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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

TRUMP E AS DÍVIDAS DE CAMPANHA


Em 20 de maio de 2007, postei aqui neste Blog (que retomo hoje, depois de 6 meses) que os Estados Unidos tinham dobrado a participação de mercenários em sua invasão do Iraque. E usei principalmente dados de uma reportagem, na Folha, de Sérgio Dávila ("Mercenários no Iraque se igualam a EUA"). Mostrava que o número de mercenários (eufemisticamente tratados como "soldados privados") americanos já tinha quase se igualado ao número de soldados oficiais (algo entre 100 mil e 130 mil para mercenários e 145 mil para "soldados oficiais"). Com uma diferença bem importante: os mercenários eram melhor equipados e recebiam salário maior do que o da tropa oficial. Segundo a Democrata Jan Schakowsky, da Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, 40% da verba destinada ao Iraque pelo contribuinte americano ia parar nas mãos de empresas de segurança privada. O soldado mercenário trabalhando numa área perigosa ganhava por dia o mesmo que um soldado de faixa média do exército americano ganhava em um ano. E por que tudo isso? Por que terceirizar a política externa dessa forma, como alertava o documentarista Nick Bicanic, autor de "Shadow Company" (A companhia fantasma)? Sem dúvida alguma, havia a necessidade de "pagar a dívida de campanha". A empresa de segurança privada Blackwater (a maior de todas, criada pelo religioso Erik Prince e ligada a Republicanos), por exemplo, foi um dos maiores doadores da campanha de Bush.
Quando leio hoje as notícias alucinadas de Trump defendendo a retomada de uma corrida armamentista, não posso pensar em outra coisa: está tratando de pagar dívida de campanha.
Alguém talvez ainda pense que nos Estados Unidos não tem disso - mas, na minha opinião, trata-se de um dos esquemas mais corruptos que existem. E isso torna-se cada vez mais evidente quando o financiamento das campanhas é privado, e não público. Acho que falei em algum momento que, quando entrevistei o consultor político Jeff Greenfield, em 1974 (Nova York), perguntei o que ele mudaria no sistema eleitoral, ele respondeu: o dinheiro. Já naquela época, defendia tempo eleitoral gratuito na TV (pelo menos isso, nós temos), financiamento público geral e campanhas menores. Essas contribuições privadas monumentais nunca são de graça. Ficam cada vez maiores e os "contribuintes" buscam retorno imediato (embora de forma velada). Trump foi muito rápido em inventar tensões internacionais. Aparentemente, ele não busca uma guerra real, como fez Bush. Seria apenas uma gigantesca corrida armamentista que daria tranquilamente para pagar as contribuições. Mas o risco é muito grande. Como também contribui fortemente para aumentar o risco que corre a democracia americana, como bem alertou Paul Krugman.
Hoje, li o texto de uma palestra de Ronaldo Fiani que traz uma visão geopolítica bem interessante que poderia justificar esses movimentos trumpianos. Trarei para cá amanhã.

sábado, 7 de abril de 2012

Inflação: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil?


Na quinta-feira, dia 5, o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman publicou um artigo, Not Enough Inflation (traduzido hoje na Folha com o título de “Mais inflação, por favor”, reproduzido mais abaixo), que certamente deixou nossos analistas econômicos de plantão com o estômago embrulhado. Afinal, ele diz com todas as letras que o Fed (Banco Central de lá) deve “preocupar-se com a oferta de empregos e também com a estabilidade dos preços”. Aliás, vai além: “A direita quer que o Fed se mantenha obsessivo com a inflação, quando a verdade é que estaríamos melhor se, em vez disso, ele se preocupasse mais com o desemprego”. Isso nos lembra muito do desvario que tomou conta de nossos “analistas de mercado” quando o nosso Banco Central, em agosto do ano passado, decidiu reduzir os juros para 12% ano. Foi um Deus nos acuda, todos dizendo que era irresponsabilidade, que a inflação ia voltar, etc, etc. Este Blog fez questão de sair em defesa do Banco Central e esclarecer, como Paul Krugman, que a sua função não se restringe a garantir inflação baixa, de forma submissa ao cassino financeiro. O Banco Central acima de tudo tem que ter responsabilidade social – e às vezes isso pode significar criar estímulos a mais empregos, mesmo que represente inflação. Krugman  reconhece que “uma política mais agressiva para lutar contra o desemprego talvez levasse a inflação acima dos 2%”, mas ressalta que “se a taxa tivesse uma alta maior, para 3% ou 4%, seria terrível? Pelo contrário, iria ajudar a economia”, e se o Fed desistisse de combater o desemprego seria o mesmo que “violar seu próprio estatuto”. Na nossa postagem do dia 2 de setembro passado (A autonomia do Banco Central está em “cheque” ; ver também Paul Krugman e os bancos centrais, do dia 10 de setembro de 2011), igualmente afirmamos que “não existe sistema financeiro forte e eficiente sem princípios sociais”. Será que isso tudo quer dizer, como diria o ministro da ditadura, Juracy Magalhães, que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil? Nessa questão do papel dos bancos centrais, estamos de acordo. Mas, aqui entre nós, se apesar do desemprego o Fed aumentasse um pouco os seus juros e valorizasse mais o dólar, nossas exportações agradeceriam...
Mais inflação, por favor
Paul Krugman
O Fed tem mandato duplo: se preocupar com a estabilidade dos preços e também os empregos
Há alguns dias, Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano), fez um discurso em defesa de seu sucessor. Ataques de republicanos a Ben Bernanke, ele disse, são "completamente inapropriados e destrutivos".
Mas por que os ataques são tão devastadores? Afinal de contas, ninguém na América deveria ser imune a críticas, muito menos aqueles -como os diretores do Fed- que têm o poder de fazer nossas vidas melhores ou piores.
Não. O real motivo dos ataques a Bernanke serem tão negativos é que eles são um esforço para induzir o Fed a tomar a decisão errada. Quem critica a política da instituição quer que ela sufoque a recuperação, ao invés de acelerá-la.
A direita quer que o Fed se mantenha obsessivo com a inflação, quando a verdade é que estaríamos melhor se, em vez disso, ele se preocupasse mais com o desemprego.
Na realidade, um pouco mais de inflação não seria uma má ideia.
O Fed tem, segundo a lei, um mandato duplo: preocupar-se com a oferta de empregos e também com a estabilidade dos preços.
E uma política mais agressiva para lutar contra o desemprego talvez levasse a inflação acima dos 2%.
Mas lembre-se das obrigações do Fed: se ele se recusar a aceitar os riscos no campo da inflação, mesmo com a desastrosa performance do emprego, seria o mesmo que violar seu próprio estatuto.
E, mais que isso, se a taxa tivesse uma alta maior, para 3% ou 4%, seria terrível? Pelo contrário, iria ajudar a economia.
A maioria do setor privado continua a ser prejudicada pelo excesso de dívida acumulada durante o período da bolha imobiliária. Esse débito é, sem dúvida, o principal fator a impedi-lo de investir e, por consequência, perpetua a crise.
Uma taxa modesta de inflação poderia, no entanto, reduzir essa ameaça -fazendo com que a dívida assuma seu real valor- e ajudar a promover a melhora de que o setor privado necessita.
Ao mesmo tempo, outras áreas do setor privado acumularam grandes quantias; uma inflação moderada faria esse montante estagnado menos atraente, agindo como um estímulo ao investimento.
Em resumo, longe de temer que medidas contra o desemprego levem a uma escalada da inflação, o Fed deveria desejar essa previsão.
Esse raciocínio me leva de volta às criticas republicanas e seu efeito negativo na política.
Realmente, Bernanke gosta de insistir que ele e seus colegas não são afetados pela política. Mas essa afirmação não é coerente com o comportamento do Fed -ou, às vezes, com a falta de medidas tomadas pela entidade.
Como muitos analistas têm notado, a própria previsão do Fed indica que, enquanto as coisas têm melhorado um pouco, ainda são esperados inflação baixa e desemprego alto nos próximos anos.
A mais recente reunião desse órgão mostrou que o Fed está inclinado a não tomar providências, a não ser esperar que as coisas se direcionem para o pior caminho.
Então, o que está acontecendo? Creio que os membros do Fed, admitam eles ou não, estão se sentindo intimidados -e são os trabalhadores americanos que estão pagando o preço por essa timidez.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Europa, entre o lengalenga e o bunga bunga


A Grécia de Papandréou deu uma contribuição imensa à salvação da Europa ao propor um referendo para julgar a “ajuda” da União Europeia nos termos prussianos que foram “oferecidos”. Era oportunidade única para demonstrar a democracia europeia em todo o seu esplendor. Os bancos franco-germânicos não concordaram. E a Europa, antes magnífica, continua sua nova sina de bundalelê, sem salvação nem à vista nem a prazo. O pior é que a justificativa mais comum para esse estado bunga bunga seria o excesso de bem-estar social europeu – uma forma óbvia de ocultar o mal-estar social do neoliberalismo. Quem vai salvar a Europa não sei. Mas sei, com certeza, que não serão Sarkozy e Merkel. Nem serão recessão e desemprego. Nem será o lengalenga que tomou conta das análises políticas e econômicas. Prefiro ficar com esse ótimo texto de Paul Krugman, “Legends of the Fail”, do último dia 10, que a Folha traduziu hoje.

Lendas do fracasso
Paul Krugman
É assim que o euro termina - não com uma explosão, mas com bunga bunga. Não muito tempo atrás, os líderes europeus insistiam em que a Grécia podia continuar na zona do euro e pagar suas dívidas na íntegra. Agora, com a Itália caindo em um precipício, é difícil imaginar de que modo o euro poderia sobreviver.
Mas qual é o significado do fiasco do euro? Que lições extrair?
Ouço duas alegações, ambas falsas: os problemas da Europa refletem o fracasso dos Estados de bem-estar social como um todo, e a crise europeia confirma a necessidade de austeridade imediata nos EUA.
A primeira alegação está sendo feita por republicanos como Mitt Romney, que acusou Obama de se inspirar nos "socialistas democratas" europeus e disse que "a Europa não está funcionando nem na Europa". A ideia é que os países em crise enfrentam problemas devido ao peso dos gastos governamentais.
Mas os fatos dizem o oposto.
É verdade que toda a Europa oferece benefícios sociais mais generosos - entre os quais serviços universais de saúde - e registra gastos governamentais mais altos que os EUA. Mas os países hoje em crise não oferecem mais bem-estar social do que os que estão se saindo bem.
Na verdade, a correlação indica o oposto. A Suécia, famosa por benefícios generosos, tem ótimo desempenho e é um dos poucos países cujo PIB atual é maior que o de antes da turbulência. E o "gasto social" em todos os países hoje em crise era menor do que na Alemanha.
A crise do euro, portanto, nada diz sobre a sustentabilidade dos Estados de bem-estar social. Mas justifica a necessidade de apertar os cintos numa economia já deprimida? Dizem-nos que os EUA têm de cortar gastos agora ou poderemos terminar como a Grécia. Os fatos também contam história diferente.
Primeiro, o fator determinante para os juros não é a dívida do governo, mas sim se a captação é feita em moeda nacional ou não. O Japão tem dívida bem maior que a italiana, mas os juros sobre os títulos japoneses de longo prazo são de cerca de 1%, ante 6% na Itália. As perspectivas fiscais britânicas parecem piores que as espanholas, mas o Reino Unido pode captar pagando 2% de juros; a Espanha paga quase 6%.
Na prática, ao adotar o euro, Espanha e Itália se reduziram à situação de países do Terceiro Mundo que precisam tomar empréstimos na moeda alheia, com toda a perda de flexibilidade que isso implica.
Por não poderem imprimir mais dinheiro em situações de emergência, os países da zona do euro ficam sujeitos a perturbações em sua captação que não afligem países capazes de tomar empréstimos em suas próprias moedas, como os EUA.
A austeridade, por sua vez, fracassou em todo lugar no qual foi tentada. Nenhum país com dívidas significativas conseguiu cortar gastos a ponto de recuperar o apreço dos mercados. A Irlanda, por exemplo, é o bom menino da Europa: respondeu à crise com medidas ferozes, que levaram o desemprego a mais de 14%. Mas os juros pagos pelos títulos irlandeses ainda superam os 8% - mais altos que os italianos.
Moral da história: devemos ter cuidado com ideólogos que tentam aproveitar a crise europeia para promover suas agendas. Se ouvirmos o que eles dizem, agravaremos ainda mais os nossos problemas.

sábado, 10 de setembro de 2011

Paul Krugman e os bancos centrais


O economista (Prêmio Nobel) Paul Krugman publicou há dois dias um artigo (“Setting Their Hair on Fire”, traduzido na Folha de hoje) que tem tudo a ver com a decisão do nosso Banco Central de baixar juros e que tanto chocou nossos “analistas de plantão”. O artigo é sobre o discurso de Obama com o plano para redução das taxas de desemprego que apavoram os Estados Unidos (e o mundo...), mas ele faz um parêntese para “discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago”. Evans teria afirmado que “o Fed (Banco Central de lá), tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos”. Guardadas as devidas proporções, isso me lembra o que escrevi neste Blog na semana passada: “(O Banco Central) não pode esquecer que não existe ‘sistema financeiro forte e eficiente’ sem princípios sociais”. Infelizmente, não é assim que entendem nossos analistas do mercado financeiro. Como diz Krugman, “hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação”.
Abaixo, o texto traduzido pela Folha, e você pode ver o vídeo do The Wall Street Journal onde o nosso Banco Central é tratado como "vanguarda".

Ateando fogo aos cabelos
Paul Krugman

Devemos ser gratos a Obama por ele perceber até que ponto a situação do emprego é desesperada
O novo plano de emprego do presidente Barack Obama me surpreendeu de maneira positiva. É muito melhor e mais audacioso do que eu esperava. Caso venha a ser aprovado, é provável que reduza o desemprego de maneira substancial.
Não é provável que o plano seja aprovado, evidentemente, graças à oposição do Partido Republicano. E tampouco é provável que qualquer coisa mais aconteça para ajudar os 14 milhões de americanos que estão sem trabalho. O que representa tanto uma tragédia quanto um ultraje.
Antes de chegar ao plano de Obama, permitam-me discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago. Evans declarou sem meias medidas aquilo que alguns de nós esperávamos há anos ouvir de um dirigente do banco central.
Evans afirmou que o Fed, tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos – e embora a inflação provavelmente deva continuar perto ou abaixo da meta de cerca de 2% adotada pelo banco central, o desemprego permanece extremamente elevado.
Qual deveria ser a reação do Fed, portanto? Evans: "Imagine que a inflação estivesse correndo próxima aos 5%, ante nossa meta de 2%. Há alguma dúvida de que um dirigente competente de banco central reagiria de maneira vigorosa para combater uma inflação tão alta? Não. Estariam agindo com se os seus cabelos estivessem pegando fogo. Deveríamos trabalhar de maneira semelhantemente enérgica para a melhora das condições do mercado de trabalho".
Mas o cabelo do Fed não está em chamas, e a maioria dos políticos tampouco parece considerar a situação urgente. Hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação, enquanto os piores, representados por boa parte do Partido Republicano, estão repletos de intensidade apaixonada. E por isso os desempregados terminam abandonados.
Bem, quanto ao plano de Obama: requer US$ 200 bilhões em novos gastos -boa parte dos quais em coisas das quais necessitamos de qualquer maneira, tais como reparos nas escolas e redes de transporte, e medidas para evitar a demissão de professores - e US$ 240 bilhões em cortes de impostos.
O montante pode parecer muito elevado, mas não é. O efeito persistente do estouro da bolha na habitação e a dívida domiciliar remanescente criam um rombo anual de cerca de US$ 1 trilhão na economia dos EUA, e o novo plano -que não concretizaria todos os seus benefícios no primeiro ano - só supriria em parte essa lacuna. E não está claro até que ponto os cortes de impostos seriam efetivos como estímulo ao consumo e investimento.
Ainda assim, o plano seria muito melhor que nada, e parte de suas medidas, especialmente as destinadas a promover incentivos à contratação de pessoal, poderiam produzir resultado alto em termos de empregos gerados.
O cabelo de Obama talvez não esteja em chamas, mas certamente está soltando fumaça e devemos ser gratos por ele perceber até que ponto a situação é desesperada.

sábado, 13 de agosto de 2011

Dave Axelrod: o mundo está de pernas pro ar – isso ajuda a reeleição de Obama


Entrevista com Dave Axelrod, o principal estrategista de Barack Obama.
Blog do Gadelha: O Presidente Obama não conseguiu diálogo com o Congresso, o acordo do teto do endividamento americano foi um fiasco, a Standard&Poors rebaixou a nota dos Estados Unidos, a Europa entrou em crise, o eleitorado americano está raivoso – você acha que Obama vai perder a eleição?
Dave Axelrod: De forma alguma. Eu diria que, ao contrário do que se imagina, as chances de vitória são bem maiores hoje do que há um mês.
Blog do Gadelha: Explique essa mágica, que vai contra todas as análises.
Dave Axelrod: Não tem mágica. Você sabe, a gente trabalha com muita pesquisa, informação e, acima de tudo, sensibilidade para compreender o eleitor.
Blog do Gadelha: Ok, então explique sem mágica.
Dave Axelrod: Talvez você não acredite, mas nós planejamos a crise com o Congresso...
Blog do Gadelha: Uau! Essa é forte!
Dave Axelrod: ... e ele reagiu exatamente dentro do esperado. Principalmente entre os republicanos...
Blog do Gadelha: O Tea Party inclusive?
Dave Axelrod: Claro, são os mais previsíveis. O que víamos é que, apesar do pontaço que fizemos com a captura de Bin Laden, a crise econômica, com taxa de desemprego alta e resistente, tinha tudo para nos esmagar. É aquela velha história do “é a economia, estúpido!”, e nós não somos estúpidos. Calculamos que a oposição, meio perdida, bateria unicamente nessa tecla, exaustivamente, podendo até nos derrotar, se não reagíssemos.
Blog do Gadelha: Eles não têm nome forte para concorrer, estão divididos até a alma...
Dave Axelrod: É verdade, mas não podíamos correr risco. Resolvemos atraí-los para a armadilha que armavam contra nós. Eles pretendiam carimbar em nossas testas a responsabilidade exclusiva pela crise econômica, pelo drama de milhões de trabalhadores que perderam o emprego. Sabemos que o governo democrata herdou a crise de Bush. Mas a população não quer saber disso. Bush já está distante, a responsabilidade é do governo atual. Ou melhor, era. Hoje, no mínimo passou a ser dividida com a oposição, e, ano que vem, a responsabilidade pela tentativa de afundamento do país passará a ser creditada unicamente a ela. Ao expormos publicamente a intransigência dos republicanos – mais ainda do Tea Party –, deixamos bem definido quem é quem no jogo político, quem está realmente interessado no progresso e no bem-estar da nação e quem quer apenas ser do contra, com objetivos eleitoreiros.
Blog do Gadelha: E por que isso não foi feito em dezembro, como sugeriu Paul Krugman? Ele disse textualmente: “(Obama) poderia e deveria ter demandado um aumento do teto do endividamento em dezembro passado. Quando indagado por que não fez, ele respondeu ter certeza de que os republicanos agiriam de forma responsável. Que aposta”.
Dave Axelrod: Entendemos a ansiedade de Paul Krugman. Mas o jogo político é muito pesado. Precisávamos dar maior dramaticidade à intransigência dos republicanos, levar a questão a pontos extremos para melhor percepção de quem é quem.
Blog do Gadelha: Isso não foi muito arriscado? Não terá sido isso que levou a S&P a rebaixar a nota de crédito dos Estados Unidos de “AAA” para “AA+”?
Dave Axelrod: Foi um risco calculado. Mas, com relação à S&P, na minha opinião, eles foram muito irresponsáveis. Ninguém em sã consciência pode achar que os Estados Unidos não são “AAA”. A melhor prova disso foi a reação do mercado correndo em busca de dólares. O pior é que essa história toda prejudicou a Europa, que ficou com a credibilidade mais abalada. Ainda assim, a S&P acabou por facilitar nosso plano, porque amplificou a dramaticidade. Ela ajudou a colocar o mundo de pernas pro ar, e ao mesmo tempo ajudou o eleitor a ver mais claramente a importância de reeleger nosso Presidente.
Blog do Gadelha: Está tudo muito bonito, mas não esqueça que a popularidade de Obama caiu...
Dave Axelrod: Sem dúvida. Já contávamos com isso. Mas por incrível que pareça, o Presidente Obama agora tem mais condições de agir.
Blog do Gadelha: Será? Não é o que pensa Krugman, que diz que os republicanos agora poderão impor novas crises, com a certeza de que Obama voltará a entregar os pontos.
Dave Axelrod: Essa foi uma análise precipitada. Mais do que criticar o Presidente, a opinião pública condena a classe política – particularmente os políticos da oposição – por sua irresponsabilidade persistente. O Presidente Obama terá mais desenvoltura para tomar as medidas necessárias para recuperar a economia, iniciar a retomada do desenvolvimento e trazer de volta os empregos perdidos. Nossos maiores adversários em 2012 não serão os republicanos. Teremos que voltar a conquistar os votos dos desiludidos com a política. Só venceremos – como em 2008 – com a redução da abstenção. E é isso que vai acontecer, porque o eleitor tomará consciência de que Obama é a única esperança. Essa vitória está nas mãos de cada um de nós, no sonho de todo o povo – e o nosso povo sabe concretizar os seus sonhos.
Nota. É evidente que se trata de uma entrevista fictícia. Foi a forma que encontrei para dizer o que penso do imbroglio americano na questão do “acordo” sobre o teto do endividamento. Mas o pensamento de Paul Krugman foi pinçado de seu artigo publicado dia 31 de julho, no NYT, e traduzido pelo Globo de 2 de agosto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

César Maia apoia medida de Lula contra a crise

No seu Ex-Blog de hoje César Maia destaca trecho de artigo de Paul Krugman no New York Times aplaudindo o fato de Obama não ter feito como a iniciativa privada que segurou os gastos. Krugman escreveu ainda (e César Maia não reproduziu): "Ronald Reagan se equivocó: a veces el sector privado es el problema y el gobierno es la solución" (El Mercurio). Ou seja, exatamente como fez o Governo Lula, que já ganhou elogios por isso por toda parte. Faltava esse elogio - mesmo que indireto - desse representante da Oposição. Veja a nota do Ex-Blog:
KRUGMAN: OBAMA ACERTOU PELO QUE NÃO FEZ! (Reuters-El Mercurio-on, 11/09) Provavelmente o aspecto mais importante do papel do governo nesta crise não é o que fez, mas o que não fez. À diferença do setor privado, o governo federal não recortou o gasto quando caíam suas receitas, escreveu Paul Krugman. O governo dos EUA salvou o país de uma "repetição completa" da Grande Depressão, disse o ganhador de um Nobel, Paul Krugman, em uma coluna publicada na segunda, no New York Times. Krugman disse ademais do efeito estabilizador "automático" criado pelo governo, quando se evitou também uma depressão devido à ajuda governamental na hora de resgatar o setor financeiro e o plano de estímulo de presidente Barack Obama.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Solução da crise: percepção x realidade

O lançamento do Plano Geithner foi um sucesso estrondoso. As bolsas subiram, o dólar caiu, parecia que finalmente tínhamos encontrado um filé no meio das vacas magras. Eu, pessoalmente, prefiro acreditar que sim. Mas talvez não baste acreditar, talvez não baste o retorno da confiança. O New York Times de hoje quis saber se o Plano Geithner vai funcionar e, para isso, buscou a opinião de 4 economistas – Paul Krugman (da Universidade de Princeton, Nobel de Economia e colunista do jornal), Simon Johnson (do Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Brad DeLong (da Universidade de Berkeley) e Mark Thoma (da Universidade de Oregon). Vou tentar expor a posição de Krugman, que, em seu artigo “Perception vs. Reality”, diz que, desde o começo da crise, há dois pontos de vista sobre ela. Na visão nº 1, acha-se que há “um pânico desnecessário”. O público assustou-se com a história das hipotecas, os bancos se retraíram, e as coisas foram se complicando sucessivamente. Nessa visão, o que o mercado precisaria é de um tapa na cara para se acalmar. E se nós conseguirmos fazer com que o mercado se mantenha firme com os títulos podres, então a população vai perceber que as coisas não são assim tão ruins e – como teria dito Larry Summers no Newshour de ontem – “o círculo vicioso transforma-se em círculo virtuoso”. Na visão nº 2, os bancos estão realmente muito mal. Apostaram pesadamente em crenças irrealistas, e perderam. A confiança caiu porque as pessoas tornaram-se realistas. Para Krugman, o Plano Geithner só pode dar certo se a visão nº 1 estiver certa. Se, ao contrário, a certa for a visão nº 2, se os problemas dos bancos forem além da questão de falta de confiança (que é a visão de Krugman), não há como o Plano dar certo. Ele não acredita que “o mal seja sanado com a força do pensamento positivo acrescido de uma pitada de engenharia financeira”. Longe de mim pretender divergir de Paul Krugman (com quem, dentro de minhas limitações nesse terreno, tenho maior afinidade), mas acho que ele não disse tudo sobre a visão nº 1. Trata-se, pelo que entendi até agora, de “força do pensamento positivo acrescido de uma pitada de engenharia financeira, dentro da engenharia política possível”. Seria praticamente impossível que o Congresso americano aprovasse qualquer medida efetiva de combate à crise vindo do Governo Obama. A visão nº 1 com toda certeza não é a solução definitiva. Mas pode ser o detonador disponível. Já existem sinais consistentes de superação da crise. Pelo menos, quero ter confiança nisso... Leia também no blog de Paul Krugman "Geithner plan arithmetic".