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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ÓDIO X DIÁLOGO - O TERCEIRO TURNO SÓ COMEÇOU...





Neste domingo, dois sociólogos saídos da velha esquerda, ocuparam páginas opostas do Globo. Na página par, Fernando Henrique, um antigo estudioso da ciência política, particularmente do marxismo, escreveu “Diálogo ou novas imposturas?”, onde procurou manter o clima belicoso das eleições presidenciais, com fortes ataques ao governo e ao PT particularmente. Na página ímpar, Moreira Franco, ex-dirigente da AP (Ação Popular), movimento político associado à igreja que ganhou mais destaque na oposição ao golpe de 64, dá entrevista com o título de “É grave levar para a disputa política a divisão do país”. Os textos atendem muito a que cada um se propõe, tentando escolher o foco ideal para os próximos movimentos políticos, principalmente no âmbito do Congresso.
Fernando Henrique, ex-Presidente e tucano-mor do mundo político, fez o discurso da valorização da beligerância eleitoral (a exemplo do que fez Aloysio Nunes no Senado). Começa pelo título e, logo no segundo parágrafo, escreve que “é bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos”. E em seguida “não se pode aceitar passivamente que a 'desconstrução' do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática”. Misturou duas coisas (“desconstrução” e “calúnias/deturpações de fatos”) como se fossem uma coisa só. Mas certamente é daqueles que pensa que quando sou eu que faço, é “desconstrução”; quando é o adversário, trata-se de “calúnia”. No afã de manter a tensão pós-eleitoral, atrapalhou-se com pesquisas e o segmento mais rico do eleitorado. Disse ele:
“A propaganda incentivada pela liderança maior do PT inventou uma batalha dos “pobres contra os ricos”. Eu não sabia que metade do eleitorado brasileiro, que votou em Aécio, é composta por ricos... É difícil acreditar na boa-fé do argumento quando se sabe que 70% dos eleitores do candidato do PSDB, segundo o Datafolha, compunham-se de pessoas que ganham até três salários mínimos. A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores”.
Além de se enganar com percentagens e segmentos, quem está tentando enganar é Fernando Henrique. Como calcula-se em apenas 7% a classe alta no Brasil, é claro que ninguém pensou em dizer que entre os 51 milhões de eleitores do Aécio a maioria é de classe alta. Aécio foi o candidato dos mais ricos porque defendeu propostas mais afinadas com os segmentos mais ricos da sociedade. Essa é a verdade que a campanha petista propagou e que ficou demonstrada com o resultado da eleição dando a Dilma a maioria dos votos dos segmentos de menor renda e a Aécio a maioria dos votos dos segmentos de renda mais alta (segundo pesquisa Datafolha divulgada na véspera do segundo turno). Quem é que “deturpa os fatos”, Fernando Henrique?
Moreira Franco fez o discurso do diálogo. Começou por declarar que “não existe nada mais grave na história da humanidade do que você levar para a disputa política a divisão do país”. Tomou essa posição em defesa não apenas do governo de que faz parte (Ministro da Aviação Civil), como – principalmente – em defesa dos interesses do seu partido, o PMDB, o segundo em deputados federais e o maior partido de “centro” do país. À medida que o “diálogo” vier para o âmbito do Congresso, o PMDB terá mais força como fiel da balança, ampliando seu poder de fogo.
Enquanto, através de Fernando Henrique, o PSDB procura firmar-se como porta-voz da oposição dentro do Congresso (e ao mesmo tempo manter de prontidão o vasto eleitorado oposicionista que conseguiu arrebanhar nesta eleição), o PMDB, através do discurso do diálogo com o Congresso no centro de referência, procura preservar o poder de conduzir os destinos do país através do controle da maioria parlamentar. A bem da verdade, nenhuma dessas posições interessa ao país. O maior recado dessa eleição foi o da necessidade de reforma política. E a principal batalha desse "terceiro turno" deverá ser pela mobilização da sociedade em defesa de uma reforma política profunda, independente, realmente popular. Isso não pode ser deixado nas mãos de quem tem o maior interesse em deixar tudo como está.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A ESCOLHA DE SOFIA DA OPOSIÇÃO


“tudo muda o tempo todo no mundo
não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo”.

Lulu Santos / Nelson Motta

Uma semana para a eleição. A última pesquisa Datafolha apresenta, entre os votos válidos, 45% para Dilma, 30 para Marina, 20 para Aécio e 5% para os outros candidatos. Nesse quadro, Dilma precisa ganhar apenas 5 pontos dos adversários para vencer no primeiro turno. Não é uma tarefa fácil, mas não é impossível. Dilma teria que conquistar um pouco dos Não-Votos e um pouco de voto útil em cima dos adversários. A oposição no entanto não tem nisso a sua maior preocupação. Pensa apenas no segundo turno e o seu dilema é: quem vai ser rifado, Marina ou Aécio? Contas e mais contas, reuniões e mais reuniões estão sendo feitas para se chegar a um denominador comum. Os defensores de Aécio argumentam que ele é que tem maior capacidade administrativa, estaria mais preparado para derrotar Dilma e para domar o Congresso. Marina, para seus defensores, seria a novidade capaz de criar uma forte onda anti-PT e conseguir a vitória no segundo turno.
Mas acredito que a luz amarela está cada vez mais intensa na campanha da candidata da Rede. Ela começa a balançar em um momento que é difícil conseguir reverter o movimento. Há duas semanas escrevi que “Marina não foi favorecida pelo Horário Eleitoral. Primeiro, porque o tempo é curto (...) e o desempenho de Marina foi abaixo da crítica. Seu discurso é rancoroso, sem motivar ninguém”. Mas admiti que em “um possível segundo turno o programa de Marina pode melhorar bem. Primeiro, porque todo programa eleitoral que sai dos atuais 2 minutos para os 10 minutos do segundo turno ganha ares de vitorioso”. Ainda acho (sem muita convicção) que o mais provável é um segundo turno entre Dilma e Marina, mas não é o que pensa, por exemplo, Fernando Brito, do Tijolaço, que neste domingo me alertou para os arredondamentos estranhos do Datafolha em votos válidos, mostrando Marina e Aécio com 31% e 21%, quando deveriam ter 30% e 20%. Parece uma tentativa de reduzir o ritmo de avanço de Dilma, principalmente quando vemos na pesquisa anterior que a candidata petista teve seu índice reduzido em um ponto. Fernando Brito acredita que Aécio passa Marina.
O sociólogo Fabio Gomes, do Instituto Informa, aparentemente também acredita nessa possibilidade, embora prefira, em vez de fazer previsões, fazer reflexões. Ele me enviou esse texto com um gráfico de Padrões de Escolha Eleitoral (clique na imagem para ampliar):


Em recente palestra sobre comportamento eleitoral para executivos, evitei fazer previsões. Fiz, no entanto, reflexões com base em uma plataforma analítica que desenvolvi, alinhando a experiência nos últimos 17 anos de investigação do comportamento do eleitor e algumas Teorias das ciências políticas. Os quatro eixos para a escolha de uma candidatura podem subsidiar reflexões sobre o andamento das campanhas. Marina tem dificuldades com os dois primeiros (“competência para o exercício” e “competência política”) - e será muito testada e atacada nesses eixos nos próximos dias. Dilma, pela insatisfação com o governo, deverá argumentar os quatro eixos. Já Aécio, encontra dificuldades nos dois últimos eixos: “sentimentos despertados” e “imagem pessoal”. Melhor refletir do que prever. O comportamento eleitoral não é tão previsível como desejam alguns.
Pelo que entendi, a partir dessas reflexões, os participantes da palestra, que tenderiam para Marina, passaram a acreditar que Aécio teria mais condições para o cargo, poderia fazer mais frente a Dilma.
 Agrego a isso percepções positivas de superação, que ele receberia por ultrapassar Marina na reta final. O que acho complicado é o tempo curto e a falta de unidade da oposição. Esse marécio em que a oposição navega contribui cada vez mais para que a sua escolha de Sofia transforme-se em escolha de Dilma...

sábado, 30 de agosto de 2014

Atenção, senhores eleitores: apertem os cintos!


Será que a candidatura Marina alçou voo de tal forma que ninguém mais pode acompanhar? Nem tanto. Claro que houve o “voto-comoção” (que ajudou muito na apresentação de Marina como sucessora de Eduardo Campos) e também o voto-hay-gobierno?-soy-contra, incrustrado no rótulo de Não-Voto, responsável pelo grande impulso que Marina teve nessas últimas pesquisas Ibope e Datafolha. Mas será que a eleição presidencial já vive um voo sem volta? É claro que os números das pesquisas são desesperadores para Aécio e preocupantes para a candidatura Dilma. Mais preocupantes ainda para quem, independente do partido, não quer ver o Brasil mergulhado outra vez no vácuo do Consenso de Washington. Mas, calma, dá para recuperar o controle. Neste sábado, por exemplo, tanto André Singer quanto o próprio Mauro Paulino, do Datafolha, escrevem artigos com bons corretivos para esse frenesi da esquadrilha midiática.
André Singer (Rumo ao desconhecido) alerta que “há muito em aberto na candidatura pessebista”. Quais são os rumos que se pretende para uma suposta relação com o agronegócio? O programa social vai ficar solto no ar? E a base de apoio para governar, no caso de Marina eleger-se, será firme? André Singer lembra que, ao se comprometer com a independência do Banco Central, Marina aponta para um governo de “juros altos, recessão bem mais que técnica, corte de gastos públicos e desemprego”. Mais ou menos um “apertem os cintos, o piloto sumiu”.
Já Mauro Paulino (Sucesso de ex-senadora depende da cristalização do eleitorado) destaca que Marina superou o clima de “comoção”, superou o recall de 2010, abriu vantagem sobre Aécio em território exclusivo do tucano e cresceu significativamente entre os eleitores de “menor renda e baixa escolaridade, grupos onde Dilma e o governo sempre demonstraram grande força”. Mas alerta que “propostas concretas e claro programa de governo” serão decisivos. E conclui que a “ênfase exclusiva no discurso da ‘nova política’ pode, com o tempo, afastar parte dos recém-conquistados eleitores”.
Os índices estratosféricos de Marina dispararam em velocidade supersônica. Ela soube muito bem representar os que estavam insatisfeitos tanto com os vácuos do governo petista quanto com a insipidez da tentativa de voo tucano (que rapidamente virou pó). Mas até agora não conseguimos perceber um quod erat demonstrandun em suas propostas. É tudo muito frágil, contraditório, oportunista, rancoroso, tudo muito eólico e ao mesmo tempo uma guinada brutal rumo ao pior do nosso passado.
O Brasil não pode voltar a apertar o cinto e ficar eternamente preso a um mundo sem futuro. O que o Brasil precisa é de um voo tranquilo para dar asas à imaginação.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

"Bem-aventurados vós, os marqueteiros, porque vós sois a recuperação da Igreja Católica"


Não quero luxo nem lixo
Meu sonho é ser imortal 

(Rita Lee / Roberto de Carvalho)

Faz pouco mais de quatro meses que Francisco foi escolhido Papa. Sua entronização foi no dia 17 de março e no mesmo dia fiz um post sobre esse grande acontecimento. Escrevi que por trás dessa escolha, um Papa sul-americano, estava “a luta contra o avanço dos evangélicos, basicamente os pentecostais e neopentecostais” que, “com uma estratégia de marketing bem mais agressiva”, arrebanhavam “fatias cada vez mais expressivas das estatísticas católicas (principalmente nas áreas urbanas, com suas franjas lumpen)”. Parecia que um cabôco divinhadô tinha baixado em mim. De lá pra cá o Papa Francisco, franciscano por natureza, não fez outra coisa a não ser revolucionar o marketing católico. Sua linguagem mais direta, popular, tem agradado a todos. Foi para o corpo a corpo com os fiéis, eliminou as mordomias e simplificou as vestes, ignorou os luxos paroquiais, o papa-móvel blindado  e inflamou a juventude católica. Sua vinda ao Brasil encaixa-se perfeitamente nessa estratégia de marketing de combate aos evangélicos (pentecostais e neopentecostais) usando um contato mais direto com as faixas mais pobres, com o objetivo de recuperar os fiéis perdidos. A situação católica atingiu níveis críticos, como comprova a pesquisa Datafolha publicada ontem. Segundo o Censo 2010 (que reproduzi no meu post), o Brasil (o maior país católico do mundo) ainda contava com 64,6% de católicos. Hoje, segundo a pesquisa, são apenas 57% (eram 83% em 91!). Perderam espaço exatamente para os evangélicos pentecostais e neopentecostais, que eram 5,6% em 91, 13,3% em 2000 e agora aparecem com 19%. A disputa deve se acirrar, inclusive (ou principalmente) na área política. A lógica da Teologia da Libertação deve voltar a crescer, a luta pelo poder será intensa. Quem viver rezará.

terça-feira, 29 de março de 2011

Pesquisa Mitofsky: Dilma está melhor do que Obama

(clique nas imagens para ampliar)

O Consulta Mitofsky, instituto mexicano de pesquisa, faz avaliações frequentes dos governos de 20 países americanos – Norte, Sul e Centro. Na última vez que divulguei aqui no Blog, em outubro do ano passado (veja aqui), Lula liderava com 78%. O Mitofsky acaba de fazer nova rodada e Dilma não está em primeiro lugar, claro, mas tem 50% de aprovação – ou, como observa o instituto, “superior a los obtenidos por Luiz Inácio Lula da Silva al inicio de sus dos mandatos en 2003 y 2007”. (veja aqui)
Dilma realmente tem surpreendido. Soube ser “a candidata de Lula” e agora está sabendo ser “perfeita complementar de Lula”, conquistando as parcelas da classe média e da mídia que sempre foram hostis a Lula (que continua garantindo para seu governo apoio das faixas mais populares). Ninguém em sã consciência poderia esperar que Dilma obtivesse os mesmo índices do final do governo passado. A não ser, talvez, Cesar Maia, que na semana passada tentou provar que seria negativo o seu índice de 47% de “ótimo/bom” na avaliação de 3 meses do Datafolha. Ele chegou a afirmar que “em geral, a avaliação de um governo é maior que a intenção de voto em campanha, pois nessa intervém a ação de seus concorrentes”. Nas eleições pós-ditadura isso só ocorreu (ver quadro abaixo) no caso de Collor (26% de intenção de voto no primeiro turno), em uma eleição atípica, com 21 candidatos. Collor teve 36% de “ótimo/bom” na avaliação Datafolha de início de Governo. Depois disso, todos os eleitos tiveram avaliação de início de governo inferior à intenção de voto – sendo que todos eles (incluindo Collor e Itamar) apresentaram índices de avaliação abaixo de Dilma. Não podemos esquecer ainda que as piores avaliações foram de Fernando Henrique. Contra tudo e contra todos, Dilma está com avaliação excelente. Ela bem que poderia ter contado o segredo para Obama...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Bye, bye, Serra


Hoje foi tudo de ruim para Serra. Começou com o Datafolha iniciando alinhamento, obrigando a Folha a reconhecer na primeira página que Dilma não estava em queda. Depois teve a reportagem da mesma Folha com o flagrante do papo telefônico entre Serra e Gilmar (que absurdo!). O dia continuou tarde afora, com o TSE mandando 8 a 0 na maluquice dos dois documentos. E a noite foi ainda mais preocupante para Serra com a comparação entre os programas finais. Serra cantarolando foi uma coisa horrorosa, enquanto o de Dilma foi grandioso e emocionante, gran finale.
Agora só falta o debate da Globo. Que deverá ser meio mais ou menos – para desespero de Serra e até de Marina.

sábado, 4 de setembro de 2010

Ibope e Datafolha informam: o povo não é bobo

Saíram novas pesquisas Ibope e Datafolha confirmando as tendências de alta nas intenções de voto em Dilma e de queda em Serra. Dilma tem vantagem de 24 pontos em uma e de 22 pontos em outra. Em ambas, vitória no primeiro turno, e com o crescimento de Mercadante pegando carona. Isso tudo apesar do estardalhaço midiático feito em torno dos vazamentos da Receita. Politizaram o tema com objetivo de conquistar votos, mas não convenceram. O povo não é bobo. Mas o que me intriga é que não houve nenhum estardalhaço em torno do agente a serviço do governo tucano de Yeda Crusius (PSDB, RS), que foi preso acessando dados sigilosos de poíticos petistas. É ou não é intrigante? Ou sou eu que sou bobo?

sábado, 21 de agosto de 2010

Satie: notícias gordas, notas magras

Acordei com o sol nascendo... o Datafolha apontando Dilma 17 pontos à frente... procurei ouvir a música leve de Erik Satie. Encontrei esse vídeo, curioso, do Café del Mar com sua Gymnopédie. Dia ótimo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Marcos Coimbra e os mitos sobre pesquisas

Bom artigo de Marcos Coimbra, do Vox Populi, para o Correio Braziliense, sobre o diz-que-me-diz das pesquisas. Dá uma paulada no Datafolha ("Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais") e nos analistas que tratam as pesquisas como "fotografias de momento". Sobre isso, conclui: "Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência".

Mitos e verdades sobre as pesquisas
Marcos Coimbra

De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.
É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir idéias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.
Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.
Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.
Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira. Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.
É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.
Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum. Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro?
As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem. Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.
Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são "fotografias de momento", sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.
Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada. Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.
Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.
E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra?
Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.
Ceticismos ("nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido"), perplexidades ("como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?") e falsas noções ("pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro") são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Novas pesquisas vêm aí – e daí?


 (clique no gráfico para ampliar)

Essa semana teremos novas pesquisas Datafolha e Vox Populi. Mas poucas novidades deverão surgir, além de uma ou outra variação dentro da margem de erro. Deverão ser consolidadas as tendências de alta de Dilma, de queda de Serra e de estagnação de Dilma. Plínio? É, pode ser. Menos pelo debate em si, mais pela presença na mídia. Pode ser que tire votos de Marina, mas nada que possa impedir a vitória de Dilma ainda no primeiro turno. Aliás, é bom que se esclareça que a provável vitória definitiva de Dilma no primeiro turno não ocorrerá por conta de conquista de votos de Marina e nanicos. Deverá vir basicamente dos que, hoje, são 19% de não-votos (brancos, nulos, indecisos) e dos eleitores de perfil popular que ainda estão com Serra. Hoje Dilma tem algo em torno de 48,15% dos votos válidos (segundo a última pesquisa Ibope). Bastaria que ela conquistasse mais 4 pontos e os outros permanecessem como estão (o que não é difícil, talvez até caiam) para que ela liquidasse a fatura em 3 de outubro. Com o Horário Eleitoral Gratuito os novos índices devem surgir com força. E a partir daí não vencer no primeiro turno me parece o cenário mais improvável.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Datafolha escondeu dos Democratas a informação sobre Vice tucano


(clique para ampliar)

Li no Twitter do Nassif e fui lá conferir. É verdade, no questionário (ver acima) da próxima pesquisa Datafolha (que se realizará nos dias 30 e 1º) que foi registrada hoje no TSE já constava o nome de Álvaro Dias como Vice de Serra. O Datafolha já sabia quem era o Vice, mas os "aliados" do DEM não sabiam nada. Estavam sendo levados no bico pelos tucanos. É melhor começarem a pensar sobre 2014...

terça-feira, 30 de março de 2010

A manipulação das pesquisas


Vamos começar dizendo o seguinte: qualquer instituto de pesquisa tem condições de manipular os resultados e é praticamente impossível evitar isso. Você confia ou não confia nos resultados de determinado instituto. Pessoalmente, adotei a postura de sempre confiar – desconfiando...
Há casos que fogem ao controle da direção dos institutos. Por exemplo, é comum ouvir relatos de entrevistadores que testemunharam concorrentes preenchendo respostas sorrateiramente à sombra de uma árvore. Ou de entrevistadores impedidos de entrar em área perigosa, comprometendo resultados. Claro que os institutos têm sistemas de verificação, mas não dá para ter controle absoluto. Principalmente porque, cada vez mais, os entrevistadores pertencem a empresas terceirizadas – que, por sua vez, podem atender a clientes concorrentes entre si. O instituto, quem sabe, pode ser simplesmente uma pessoa contratando outras empresas. Claro que isso não significa necessariamente má-fé ou incompetência – mas demonstra a dificuldade de controle.
Há outras questões de caráter mais subjetivo, com certo grau de dificuldade para dar precisão aos resultados – ou que, por diversos motivos, não tiveram todos os resultados expostos. Vou dar dois exemplos.
  • O GPP (de Niterói, RJ) é um dos poucos institutos que procuram evitar a pergunta espontânea, porque ela tende a influenciar o resultado da estimulada. Concordo com essa posição, mas é difícil de comprovar. O raciocínio é o seguinte: na espontânea, o entrevistado revela o recall maior, a lembrança principal de um nome. Quando é apresentado o disco com todos os candidatos, o entrevistado pode ter alguma tendência a repetir a escolha da espontânea. Ou seja, o recall passa a ter valor maior do que o real.
  • Outro exemplo é o dessa última pesquisa Datafolha. Não vou questionar o índice de Serra mais alto do que o esperado. Mas tem uma questão que me chamou a atenção, que é a história da transferência de votos. A pesquisa detectou que os eleitores que avaliam Lula com ótimo ou bom dividem- se no apoio a Dilma e Serra (em torno de 33% para cada um). A partir dessa informação, está aberto o campo para a especulação de que Lula não transfere tudo para Dilma – ao contrário, transferiria boa parte para Serra. De um lado, é verdade que Lula não transfere toda sua excelente avaliação automaticamente para Dilma – ou ela estaria com 80% das intenções de voto... De outro lado, não é verdade que ele divida igualmente entre os dois. Não foram divulgados quantos dos que apoiam Lula (mas pretendem votar em Serra) sabem que Dilma é a candidata lulista – e esse cruzamento pode fazer toda a diferença. No Rio de Janeiro, por exemplo, a última pesquisa Vox Populi (ver na próxima postagem) faz duas perguntas diferentes sobre a intenção de voto para Presidente. Na primeira, lista os nomes "Dilma", "José Serra", "Ciro Gomes" e "Marina Silva" (com 29%, 28%, 16% e 9%, respectivamente). Na outra, acrescenta apoios e o resultado passa a ser: "Dilma” (com apoio de Lula) sobe para 35%, "Serra" (com apoio de Fernando Henrique) cai para 26%, "Ciro Gomes" cai para 13% e "Marina Silva" (com apoio de Gabeira) permanece em 9%. As intenções de voto em Dilma crescem mais de 20%. É bom esclarecer que, na mesma pesquisa, comprovou-se que 14% ainda nem sabem que Lula não pode candidatar-se novamente. A questão principal, portanto, não é o da capacidade de transferência que Lula tem (está claro que tem!), mas, sim, a capacidade de comunicar clara e amplamente o seu apoio. Ao não passar esse tipo de informação, os institutos de pesquisa deixam margem para especulação – que, no caso, só interessa à Oposição.
Concluindo, não acho que as pesquisas devam ser tratadas como um demônio em si (como fazia Brizola). Mas todos precisam ficar bem atentos – e ao primeiro cheiro estranho devem berrar.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Afinal, Serra e Dilma estão ou não estão tecnicamente empatados?


Até hoje os institutos de pesquisa não sabem explicar o que é “margem de erro” e muito menos o que é “tecnicamente empatados”. Chegam a ser bisonhas as declarações atribuídas ao Datafolha de que não seria correto falar em empate técnico por que isso só ocorreria nos limites máximo (Dilma) e mínimo (Serra). Ora, há ou não há empate técnico, não importa se são ou não nos extremos. A questão é outra. Com 2.623 entrevistas, a margem de erro, com uma casa decimal, é de 1,9%, não 2,0%, como foi divulgado. E isso ocorre na faixa dos 50%. Na faixa dos 32% de Serra, a margem é 1,8% e na faixa de Dilma a margem é de 1,7%. Assim teríamos a variação de Dilma entre 26,3% e 29,7% e a variação de Serra entre 30,2% e 33,8%. Portanto, tecnicamente falando, não haveria empate dentro dessa pesquisa. Mas isso refere-se a pesquisa realizada entre os dias 25 e 26 de fevereiro, com intervalo de confiança de 95%. Hoje, arrisco dizer que já há empate técnico e que breve Dilma estará ultrapassando Serra. Até lá esperamos que os institutos não estejam tecnicamente empacados no item informação.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eleição 2010: eleição plebiscitária, Ciro e margem de erro


Eleição plebiscitária. A rigor, não existiria eleição plebiscitária com mais de um candidato. É uma eleição do sim/não. Como houve na questão das armas, quando se mobilizou a população para aprovar ou não a lei proibindo o comércio de armas e munição (aliás, nesse caso, é um plebiscito chamado de referendo). Em 2010, diz-se que a eleição é plebiscitária para mostrar que os eleitores, de fato, vão dar um sim ou um não ao Projeto Lula. Vão eleger um “Lula” ou um “anti-Lula”. Não importa (a não ser por motivos táticos) se existem dois, três ou mil candidatos. Com Ciro ou sem Ciro, a eleição será plebiscitária.
Ciro. Já escrevi aqui, citando a pesquisa Datafolha, que, no primeiro turno, Ciro tira mais votos de Serra do que de Dilma. E foi isso, alguns Ex-Blogs atrás, que fez o Cesar Maia declarar que a eleição plebiscitária favorece o Serra. Visto assim, ele teria razão. Acontece que o perfil Ciro ainda não está inteiramente definido. Digamos (apenas como exemplo) que alguém vota em Ciro porque veio do Nordeste para morar em São Paulo. Sem o Ciro, só conhece bem Lula e Serra. Lula não é candidato, logo escolhe Serra. À medida que os “ciristas” forem percebendo que Ciro – assim como Dilma – é “sim a Lula”, deixarão de ter Serra como alternativa. Tudo depende da comunicação articulada do Planalto com o PSB.
Margem de erro. Nunca vi errar tanto em pesquisa como acontece com a mídia no quesito “margem de erro”. Do Jornal Nacional ao tablóide distribuído na esquina, todos dizem barbaridades sobre as variações dos índices em função da margem de erro. Nessa pesquisa CNT/SENSUS, o próprio instituto deu uma informação estranha. Para uma pesquisa de 2.000 entrevistas, deu como margem de erro “+/- 3%”. Pelo que sei, essa seria a margem máxima para 1.070 entrevistas. Para 2.000 entrevistas, a variação máxima seria de +/- 2,2%. Na faixa dos índices de Dilma (27,8%) e Serra (33,2%), a margem é de +/- 2%. Não há empate técnico, já que a variação de Dilma fica entre 25,8% e 29,8%, enquanto a variação de Serra fica entre 31,1% e 35,3%. Mas acredito que isso é só uma questão de tempo... com ou sem Ciro.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Marina Silva, conforme queríamos demonstrar

Ontem escrevi aqui que "Marina tenderia a conquistar os votos de quem já decidiu não votar nos candidatos de Lula, concentrados provavelmente na classe média de São Paulo e Rio (a divulgação dos cruzamentos da pesquisa poderá comprovar isso)". Hoje o Datafolha divulgou alguns cruzamentos (faltou por Região, apesar de anunciado) comprovando o que disse, apesar do índice total de 3% não oferecer grandes oportunidades de variação. Mas já dá para sentir o cheiro. Adivinha onde Marina cresce o eleitorado? Bingo! Escolaridade Superior (5%) e Renda Familiar acima de 10 salários mínimos (6%). Vamos aguardar o Datafolha corrigir a divulgação das Regiões.
ATENÇÃO. Acaba de sair a correção do Datafolha com cruzamentos por Região. Marina cresce na sua Região (Norte/Centro Oeste), com 5% - o que era óbvio, mas não muito significativo em termos nacionais -, e nas Capitais e Regiões Metropolitanas (4%).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

César Maia demonstrou, ontem, porque Lula bateu recorde de aprovação no Datafolha de hoje.

No seu Ex-Blog de ontem, César Maia citou uma pesquisa do Instituto GPP no Rio onde foi feita a seguinte pergunta:
Com essa crise e perspectiva de aumento da inflação e desemprego, você acha melhor – votar num candidato do Governo Federal, votar num candidato da Oposição, ou não sabe o que dizer?
O resultado foi:
  • Votar num candidato do Governo Federal – 40,5%
  • Votar num candidato da Oposição – 32,3%
  • Não sabe – 27,2%.
A conclusão é óbvia. Os governos anteriores ao de Lula estão todos associados a “oposição”. E todos estão associados também a péssimas administrações, desde Sarney até Fernando Henrique. Assim, diante da necessidade de se escolher um governo com capacidade de enfrentar os problemas gerados pela crise internacional, qual a opção lógica: governos associados ao fracasso ou um governo que está fazendo tudo certo até agora? O governo do desastrado Plano Cruzado ou o governo com desenvolvimento consistente? O governo da falsa caça aos marajás ou o governo da Polícia Federal? O governo do fusquinha ou o governo do Bolsa Família? O governo de quem acabou com a inflação – mas que praticamente faliu o Brasil e aumentou o desemprego – ou o governo da estabilidade econômica e social, dos novos empregos, do crescimento acelerado, que fala a linguagem do povo e ainda assim soube conquistar o respeito internacional? Lamento informar, mas o Governo Lula é a resposta natural. E nessa pesquisa do GPP a Oposição só teve índice tão alto porque o povo sabe que Lula não é candidato – mas já deixa claro que prefere um candidato indicado por ele. Assim, é incompreensível a irritação de César Maia, no seu Ex-Blog de hoje, diante dos 70% de Ótimo+Bom que o Governo Lula conquistou no Datafolha (vale lembrar que no Nordeste, que tem cerca de 27% do eleitorado, o índice atingiu 81% - clique no gráfico acima para ampliar). Não adianta acusar de populismo ou dizer que Lula, diante da crise mundial, “mantém uma coreografia glacial e mistura má fé, ao criar otimismo com ilusão da boa fé da população”. A constatação de que o governo está fazendo a coisa certa vem de todas as partes do mundo. Agora mesmo a Reuters distribui notícia de que estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sinalizou forte desaceleração das economias globais por conta da crise financeira, e o Brasil foi único país que teve a sua perspectiva de ciclo de crescimento apresentada apenas como "declínio". Será que isso não basta? Até quando a Oposição vai ficar sem se encontrar, batendo cabeça, tentando descobrir uma falha mínima de Lula para tentar conquistar um pouco do eleitorado? Cadê o marketing correto? Está difícil, Oposição, cada vez mais difícil...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

César 1 x 0 Ibope

No seu Ex-Blog de hoje, César Maia pega com muita precisão uma escorregadela do Ibope:
BARRACO ESTATÍSTICO: EXTREMAMENTE GRAVE! AO SE DEFENDER, IBOPE SE ENTREGA!
Diretora do Ibope - ao contrário do que diziam antes - afirma que pesquisas influenciam eleitor. Se for assim, a divulgação de pesquisas em época próxima a eleição deveria ser proibida. Afinal, Ibope errando no Crivella teria provocado o mesmo fenômeno.
Globo-On
- É só analisar o Datafolha entre 5 de julho e 4 de outubro: o eleitor enriqueceu cerca de 10%. Ou seja: o Datafolha subiu o perfil da renda familiar e da escolaridade. Acho esquisito mudar uma amostra assim. Por isso, não foi erro do Ibope. O Datafolha criou uma "onda" que ajudou Gabeira - retrucou Márcia Cavallari, diretora de atendimento e planejamento do Ibope Inteligência.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Eleição SP: Datafolha confirma este Blog

Já falei aqui que Kassab (DEM, ex-PFL) está sendo rifado em São Paulo e a Pesquisa Datafolha divulgada ontem confirma isso. A tendência deve ser aumentar cada vez mais a polarização entre Marta (PT) e Alckmin (PSDB). Kassab (11%) e o pepista Maluf (8%) serão os grandes paparicados pelos líderes.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Datafolha: 20 milhões saem da faixa de pobreza

A pesquisa Datafolha publicada hoje pela Folha mostra um fato incontestável: o Governo Lula tem trabalhado eficientemente pela redução da miséria em nosso país. Nesse sentido, não há como não apoiá-lo, independente das preferências partidárias. Claro que há alguns setores que podem se sentir prejudicados, certamente pertencentes às faixas sócio-econômicas privilegiadas. Mas é bom que se saiba que, mais adiante, a redução da pobreza beneficia a todos. Minimiza-se uma das causas apontadas pela violência, por exemplo. O setor produtivo cresce, os salários aumentam, as riquezas se distribuem melhor. Queremos que essa política - com ou sem CPMF - possa se intensificar, porque está na cara que ela está sendo boa para o Brasil. Veja a reportagem de Fernando Canzian:
Crescimento tira milhões das classes D e E. Cerca de 20 milhões entram na classe C em 5 anos, aponta Datafolha; movimento intensifica-se nos últimos 17 meses. Movimento sugere que, num primeiro momento, programas sociais elevavam padrão de vida; hoje, impulso vem da expansão econômica.
Nos últimos cinco anos e com forte aceleração a partir de meados de 2006, cerca de 20 milhões de brasileiros com mais de 16 anos migraram para a classe C. Eles vieram, em sua grande maioria, da classe D/E. Nos três primeiros anos e seis meses de governo Lula (janeiro de 2003 a junho de 2006), apenas 6 milhões de pessoas fizeram essa transição. Já nos últimos 17 meses (julho de 2006 a novembro passado), que coincidem com um período de recuperação mais robusta da economia, a travessia da classe D/E para a C envolveu cerca de 14 milhões de brasileiros. Os números são resultado de pesquisas Datafolha realizadas em três momentos: outubro de 2002 (pouco antes da posse de Lula), junho de 2006 e no final de novembro passado. Nos últimos cinco anos, a classe D/E encolheu de 46% do total da população para 26%. Já a C cresceu de 32% para 49%, reunindo hoje quase a metade dos eleitores do país -125 milhões de pessoas com mais de 16 anos. A classe A/B manteve-se praticamente estável. Seu tamanho oscilou de 20% para 23% do total da população. Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, "o movimento de ascensão da classe D/E deve continuar, muito apoiado na ampliação da oferta de crédito no comércio e no crescimento econômico". A classificação econômica usando as classes A/B, C e D/E é comum no mercado publicitário e entre as empresas. Ela visa segmentar o mercado levando em conta o poder aquisitivo. É obtida a partir da verificação de itens de consumo e seu número no domicílio dos entrevistados. Apura ainda o grau de instrução do chefe de família e se há empregado doméstico na residência. Esse tipo de classificação não reflete, necessariamente, uma melhora estrutural nas condições de vida do entrevistado. A aceleração da transição de membros da classe D/E para a C sugere que, se em um primeiro momento foram os programas sociais e previdenciários os responsáveis pela melhora de vida dos mais pobres, agora é o crescimento econômico que empurra os brasileiros para uma situação mais confortável. O PIB (Produto Interno Bruto) do país poderá crescer acima de 5% em 2007, sustentado por aumentos sucessivos no consumo, na produção, nos investimentos e na renda e com queda no desemprego. O maior número de pessoas que passaram a ter melhora econômica e mais acesso a bens e produtos pertence a famílias com renda de até dois salários mínimos (R$ 760). Nessa faixa de renda, os indicadores que classificam a classe D/E encolheram, nos últimos cinco anos, de 80% do total para 49%. Já a classe C cresceu de 16% para 45%. "Há um novo mercado interno sendo criado pela melhora na situação dos mais pobres. E a desigualdade cai visivelmente com o crescimento mais robusto da economia", afirma o economista Antonio Delfim Netto. Em termos regionais, a passagem da classe D/E para a C foi mais acentuada no interior do que nas regiões metropolitanas e maior no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Nessas regiões, os impactos do crescimento tendem a ser mais fortes, dado o número de pobres que concentram. No Sul, onde os programas sociais têm menor penetração, foi pequena a migração das classes D/E para a C nos três anos e seis meses iniciais de governo Lula. Mas, nos 17 meses seguintes, ela veio com força (a classe D/E encolheu de 30% para 18%), coincidindo com a recuperação do predominante setor agrícola na região. Nos Estados mais ricos do Sudeste, o encolhimento da classe D/E foi de 35% para 17%. Hoje, mais da metade (51%) da população da região pertence à classe C. Outros 31% estão na classe A/B.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Governadores continuam em lua de mel com a população

A pesquisa Datafolha divulgada hoje pela Folha de São Paulo (assinantes) é bastante favorável aos governadores dos 3 maiores estados do Sudeste (SP, MG e RJ). A pesquisa busca a avaliação que a população faz desses primeiros meses de mandato e traz resultados superiores aos de outros mandatos. Aécio Neves (PSDB), de Minas, é o que menos surpreende. Ele já está no segundo mandato e sua aprovação, 71%, está compatível com os índices do período eleitoral. Ele tem apenas que fazer manutenção para se cacifar a postulante do cargo presidencial. Sérgio Cabral (PMDB) superou os índices de Rosinha (PMDB, 22%) e Marcello Alencar (PSDB, 26%) nas pesquisas feitas nos períodos equivalentes (Garotinho - PDT, PSB e depois PMDB - não tinha sido avaliado). Ele está muito bem, certamente, pelos contrastes com os antecessores. Trouxe idéias novas, disposição para administrar, está bem na mídia. Isso apesar do Rio ter sido com certeza o estado que mais ganhou manchetes sobre violência neste ano. José Serra (PSDB) tem-se mostrado inteligente. Conseguiu desvincular seu nome da tragédia do Metrô e, mal ou bem, do fracasso da educação em São Paulo. Superou os índices dos tucanos que o antecederam (Mário Covas 31% e Alckmin 34%). Mas mostrou que não está tão bem na Capital, 31%, onde teremos eleição importante no ano que vem. O seu candidato, o atual prefeito Gilberto Kassab (PFL), tem apenas 15% de aprovação e 42% de rejeição. Há ainda um fato positivo a considerar nos bons índices desses governadores: o bom relacionamento (principalmente de Sérgio Cabral) com Lula. Isso faz bem ao povo, que deseja que esse amor seja eterno enquanto dure - o que vai ser duro, se nos próximos meses pelo menos parte das expectativas não se confirmarem.