo, porque, se é verdade que o mercado é um excelente alocador de recursos, mesmo nesse campo precisa de regulação para evitar instabilidade. Já em relação aos demais valores que a humanidade tão arduamente construiu, o mercado é cego, ignorando os princípios mais elementares de honestidade, proteção da natureza e justiça social. Essa cegueira assumiu caráter dramático com a notícia de que as populações pobres de pelo menos 33 países estão ameaçadas de fome devido à alta dos preços dos alimentos. Se a ideologia neoliberal dominante nestes últimos 30 anos não houvesse se encarregado de convencer os países pobres de que não precisavam de suas culturas de produtos alimentícios, de que era mais econômico especializar-se em alguma outra atividade (geralmente de valor adicionado per capita igualmente baixo) e importar seus alimentos básicos, os povos desses países não estariam agora em justa revolta. Creio que existem boas razões para acreditarmos no desenvolvimento econômico e político dos povos. É absurda, porém, a ideologia que pretende alcançar o bem-estar econômico capitalista sem se beneficiar do desenvolvimento político democrático -sem contar com a ação corretiva e regulatória do Estado democrático e social que tão arduamente a sociedade moderna vem construindo e do qual faz parte um mercado livre mas regulado. Não teremos saudades do neoliberalismo.
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 73, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".
Internet: www.bresserpereira.org.br // lcbresser@uol.com.br

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Controladores de vôo: o recuo que deu certo

Parece que o vai-vem da crise aérea está chegando ao fim. Aliás, mais do que o fim da crise, vislumbra-se o fim de de toda uma política equivocada para o controle do tráfego aéreo imposta na ditadura. Claro que ainda poderemos testemunhar alguns vai-vens, mas o problema central foi localizado e as medidas certas podem ser tomadas. Como disse um amigo com algum trânsito em círculos militares, "o erro dessa crise começou com o comando militar; era dever dele - e não do Ministério da Defesa - resolver essa pendenga com os sargentos. Os comandantes militares largaram na mão do Lula um abacaxi que era deles". Segundo avaliação de meu amigo, o Lula teve que tomar uma decisão que quebrava a hierarquia militar e que caiu como um presente no colo de toda a oposição, desde a direita radical até a mídia conservadora (sempre golpista). Lula teve que recuar. Mas, no final, o conjunto de suas decisões acabou dando certo. Permitiu que caísse a ficha para os militares, tanto os comandantes quanto os insubordinados. Os dois lados começam a entender melhor suas responsabilidades e também os danos e punições por suas ações. Torna-se importante agora o que fazer. Desmilitarização, sem dúvida. Mas, antes, é preciso contratar profissionais estrangeiros e treinar novos profissionais (como fez muito bem o CIA para o Governo Reagan). Ensinar línguas estrangeiras muito bem: além do português e do inglês, outra língua. Comprar novos equipamentos e separar claramente a área de manutenção da área de operação para aumentar a segurança contra tentativas de sabotagem. Depois de tudo isso, que pode levar de 1 ano a 1 ano e meio, talvez fosse recomendável devolver alguns desses controladores para a carreira estritamente militar.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Qual o momento exato em que houve quebra do comando militar?

Os jornais só falam disso, a quebra da hierarquia militar. Algumas pessoas comentaram comigo, no Blog ou pessoalmente, criticando a decisão de Lula, que teria sido "frouxo" no confronto com os controladores de vôo. Chegaram a lembrar a situação aparentemente semelhante vivida por Reagan, no Estados Unidos, que resolveu o problema demitindo mais de 11 mil controlares e colocando outros em seus lugares. Alguém lembrou na CBN, esqueci o nome, que Lula teria agido contra a Constituição, que proíbe greve entre militares. Ok, concordo que a quebra da hierarquia militar é grave. Mas vamos lançar outro olhar sobre a questão. 1) Essa estrutura militar do controle aéreo é uma invenção da ditadura militar, totalmente insustentável nos dias de hoje. 2) A hierarquia militar foi quebrada no momento exato em que o comando não teve capacidade de controlar os controladores, nem mesmo com a ameaça de prisão. 3) O exemplo americano não serve, porque a estrutura de lá não era militarizada e porque o presidente contava com alguma reserva e ainda teve tempo para formar novos controladores; ainda assim, os controladores americanos conseguiram 110% de aumento. 4) Greve de controladores de vôo é comum no mundo inteiro. 5) A Constituição estava sendo rasgada pelos controladores que se aproveitaram de uma estrutura superada e de um momento especial que deixavam o país de mãos atadas. 6) Por mais que tivessem muita razão em suas reivindicações, os controladores foram irresponsáveis - ou talvez tenham sido irresponsáveis os diversos governos que permitiram essa situação. 6) A crise aérea não poderia continuar, colocando o país em situação desesperadora, sem outra saída que não fosse a alternativa de bom senso determinada por Lula. Colocado tudo isso, é preciso, primeiro, que os comandantes militares reconheçam sua total incapacidade de gerenciar a questão. E é também o momento de desmilitarizar o controle aéreo e formar novos profissionais, além de investir em equipamentos e novas tecnologias. Tudo com urgência, mas sem precipitações. Acima de tudo, não devemos nos deixar levar por qualquer sintoma de frenesi golpista. Ler também o texto de Carlos Drummond, "Controle militar dificulta solução da crise aérea", feito em 11 de dezembro de 2006, em sua coluna na Terra Magazine.