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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Marcos Coimbra e os mitos sobre pesquisas

Bom artigo de Marcos Coimbra, do Vox Populi, para o Correio Braziliense, sobre o diz-que-me-diz das pesquisas. Dá uma paulada no Datafolha ("Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais") e nos analistas que tratam as pesquisas como "fotografias de momento". Sobre isso, conclui: "Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência".

Mitos e verdades sobre as pesquisas
Marcos Coimbra

De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.
É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir idéias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.
Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.
Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.
Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira. Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.
É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.
Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum. Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro?
As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem. Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.
Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são "fotografias de momento", sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.
Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada. Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.
Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.
E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra?
Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.
Ceticismos ("nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido"), perplexidades ("como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?") e falsas noções ("pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro") são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.

domingo, 23 de maio de 2010

Eleição 2010, pesquisas: Noblat entrevista Marcos Coimbra

O Blog do Noblat fez hoje, via Twitter, excelente entrevista com Marcos Coimbra, do Vox Populi. Ela está completa, aqui:
# Boa tarde, Marcos Coimbra. Quem tem mais chances de se eleger presidente da República em outubro próximo?
# RT @Macoimbra: Boa tarde, Noblat. Dilma é favorita, mas favoritismo não basta para ganhar uma eleição.
# Por que você considera Dilma favorita?
# RT @Macoimbra: Ela empatou c/ Serra e tem espaço de crescimento aberto à frente junto ao eleitorado disposto a votar na candidata do Lula.
# Isso é suficiente para que Dilma se eleja? Serra não tem espaço para crescer?
RT @Macoimbra: Serra é conhecido por 80% da população, com menos espaço p/ crescer. Dilma tem crescido tirando intenções de voto dele.
# A essa altura, quantos por cento das intenções de voto de Dilma resultam de transferência feita por Lula?
# RT @Macoimbra: Dilma é a candidata dele, do que ele representa. Nesse sentido, toda a intenção de voto que tem vem de Lula e do governo.
# Dilma corre o risco de o eleitor, a certa altura, concluir que votar nela não significa votar em Lula, não é a mesma coisa?
# RT @Macoimbra: Claro q não é, e o eleitor sabe disso. Quem pensa em votar nela ñ acha q Lula vai mandar, mas q ela preservará o q ele faz.
# Se os votos de Dilma não são dela, mas de Lula e do governo, o candidato poderia ser qualquer outro bom auxiliar de Lula. Ou não?
# RT @Macoimbra: Me parece q sim, mas Lula deve ter tido razões para preferi-la. Seu papel no governo, seu perfil, sua identificação com ele.
# Pelos seus cálculos, quantos por cento a mais de votos Lula ainda poderá repassar para Dilma?
# RT @Macoimbra: Há ainda cerca de 40% do eleitorado q conhece mal ou ñ conhece Dilma. Ela pode crescer mais 20 pontos nesse segmento.
# Fernando Henrique Cardoso tira votos de Serra? Ou freia seu crescimento? Há algum tipo de cálculo a esse respeito?
# RT @Macoimbra: A imagem de FHC é negativa e a maioria das pessoas acha q o governo dele foi muito pior q o de Lula. Isso é ruim para Serra.
# P q Dilma cresceu tanto em maio? Exposição em programas partidários na tv? Companhia de Lula no programa do PT? Ou cresceria de todo jeito?
# RT @Macoimbra: Todas as opções estão corretas. A propaganda do partido ajudou, Lula tb, e ela estava em crescimento, lento, mas firme.
# Em junho, Serra terá muito espaço nos programas de tv de partidos. Automaticamente ele crescerá?
# RT @Macoimbra: Serra é muito conhecido, o q limita essa hipótese. Mas deve melhorar, nem q seja por sustar o crescimento natural de Dilma.
# Lula já foi multado 4 vezes por fazer propaganda de Dilma antes do tempo. Faz + de 1 ano q ele está em campanha por ela. Isso não a ajudou?
# RT @Macoimbra: Mais q ajudou, explica tudo. Ele antecipou a campanha, todo mundo entrou em campo e ele teve tempo p/ apresentar Dilma.
# Todo mundo, não. Serra não entrou. E ninguém dispunha do grau de exposição de Lula e de Dilma.
# RT @Macoimbra: Desde 2009, todos os programas partidários foram eleitorais. Quanto à demora de Serra, a decisão foi dele e só dele.
# Serra tem um "teto" de votos que dificilmente ultrapassará? Qual seria?
# RT @Macoimbra: Serra tem um piso alto e um teto limitado pela eleição onde o eleitor se pronuncia sobre políticas e governos e ñ biografia.
# E o teto de Dilma e de Marina Silva?
# RT @Macoimbra: O teto de Dilma é o desejo de continuidade, q é alto. Marina corre o risco de ficar espremida entre 2 grandes e ñ crescer.
# O que Serra precisaria fazer para driblar esse quadro desfavorável e ganhar? Ou não tem como?
# RT @Macoimbra: Trazer a eleição p/ o campo dele, a comparação de currículos. Torcer p/ q Dilma erre muito. Mas sua posição é desvantajosa.
# Aécio de vice poderia ajudar Serra a se eleger ou não acrescentaria grande coisa?
# RT @Macoimbra: Aécio só é bem conhecido em MG, onde Lula é querido. Serra está bem e é dificil avaliar se um ganho em Minas faria diferença.
# Não dá para avaliar se um ganho em Minas faria diferença para Serra? Ou você prefere não avaliar?
# RT @Macoimbra: Minas é 11% do eleitorado. Aumentar 20 pontos no estado é 2% no total. Pode ser muito pouco no resultado final.
# Últimas perguntas. Por que a História registra erros tão clamorosos cometidos por institutos de pesquisa?
# RT @Macoimbra: Os erros existem e procuramos reduzi-los ao mínimo. Mas os institutos brasileiros estão entre os q mais acertam no mundo.
# É certo que institutos pesquisem ao mesmo tempo para partidos e meios de comunicação?
# RT @Macoimbra: É nossa tradição, mas é natural que seja discutida. Pode ser um dos itens a tratar na reforma política que aguardamos.
# Por fim: Montenegro, presidente do IBOPE, disse à VEJA no ano passado que a eleição de Serra era segura. Era na época ou ele estava errado?
# RT @Macoimbra: Acho que seria melhor perguntar isso a ele.
# Obrigado, Marcos. Obrigado a todos que acompanharam a entrevista nas últimas duas horas.

domingo, 25 de abril de 2010

Pesquisas: Marcos Coimbra mostra como é importante lembrar o óbvio

Canso de demonstrar aqui neste Blog que as divulgações dos resultados das pesquisas costumam ser muito mal feitas, por despreparo ou, quem sabe, má-fé. As margens de erro, por exemplo, são um Deus nos acuda. Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, dá uma aula sobre o tema, em artigo do Correio Braziliense:

Pesquisas discrepantes

Quem lê uma pesquisa foi avisado de que ela pode errar e é alertado sobre quanto. É como fumar conhecendo o que está escrito no maço
Se as diferenças entre as pesquisas surpreendem até quem as faz, imagine as pessoas que não estão familiarizadas com elas. Desde o jornalista especializado ao cidadão comum, a surpresa pode se tornar perplexidade.
Estamos vivendo uma fase de pesquisas discrepantes, após meses de convergência das que foram publicadas a respeito das próximas eleições presidenciais. O que parecia um consenso entre institutos e levantamentos tornou-se uma polêmica.
É curioso notar que quem é hoje demonizado era, até ontem, tratado com consideração. Os institutos, seus responsáveis e métodos de trabalho não eram questionados por ninguém, nem no meio político, pelos partidários de Dilma ou de Serra, nem pela imprensa, que informava os resultados de cada um com a imparcialidade possível. Agora, parece que todo mundo virou culpado de alguma coisa.
De fato, para quem tem o hábito de acompanhar as pesquisas brasileiras, as diferenças recentes podem soar estranhas. Estamos acostumados, depois de muitas eleições, a não ver maiores variações entre elas. Os institutos tendem a acertar (quase sempre) e a errar (de vez em quando) juntos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, variações como as dos últimos dias, de até 10 pontos percentuais entre um e outro instituto, são consideradas normais. Seria até ridículo o Partido Republicano entrar na Justiça contra alguém que fez uma pesquisa mostrando Obama na frente. Já na Argentina, todos diriam que são modestas, pois a regra, por lá, é de as pesquisas apresentarem diferenças abissais. Em poucos países do mundo se daria atenção às que estamos vendo por aqui e, certamente, não se especularia sobre se provêm de algo escuso.
Todos sabem que há diferenças de metodologia entre os institutos brasileiros, que decorrem de suas opções técnicas e operacionais. Nenhuma é melhor que a outra, pois todas apresentam prós e contras. Não existe, em nenhum lugar do mundo, o manual da pesquisa perfeita, a ser obedecido por todos. É um sonho autoritário (e inviável) imaginar o dia em que só haverá uma metodologia, aplicada por um só instituto. Se chegasse, nenhum democrata teria o que comemorar.
Uma das melhores coisas das pesquisas é que elas são inteiramente francas sobre algo que as outras informações que o eleitorado recebe costumam não explicitar: que são falíveis. Quem lê uma pesquisa foi avisado de que ela pode errar e é alertado sobre quanto. É como fumar conhecendo o que está escrito no maço.
Ao avaliar as pesquisas, as margens de erro não são coisas para registrar e esquecer, mas para lembrar. Não é o mais provável, mas é perfeitamente possível que 10 pontos de diferença entre Serra e Dilma (consideradas as margens) sejam cinco pontos, o mesmo que diz uma pesquisa cujo resultado é uma diferença de um ponto entre os dois. Politicamente, 10 pontos ou um fazem uma enorme diferença, mas podem não ser nada (ou quase nada) em termos estatísticos.
Quem analisar com mais cuidado as pesquisas de agora vai perceber que são unânimes na caracterização das intenções espontâneas de voto. Na mais recente do Ibope, Dilma tem 15% e Serra 14%. Na Vox, Dilma soma 15% e Serra 12%. No Datafolha, Dilma tem 13% e Serra 12%. Na Sensus, Dilma apresentava 16%, Serra 14%. Em qualquer lugar do mundo, quem olhasse esses números diria que os institutos brasileiros estão inteiramente de acordo sobre o que pensam os eleitores mais definidos, os que tendem a ser mais politizados e interessados nas eleições.
Mas o mesmo consenso não acontece na caracterização das intenções de voto dos que só respondem em quem votariam depois de estimulados. As diferenças de metodologia explicam parte da discrepância (mesmo que, do ponto de vista estatístico, sequer se possa afirmar que ela existe).
O mais provável, contudo, é que elas variem apenas por não haver, ainda, suficiente cristalização das intenções de voto no universo do eleitorado. É o fenômeno que se quer retratar que é volátil, não que alguma pesquisa esteja certa e as outras erradas.
Aliás, pesquisa certa ninguém sabe qual é. Só em 3 de outubro teremos certeza sobre o que os eleitores, de fato, querem. Até lá, o máximo que podemos fazer são pesquisas bem feitas, e isso todos tentam. Tolo é quem acha que só ele consegue.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Com a palavra, os chefões das pesquisas


Esses dias, pelo menos três representantes de grandes institutos de pesquisa escreveram artigos ou deram entrevistas sobre o quadro eleitoral presidencial. Temos entrevista de Mauro Paulino (Datafolha) para o Terra Magazine, que também traz entrevista de Antonio Lavareda (MCI). Marcos Coimbra (Vox Populi) escreveu para o Correio Brasiliense. E Carlos Montenegro (Ibope) deu entrevista para o Balaio do Kotscho.
Achei muito consistente a entrevista de Mauro Paulino, onde destaca a imensa transferência de votos de Lula para Dilma: “Ele (Lula) tem um governo com uma taxa de aprovação inédita e o peso que isso terá nesse pleito já está sendo demonstrado. Comprovadamente ele já está transferindo muitos votos para Dilma”.
Lavareda, sabidamente tucano, prefere atribuir a recente subida de Dilma aos votos transferidos por Ciro. Isso poderia valorizar a presença de Ciro na garantia de segundo turno (como pensa Cesar Maia). Mas Marcos Coimbra observa: “É fácil se confundir na interpretação desses resultados, deles deduzindo que ‘Dilma precisa de Ciro’. Trata-se, no entanto, de um equívoco, que decorre de não se considerar o nível de conhecimento muito desigual que ainda há entre os candidatos”. Para Marcos Coimbra, “nessas pesquisas, mesmo no cenário sem Ciro, a possibilidade (de não haver segundo turno) parece remota”.
Montenegro dá a impressão de ser o menos preparado, nem parece representar um instituto de nome, como o Ibope. Poucos meses atrás, ele era categórico na afirmação da vitória de Serra (Fabio Gomes, do Informa, por causa de afirmações esdrúxulas, chegou a associá-lo à prática de “pesquisomancia”). Agora, já declara “se Dilma ganhar, não me surpreenderia”. E diz também que “o PT não ganha” – parecendo querer separar “PT” de “Lula”.
O que dá para perceber nas declarações de todos é o espanto com a ascensão de Dilma nas últimas avaliações. Por mais que tenham participado de milhares de pesquisas eleitorais, ainda se assustam com o poder de transferência de votos que Lula demonstra. O susto não seria tão grande se eles percebessem de uma vez por todas que essa é uma eleição plebiscitária, onde o caráter principal do voto será dizer “sim” ou “não” a Lula.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sobre pesquisas: CNI/IBOPE é ducha de água fria na Oposição

Recebi outro dia um artigo (“Sobre pesquisas”) atribuído a Marcos Coimbra (Instituto Vox Populi) bem interessante e bem a calhar nesse diz-que-me-diz das pesquisas pré-eleitorais. Ele faz um alerta bastante pertinente sobre essas análises apressadas de pesquisas feitas tantos meses antes das eleições: é preciso ter cuidado com as análises carregadas de preferências por um por outro candidato. E isso se torna mais importante ainda quando vemos que as pesquisas ganham destaque nas mãos da mídia despreparada e nitidamente oposicionista. Um item que sempre me chama atenção, pela total falta de cuidado e de conhecimento, é o que revela os índices de "rejeição". Tenho muito cuidado com as "rejeições", porque costumam estar associadas a outros fatores - como o desconhecimento, por exemplo. Quando não se conhece um candidato, costuma-se rejeitá-lo. Pode ser o caso da Dilma, que (segundo a Pesquisa CNI-Ibope, com análise de MCI Lavareda, divulgada hoje) tem baixo índice de conhecimento (32% de conhece "bem" e "mais ou menos") e tem 40% de rejeição ("não votaria de jeito nenhum"). Mas com certeza não é o caso de José Serra, que tem alto índice de conhecimento (66% de conhece "bem" e "mais ou menos") e tem 30% de rejeição ("não votaria de jeito nenhum"). Quem é o mais rejeitado dos dois? Sem parti pris, acredito que Serra - entre quem conhece um e outro - é o mais rejeitado. Quando verificamos outro item, o de "notícias mais lembradas sobre o Governo Lula", notamos que a "Crise no Senado Federal" tem 15% de percepção junto à população, enquanto que tem apenas 2% a percepção da "Confirmação pelo presidente Lula de que a ministra Dilma Rousseff será candidata a presidente da República". Tenho certeza que a tradução disso é simples: a mídia destaca muito mais o que é negativo do que é positivo com relação a Lula e seu apoio eleitoral. Apesar de tudo, o mais surpreendente é o altíssimo índice de aprovação do Governo Lula (que oscilou de 80% para 81%), o que justifica a frase final do artigo do Professor Candido Mendes hoje na Folha: "E (o eleitorado) vai às urnas como um plebiscito clandestino, em favor de quem não tem herdeiros, mas sucessores, num terceiro mandato, do povo de Lula sem o Lula lá". Veja dois dos cenários da Pesquisa de hoje (que, aliás, destaca subida de Ciro e queda de Serra) e, em seguida, o texto de Marcos Coimbra:
  • Serra - 34%
  • Ciro - 14%
  • Dilma - 14%
  • Heloísa Helena - 8%
  • Marina - 6%
  • Serra - 35%
  • Ciro - 17%
  • Dilma - 15%
  • Marina - 8%
Sobre as pesquisas
Marcos Coimbra é Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Há dois tipos de erro nas tentativas de deduzir das pesquisas de agora o que vai acontecer com Dilma: imaginar que ela já ganhou e achar que ela já perdeu. São erros parecidos em mais de um aspecto. O traço comum mais importante é que ambos vêm da interferência das preferências nas análises. Quem deseja que ela perca olha as pesquisas e enxerga a confirmação do que gostaria que acontecesse. Quem torce por ela vê o oposto nos mesmos resultados. O problema é que os números não dizem nem uma coisa, nem outra. Na verdade, dizem muito pouco. Pode-se fazer malabarismos com eles, como escolher algumas eleições presidenciais passadas para elucubrar sobre o futuro. Por exemplo, para sustentar que quem lidera as pesquisas 12 meses antes de uma eleição termina ganhando é o que condenaria inapelavelmente a candidatura da ministra. Aliás, acabaria com todas as dúvidas, restando ao governador de São Paulo, José Serra, apenas mandar costurar seu terno de posse. É, no entanto, uma hipótese desprovida de qualquer base teórica, desconhecida nos manuais de ciências sociais e de estudos eleitorais. Nossa já expressiva história eleitoral moderna tampouco a justifica, sendo centenas os casos de candidatos a prefeito e governador que ganhavam nas pesquisas feitas um ano antes e perderam as eleições. Em três das cinco eleições presidenciais pós-redemocratização, nada de semelhante ocorreu. Só Fernando Henrique, em 1997, e Lula, em 2001, lideravam e venceram, o que não aconteceu em 1989, 1994 e 2006, pois o próprio Lula perdia para Serra em novembro de 2005. Ou seja, é uma lei não confirmada pela maioria dos casos. Ou seja, não serve para nada.Imaginar o que vai acontecer em outubro de 2010 a partir de simples pesquisas quantitativas de intenção de voto não faz sentido. Mais: revela falta de compreensão sobre como se estrutura o eleitorado brasileiro na atualidade. O projeto da candidatura Dilma está assentado em dois supostos fortes. De um lado, na constatação de que o maior contingente do eleitorado é, hoje, formado por “lulistas”, pessoas que votaram nele uma, duas, três ou mais vezes, muitas em todas as eleições a que compareceram. Como vimos em 2006, a quase totalidade desses eleitores votou nele e, a crer nas pesquisas, votaria de novo se pudesse. Parece que tendem a votar em quem ele apontar. De outro lado, o projeto apoia-se nos indicadores de aprovação do governo, que sinalizam que a base do lulismo se ampliou e passou a incluir muitos não eleitores de Lula, que o consideram um bom presidente, à frente de políticas e programas que merecem ser preservados. Daí, que podem vir a temer pela sua interrupção e a aumentar a proporção dos que votariam em quem representa a continuidade. Quem não gosta da candidatura da ministra saudou alguns resultados das últimas pesquisas. Elas registram uma estagnação de seu crescimento, logo vista como sinal de sua inviabilidade. É bom evitar julgamentos apressados, no entanto. Nada há nessas pesquisas que contrarie as premissas da candidatura, que nunca calculou que sempre cresceria. Ao contrário, se elas indicam que maus momentos para o governo (a crise do Senado, por exemplo) têm reflexo negativo, bons momentos (pré-sal, por exemplo) podem ter impacto inverso, vindo a impulsionar as intenções de voto em Dilma. Mas erra igualmente quem avalia as pesquisas e só vê motivos para acreditar que Dilma já ganhou. Em nossa cultura política, a vasta maioria dos eleitores vota em pessoas, e não em teses. Por mais que gostem de Lula e queiram que várias coisas de seu governo permaneçam, não vão tê-lo na urna. Dilma pode subir e cair pelo mesmo remédio: a “quantidade” de Lula em sua candidatura. Bem dosado, ela cresce. Mal calculado, ela sofre. Só a campanha real vai conseguir encontrar a medida. Daqui a outubro de 2010, há tanta água para correr por baixo da ponte que dá até preguiça ouvir quem acha que sabe tudo.