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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Morreu o Décio






Foto de Arnaldo Alves,
publicada no Globo

Quando li o seu Teoria da da Guerrilha Artística, acho que foi em 65 ou 66, no Correio da Manhã, se não me engano, minha cabeça revirou. Fiquei fascinado e ao mesmo tempo sem entender bem aquilo. Em 67, em Brasília, quando conheci o poeta Hugo Mund Jr., falamos muito sobre Décio Pignatari e sobre poesia concreta. Criei meu primeiro poema concreto, “Comunicação”, que publiquei no jornal da Universidade. Depois vieram “Blow up, Blow down”, “Olho por olho” e muitos outros, sempre com Décio e os irmãos Campos como principal referência. Já em São Paulo, em 68/69, quando estava na Veja, a presença da poesia concreta foi muito grande. Fizemos boas matérias mostrando o que havia de concreto no tropicalismo, que chegamos a chamar de movimento tropiconcreto. Lembro de uma vez entrevistando o Décio em seu apartamento nas Perdizes, ele falando da superioridade de Caetano sobre Chico como poeta, comparando Resnais e Godard e também mostrando com orgulho um pedaço de grade velha, enferrujada, que tinha na parede, com destaque, como se fosse uma grande obra de arte. Era um pedaço do túmulo do Mallarmé, que ele arrancou de lembrança durante viagem à Europa. Deve ter decidido devolver ao dono...
Uma perda imensa.

domingo, 5 de junho de 2011

Carcará encantado




Não gosto de novela (pior do que isso só o BBB e afins), mas gostaria de gostar. Fiz várias reportagens sobre novela, lembro de Beto Rockfeller, que na Veja de 68 virou capa ousada e foi saudada como novidade no vídeo (edição 35 de Veja, 7 de maio de 1969). Realmente uma novidade nesse gênero que Plínio Marcos classificou como “história de um casal que quer ir pra cama e de mais cinco ou seis personagens que estão ali para atrapalhar”. De lá pra cá, pouco assisti e não vi grande novidade. Vi agora Cordel Encantado e me surpreendi. Bom de história, de texto, de direção, de interpretação, de direção de arte, figurino, cenário, produção musical e tudo mais. Parabéns. Na trilha, músicas lindas, e para esse domingo que acordei encantado, esse vídeo de João do Vale e Chico cantando Carcará.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Artistas, intelectuais e Vox Populi mostram a diferença


A Campanha Dilma retoma o caminho natural da alegria, da campanha vitoriosa. Ontem, seu programa foi bem superior – sendo que a edição do debate da Rede TV! foi até melhor do que o próprio debate. Sua participação no Jornal Nacional foi ótimo – principalmente porque o casal apresentador preferiu deixar o vedetismo de lado. À noite, o encontro com artistas, intelectuais e lideranças políticas foi um sucesso. Oscar Niemeyer e Chico Buarque. Beth Carvalho e Alcione. Leonardo Boff e Sérgio Cabral. Antônio Pitanga e Alceu Valença. Jacques Wagner, Michel Temer, e por aí vai. Gilberto Gil, que saiu na frente no apoio, está em Nova York. Um sucesso absoluto. Para coroar esse momento de glória, saiu o último Vox Populi com 57% para Dilma contra 43% para Serra nos votos válidos, 14 pontos de vantagem. Dilma vence no Nordeste, no Sudeste, perde no Sul. Vence entre católicos praticantes e não praticantes, e está praticamente empatada entre evangélicos. Vence entre os pobres com o dobro das intenções de voto. A pesquisa, com 3.000 entrevistas (margem de erro de 1,79 ponto percentual), foi realizada entre os dias 15 e 17 – não captou debate, nem entrevista no Jornal Nacional nem o apoio do Teatro Casagrande. A campanha avança. Vamos continuar no ataque!

domingo, 3 de outubro de 2010

Bye-bye ex-Brasil

O dia de hoje, 3 de outubro de 2010, marca a confirmação de um novo Brasil. Um povo fortalecido, mais feliz, mais igual, mais altivo - sem resquícios dos tempos tenebrosos da ditadura nem as ameaças de retrocesso do tucanato de centrodireita. Lula sai, mas soube passar a senha de um Brasil melhor. Como diz Chico Buarque, "Com a bênção de Nosso Senhor // O sol nunca mais vai se pôr".


sábado, 26 de setembro de 2009

O mar me arrebatou...

A música que mais me emociona de Chico Buarque é “Joana Francesa”, tema do filme de Cacá Diegues (que não assisti). E quem não se apaixonou por “Jules et Jim”, de Truffaut? Em homenagem à grande estrela dos dois filmes, Jeanne Moreau, que está de novo Brasil por conta do Festival do Rio 2009 (grande presença também de Agnès Varda), fiz essa edição com imagens de “Jules et Jim” e “Joana Francesa”, e a música interpretada por Fagner e Chico Buarque.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vaias no Globo

As Organizações Globo têm vaiado o Governo Lula a plenos pulmões, de forma até selvagem. Apesar disso, aqui e ali surgem em suas páginas impressas ou eletrônicas momentos de certa serenidade e até de humor. Hoje, na capa do Globo o cartunista Chico resume muito bem a percepção geral sobre a origem das vaias. E Zuenir Ventura faz texto muito bom, que reproduzo na íntegra, salpicado de dois comentários:
“Todas as vaias são boas, inclusive as más”, dizia Nelson Rodrigues, especialista no assunto e um dos autores mais vaiados do país. Nesse sentido, as recebidas por Lula no Maracanã podem vir a lhe fazer bem, ainda que injustas e impróprias para a ocasião. Afinal, não se tratava de um comício, mas de um espetáculo esportivo que só estava acontecendo graças aos recursos (R$ 1,8 bilhão) repassados pelo governo federal. Um mínimo de civilidade recomendaria reconhecer que o presidente, além de convidado protocolar, era um dos donos da festa. Tenho visto na imprensa muitos aplausos às vaias. Cesar Maia, por exemplo, anda tão exultante que até parece ter tido alguma coisa a ver com o sucesso da manifestação que, segundo um vídeo no You Tube, foi treinada pelos convidados do ensaio geral. Mas nem assim dá para concluir, como fez o governador, que houve “armadilha”. Quem consegue orquestrar 80 mil pessoas se não estiverem a fim? (Acredito na possibilidade de orquestração, que funcionaria como um detonador, mobilizando quem estava a fim e quem apenas estava ao lado mas entrou no ritmo.) Digamos que poderia haver um clima. “A grande vaia é mil vezes (...) mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem”, afirmava ainda Nelson, que quase sempre tem e não tem razão, confirmando sua recusa à unanimidade e seu gosto pelo paradoxo. Ele sabia que nem todas as vaias são boas, pois há as reacionárias, que não servem como julgamento de mérito, como as que ele próprio recebeu na estréia de “Vestido de noiva” e de “Perdoa-me por me traíres”. Ao lado do Maracanã mesmo, no Maracanãzinho, houve uma outra famosa, dada a ninguém menos que Tom Jobim e Chico Buarque pelo clássico “Sabiá”. Ainda no plano das vaias artísticas, houve outra, e essa deixou Nelson indignado. Foi quando Caetano Veloso recebeu apupos, ovos e tomates no III Festival da Canção de 1968, ao tentar cantar “É proibido proibir”. Já no ano anterior ele fora vaiado por uma das mais belas canções da época: “Alegria, alegria”. Com rara coragem, Caetano afrontou uma agressiva histeria com um discurso inesquecível. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”, gritou, mais alto do que a gritaria geral. (Na platéia, se não me engano, estavam Nelson Motta e Augusto de Campos, indignados com a juventude atrasada. Foi um momento importante, que ajudou a dar impulso ao movimento tropiconcreto, um dos movimentos mais felizes de nossa cultura. Redações mais de vanguarda, como Jornal da Tarde e - quem diria! - Veja, passaram a apoiar o movimento que surgia.) Sobre o quase linchamento promovido pelos jovens “pra frente”, Nelson, o reacionário, escreveu: “A vaia selvagem com que o receberam [a Caetano] já me deu uma certa náusea de ser brasileiro”. Quanto às vaias políticas, são diferentes, e os governantes têm que estar sujeitos a elas. Escrevi lá em cima que os protestos na abertura do Pan poderiam vir a fazer bem a Lula. Talvez já tenham feito, obrigando-o a sair do pedestal, a descer do salto alto. As suas declarações sobre o incidente são de uma humildade que contrasta com a costumeira arrogância de antes. Que ele compreenda também agora que, apesar de injustas, as vaias do Maracanã acabaram fazendo justiça, se não ao conjunto de sua obra, pelo menos a uma parte dela — a que teima em proteger a impunidade.