Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Globo x Freixo: como ocultar os fatos mostrando os fatos


Marcelo Freixo é um dos bons nomes políticos que surgiram recentemente. Talvez um dos principais adversários de Eduardo Paes na disputa pelo governo do Rio de Janeiro em 2018. Tem marca jovem, de mudanças, progressista, aparentemente íntegro. De repente, teve seu nome associado a um noticiário espinhoso, a morte do jornalista da Band, Santiago Andrade. A meu ver, uma associação injusta. Acredito que o PSOL (como praticamente todos os outros partidos) procure associar-se aos movimentos sociais, principalmente os de oposição (caso do PSOL) e com boa aceitação. Acredito que os partidos deem apoio logístico e financeiro a alguns desses grupos – e estão certos ao fazer isso, porque afinal um partido existe, como o nome diz, para representar as ideias e os interesses de uma parte da sociedade. E é por isso que não se pode atribuir culpa ao PSOL no caso da “cabeça de nego”. Apesar de se apresentar como à esquerda do PT no espectro político-partidário, não é uma associação extremista. Seu perfil eleitoral está bem mais associado à classe média tipo Zona Sul do Rio – exatamente aquele segmento que mais repele ações rotuladas de vândalas. Por que então seu nome foi associado ao artefato terrorista? Não me venha o Globo dizer que agiu com isenção jornalística. Isso nunca existiu e não seria agora que começaria. O Globo atirou a primeira pedra, sim. No seu editorial do dia 12, “Os inimigos da democracia”, escreveu que “o crime jogou luz sobre a inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos. Ele e partido precisam explicar a função dupla de Thiago de Souza Melo, assessor do deputado, pago, portanto, pelo contribuinte, e, ao mesmo tempo, advogado de black-bloc e similares”.  “Inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos”? Isso é ou não é uma acusação grave? Caetano Veloso soube protestar contra esse parcialismo do Globo, corajosamente, na sua coluna dominical no próprio jornal. Mas Marcelo Freixo errou no seu protesto. Resolveu fazer política barata ao tentar colocar o Globo como parceiro de Sérgio Cabral, dizendo (erroneamente) que o jornal não criticava o atual governador do Rio de Janeiro e lembrando que foi um dos veículos de comunicação que defenderam a ditadura de 64 ("A exaltação de um factoide"). O Globo respondeu bem ("O dever de um jornal — II"). E a questão não é essa. O Globo – como qualquer veículo de comunicação – pode ser parcial aparentando ser imparcial. É capaz, portanto, de ocultar ou alterar fatos simplesmente mostrando os fatos.
Ou mostrando fotos, como é o caso da foto ridicularizando José Dirceu no dia seguinte (3 de agosto de 2005) à Comissão de Ética que apresentou o seu confronto com Roberto Jefferson. Ou fazendo associações forçadas, como é o caso de apontar na direção de Freixo em um editorial intitulado “Os inimigos da democracia”. Freixo agiu defensivamente. O que ele tem que fazer é mostrar que  maior inimigo da democracia pode ser quem dribla os fatos. Ou as fotos.

Nota Para que fique bem claro: não sou filiado ao PSOL nem a qualquer partido político e condeno veementemente o vandalismo. E gosto de ler diariamente o Globo e vários outros jornais.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Morreu Dona Canô, mãe da música


Dona Canô: 105 anos, Bahia, mãe de Caetano e Bethânia. Tem muito a ser dito sobre Dona Canô, claro. Mas isso já é suficiente. Talvez acrescentar que era amiga do Lula.
Grande perda.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Morreu o Décio






Foto de Arnaldo Alves,
publicada no Globo

Quando li o seu Teoria da da Guerrilha Artística, acho que foi em 65 ou 66, no Correio da Manhã, se não me engano, minha cabeça revirou. Fiquei fascinado e ao mesmo tempo sem entender bem aquilo. Em 67, em Brasília, quando conheci o poeta Hugo Mund Jr., falamos muito sobre Décio Pignatari e sobre poesia concreta. Criei meu primeiro poema concreto, “Comunicação”, que publiquei no jornal da Universidade. Depois vieram “Blow up, Blow down”, “Olho por olho” e muitos outros, sempre com Décio e os irmãos Campos como principal referência. Já em São Paulo, em 68/69, quando estava na Veja, a presença da poesia concreta foi muito grande. Fizemos boas matérias mostrando o que havia de concreto no tropicalismo, que chegamos a chamar de movimento tropiconcreto. Lembro de uma vez entrevistando o Décio em seu apartamento nas Perdizes, ele falando da superioridade de Caetano sobre Chico como poeta, comparando Resnais e Godard e também mostrando com orgulho um pedaço de grade velha, enferrujada, que tinha na parede, com destaque, como se fosse uma grande obra de arte. Era um pedaço do túmulo do Mallarmé, que ele arrancou de lembrança durante viagem à Europa. Deve ter decidido devolver ao dono...
Uma perda imensa.

domingo, 24 de outubro de 2010

Caetano vota em Dilma


Tudo bem, o depoimento é de Dona Canô, mãe de Caetano. Mas adivinha quem manda no Caetano...

domingo, 8 de agosto de 2010

Elegia, Dia dos Pais

Escolhi como presente para mim, nesse Dia dos Pais, essa animação de um dos meus poemas, "ugas(mo" (do livro "Onomatopoemas", 1978), com a música "Elegia", de Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, sobre trecho de poema de John Donne, cantada por Caetano Veloso. Feliz Dia dos Pais.


sábado, 26 de junho de 2010

Vice-versa na Oposição


A Oposição me faz lembrar aquela música do Caetano, “Atrás do Trio Elétrico”. Por ser “oposição”, acha que política se faz “do outro lado // do lado de lá do lado // que é lá do lado de lá” – e por causa disso vive um verdadeiro inferno astral em busca de um Vice. Ou vice-versa.
Primeiro, achou que ia botar pra rachar com o nome de Aécio. Mas o tucano mineiro logo mostrou que o diabo não nasceu para se pôr sob as asas de tucano paulista. Foi aquele alvoroço, rufar de asas de Norte a Sul. O principal aliado, DEM, que está em queda livre e precisa voar mais alto de qualquer maneira, meteu o tridente e bradou: “O Vice tem que vir pro lado de cá”! Os estrategistas tucanos olharam de lado e fizeram de conta que não era com eles. Fizeram pior: escolheram o Vice Álvaro Dias (!) na moita e anunciaram a decisão pelo twitter do Roberto Jefferson (!) e pelo questionário do Datafolha (!) – coisa pra aloprado nenhum botar defeito!
Os diversos lados da Oposição ameaçam mudar de lado – mas para que lado? Rodrigo Maia, presidente do DEM (que é dividido no mínimo em dois lados...), declarou enraivecido: “A eleição nós já perdemos, não podemos perder o caráter”. Seu pai, o estrategista e candidato ao Senado Cesar Maia, tuitou hoje: “Foi lançado ontem em SP o livro: ‘Estratégias de Como Perder uma Eleição’. Editora Labirinto”. Tem ironia maior?
Enquanto isso, o Bloco Lula-Dilma-Eleitor sai cantando: “Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu...” (ou vice-versa).

domingo, 11 de abril de 2010

Um Gil Misterioso no Inferno de Wall Street


Volta e meia meus filhos me veem cantarolando Gil Misterioso, de Caetano Veloso. Não é uma coisa muito complicada, já que sua letra corresponde a pouco mais de uma linha do “Inferno de Wall Street”, que por sua vez é um fragmento de “O Guesa”, de Sousândrade. Apenas para não deixar a música passar em branco,coloquei algumas imagens que arrebanhei na internet: tem a casa de Sousândrade (em Alcântara, Maranhão, onde fiquei uns dias há alguns anos), tem Caetano e tem Wall Street. Tudo bem caseiro, bem curtinho, mas bom de ouvir o domingo inteiro.
Trecho do poema, com letra da música em destaque:

—Por sobre o fraco a morte esvoaça . . .
Chicago em chamma, em chamma Boston,
De amor Hell-Gate é esta frol. . .
Que John Caracol,
Chuva e sol,
Gil-engendra em gil rouxinol . . .
Civilização . . . ão ! . . Court-hall !


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Zé Celso canibalizou as palavras de Caetano

Tinha passado sem que eu visse esse texto de José Celso, no Estadão do dia 10. Uma amiga me enviou e transcrevo, quæ sera (tamen?).

Tropicália, sob o signo do escorpião

José Celso Martinez Corrêa

No mesmo dia em que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no Caderno 2 do Estadão, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na seção Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da cultura, como estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.
Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto para Marina Silva.
Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.
Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perpectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans.
Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.
Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.
Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a “res pública”. Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.
Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho.
Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.
Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?
Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.
Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar – Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este programa tétrico.
Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. “Amor Ordem e Progresso.” O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.
Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.
A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.
Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa “estasia”, Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista!
Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:
“Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado”

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mensagem de Luiz Gonzaga para Caetano Veloso

"Caê", tu pode ser famoso, mas t’a mãe é mais tinhosa
E com ela ninguém vai, "Caê"
Respeita os oito baixo da t’a mãe!
Respeita os oito baixo da t’a mãe!

sábado, 7 de novembro de 2009

Caetano, o gênio ignorante

Caetano sempre foi surpreendente, muitas vezes contra tudo e contra todos. Quando ainda era apenas “irmão da Maria Betânia”, xingou aos berros toda a platéia do cinema Paissandu, no Rio, que vaiava um documentário (chatésimo) sobre a irmã. Foi surpreendente também no auditório do TUCA, em São Paulo, quando enfrentou (com discurso brilhante) a platéia que vaiava o seu “É Proibido Proibir”. Brilhante em toda a sua música, instigante, às vezes hermético, mas sempre trazendo algo novo e muitas vezes com ousadia (como a ousadia do seu sousândrico “Gilberto Misterioso”). Meticuloso, como em “Gema”, associando “brilhante” com “lua-sol” (em chinês, o ideograma “brilhante” é composto pelos ideogramas “lua” e “sol”), ou em “O Quereres” (“Onde queres o livre, decassílabo”). Na sua entrevista do dia 5 no Estadão, Caetano faz charme simpático dizendo "eu sou daquelas moças... não estudei direito", mas demonstra (como sempre) muita leitura, acompanhamento do que acontece no mundo. Disse coisas até interessantes, apesar de algumas vezes simplórias. Aliás, quando começa a discursar no campo político, ideológico ou filosófico, surpreendentemente não surpreende. Parece mais um Maria vai com as outras, tamanha a sua ignorância. O que ele declarou sobre Lula, por exemplo, foi analfabeto, cafona e grosseiro. A análise que fez dos principais nomes políticos demonstra um despreparo completo, tipo da pessoa que se deixa levar pela mídia dominante e depois solta suas diatribes. Ele tem todo o direito de dizer o que bem entende, criticar quem quiser criticar. Mas lamento que faça declarações tão bobas e fora de propósito. Um país que produziu o gênio Caetano Veloso não merece conviver com suas caetanices políticas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A mente subdesenvolvida de Nelson Motta

Nelson Motta sempre procurou ter seu nome associado ao que há de mais avançado da cultura. Desde os tempos do Nelsinho que morava na Paissandu (rua do Flamengo, bairro da Zona Sul do Rio), por exemplo, ele esteve junto à nascente “bossa nova” – e escreveu um bom livro que fala disso, “Noites Tropicais”, que ainda não li todo, mas um dia vou ler. Lembro dele também presente no Tuca (teatro da PUC de São Paulo), em 68, defendendo Caetano Veloso das vaias da juventude retrógrada contra “É Proibido Proibir”, entrevistando o poeta concreto Augusto de Campos. Nelson Motta tornou-se praticamente um tropicalista de carteirinha. Participou de grandes lançamentos do mundo musical, foi, enfim, figurinha fácil no melhor do nosso mundo cultural. Apesar de tudo isso, ele outro dia escreveu um artigo (“Churrasco e pizza - Não, ministro, a Itália não é nóis”, O Globo, Estadão) que revela uma cabeça típica de subdesenvolvido subserviente, bem atrasado mesmo. A sua crítica à decisão de Tarso Genro de impedir a extradição do italiano Cesare Battisti fundamenta-se principalmente no conceito de que a Itália é um país mais desenvolvido, melhor do que o Brasil, logo, a Itália está certa e o Brasil está errado. Mas Nelson Motta faz ainda pior, demonstra um primarismo histórico de arrepiar. Disse ele: “(A Itália tem) uma tradição democrática e judiciária muito mais sólida do que a nossa, não recorreu ao terrorismo de Estado, a tribunais de exceção, prisões ilegais e torturas, mesmo nos anos de chumbo". Na “tradição democrática e judiciária” italiana ele esqueceu de incluir o fascismo. Ele deveria também ler a Revista Piauí (aparentemente acima de qualquer suspeita no caso) que diz em reportagem sobre Cesare Battisti: “Havia quem argumentasse que, com leis como a dos arrependidos, a Itália dos anos de chumbo não deveria ser considerada um Estado de direito”. Também na Piauí podemos ler: “Só então soube que, três meses antes, o irmão mais velho, que trabalhava na colocação de placas em estradas, havia sido atropelado e morrera. A família lhe mandara cartas com a má notícia, mas o procurador-adjunto as confiscara”. Nelson Motta finaliza seu artigo dizendo que, “criado na cultura do churrasco sangrento, em cavalgada desabrida pelos pampas da História, como um anti-Garibaldi sem Anita, Tarso Genro deve estar pensando que na Itália tudo acaba em pizza”. Nelson Motta, que conhece pizza muito bem (li um artigo seu delicioso sobre a pizza do Supermercado Zona Sul, no Rio), deveria saber que a Itália com sabor de Berlusconi certamente prefere que tudo acabe em Mussolini.

sábado, 29 de novembro de 2008

Tristes Tropiques: Lévy-Strauss fez 100 anos

Quando comecei a estudar filosofia, o estruturalismo era uma febre e Lévy-Strauss era o seu papa. Na minha turma, Chaim Samuel Katz era quem mais falava do assunto. Confesso que o estruturalismo me fascinava, mas ao mesmo tempo eu torcia o nariz. Às voltas um pouco com a resistência à ditaduara, minhas leituras voltavam-se mais para Parmênides, Heráclito, Pitágoras, entre os antigos, e para Sartre, Camus, Husserl, Heidegger, entre os nomes que mais se destacavam no século passado, sem esquecer, claro, de Marx. Curiosamente, foi me aproximando da poesia concreta que senti mais intimidade com o estruturalismo, Lévy-Strauss. Isso tudo para dizer que me surpreendeu como passou em brancas nuvens os 100 anos de nascimento de Levy-Strauss, ontem, dia 28. Em homenagem, a primeira parte do filme-entrevista de Pierre Beuchot (as outras 6 partes, facilmente encontráveis no YouTube) e a referência no Estrangeiro de Caetano Veloso. Leia: Uol, Estadão, AFP, NYT.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Encontro do MST com a Filosofia: parece encontro de Arado com Odara, mas não é

O Globo Quando Caetano Veloso escreveu Odara ("paz", "traqüilidade" e, principalmente, arado escrito ao contrário) é claro que não pensou que filosofia se faz com os pés no chão. E é assim mesmo que se pensa normalmente. Trabalhador da terra e estudante de filosofia seriam oposições que jamais se encontrariam. Pois ontem marcaram encontro. Ali no Largo de São Francisco, no Rio, onde fica o Instituto de Filosofia, Ciências e Letras, estudantes de filosofia (e outras faculdades) encontraram-se com representante de trabalhadores da terra, dentro de um movimento nacional. Diz O Globo: "Integrantes de grupos estudantis e movimentos sociais, entre eles MST, Via Campesina, UNE, Ubes, Andes e Educafro, ocuparam ontem de manhã prédios de universidades federais no Rio, em Belo Horizonte e em Salvador, e anunciaram ações em outros 15 estados a fim de protestar contra a dificuldade de acesso da população pobre ao ensino, especialmente o superior". É um belo encontro, por uma causa nobre - com perdão da má palavra...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vaias no Globo

As Organizações Globo têm vaiado o Governo Lula a plenos pulmões, de forma até selvagem. Apesar disso, aqui e ali surgem em suas páginas impressas ou eletrônicas momentos de certa serenidade e até de humor. Hoje, na capa do Globo o cartunista Chico resume muito bem a percepção geral sobre a origem das vaias. E Zuenir Ventura faz texto muito bom, que reproduzo na íntegra, salpicado de dois comentários:
“Todas as vaias são boas, inclusive as más”, dizia Nelson Rodrigues, especialista no assunto e um dos autores mais vaiados do país. Nesse sentido, as recebidas por Lula no Maracanã podem vir a lhe fazer bem, ainda que injustas e impróprias para a ocasião. Afinal, não se tratava de um comício, mas de um espetáculo esportivo que só estava acontecendo graças aos recursos (R$ 1,8 bilhão) repassados pelo governo federal. Um mínimo de civilidade recomendaria reconhecer que o presidente, além de convidado protocolar, era um dos donos da festa. Tenho visto na imprensa muitos aplausos às vaias. Cesar Maia, por exemplo, anda tão exultante que até parece ter tido alguma coisa a ver com o sucesso da manifestação que, segundo um vídeo no You Tube, foi treinada pelos convidados do ensaio geral. Mas nem assim dá para concluir, como fez o governador, que houve “armadilha”. Quem consegue orquestrar 80 mil pessoas se não estiverem a fim? (Acredito na possibilidade de orquestração, que funcionaria como um detonador, mobilizando quem estava a fim e quem apenas estava ao lado mas entrou no ritmo.) Digamos que poderia haver um clima. “A grande vaia é mil vezes (...) mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem”, afirmava ainda Nelson, que quase sempre tem e não tem razão, confirmando sua recusa à unanimidade e seu gosto pelo paradoxo. Ele sabia que nem todas as vaias são boas, pois há as reacionárias, que não servem como julgamento de mérito, como as que ele próprio recebeu na estréia de “Vestido de noiva” e de “Perdoa-me por me traíres”. Ao lado do Maracanã mesmo, no Maracanãzinho, houve uma outra famosa, dada a ninguém menos que Tom Jobim e Chico Buarque pelo clássico “Sabiá”. Ainda no plano das vaias artísticas, houve outra, e essa deixou Nelson indignado. Foi quando Caetano Veloso recebeu apupos, ovos e tomates no III Festival da Canção de 1968, ao tentar cantar “É proibido proibir”. Já no ano anterior ele fora vaiado por uma das mais belas canções da época: “Alegria, alegria”. Com rara coragem, Caetano afrontou uma agressiva histeria com um discurso inesquecível. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”, gritou, mais alto do que a gritaria geral. (Na platéia, se não me engano, estavam Nelson Motta e Augusto de Campos, indignados com a juventude atrasada. Foi um momento importante, que ajudou a dar impulso ao movimento tropiconcreto, um dos movimentos mais felizes de nossa cultura. Redações mais de vanguarda, como Jornal da Tarde e - quem diria! - Veja, passaram a apoiar o movimento que surgia.) Sobre o quase linchamento promovido pelos jovens “pra frente”, Nelson, o reacionário, escreveu: “A vaia selvagem com que o receberam [a Caetano] já me deu uma certa náusea de ser brasileiro”. Quanto às vaias políticas, são diferentes, e os governantes têm que estar sujeitos a elas. Escrevi lá em cima que os protestos na abertura do Pan poderiam vir a fazer bem a Lula. Talvez já tenham feito, obrigando-o a sair do pedestal, a descer do salto alto. As suas declarações sobre o incidente são de uma humildade que contrasta com a costumeira arrogância de antes. Que ele compreenda também agora que, apesar de injustas, as vaias do Maracanã acabaram fazendo justiça, se não ao conjunto de sua obra, pelo menos a uma parte dela — a que teima em proteger a impunidade.