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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

TUCANO PASSA, TUCANO VOA, E AS MANCHETES DO SEU TEMPO PUNGUEIAM NUMA BOA...



Fernando Henrique sentiu o golpe. Foi só Dilma lembrar que a roubalheira deveria ter sido investigada desde a década de 90 que ele subiu nas tamancas e levou o seu sorbonês ao nível mais baixo do momento. Insinuou que a Presidente é punguista!!! Não entendo mesmo esse Fernando Henrique – além de querer se passar por rei da cocada preta, faz de conta que não lembra dos seus desatinos de governo, tenta insinuar que hoje vivemos muito pior do que nos tempos dele. Para refrescar a memória, recuperamos algumas manchetes publicadas pelo Globo há exatamente 16 anos, quando Fernando Henrique – como Dilma – iniciava o seu segundo mandato. Hoje é 23 de fevereiro? Então vejamos o Globo do dia 23 de fevereiro de 1999: “ACM diz que intromissão do FMI fere a soberania”, “Inflação sobe para 2,64% após a desvalorização do real”, “Quem foge de problemas é traidor, diz FH”.
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Outras manchetes históricas: “FMI pedirá ao Governo novas medidas de ajuste fiscal” (dia 1º/ fev), “Juros vão a 39% e dólar cai pela primeira vez em 20 dias” (2/fev), “Mudança no comando do BC faz o dólar despencar” (3/fev), “Governo propõe congelar prestação em dólar até abril” (4/fev), “Revisão de acordo com o FMI prevê ajuste ainda mais duro” (5/fev), “Manifesto de governadores irrita FH e interrompe o diálogo” (6/fev), “Ajuste fiscal vai conter o aumento do mínimo” (7/fev), “Fundação Getúlio Vargas prevê inflação de 8% no primeiro trimestre” (10/fev). Tem essa bem atual: “Carnaval da crise lota Sapucaí de estrangeiros” (15/fev). E olha essas: “Crescimento da economia no Brasil é o pior desde 1992” (20/fev), “Queixas contra o sistema financeiro batem recorde” (21/fev). Temos também: “BC intervém de novo mas não consegue acalmar o mercado” (25/fev) e “ACM: Senado não permitirá que FMI decida onde cortar” (28/fev).
Como dá para perceber, as manchetes econômicas do tempo de Fernando Henrique não deixam nada a desejar. São arrasadoras. Com o agravante de que as notícias na área social nem existiam... Mas você agora vai perguntar: “E a corrupção? E a Petrobras?” Pois é, fiz a busca com essas palavras e surgiram 93 páginas para o ano de 1999. Mas não encontrei grande destaque no mês de fevereiro. As manchetes devem ter sido pungueadas...

domingo, 23 de novembro de 2014

O próximo passo


Governar não é a arte do impossível – mais do que qualquer outra coisa é simplesmente a arte do possível. Dilma está (aparentemente) demonstrando isso, principalmente nesse início de segundo mandato. Não dá para governar enfrentando os donos do capital/comunicação e sair impune. A campanha eleitoral recente deixou isso bem claro. E Dilma começa essa nova fase dando mostras de que entendeu o recado. Sem um Congresso confiável e a corrupção entranhada no país inteiro não há como bater no peito e declarar “ganhei a eleição e fim de papo”. Ganhou-se apenas uma eleição, não uma revolução. E mesmo nas revoluções é preciso saber dar um passo atrás e dois à frente. É difícil engolir a fazendeira Kátia Abreu como possível Ministra da Agricultura. Ou os representantes do mercado assumindo a direção de nossa economia. Mas esse é o momento para as esquerdas saberem se unir e ganhar força para novas conquistas e, como primeiro passo, mobilizar o país por uma reforma política profunda. Talvez isso possa compensar o desânimo de pessoas como Janio de Freitas em (mais um de seus excelentes artigos) “O primeiro passo”, publicado neste domingo, na Folha.
O primeiro passo
Janio de Freitas
Folha, 23/11/2014

A escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, vista de fora, é uma decisão política, não econômica. Faz supor uma escolha de Dilma Rousseff por temor da voracidade com que os conservadores ambicionam a retomada do Poder perdido. Presenteia-os, parece, na suposição de aplacá-los.
De fora, ainda não há como saber –e muito menos crer– de algum entendimento prévio sobre linha de política econômica que possa tornar a escolha mais inteligível. Seja como for, coerente com o sentido da campanha de Dilma, não é.
A escolha não tem coerência nem com o momento em que é feita. Na manhã mesma em que fez uma reunião para definir a escolha, liberada não oficialmente à tarde, o caderno "mercado2" da Folha apresentava como manchete: "Desemprego recua em outubro e atinge 4,7%; renda bate recorde". A seção "Economia" do "Globo", com uma nota na primeira página, também dava como manchete: "Emprego em alta, renda recorde".
Aos dois jornais não faltaram, claro, o "mas" e o "apesar de". Ainda assim, das manchetes pode-se entender que a economia esteja mais para o massacrado Guido Mantega do que para o Joaquim Levy que bem poderia ser ministro em um governo de Aécio Neves.
O histórico de Joaquim Levy não deixa dúvida sobre o seu conservadorismo, posto em prática evidente ao menos desde que foi secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento no governo Fernando Henrique. Conservadorismo confirmado no governo Lula, quando foi um dos inspiradores da política econômica que consagrou Antonio Palocci nos setores do domínio financeiro. E conservadorismo consolidado como secretário do Tesouro, quando Levy foi o ponto de resistência a gastos e outras medidas de linha social pretendidas no governo Lula.
Caso o histórico não baste, o presente garante: se não fosse adepto de concepções do conservadorismo neoliberal, Joaquim Levy não seria diretor do Bradesco. O que prova não se tratar, até agora, de pessoa incoerente.
Também sem comunicação oficial quando escrevo, a apontada indicação da senadora Kátia Abreu para a Agricultura sugere, ou confirma, uma disposição incomum de Dilma Rousseff para incrementar problemas com as correntes não conservadoras. A senadora exerce com muita competência a liderança do agronegócio e dos grandes proprietários de terra. Mas nem todos os interesses que defende coincidem com o que deveriam ser objetivos do governo, de todo governo.
Dilma Rousseff entra no segundo mandato devendo muito para reparar os desempenhos deploráveis do seu governo em três capítulos da desgraça nacional: o problema indígena, sem as demarcações territoriais devidas e com o genocídio em progressão; a questão fundiária em geral, com imensos territórios tomados e explorados; e, ainda e sempre, a reforma agrária, pendente de correções e de avanços. Três assuntos em que o responsável pela Agricultura tem deveres e poderes muito grandes. Três assuntos em que os interesses representados pela senadora Kátia Abreu conflitam, em todos os sentidos desta palavra, com as vítimas e com as obrigações e as dívidas administrativas e sociais do governo Dilma.
O primeiro movimento para o novo governo parece feito em marcha a ré.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ÓDIO X DIÁLOGO - O TERCEIRO TURNO SÓ COMEÇOU...





Neste domingo, dois sociólogos saídos da velha esquerda, ocuparam páginas opostas do Globo. Na página par, Fernando Henrique, um antigo estudioso da ciência política, particularmente do marxismo, escreveu “Diálogo ou novas imposturas?”, onde procurou manter o clima belicoso das eleições presidenciais, com fortes ataques ao governo e ao PT particularmente. Na página ímpar, Moreira Franco, ex-dirigente da AP (Ação Popular), movimento político associado à igreja que ganhou mais destaque na oposição ao golpe de 64, dá entrevista com o título de “É grave levar para a disputa política a divisão do país”. Os textos atendem muito a que cada um se propõe, tentando escolher o foco ideal para os próximos movimentos políticos, principalmente no âmbito do Congresso.
Fernando Henrique, ex-Presidente e tucano-mor do mundo político, fez o discurso da valorização da beligerância eleitoral (a exemplo do que fez Aloysio Nunes no Senado). Começa pelo título e, logo no segundo parágrafo, escreve que “é bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos”. E em seguida “não se pode aceitar passivamente que a 'desconstrução' do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática”. Misturou duas coisas (“desconstrução” e “calúnias/deturpações de fatos”) como se fossem uma coisa só. Mas certamente é daqueles que pensa que quando sou eu que faço, é “desconstrução”; quando é o adversário, trata-se de “calúnia”. No afã de manter a tensão pós-eleitoral, atrapalhou-se com pesquisas e o segmento mais rico do eleitorado. Disse ele:
“A propaganda incentivada pela liderança maior do PT inventou uma batalha dos “pobres contra os ricos”. Eu não sabia que metade do eleitorado brasileiro, que votou em Aécio, é composta por ricos... É difícil acreditar na boa-fé do argumento quando se sabe que 70% dos eleitores do candidato do PSDB, segundo o Datafolha, compunham-se de pessoas que ganham até três salários mínimos. A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores”.
Além de se enganar com percentagens e segmentos, quem está tentando enganar é Fernando Henrique. Como calcula-se em apenas 7% a classe alta no Brasil, é claro que ninguém pensou em dizer que entre os 51 milhões de eleitores do Aécio a maioria é de classe alta. Aécio foi o candidato dos mais ricos porque defendeu propostas mais afinadas com os segmentos mais ricos da sociedade. Essa é a verdade que a campanha petista propagou e que ficou demonstrada com o resultado da eleição dando a Dilma a maioria dos votos dos segmentos de menor renda e a Aécio a maioria dos votos dos segmentos de renda mais alta (segundo pesquisa Datafolha divulgada na véspera do segundo turno). Quem é que “deturpa os fatos”, Fernando Henrique?
Moreira Franco fez o discurso do diálogo. Começou por declarar que “não existe nada mais grave na história da humanidade do que você levar para a disputa política a divisão do país”. Tomou essa posição em defesa não apenas do governo de que faz parte (Ministro da Aviação Civil), como – principalmente – em defesa dos interesses do seu partido, o PMDB, o segundo em deputados federais e o maior partido de “centro” do país. À medida que o “diálogo” vier para o âmbito do Congresso, o PMDB terá mais força como fiel da balança, ampliando seu poder de fogo.
Enquanto, através de Fernando Henrique, o PSDB procura firmar-se como porta-voz da oposição dentro do Congresso (e ao mesmo tempo manter de prontidão o vasto eleitorado oposicionista que conseguiu arrebanhar nesta eleição), o PMDB, através do discurso do diálogo com o Congresso no centro de referência, procura preservar o poder de conduzir os destinos do país através do controle da maioria parlamentar. A bem da verdade, nenhuma dessas posições interessa ao país. O maior recado dessa eleição foi o da necessidade de reforma política. E a principal batalha desse "terceiro turno" deverá ser pela mobilização da sociedade em defesa de uma reforma política profunda, independente, realmente popular. Isso não pode ser deixado nas mãos de quem tem o maior interesse em deixar tudo como está.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Uma imagem fala mais do que 3.321 palavras



Vamos ser francos – o discurso de Aécio foi muito chocho. E dificilmente poderia ser diferente, já que a oposição encontra-se desprovida de discurso. Não há um único de seus representantes capaz de falar qualquer coisa consistente. E o que é pior: graças ao excelente (e surpreendente) desempenho político de Dilma, a oposição já não conta com o apoio irrestrito da mídia e de amplos setores da classe média. É verdade que ele tentou uma jogada municipalista, defendendo a descentralização da arrecadação dos impostos, mas foi pouco. A postura de Aécio com seu discurso lembra antiga campanha publicitária da locadora Avis, nos Estados Unidos, que, diante da inquestionável liderança da concorrente Hertz, decidiu posicionar-se como “número 2”. Aécio por enquanto quer apenas isso – firmar-se o “principal número 2”. A palavra significativa que ele mais usou (no seu discurso de 3.321 palavras) foi “oposição” (11 vezes), seguida de “ética” (7 vezes) e “Minas/mineiro” (6 vezes). Serra mereceu duas citações, à frente de Alckmin, de Dornelles e até de Tancredo (uma vez cada). Zé Alencar, nada. Itamar, quatro. E Fernando Henrique, três. Lula teve duas. Dilma/presidente quatro. Aécio saiu na frente para ser o número 1 da oposição. E isso na atual conjuntura talvez queira dizer muito pouco. Como disse Lindberg, dirigindo-se a Aécio Neves: "Vossa Excelência é o futuro. Vai liderar esta oposição... Por muitos anos”. Ganhou o Troféu Ironia...

terça-feira, 29 de março de 2011

Pesquisa Mitofsky: Dilma está melhor do que Obama

(clique nas imagens para ampliar)

O Consulta Mitofsky, instituto mexicano de pesquisa, faz avaliações frequentes dos governos de 20 países americanos – Norte, Sul e Centro. Na última vez que divulguei aqui no Blog, em outubro do ano passado (veja aqui), Lula liderava com 78%. O Mitofsky acaba de fazer nova rodada e Dilma não está em primeiro lugar, claro, mas tem 50% de aprovação – ou, como observa o instituto, “superior a los obtenidos por Luiz Inácio Lula da Silva al inicio de sus dos mandatos en 2003 y 2007”. (veja aqui)
Dilma realmente tem surpreendido. Soube ser “a candidata de Lula” e agora está sabendo ser “perfeita complementar de Lula”, conquistando as parcelas da classe média e da mídia que sempre foram hostis a Lula (que continua garantindo para seu governo apoio das faixas mais populares). Ninguém em sã consciência poderia esperar que Dilma obtivesse os mesmo índices do final do governo passado. A não ser, talvez, Cesar Maia, que na semana passada tentou provar que seria negativo o seu índice de 47% de “ótimo/bom” na avaliação de 3 meses do Datafolha. Ele chegou a afirmar que “em geral, a avaliação de um governo é maior que a intenção de voto em campanha, pois nessa intervém a ação de seus concorrentes”. Nas eleições pós-ditadura isso só ocorreu (ver quadro abaixo) no caso de Collor (26% de intenção de voto no primeiro turno), em uma eleição atípica, com 21 candidatos. Collor teve 36% de “ótimo/bom” na avaliação Datafolha de início de Governo. Depois disso, todos os eleitos tiveram avaliação de início de governo inferior à intenção de voto – sendo que todos eles (incluindo Collor e Itamar) apresentaram índices de avaliação abaixo de Dilma. Não podemos esquecer ainda que as piores avaliações foram de Fernando Henrique. Contra tudo e contra todos, Dilma está com avaliação excelente. Ela bem que poderia ter contado o segredo para Obama...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fernando Henrique tá doidão


Depois de passar 2.922 dias sendo derrotado diariamente e impiedosamente por Lula, Fernando Henrique resolveu botar os caninos de fora. Aparece em tudo que é lugar para falar de qualquer coisa. De certa forma, ele está certo, já que o partido que inventou está em processo de extinção e ele se agarra com unhas e dentes na tentativa de salvá-lo. O seu alvo principal, claro, é Lula (que no momento tira merecidas férias, longe do fel efehenriqueano), chegando a (re)afirmar, em entrevista que saiu hoje no Globo, que o que houve de errado no final do seu governo foi fruto do pânico que o mercado tinha com a chegada de Lula. Se seu governo era tão bom assim, por que não conseguiu eleger seu sucessor? E por que será que era tão mal avaliado, bem antes de Lula transformar-se em ameaça? Mas FHC também procura dar pitaco no novo Governo Dilma. Tenta desacreditar exatamente aquilo que serviu de lição para ele, a economia estabelecida por Lula. Tenta criticar Mantega e fala obviedades sobre a equação commodities/manufaturados. Em política externa, o defensor dos pés descalços e cabeça baixa diante dos Estados Unidos é um fiasco completo nas opiniões, apesar (ou será por isso mesmo?) de ter sido Ministro das Relações Exteriores de Itamar. Mostra-se amuado com a postura cabeça erguida que o Brasil tomou nos últimos anos e repete a ladainha americana de que o Brasil não deveria ter buscado (brilhantemente, diga-se de passagem) um acordo entre Irã e Ocidente. No seu afã de ocupar espaço a qualquer custo, começou a discutir o mercado da droga. Chose de loque! Mas, pensando bem, até que não está sendo incoerente – afinal o seu governo acabou sendo uma grande droga.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os tucanos - sem conseguir voar e sem ter onde pousar




Muito bom o artigo de Vladimir Safatle, hoje na Folha, "O colapso do PSDB". Fala com precisão desse bando de tucanos em voo cego pelo Brasil em busca de re-pouso. Mas está difícil, foram reprovados e nesse novo Brasil não há mais clima para suas rasantes - não conseguem nem mesmo um "voo fênix".

O colapso do PSDB
Vladimir Safatle
O caráter errático da campanha é o último capítulo da dissolução ideológica do partido

Há algo de melancólico na trajetória do PSDB. Talvez aqueles que, como eu, votaram no partido em seu início, lembrem do momento em que a então deputada conservadora Sandra Cavalcanti teve seu pedido de filiação negado. Motivo: divergência ideológica.
De fato, o PSDB nasceu, entre outras coisas, de uma tentativa de clarificação ideológica de uma parcela de históricos do MDB mais afeitos às temáticas da socialdemocracia européia.
Basta lembrarmos dos votos e discussões de um de seus líderes, Mario Covas, na constituinte. Boa parte deles iam na direção do fortalecimento dos sindicatos e da capacidade gerencial do Estado. Uma perspectiva contra a qual seu próprio partido voltou-se anos depois.
A história do PSDB parece ser a história do paulatino distanciamento desse impulso inicial. Ao chegarem ao poder federal, os partidos socialdemocratas que lhe serviram de modelo (como os trabalhistas ingleses e o SPD alemão) haviam começado um processo irreversível de desmonte das conquistas sociais que eles mesmos realizaram décadas atrás. Um desmonte que foi acompanhado pela absorção de suas agendas políticas por temáticas vindas da direita, como a segurança, a imigração, a diminuição da capacidade de intervenção do estado, entre outros.
Este movimento foi reproduzido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.
Assim, víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o "desmonte do estado getulista", "a quebra da sanha corporativa dos sindicatos", ou "a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST".
O resultado não foi muito diferente do que ocorreu com os partidos socialdemocratas europeus. Fracassos eleitorais se avolumaram, resultantes, principalmente, de uma esquizofrenia que os faziam ir cada vez mais à direita e, vez por outra, sentir nostalgia de traços ainda não totalmente extirpados de discursos classicamente socialdemocratas. No caso alemão, o SPD acabou prensado entre uma direita clara (CDU, FDP) e uma esquerda renovada (Die Linke).
No caso brasileiro, esta eleição demonstra tal lógica elevada ao paroxismo. Assistimos agora ao candidato do PSDB ensaiar, cada vez mais, um figurino de Carlos Lacerda bandeirante; com seu discurso pautado pela denúncia do aumento galopante da insegurança, do narcotráfico, do angelismo do governo com o terrorismo internacional das Farcs e, agora, o risco surreal de "chavismo" contra nossa democracia. Um figurino que não deixa de dar lugar, vez por outra, a uma defesa de que é de esquerda, de que recebeu palavras carinhosas de Leonel Brizola, de que vê em Lula alguém "acima do bem e do mal" etc.
Nesse sentido, o caráter errático de sua campanha não é apenas um traço de seu caráter ou um problema de cálculo de marketing.
Trata-se do capítulo final da dissolução ideológica de uma sigla que só teria alguma chance se tivesse ensaiado algo que o PS francês tenta hoje: reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda e (algo que nunca um tucano terá a coragem de fazer) autocrítica em relação a erros do passado.

Vladimir Safatle é professor no departamento de filosofia da USP

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Eleições 2010: Cesar Maia entrega os pontos


O Ex-Blog de hoje, escrito por Cesar Maia (DEM), poderia se chamar "Desisto". Com o pretexto de criticar a letargia das campanhas presidenciais em geral, ele demonstra o desespero que tomou conta da Oposição por sua total incapacidade de oferecer ao povo brasileiro um futuro melhor do que o presente lulista. Ao contrário, a Oposição só tem a oferecer a imagem de FHC no retrovisor. O único entusiasmo de Cesar Maia é com sua própria candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro, que tem grandes chances de vitória - embora comece a ser ameaçada por Lindberg (PT). Leia o Ex-Blog:

A CAMPANHA MAIS FRIA DA HISTÓRIA!
                   
1. Por onde se circula - capitais, municípios metropolitanos e interiores- não se consegue ver nenhuma iniciativa das campanhas presidenciais. A exceção se dá quando um candidato se apresenta -fisicamente- num local. E apenas por aquelas duas horas. E é essa a avaliação por todo o país. E que não se culpe a imprensa, pois essa tem feito força para animar a campanha, excedendo-se na divulgação de propostas e de conflitos.
2. Falta experiência eleitoral à candidata do governo, é verdade. Mas sobra no da oposição. E quando se pensava que a alternativa ambiental viria com alguma "verdade inconveniente", o que se vê é um bom comportamento que beira a uma espécie de 'saudades do governo'. O debate da Band foi apenas a apoteose da falta de brilho e de consistência.
3. As candidaturas favoritas fazem suas campanhas como se a instância presidencial estivesse completamente separada da política regional. Nem informação - reclamam as "bases" de ambos os lados- se tem. Isso, num país continental, em que por mais que os candidatos andem, não chegarão - diretamente - a 0,5% dos eleitores. E, por isso mesmo, precisam mobilizar suas "bases" para que estas deem capilaridade à campanha. A animação que se tentou com as Farc sequer passou pelo crivo de uma pesquisa que diria que as Farc não existem no imaginário do eleitor médio. Quem existe é Chávez.
4. Essa letargia pode até interessar a candidatura do governo, mas a sensação que se tem é que ocorre menos por estratégia que por falta de talento. E a oposição vive enjaulada numa tentativa de explicar ações do atual governo pelas ações do governo anterior. Só que, as ações do governo anterior - quando percebidas positivamente - se referem a 12 anos atrás. Ou seja, quem tem hoje 25 anos, tinha na época 13 anos, e quem tinha 70 anos, tem hoje 82. O que passa é que vai tudo bem e, se vai bem, para que mudar, comentava uma dona de casa num município do interior do Estado do Rio, semana passada.
5. O debate na Band foi a expressão desse quadro. Se os atores tivessem recebido um script para representar uma campanha insípida e inodora, não poderiam ter se saído melhor. O destaque foi nostálgico: como eram animados os anos 50, poderia se dizer do candidato da poli-oposição, que ainda ironizou os demais, batizando-os, num 'revival' de Brizola. E 'coerentemente' se debateu o tema saúde em torno dos mutirões de cirurgia -ou seja- daquilo que não foi feito pela rede e se tenta corrigir depois.
6. Lembre-se que, faltando 50 dias para as eleições, o eleitor já começa a transformar sua intenção inicial de voto em decisão final. Quem usa a audiência do debate como justificativa para torná-lo inócuo, se esquece da cobertura da imprensa, que por três dias abriu todos os espaços -escritos, ouvidos e vistos- para tratar do tema. A audiência pós-debate foi, assim, muito grande. E já veio com as conclusões: foi um não debate.
7. Agora, todos se concentram nos programas e comerciais na TV como se a criatividade dos publicitários pudesse transformar a realidade e produzir o milagre de mudar os  produtos pela substituição da embalagem. A pré-campanha, como dizia Paul Lazarsfeld nos anos 40, é o momento da fotografia (de seu tempo), impregnando a imagem no celulóide. E a campanha é a revelação dessa imagem impregnada. Se não há pré-campanha, dizia ele, não há campanha.
8. Se os presidenciáveis pensam que a campanha é na TV, como não houve pré-campanha, a atenção estará voltada para as pesquisas, com cada um torcendo por elas, como se pudessem ser o retrato do que não fizeram.  E se popularidade do presidente fosse a pedra de toque, o presidente do Chile hoje não seria Piñera e Churchill não teria perdido a eleição 3 meses depois de terminada a segunda guerra.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

CNI/Ibope: primeiro turno à vista


Pesquisa com 2002 entrevistados, realizada entre 18 e 21
de junho, com margem de erro máxima  de 2,2%.

Essa nova pesquisa CNI/Ibope silenciou o que ainda restava de bico nos tucanos. Ela confirma todas as preocupações de Fernando Henrique com o seu candidato Serra, e vai além - aponta na direção de vitória de Dilma ainda no primeiro turno. Dentro de uma simulação dos votos válidos, Dilma só precisa de 2,5% (+1 voto) para chegar à maioria absoluta.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Faltou muita coisa no programa tucano


A iluminação, fotografia, trilha, tudo muito bom. O Serra foi bem dirigido. A escolha de saúde e educação foi óbvia, mas bem feita. Falar do seguro-desemprego, em época de redução do desemprego, não foi muito bom, e falar de segurança, menos ainda, porque, afinal, o Governo Serra em São Paulo foi bem fraco nessa área. O slogan de pré-campanha “pode mais” não é lá essas coisas, mas quebra o galho. Esconder o Fernando Henrique foi uma das virtudes do programa – mas todos sabem que isso vai ser mais difícil durante a campanha propriamente dita.
Faltaram duas coisas (que estão muito ligadas entre si): mais emoção e Lula. Sem isso, por melhor que tente ser, o programa despenca. Não é Fernando Henrique nem Serra que o povo quer. O que o povo brasileiro quer é manter as conquistas sociais e econômicas e, acima de tudo, a autoestima que o Governo Lula garantiu e não apareceu no programa.
Em outras palavras, faltou tudo.

domingo, 6 de junho de 2010

Fernando Henrique parece que veio de outro mundo


Muito bom de ler – para melhor conhecer – esse artigo que Fernando Henrique publicou hoje no Globo, “Política externa responsável”. Logo no primeiro parágrafo encontramos termos como “basófias” e “bordão” que dão a certeza de que se trata de documento de outra época somente agora revelado.
Avançando na leitura, encontramos o relato óbvio de que nossa diplomacia sempre defendeu os valores democráticos, a busca pela paz entre as nações, sua igualdade jurídica e nossos interesses econômicos.
Em seguida, o texto parece procurar se justificar com o Terceiro Mundo – que sempre foi o nosso mundo – ao dizer que “não nos distanciamos do que então se chamava de Terceiro Mundo. Se não nos juntamos propriamente ao grupo dos ‘não alinhados’, dele sempre estivemos próximos”.
Depois, um trecho que parece inexplicável: “nunca nos solidarizamos com o grito de “delenda Israel”, nem com as afrontas de negação do Holocausto”. Fernando Henrique pretende com isso acusar o Governo Lula de fazer algo que nunca fez. E a partir daí percebemos que se trata de um texto vindo de outra época, carregado de ego, que (apesar de citar atitudes soberanas e óbvias tomadas pelo Brasil no Governo passado) veio ao nosso mundo defender algo inteiramente superado que é o atrelamento incondicional do Brasil aos interesses americanos.
A questão central é o sucesso e a projeção do Brasil na elaboração do Acordo Nuclear de Teerã. Fernando Henrique, por vaidade e por ideologia, não aceita o acordo e se apresenta descalço lado a lado com Hillary Clinton. Ele – que além de Presidente foi Ministro das Relações Exteriores – parece querer dar aulas ao peão Lula dizendo que “o xis da questão (...) seria a obtenção pelo Brasil e pela Turquia de garantias mais efetivas de que tal (a fabricação da bomba no Irã) não acontecerá”. Esquece (como fez Hillary) que a garantia que Brasil e Turquia obtiveram foi a mesma exigida por toda a comunidade internacional. Além disso, é impossível garantia total e o melhor que se pode fazer – como deixam claro todos os analistas – é tentar recuperar a confiança entre as partes. O Governo Hillary Clinton não está interessado nisso. Exige que o Irã tire os sapatos e se “agache”. Coisa que não exige de Israel, que nem mesmo assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
Ao final, analisando bem o alfarrábio produzido por Fernando Henrique, podemos concluir que o sucesso de Lula – seja na política internacional, seja na política interna e principalmente no processo eleitoral – parece que lhe faz doer os calos. E em política, como ele mesmo diz, “così è (se vi pare)”.
Política externa responsável
A despeito das bazófias presidenciais que, vez por outra, voltam ao bordão de que “hoje não nos agachamos mais” perante o mundo, se há setor no qual o Brasil ganhou credibilidade e, portanto, o respeito internacional, foi o das relações exteriores. Elas sempre foram orientadas por valores e estiveram intransigentemente fincadas no terreno do interesse nacional. A demagogia presidencial não passa de surto de ego deslumbrado, que desrespeita os fatos e mesmo a dignidade do país.
Com exceção dos flertes com o totalitarismo europeu durante o Estado Novo, sempre nos orientamos pela defesa dos valores democráticos, pela busca da paz entre as nações, por sua igualdade jurídica e pela defesa de nossos interesses econômicos. Com toda a dificuldade do período da Guerra Fria — quando os governos militares se opuseram ao mundo soviético e a seus aliados —, não nos distanciamos do que então se chamava de Terceiro Mundo. Se não nos juntamos propriamente ao grupo dos “não alinhados”, dele sempre estivemos próximos. Terminada a Guerra Fria, restabelecemos relações com os países do campo socialista, Cuba e China à frente, voltamos a estar mais ativamente presentes na África, apoiamos o Conselho de Segurança nos conflitos entre Israel e a Palestina, sustentamos a posição favorável à criação de “dois Estados” e o respeito às fronteiras de 1967, e nunca nos solidarizamos com o grito de “delenda Israel”, nem com as afrontas de negação do Holocausto.
Seguindo esta mesma linha, assinamos o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas (TNP), com ressalvas quanto à manutenção dos arsenais pelos “Grandes”, fomos críticos das invasões unilaterais no Iraque e só aceitamos a intervenção no Afeganistão graças à supervisão das ações bélicas pela ONU. A reação ao unilateralismo foi tanta que, em discurso na Assembleia Nacional da França, cheguei a aludir à similitude entre o unilateralismo e o terrorismo, provocando certo malestar em Washington. Procedemos de igual modo na defesa de nossos interesses como país em desenvolvimento. No dia em que se publicarem as cartas que dirigi aos chefes de Estado do G-7, ver-seaacute; que predicávamos desde então maior regulação financeira no plano global e maior controle do FMI e do Banco M u n d i a l p e l o s p a í s e s emergentes. Reivindicamos nossos direitos comerciais na OMC, a começar pelo caso do algodão, e, no caso das patentes farmacêuticas, defendemos vitoriosamente em Doha o ponto de vista de que a vida conta mais que o lucro.
Todas estas políticas tiveram desdobramentos positivos no atual governo.
Temos, portanto, credenciais de sobra para exercer uma ação mais efetiva na condução dos negócios do mundo. A hegemonia norte-americana vem diminuindo pelo fortalecimento econômico dos Brics (metáfora que abrange não só os quatro países, mas vários novos atores econômicos), especialmente da China, pela presença da União Europeia, e também vem sendo minada pelas rebeliões do mundo árabe e muçulmano, como o próprio governo Obama reconhece. É natural, portanto, que o Brasil insista em sentar à mesa dos tomadores de decisões globais. Sendo assim, por que a celeuma causada pela tentativa de acordo entre Irã e a comunidade internacional empreendida pelo governo brasileiro? Há duas ordens distintas de questões para explicar o porquê de tanto barulho. A primeira é a falta de clareza entre a ação empreendida e os valores fundamentais que orientam nossa política externa. A segunda é a forma um tanto retórica e pretensiosa que ela vem assumindo.
Quanto ao primeiro ponto, como compatibilizar o repúdio às armas nucleares com a autonomia decisória dos povos? Esta abrange inclusive o direito ao conhecimento de novas tecnologias, mesmo as “duais”, que tanto podem ser usadas para a paz como para a guerra. Em nosso caso, conseguimos, por exemplo, dominar a técnica de foguetes propulsores de satélites (e quem lança satélite pode lançar mísseis). Ninguém desconfia, entretanto, de que a utilizaremos para a guerra, até porque obedecemos às regras do acordo internacional que regula a matéria. Do mesmo modo, dominamos o ciclo completo de enriquecimento do urânio. Mas não cabem dúvidas de que não estamos fazendo a bomba atômica, não só porque nossa Constituição proíbe, mas porque inexistem ameaças externas e porque submetemos o enriquecimento do urânio (guardado o sigilo da tecnologia usada) ao duplo controle de um tratado de fiscalização recíproca com a Argentina e da Agência Internacional de Energia Atômica.
É precisamente isso que falta no caso do Irã: a confiabilidade internacional nos propósitos pacíficos do domínio da tecnologia.
E é isso que o governo americano alega para recusar a intermediação obtida, ao reafirmar que a quantidade de urânio já disponível, mesmo descontada a quantidade a ser remetida para enriquecimento no exterior, permitiria a fabricação da bomba. O xis da questão, portanto, seria a obtenção pelo Brasil e pela Turquia de garantias mais efetivas de que tal não acontecerá.
Deixando de lado as alegações recíprocas sobre se houve o estímulo americano à ação intermediadora (que, para quem quer ter uma posição independente na política externa, é de somenos), uma ação eficaz para evitar o confronto e as sanções — posição coerente com nossa tradição negociadora — deveria buscar desfazer a sensação da maioria da comunidade internacional de que o governo iraniano está ganhando tempo para seguir em seus propósitos nucleares.
Neste ponto, a retórica dos atores brasileiros parece ter falhado.
O levantar de mãos de Ahmadinejad e Lula, à moda futebolística, e as declarações presunçosas do presidente brasileiro passando a impressão de que havíamos dado um drible nas “grandes potências”, digno de Copa do Mundo, reforçaram a sensação de que estaríamos (no que não creio) nos bandeando para o “outro lado”. E em política internacional, mais do que em geral, così è (se vi pare).

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Eleições 2010: Oposição quer aderir para tentar vencer


A Oposição está certa. Diante do quadro sombrio de seu horizonte eleitoral, tenta ser o que não é: lulista. Os papers de Bornhausen demonstram o desespero claro da Oposição. E O Globo de hoje traz duas notícias preciosas confirmando. No Panorama Político, de Ilimar Franco, temos a declaração do oposicionista ferrenho Jarbas Vasconcelos, senador (PMDB-PE), ao lançar sua candidatura ao governo: "Nunca deixei de reconhecer o apoio que recebi de Lula. Minha relação com Lula foi republicana, respeitosa, mas sem adesismos”. E nas centrais temos reportagem com título em letras garrafais: "Serra acena até para o PT".
Serra tem agido eleitoralmente de forma correta. Adiou o quanto pôde o lançamento de sua candidatura para evitar confrontos com Lula. E agora faz de conta que é lulista. Está certo em agir assim. Mas o confronto é inevitável. Principalmente quando Lula assumir inteiramente a campanha junto a seu eleitorado (Horário Eleitoral) e declarar que seu número é Dilma. Talvez aí só reste a Serra dar um soco em Fernando Henrique, para provar que não é mais Oposição...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Governo Fernando Henrique tirou o sapato e baixou a cabeça para Bush


Os tucanos estão nervosos porque Lula (lembrando que o Ministro Celso Lafer, tucano das Relações Exteriores, tirou o sapato para poder entrar nos Estado Unidos) declarou que, agora, “Ministro que baixar a cabeça e tirar o sapato será demitido”. Hoje, Celso Lafer está nos jornais tentando explicar o inexplicável do sapato. A verdade é que antes de Lula a política externa brasileira caracterizava-se por altíssima dose de submissão aos países mais ricos. No Dia do Diplomata, terça-feira, Lula lembrou também a reunião do G-8 da qual ele participou quando tinha poucos meses na Presidência. Ele chegou, quando já estavam vários presidentes presentes, e foi sentar em seu lugar. Pouco depois, Bush chegou e todos os presentes se levantaram. Lula falou para Celso Amorim: “Não vou levantar, não. Ninguém levantou pra mim, por que levantar para o Bush?” Permaneceu sentado e o Bush acabou vindo falar com ele e sentar ao seu lado. É disso que se está falando: de uma política externa altiva, independente, capaz de falar de igual para igual, mesmo que do outro lado da mesa esteja uma nação riquíssima. O Brasil de Lula atingiu um ponto no cenário internacional que tucano algum teve asas para alcançar. O brasileiro agora tem autoestima, e não vai querer voltar à vida derrotada da oposição. “Dá cá o pé, Lafer” nunca mais!

terça-feira, 30 de março de 2010

Transferência de Lula faz Dilma disparar no Rio de Janeiro


(Clique nos gráficos para ampliar)

Pesquisa quantitativa realizada pelo Instituto Vox Populi no estado do Rio de Janeiro, entre os dias 20 e 22 de março de 2010, com 1.000 entrevistas, margem de erro máxima de 3,1 pontos percentuais.
O apoio explícito de Lula a Dilma faz a candidata petista crescer 20% (de 29% para 35%) em intenções de voto. Nesse cenário, Serra cai (mesmo com apoio de Fernando Henrique) e Ciro também, enquanto Marina, mesmo com apoio de Gabeira, permanece na mesma.
O apoio de Lula a Dilma faz com que ela lidere em todas as regiões.

 

A manipulação das pesquisas


Vamos começar dizendo o seguinte: qualquer instituto de pesquisa tem condições de manipular os resultados e é praticamente impossível evitar isso. Você confia ou não confia nos resultados de determinado instituto. Pessoalmente, adotei a postura de sempre confiar – desconfiando...
Há casos que fogem ao controle da direção dos institutos. Por exemplo, é comum ouvir relatos de entrevistadores que testemunharam concorrentes preenchendo respostas sorrateiramente à sombra de uma árvore. Ou de entrevistadores impedidos de entrar em área perigosa, comprometendo resultados. Claro que os institutos têm sistemas de verificação, mas não dá para ter controle absoluto. Principalmente porque, cada vez mais, os entrevistadores pertencem a empresas terceirizadas – que, por sua vez, podem atender a clientes concorrentes entre si. O instituto, quem sabe, pode ser simplesmente uma pessoa contratando outras empresas. Claro que isso não significa necessariamente má-fé ou incompetência – mas demonstra a dificuldade de controle.
Há outras questões de caráter mais subjetivo, com certo grau de dificuldade para dar precisão aos resultados – ou que, por diversos motivos, não tiveram todos os resultados expostos. Vou dar dois exemplos.
  • O GPP (de Niterói, RJ) é um dos poucos institutos que procuram evitar a pergunta espontânea, porque ela tende a influenciar o resultado da estimulada. Concordo com essa posição, mas é difícil de comprovar. O raciocínio é o seguinte: na espontânea, o entrevistado revela o recall maior, a lembrança principal de um nome. Quando é apresentado o disco com todos os candidatos, o entrevistado pode ter alguma tendência a repetir a escolha da espontânea. Ou seja, o recall passa a ter valor maior do que o real.
  • Outro exemplo é o dessa última pesquisa Datafolha. Não vou questionar o índice de Serra mais alto do que o esperado. Mas tem uma questão que me chamou a atenção, que é a história da transferência de votos. A pesquisa detectou que os eleitores que avaliam Lula com ótimo ou bom dividem- se no apoio a Dilma e Serra (em torno de 33% para cada um). A partir dessa informação, está aberto o campo para a especulação de que Lula não transfere tudo para Dilma – ao contrário, transferiria boa parte para Serra. De um lado, é verdade que Lula não transfere toda sua excelente avaliação automaticamente para Dilma – ou ela estaria com 80% das intenções de voto... De outro lado, não é verdade que ele divida igualmente entre os dois. Não foram divulgados quantos dos que apoiam Lula (mas pretendem votar em Serra) sabem que Dilma é a candidata lulista – e esse cruzamento pode fazer toda a diferença. No Rio de Janeiro, por exemplo, a última pesquisa Vox Populi (ver na próxima postagem) faz duas perguntas diferentes sobre a intenção de voto para Presidente. Na primeira, lista os nomes "Dilma", "José Serra", "Ciro Gomes" e "Marina Silva" (com 29%, 28%, 16% e 9%, respectivamente). Na outra, acrescenta apoios e o resultado passa a ser: "Dilma” (com apoio de Lula) sobe para 35%, "Serra" (com apoio de Fernando Henrique) cai para 26%, "Ciro Gomes" cai para 13% e "Marina Silva" (com apoio de Gabeira) permanece em 9%. As intenções de voto em Dilma crescem mais de 20%. É bom esclarecer que, na mesma pesquisa, comprovou-se que 14% ainda nem sabem que Lula não pode candidatar-se novamente. A questão principal, portanto, não é o da capacidade de transferência que Lula tem (está claro que tem!), mas, sim, a capacidade de comunicar clara e amplamente o seu apoio. Ao não passar esse tipo de informação, os institutos de pesquisa deixam margem para especulação – que, no caso, só interessa à Oposição.
Concluindo, não acho que as pesquisas devam ser tratadas como um demônio em si (como fazia Brizola). Mas todos precisam ficar bem atentos – e ao primeiro cheiro estranho devem berrar.

sábado, 27 de março de 2010

IstoÉ: cientista político nega o “lulismo” e lança o “sortismo”


Sugiro a todos a entrevista na IstoÉ desta semana feita com o cientista político Alberto Carlos Almeida. Com todo respeito, ele diz coisas muito engraçadas – pelo menos na minha opinião. Vejam esse trecho, como é cientificamente engraçado:
IstoÉ - O chamado lulismo poderá definir as eleições?
Alberto Carlos Almeida - Não existe lulismo. O Lula só é bem avaliado pelo desempenho do governo dele.
IstoÉ - Para o sr., o Lula não é um fenômeno?
Alberto Carlos Almeida - Não. Ele tem é sorte. O Lula ganhou força porque seu governo é bem aprovado. Lula não é um mito. Ninguém tem sucesso sem ter sorte. Competência, ele teve! Qual foi? Domesticar o PT, levar o partido para o centro e manter a política econômica.
IstoÉ - O presidente Fernando Henrique não teve sorte?
Alberto Carlos Almeida - Comparando com o Lula, ele foi sem sorte. A sorte sorriu mais para o Lula que para FHC.
Alberto Carlos Almeida também declara que quem tem uma imagem fortalecida junto ao eleitor mais pobre “é o PT, não é Lula nem ninguém”.
Sem querer ofender, juro que lembrei de uma entrevista que Waldick Soriano deu ao velho Pasquim, quando afirma que “câncer não existe”, seria invenção dos cientistas – o que fez debandar os entrevistadores do Pasquim. Mas não quero reduzir essa postagem a uma série de gracinhas. Prefiro que todos vocês leiam a entrevista completa. Quem sabe, vão sair com outra cabeça...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Eliane Cantanhêde: Lula jogou a isca, e FHC, cansado de engolir sapos, comeu


Leia o artigo publicado hoje na Folha, de Eliane Cantanhêde.

Gênios incompreendidos
Lula jogou a isca, e FHC, cansado de engolir sapos, comeu. A vaidade falou mais alto do que o pragmatismo, e o ex-presidente entrou na campanha de 2010 comparando o seu governo ao do sucessor e deflagrando o que Lula mais queria: uma campanha plebiscitária. Só falta saber o que Serra acha disso.
No domingo, FHC usou um artigo para mostrar as vantagens das privatizações da Vale e das teles e os avanços na área social, além do sucesso da estabilidade econômica.
No final, se disse pronto para o confronto de resultados: "A briga é boa, nada a temer".
Ontem, os jornais publicavam versões de que FHC teria dito que Dilma não passa de um boneco manipulado por Lula. O Planalto e o PT adoraram. Preferem o choque Lula-FHC ao Dilma-Serra. Ainda por cima, acham que FHC ajuda a divulgar a candidata deles.
Já que é hora de comparações: enquanto a campanha de Dilma fala a mesma língua, a da oposição é uma salada de posicionamentos, provocações, táticas e estratégias.
Cada um por si.
O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, avisou que, se eleito, Serra vai botar a economia de ponta-cabeça. Agora, FHC cede à estratégia dos adversários. E, no meio tempo, o próprio Serra quer trocar "Polícia Militar" por "Força Pública", só para irritar os milicos.
O "andar de cima" (com licença, Elio Gaspari) se assustou com Guerra, o "andar do meio" foi liberado para a batalha marqueteira de números, e os militares, que têm capacidade de multiplicação de votos no "andar de baixo" pelo país afora, passam a ter tanto medo de Serra quanto já tinham de Dilma.
Tem alguma coisa errada com esses tucanos ou eles são uns gênios de eleição. Tão geniais que só eles mesmos conseguem entender.
Mesmo sem se entenderem.

Quer comparar? Então toma!



Não adianta esse blablablá nas páginas dos jornais. A comparação que realmente interessa é a que está sendo feita por toda a população. Vamos comparar, por exemplo, os índices de aprovação e desaprovação de Lula e os de Fernando Henrique em períodos correspondentes dos mandatos. Notem que a desaprovação de Fernando Henrique chega a ser maior do que a aprovação. Para o bem dos tucanos, é melhor nem tentar comparar. As diferenças tendem a aumentar - adivinha a favor de quem?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Oposição assombrada: em artigo, Zapatero diz que Lula 'assombra o mundo'

Caio Quero | 2009-12-11, 13:22

O presidente Luiz Inácio Lula Silva foi escolhido pelo jornal espanhol El País como uma das cem personalidades mais importantes do mundo ibero-americano em 2009 e ganhou um perfil assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero.
No texto, que será publicado na versão impressa de domingo, mas que já foi disponibilizado na internet, Zapatero classifica Lula como "o homem que assombra o mundo" e, entre outros elogios, diz que o presidente brasileiro é um homem "completo e tenaz, por quem sinto uma profunda admiração".
"Pelas mãos deste homem (Lula), seguindo o caminho aberto por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o Brasil, em apenas 16 anos, deixou de ser o país de um futuro que nunca chegava para converter-se em uma formidável realidade, com um brilhante futuro e uma projeção global e regional cada vez mais relevante", escreve Zapatero.
O primeiro-ministro espanhol ainda afirma que Lula "está sabendo enfrentar a desigualdade, a pobreza e a violência" e que, com ele, "o Brasil ganhou a confiança dos mercados financeiros internacionais".
Classificando o presidente brasileiro como "uma referência para a esquerda" latino-americana, Zapatero ainda afirma que o Brasil "logo ocupará uma vaga no Conselho de Segurança da ONU e se transformará em uma potência energética".
O espanhol termina o artigo afirmando ter encontrado Lula em Copenhague, em outubro, quando o Rio foi escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
"Lula chorava como um menino grande (....) A euforia não o impediu de ter o caráter necessário para vir me consolar porque Madri não havia sido eleita", diz. "A mim não espanta que este seja o homem que assombra o mundo", completa o premiê espanhol.