terça-feira, 27 de setembro de 2011
Aécio Neves inflaciona o discurso do atraso
Reconheço que não é fácil a vida de oposição no Brasil de Lula e Dilma. Falta aquilo que lhe daria vida, falta discurso. A oposição nunca soube falar com os mais pobres e agora ficou ainda mais difícil diante das políticas de inclusão social do governo e do progresso político e econômico que vivemos nos últimos anos. Começa a ficar difícil falar até mesmo com seu público tradicional, empresários, investidores, aqueles, digamos, melhor situados na pirâmide social. Tem sobrado apenas o discurso ético-conservador, insuficiente para conquistar os votos que garantiriam a volta ao poder.
Aécio Neves, que pretende tornar-se candidato à Presidência, pode ser o melhor exemplo dessa aridez no pensamento oposicionista. Nota-se a dificuldade nos temas de seus artigos semanais na Folha, na verdade artigos em busca de temas. Nos mais recentes, tentou “Steve Jobs”, “Copa”, “segurança” e, na última segunda-feira, escolheu o tema que ele certamente sonha que se torne o próximo tema eleitoral, “inflação”. Em um texto de 406 palavras (incluindo o título) escreve 8 vezes o termo “inflação” (incluindo “inflacionário”) – ou seja, uma taxa de 1,97%, bem alta para os padrões atuais. Procura recuperar o pesadelo da inflação (“Um pesadelo que os mais jovens, mas, só eles, não chegaram a conhecer.”), aproveitando-se da recente elevação de taxas provocada em grande parte pelo cenário internacional. Ataca a política de redução de juros atual e escreve: “Surpreendentemente, o governo adota medidas inflacionárias no momento de grande expectativa de que a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica”. Surpreendente foi a frase. Exatamente por que “a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica” é que fez mais sentido a redução da taxa Selic. Aécio argumenta que o ritmo da desvalorização da taxa cambial, associada à redução dos juros, “preocupa pela incerteza que sinaliza e pelo impacto inflacionário futuro”. Esquece que as grandes reservas brasileiras (bem acima do que havia no período tucano) dão boa margem de manobra ao Banco Central. E esquece mais ainda que um país como o Brasil de hoje não pode mais apostar na recessão, no encolhimento, no desemprego, na falta de ousadia. Aécio no seu artigo nos faz lembrar os congressistas do Partido Republicano americano que, buscando acima de tudo o sucesso eleitoral, preferem ver o seu país derrotado ao invés de adotar medidas econômicas vencedoras. As suas palavras finais servem para descrever exatamente o que pretende a oposição: “retorno a políticas (...) que emperraram no passado o crescimento da nossa economia, danificaram empresas e instituições e, o pior, penalizaram especialmente os mais pobres, limitando durante anos perdidos a possibilidade de uma vida melhor”. Atraso nunca mais!
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sábado, 24 de setembro de 2011
Cordel Encantado, encantamento de cabo a rabo
“Assim como há gente que tem medo do novo, há gente que tem medo do antigo”, começa Augusto de Campos o seu delicioso “verso reverso controverso”. As autoras de Cordel Encantado, Thelma Guedes e Duca Rachid, mostraram que não têm medo nem do novo nem do antigo. Fizeram um trabalho preciso de valorização do nosso velho e querido Nordeste, reavivaram um dos elos mais marcantes da formação de sua cultura, o mundo medieval, e encantaram o novíssimo mundo, em novela riquíssima “de história, de texto, de direção, de interpretação, de direção de arte, figurino, cenário, produção musical e tudo mais”, como já disse aqui neste Blog (Carcará Encantado), uns quatro meses atrás. No final, apresentado ontem, o realce do maniqueísmo, também herdado da Idade Média, através da Igreja Católica, tão presente no universo nordestino, e que foi personificado principalmente por Jesuíno (“Jesus”) e Timóteo (“Respeita a Deus”). “A maldade sempre vai existir. O que nós nunca podemos esquecer, jamais, é de ter fé e esperança”, filosofa o profeta Miguezim (“Igualzim a Deus”). “O importante é a gente estar sempre junto, não é mesmo?, sabendo que pode contar uns com os outros, e lutando pelo Bem”, completa Jesuíno, em uma quase-ressurreição de Francisco Julião.
A sequência final do casal Jesuíno e Açucena (“Singela e Branca Flor”, em tupi) assistindo exibição de trovadores nordestinos foi excelente. E a frase-homenagem que as autoras escolheram para se despedir não poderia ser melhor:
“ESTA OBRA É DEDICADA AOS POETAS POPULARES DO NORDESTE E AOS TROPICALISTAS QUE, A PARTIR DELES, NOS REINVENTARAM”.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Wiz chinês, resposta brasileira
Ontem, em Beijing, no quiz de um Texas Bar, duas das perguntas só tiveram respostas certas na mesa ocupada por alguns brasileiros. A primeira era fácil: "Qual o preço de um Big Mac no Brasil?" - cerca de 36 yuans. A segunda, bem internacional, exigiu atualidade: "Qual o político se orgulhou de ter11 mulheres fazendo fila para transar com ele, mas que ele só tinha pegado 8?" - para surpresa geral, a mesa de brasileiros respondeu corretamente 'Berlusconi'. Este Blog se orgulha de ter dado alguma contribuição à distância...
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Ricupero e a (im)precisão
Precisão talvez não seja exatamente o forte de Rubens Ricupero, ex-Ministro da Fazenda de Itamar. Apesar de ter sido considerado pelo próprio ex-Presidente “o sacerdote do Plano Real, mais até do que o FHC”, Ricupero acabou ganhando fama por sua fala transmitida via satélite graças a um microfone (im)preciso da TV Globo que ele não sabia que estava aberto: "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". Em artigo de hoje na Folha (“Relógio cuco”), Ricupero falou abertamente, sem esconder que apoia a recente decisão do Banco Central de redução da Selic para fazer frente à crise mundial. Ao contrário de muitos analistas da oposição, atrasados, que defendem sem parar o aumento dos juros, Ricupero declara que “se a Suíça arrisca fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta”. E vai além: “Os pragmáticos helvécios concluíram que, na falta de remédios internacionais, o remédio é cada um cuidar de si”. E continua: “o início da redução do juro e a elevação do IOF sobre capitais especulativos trouxeram alívio temporário no câmbio, graças também ao recrudescimento da crise mundial”. E conclui: “Se a crise apertar, a única saída será aproveitar a demanda interna para crescer. Para isso o remédio são ações mais fortes para estancar a hemorragia cambial. Sem dúvida é arriscado, mas como no dilema de Trotsky: risco em avançar, morte segura se ficarmos parados”. Nada mais preciso. Impreciso apenas seu texto de abertura: “Não é verdade, como pretende Orson Welles em O Terceiro Homem, que o relógio cuco tenha sido a única contribuição da Suíça à civilização”. Diferente do que lembrou Ricupero, Harry Lime, o personagem de Orson Welles no filme de Carol Reed a partir de novela de Graham Greene, pelo que lembro fala com certa visão crítica sobre a percepção que se tem da Suíça: “In Switzerland, they had brotherly love, they had five hundred years of democracy and peace, and what that produce?... The cuckoo clock”.
O artigo completo:
Relógio cuco
Rubens Ricupero
Se a Suíça arrisca fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta
Não é verdade, como pretende Orson Welles em "O Terceiro Homem", que o relógio cuco tenha sido a única contribuição da Suíça à civilização.
Basta pensar na Cruz Vermelha, em Rousseau, Benjamin Constant, Madame de Stael, Pestalozzi, Le Corbusier, Piaget, Giacometti, Godard, elenco mais impressionante que o de alguns gigantes pela própria natureza.
Eis que o relógio cuco dá nova contribuição ao soar o alarme contra o perigo mortal da anarquia do câmbio. Ninguém no mundo se compara aos suíços em cautela e horror do não convencional. Se arriscam fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta.
A diferença entre nós e eles é que, como os sicilianos, eles jamais ameaçam: preferem agir sem preanuncio. Nós somos incendiários nas declarações e tímidos na ação e não apenas por amor à bravata.
É que os suíços podem arrostar ataques especulativos com alguma chance de sair com vida.
Nós, sempre no fio da navalha, corremos o risco de soprarmos em inflação que já arde em cima da palha seca se tomarmos medidas ousadas como o corte do juro ou o controle de capitais.
Por isso nos limitamos por muito tempo a denunciar a guerra cambial no G20 e a pedir à Organização Mundial do Comércio que estude o efeito do câmbio no comércio. São gestos louváveis, mas anódinos, pois o mundo vive em situação de anarquia cambial, isso é, ausência total de normas e governo na matéria.
Desde que Nixon abandonou em 1971 o sistema de taxas fixas de Bretton Woods, virou letra morta o artigo 4º do acordo do FMI relativo a disciplinas cambiais.
Dizia-se na época que, após meses de turbulência, o câmbio flutuante produziria seu próprio equilíbrio. Estamos esperando há 40 anos e as tempestades já obrigaram a intervenções urgentes como as dos acordos do Plaza e do Louvre.
Na OMC o panorama não é mais animador. O artigo 15 do acordo geral dispõe que os países devem se abster de manipular as moedas a fim de não frustrar os objetivos do acordo. Como nunca se definiu o que significa "manipular" e "frustrar", nada se pode fazer.
Não existem recursos legais: antidumping cambial, taxas contra o subsídio indireto da manipulação, tudo carece de base jurídica.
Os pragmáticos helvécios concluíram que, na falta de remédios internacionais, o remédio é cada um cuidar de si. Se der certo e outros como o Japão seguirem o exemplo, aumentará a pressão sobre a moeda brasileira. Fez bem, assim, o governo em deixar de se queixar ao bispo e começar a tomar medidas.
Entre elas, o início da redução do juro e a elevação do IOF sobre capitais especulativos trouxeram alívio temporário no câmbio, graças também ao recrudescimento da crise mundial. Nada garante que dure. Estagnada devido ao câmbio, a indústria pouco se beneficiou até agora da explosão do consumo, capturada quase toda pelas importações.
Se a crise apertar, a única saída será aproveitar a demanda interna para crescer. Para isso o remédio são ações mais fortes para estancar a hemorragia cambial. Sem dúvida é arriscado, mas como no dilema de Trotsky: risco em avançar, morte segura se ficarmos parados.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Orçamento participativo, sucesso petista, chega a Nova York
A notícia está no The New York Times de ontem: “4 Council Members, Each With $1 Million, Will Let Public Decide How It’s Spent” (“4 Vereadores Novaiorquinos, Cada Qual Com Um Milhão de Dólares, Deixarão a População Decidir Como Usá-los”). Os Vereadores (três democratas e um republicano) teriam ficado “curiosos com as experiências iniciadas no Brasil onde cidadãos comuns podem determinar como o governo deve usar o dinheiro dos impostos” (intrigued by experiments begun in Brazil to let ordinary citizens determine how government uses tax dollars).
A reportagem ainda fala que a experiência do Orçamento Participativo já se espalhou por partes da África, da Ásia, do Canadá e da Europa, e que já existe algo semelhante em Chicago, lançado há 2 anos pelo vereador Joe Moore, do Partido Democrata, que declarou que é “a iniciativa mais popular dos últimos 20 anos”. O Orçamento Participativo começou em 1986, pelas mãos do Prefeito Magno Pires (PT, Vila Velha, ES). Depois virou menina dos olhos de tudo que é prefeitura petista, exemplo maior de participação popular nas administrações municipais. O que ninguém esperava é que essa bandeira, empunhada unicamente por nossa esquerda, fosse hasteada em duas das principais cidades americanas.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
It’s the unemployment, stupid!
Obama herdou o pior dos mundos possíveis para um presidente americano. O país todo-poderoso no centro de uma crise econômica internacional, recessão, conflitos armados pipocando por toda parte, e pior ainda – a autoestima da população em queda livre. A descrença com o presidente – e os políticos de um modo geral – atingiu níveis altíssimos, e a reeleição do fenômeno eleitoral Barack Obama entrou em área de alto risco. Afinal, como satisfazer os milhões de novos (e futuros) desempregados de uma sociedade que aparentava ser imune às desgraças do mundo moderno?
Mas parece que Obama encontrou o rumo para dar a volta por cima na próxima eleição. É verdade que está sendo favorecido pelo fato de o Partido Republicano não contar ainda com nenhum nome eleitoralmente forte nem com respostas para a crise que eles mesmos, os republicanos, criaram, com seu neoliberalismo extremado e sua geopolítica troglodita. Já é possível perceber que Obama coloca de volta nos braços da oposição o fardo econômico que carrega desde que assumiu o governo. Usou a discussão sobre o teto do endividamento público para demonstrar que os republicanos estão sendo intransigentes em questões econômicas por motivos puramente eleitoreiros. Aproveitou o pânico generalizado com o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos, com a crise europeia e com os índices recordes de pobreza (15,1%) e de desemprego (9,6%) para fortalecer suas propostas de recuperação da economia. E finalmente apresentou um plano mais ousado de combate ao desemprego, colocando os republicanos em uma saia justa: ou eles apoiam o plano – e com isso ajudam Obama; ou eles não apoiam – e com isso assumem o ônus de não combaterem o desemprego e igualmente ajudam Obama. Consegue dessa forma que a crise tenha nome (desemprego) e sobrenome (republicanos). A melhor equação para a reeleição.
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domingo, 11 de setembro de 2011
11 de setembro: Veja – e Leia?
Devia ser umas sete e meia da noite, eu estava chegando da praia do Arpoador, no Rio, quando recebi um telefonema de São Paulo. Era do Salomão (José Salomão David Amorim), meu amigo e ex-professor na Universidade de Brasília, que estava coordenando a formação dos futuros jornalistas da revista semanal da Abril. Ele me disse que eu deveria estar em São Paulo no dia seguinte para a seleção final da equipe. Corri para a Rodoviária. Na saída, ainda me despedi de minha amiga e vizinha, Glorinha, que estava na porta do prédio com o namorado (Cid Benjamin, se não me engano). Jamais poderia imaginar que só voltaria a vê-los nos cartazes de “Procurados” como “terroristas”.
Em São Paulo, fiz exame psicotécnico e uma entrevista com um psicólogo, suíço, acho, discutimos comunicação e filosofia, Sartre, fenomenologia, ele me pediu uma comparação entre o Super-Homem de Nietzsche e o Super-Homem das histórias em quadrinhos, eu respondi que já tinha publicado um artigo sobre isso ("Os dois Super Homens", Correio Braziliense, 1967). Saí dali para a glória: eu faria parte da equipe que lançaria a Revista Semanal da Abril, a nossa Newsweek (ou Time, como alguns preferem), o divisor de águas do jornalismo brasileiro! Foram cerca de três meses de preparação intensa. De manhã, palestras no Edifício Itália, feitas por nomes que se destacavam na época. À tarde, depois do bandejão no novo prédio da Abril, na Marginal, a parte prática, com orientação de grandes profissionais da época, sob o comando do Mino Carta. Dos 100 aspirantes, ficamos 50, e começamos as números zero da Veja. Foram 14, até o grande dia da número 1, com data de capa de 11 de setembro de 1968, data histórica, seriam 600 mil exemplares (mais 40 mil de reimpressão), inesquecível para mim, grande emoção, orgulho de ter o nome no expediente e de estar na foto da equipe número 1. Por questões legais, a revista se chamava Veja e Leia, e era uma alegria, toda segunda-feira, poder lê-la. Hoje, é triste, mas não consigo mais ler a Veja. Triste, como passaram a ser tristes todos os 11 de setembro.
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sábado, 10 de setembro de 2011
Paul Krugman e os bancos centrais
O economista (Prêmio Nobel) Paul Krugman publicou há dois dias um artigo (“Setting Their Hair on Fire”, traduzido na Folha de hoje) que tem tudo a ver com a decisão do nosso Banco Central de baixar juros e que tanto chocou nossos “analistas de plantão”. O artigo é sobre o discurso de Obama com o plano para redução das taxas de desemprego que apavoram os Estados Unidos (e o mundo...), mas ele faz um parêntese para “discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago”. Evans teria afirmado que “o Fed (Banco Central de lá), tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos”. Guardadas as devidas proporções, isso me lembra o que escrevi neste Blog na semana passada: “(O Banco Central) não pode esquecer que não existe ‘sistema financeiro forte e eficiente’ sem princípios sociais”. Infelizmente, não é assim que entendem nossos analistas do mercado financeiro. Como diz Krugman, “hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação”.
Abaixo, o texto traduzido pela Folha, e você pode ver o vídeo do The Wall Street Journal onde o nosso Banco Central é tratado como "vanguarda".
Ateando fogo aos cabelos
Paul Krugman
Devemos ser gratos a Obama por ele perceber até que ponto a situação do emprego é desesperada
O novo plano de emprego do presidente Barack Obama me surpreendeu de maneira positiva. É muito melhor e mais audacioso do que eu esperava. Caso venha a ser aprovado, é provável que reduza o desemprego de maneira substancial.
Não é provável que o plano seja aprovado, evidentemente, graças à oposição do Partido Republicano. E tampouco é provável que qualquer coisa mais aconteça para ajudar os 14 milhões de americanos que estão sem trabalho. O que representa tanto uma tragédia quanto um ultraje.
Antes de chegar ao plano de Obama, permitam-me discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago. Evans declarou sem meias medidas aquilo que alguns de nós esperávamos há anos ouvir de um dirigente do banco central.
Evans afirmou que o Fed, tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos – e embora a inflação provavelmente deva continuar perto ou abaixo da meta de cerca de 2% adotada pelo banco central, o desemprego permanece extremamente elevado.
Qual deveria ser a reação do Fed, portanto? Evans: "Imagine que a inflação estivesse correndo próxima aos 5%, ante nossa meta de 2%. Há alguma dúvida de que um dirigente competente de banco central reagiria de maneira vigorosa para combater uma inflação tão alta? Não. Estariam agindo com se os seus cabelos estivessem pegando fogo. Deveríamos trabalhar de maneira semelhantemente enérgica para a melhora das condições do mercado de trabalho".
Mas o cabelo do Fed não está em chamas, e a maioria dos políticos tampouco parece considerar a situação urgente. Hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação, enquanto os piores, representados por boa parte do Partido Republicano, estão repletos de intensidade apaixonada. E por isso os desempregados terminam abandonados.
Bem, quanto ao plano de Obama: requer US$ 200 bilhões em novos gastos -boa parte dos quais em coisas das quais necessitamos de qualquer maneira, tais como reparos nas escolas e redes de transporte, e medidas para evitar a demissão de professores - e US$ 240 bilhões em cortes de impostos.
O montante pode parecer muito elevado, mas não é. O efeito persistente do estouro da bolha na habitação e a dívida domiciliar remanescente criam um rombo anual de cerca de US$ 1 trilhão na economia dos EUA, e o novo plano -que não concretizaria todos os seus benefícios no primeiro ano - só supriria em parte essa lacuna. E não está claro até que ponto os cortes de impostos seriam efetivos como estímulo ao consumo e investimento.
Ainda assim, o plano seria muito melhor que nada, e parte de suas medidas, especialmente as destinadas a promover incentivos à contratação de pessoal, poderiam produzir resultado alto em termos de empregos gerados.
O cabelo de Obama talvez não esteja em chamas, mas certamente está soltando fumaça e devemos ser gratos por ele perceber até que ponto a situação é desesperada.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
The Economist põe nossos PIBs estaduais no mapa do mundo
Reportagem da The Economist faz a equivalência do PIB dos estados brasileiros (como já fez com estados de outros lugares) com o PIB de outros países. Procura com isso dar uma noção mais exata do que realmente representa hoje esse Brasil em ascensão no cenário mundial. (Clique no mapa para ampliar)
Aqui para ver o dos Estados Unidos.
Aqui, China.
E aqui Índia.
Comparando os PIBs dos estados brasileiros com paísesClique aqui para ver o mapa completo.
A ideia de que o Brasil está na vanguarda de um grupo de países emergentes em seu caminho para o estrelato das superpotências econômicas é tão amplamente aceita que se tornou banal. Mas até que ponto chegou o Brasil rumo a esse estrelato? Uma maneira de obter resposta rápida é comparar os estados brasileiros com países. O mapa abaixo apresenta os países equivalentes para todos os estados em termos de PIB, PIB per capita e população. Ele levanta algumas curiosidades: quem sabia que Alagoas, um Estado no Nordeste que atualmente é mais famoso por sua taxa de homicídio do que por suas magníficas praias, tem o mesmo PIB per capita da China? Ele também sugere que mesmo os estados comparativamente ricos nas regiões Sul e Sudeste ainda têm algum caminho a percorrer antes que possam ser comparados com os lugares ricos no Hemisfério Norte. Os gaúchos do Rio Grande do Sul não ficarão necessariamente felizes ao saber que o PIB per capita de seu estado é próximo ao do Gabão.
Aqui para ver o dos Estados Unidos.
Aqui, China.
E aqui Índia.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A autonomia do Banco Central está em “cheque”
É isso mesmo, o Banco Central o tempo todo tem que checar nossa economia, saber o que é melhor para torná-la mais forte, buscar contribuir para que a sociedade seja beneficiada pelas ações econômicas. Está lá em destaque no seu site qual é a missão: “Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro forte e eficiente”. Ou seja, tem que controlar a inflação, com certeza, mas não pode esquecer que não existe “sistema financeiro forte e eficiente” sem princípios sociais. Pode parecer meio tatibitate, mas essa é que é a verdade. A autonomia do Banco Central só ficará em jogo se ele se desviar da missão que tem e entrar no jogo do cassino financeiro. O resto é blefe oposicionista.
O Banco Central mostrou que, como todo o Governo, está sintonizado não apenas na economia brasileira, mas também no momento da economia mundial. Temos que ficar de olho na inflação sem perder de vista a retração de Estados Unidos/Europa. Para nos proteger, temos que valorizar o mercado interno, evitar os países “chupa-cabra” e proteger nossa moeda para aumentar as exportações. Quem não pode ficar em xeque é o País.
Gostei da análise feita ontem pelo colunista da Folha, Vinicius Torres Freire, na contramão dos analistas convencionais:
JURO DESPENCAVA NO MERCADO DESDE JULHO
BC será criticado por "falta de autonomia", mas finança também previa piora grave na economia mundial
Hoje será dia da divulgação de notas de falecimento da autonomia do Banco Central e de diagnósticos sobre o enlouquecimento de seus diretores. O motivo, claro, terá sido a decisão do BC de baixar a taxa "básica" de juros de 12,5% para 12%, como que atendendo a pedido quase explícito de Dilma Rousseff.
Para juntar insulto à injúria, o talho nos juros ocorre quando a inflação ainda anda pela casa dos 7% anuais.
Mas, antes de assistir ao teatro das reações estereotipadas, é preciso prestar atenção a uns fatos da vida.
Primeiro, lembre-se que a taxa "básica" de juros futuros no mercado começou a desabar no início de agosto.
Em termos reais, descontada a inflação, caiu de 6,9% no final de julho para 5,9% em 19 de agosto. Ontem, estava em 5,5%. No pico da campanha de juros do BC, fora a 7,2% (início de julho).
O que houve no início de agosto? O tumulto da dívida dos EUA. Medo de calote de governos e quebra de bancos na Europa. Histeria no mercado financeiro. Ficou claro que a economia do mundo rico voltaria ao vinagre.
O mercado ajusta sua taxa "básica" com um olho na economia real e outro na política de juros do BC.
Em agosto, o governo começou a falar em novo "mix" de política econômica para enfrentar a crise mundial rediviva: menos gasto ajudaria o BC a reduzir juros; o BC insinuou ter gostado da ideia.
No mundo rico, ficou claro que não haveria gasto público adicional para estimular economias em quase coma. A recaída recessiva mundial bateria no Brasil, que também cresceria menos e, assim, teria menos inflação.
Logo, a tendência dos juros seria, em tese, de queda. O BC usou ontem esse argumento para justificar o corte dos juros. Mas o mercado vinha na mesma toada.
Segundo, note-se que, se o BC está louco, não é de agora. Desde o início do ano diz que a fraqueza da economia mundial levaria preços importantes para baixo, como os de commodities (petróleo, comida, minérios). Nessa campanha de alta de juros, forçou bem menos a mão que a diretoria do BC anterior, nas altas de 2008.
O Banco Central está certo? A prova do pudim será comê-lo. Pela nota divulgada ontem, o BC pinta um quadro muito ruim para a economia mundial e, mais importante, acha que o Brasil será contaminado de modo relevante, o que não é consensual.
Antes mesmo do corte de ontem, BC e mercado já divergiam sobre a inflação. Com Selic a 12,5%, o BC previa inflação de 4,8% em abril de 2012. O pessoal mais certeiro do mercado previa pelo menos 5,6%.
Pode ser que dê errado. Ainda assim, não haverá "descontrole inflacionário". Enfim, os problemas econômicos do Brasil estão muito além de meio ponto para cá ou para lá na taxa de juros.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A manchete do dia é Global
Engraçadíssima essa manchete na primeira página do Globo de hoje. Definitivamente, graças a suas trapalhadas na economia, os Estados Unidos estão virando piada.
domingo, 28 de agosto de 2011
Steve Jobs e a Bauhaus - bela homenagem
Na Folha de hoje, Fabio Cypriano escreve o artigo "Jobs massificou a utopia de design da Bauhaus", onde aponta os bits em comum entre as escolas Apple e Bauhaus, a grande escola de vanguarda do design, da arquitetura e das artes plásticas de 100 anos atrás. Não uso produtos Apple, até mesmo por questões (contraditoriamente) funcionais. Mas admiro Jobs e suas criações, assim como admiro a Bauhaus.
JOBS MASSIFICOU A UTOPIA DE DESIGN DA BAUHAUS
Fabio Cypriano
É difícil apontar alguém que melhor tenha conseguido pôr em prática, em escala massiva, a utopia da Bauhaus, a escola alemã criada em 1919, do que Steve Jobs.
O arquiteto Walter Gropius (1883-1969), fundador da escola, apregoava: "Queremos criar uma arquitetura clara, orgânica, cuja lógica interna será radiosa e despojada".
Essa pode ser uma descrição precisa de qualquer produto criado por Jobs.
Os computadores da Apple ou seus "gadgets" - como o iPod, o iPhone ou o iPad - seguem à risca o princípio de que "design é função, e não forma", como seu ex-presidente-executivo costuma defender, e o que é outro dos grandes pilares da Bauhaus.
Por isso, seus produtos não apenas inovaram no conteúdo -como no uso do MP3, nos celulares com touch screen e nos tablets- mas o design de todos eles foi criado de forma absolutamente coerente com o que cada um dos aparelhos proporciona.
E foi por isso que, assim como os produtos da Bauhaus, com seus móveis de linhas simples e funcionais, os produtos da Apple se tornaram os grandes objetos de desejo da primeira década do século 21.
Claro que por trás de tudo isso está também o designer inglês Jonathan Ive, mas se sabe que Jobs sempre exerceu grande influência sobre seu trabalho, obrigando, por exemplo, que o iPod tivesse um desenho mais simples.
Outra semelhança entre a Bauhaus e Jobs é a pesquisa de materiais.
O computador transparente, o iPod em plástico policarbonato branco e cromado reluzentes, os laptops em metais como titânio e alumínio, todos eles foram fundamentais na mistura de função e forma.
Mas um dos trunfos mesmo é a importância que Jobs deu aos detalhes, o que o colocou milhões de anos-luz das outras empresas.
A sofisticação das embalagens e até mesmo dos fios que conectam seus produtos à energia levaram a Apple a ser reverenciada por uma horda de viciados, que formavam filas intermináveis para o lançamento de cada nova invenção, como as filas para admirar a "Monalisa".
E a comparação, aqui, não é aleatória, pois Jobs, afinal, merece mesmo ser considerado o Leonardo da Vinci do século 21, como publicou a revista "Artinfo".
JOBS MASSIFICOU A UTOPIA DE DESIGN DA BAUHAUS
Fabio Cypriano
É difícil apontar alguém que melhor tenha conseguido pôr em prática, em escala massiva, a utopia da Bauhaus, a escola alemã criada em 1919, do que Steve Jobs.
O arquiteto Walter Gropius (1883-1969), fundador da escola, apregoava: "Queremos criar uma arquitetura clara, orgânica, cuja lógica interna será radiosa e despojada".
Essa pode ser uma descrição precisa de qualquer produto criado por Jobs.
Os computadores da Apple ou seus "gadgets" - como o iPod, o iPhone ou o iPad - seguem à risca o princípio de que "design é função, e não forma", como seu ex-presidente-executivo costuma defender, e o que é outro dos grandes pilares da Bauhaus.
Por isso, seus produtos não apenas inovaram no conteúdo -como no uso do MP3, nos celulares com touch screen e nos tablets- mas o design de todos eles foi criado de forma absolutamente coerente com o que cada um dos aparelhos proporciona.
E foi por isso que, assim como os produtos da Bauhaus, com seus móveis de linhas simples e funcionais, os produtos da Apple se tornaram os grandes objetos de desejo da primeira década do século 21.
Claro que por trás de tudo isso está também o designer inglês Jonathan Ive, mas se sabe que Jobs sempre exerceu grande influência sobre seu trabalho, obrigando, por exemplo, que o iPod tivesse um desenho mais simples.
Outra semelhança entre a Bauhaus e Jobs é a pesquisa de materiais.
O computador transparente, o iPod em plástico policarbonato branco e cromado reluzentes, os laptops em metais como titânio e alumínio, todos eles foram fundamentais na mistura de função e forma.
Mas um dos trunfos mesmo é a importância que Jobs deu aos detalhes, o que o colocou milhões de anos-luz das outras empresas.
A sofisticação das embalagens e até mesmo dos fios que conectam seus produtos à energia levaram a Apple a ser reverenciada por uma horda de viciados, que formavam filas intermináveis para o lançamento de cada nova invenção, como as filas para admirar a "Monalisa".
E a comparação, aqui, não é aleatória, pois Jobs, afinal, merece mesmo ser considerado o Leonardo da Vinci do século 21, como publicou a revista "Artinfo".
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Walter Gropius
FolhaLeaks: mais uma vez a diplomacia americana demonstra arrogância e incompetência
A reportagem da Folha de hoje divulgando documentos do Itamaraty que foram sigilosos é um belo serviço à inteligência. Ou melhor: é a melhor demonstração de que arrogância e burrice estão intrinsecamente ligadas, têm a mesma matriz. Os documentos, de mais de 10 mil páginas, foram produzidos pelo Itamaraty e embaixadas brasileiras no período de 1990 a 2001, correspondente aos dos governos de Collor, Itamar e FHC (pelo Brasil) e de Bush pai, Clinton e Bush filho (pelos Estados Unidos). São 261 mensagens confidenciais que trazem “acusações de espionagem, violação de correspondência e de bagagens de diplomatas, além de críticas à política norte-americana”. Mas acima de tudo documentam a arrogância da “diplomacia” dos nossos “irmãos” do Norte. Vejam alguns trechos da reportagem:
Entre 1992 e 1993, lacres metálicos foram rompidos e as autoridades alfandegárias norte-americanas em Miami tentaram submeter as malas diplomáticas brasileiras a análises de raio-x, incluindo uma remessa proveniente da embaixada em Havana.As barbaridades são infindáveis. E o pior é que foram feitas contra um país tido como um dos principais aliados dos governos norte-americanos. Pura burrice. Com toda certeza, bastariam relações minimamente civilizadas para que o Brasil da época colocasse a proximidade com os Estados Unidos como principal objetivo estratégico. Foi essa arrogância absurda que valorizou o trabalho do WikiLeaks. Afinal, nada melhor do que colocar o prepotente no seu devido lugar. Mas ainda existe uma curiosidade que me deixa intrigado: o ex-Chanceler do Governo Fernando Henrique, Celso Lafer, aquele que tirou o sapato diante dos funcionários da Alfândega americana, disse à Folha que, “passados quase 20 anos dos incidentes, não se recordava dos problemas em Miami”. Pode?
Em novembro (de 1992), o consulado informou que o secretário Fernando Vidal, do correio diplomático de Havana, "foi retido por funcionário da alfândega norte-americana para averiguações" sobre a bagagem que trazia de Cuba em avião de carreira.
O tratamento dado a turistas brasileiros pelos EUA nos consulados e na imigração foi tido como "inadequado" e "degradante" pelo Brasil. O então chanceler Celso Amorim, definiu como "inadequado" o tratamento e "motivo de humilhação" os questionários para obtenção de visto. O embaixador norte-americano Melvin Levitsky na ocasião (1994) admitiu que problemas aconteciam porque os EUA desconfiavam do Brasil – segundo ele, país com grande número de portadores de documentos falsos, só atrás de México e El Salvador.
Em 2000, foi chamado de "degradante" o tratamento dado a diplomata brasileiro, algemado e detido em cela após dizer, em tom jocoso, que o embrulho que levava era uma bomba. Há relatos de brasileiros, com vistos, que foram barrados e presos.
Em março de 2001, a poucos dias de uma visita do presidente Fernando Henrique Cardoso ao colega recém-eleito George Bush, os telefones da Embaixada do Brasil em Washington (EUA) começaram a ter uma "sensível perda de qualidade" e ficaram "praticamente" mudos. O embaixador brasileiro à época, Rubens Antonio Barbosa, encomendou uma varredura nos telefones. Técnicos lhe disseram que problemas semelhantes vinham ocorrendo em outras embaixadas, sempre às vésperas de visitas de presidentes e autoridades dos países. A primeira checagem nos aparelhos não encontrou sinais de grampo. Mas, dois meses depois, uma nova inspeção confirmou as suspeitas do embaixador.
O embaixador contou, em recado para o então ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, que "descobriu-se o que pareceria ser uma ligação telefônica direta entre o prédio da Chancelaria [brasileira] e o Departamento de Defesa norte-americano". "A ligação opera à semelhança de um ramal interno, isto é, ao se discar o dígito '0' atende uma telefonista daquele órgão do governo dos EUA", relata Barbosa.
Há inúmeras “gracinhas” desse tipo. E a arrogância é tanta que o Presidente, em 1990, o ex-Presidente Jimmy Carter (Democrata!) pretendeu participar do comitê preparatório para realização da ECO-92, no Rio! E o Senador Edward Kennedy (também Democrata!) pressionou (1992) o Brasil para cumprimento ao embargo praticado contra o Haiti.
Link para os documentos aqui.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
A herança mal dita de Lula
Para a mídia da oposição, só existe uma herança deixada por Lula – a herança que ela mesma escreve. E ela, claro, só sabe falar mal.
Para essa mídia, não existe a herança de opção pelos pobres, que tirou 40 milhões de brasileiros da faixa da pobreza para elevá-los à classe média. Não existe o fortalecimento do mercado interno, cada vez mais invejado (e cobiçado) por outros países. Não existe o maior PIB da história brasileira pós-ditadura. Não existe o presidente que soube enfrentar a “tsunami” financeira mundial, transformando-a em “marolinha”. Não existe o nosso maior líder no cenário internacional, que deu altivez à nossa política externa e deu contribuição consistente para a formação do G-20. Não existe o reequilíbrio das regiões brasileiras, com um novo Norte-Nordeste em condições de oferecer vida digna a seus filhos e podendo até trazer de volta os que, anos antes, tiveram que sair em busca do “Sul maravilha”. Não existe um Centro Oeste explodindo de riqueza, com sua produção rural alimentando meio mundo. Não existe a defesa intransigente do pré-sal nem o engrandecimento da Petrobras. Não existe a grande transformação da nossa educação, começando a se preparar para maiores desafios econômicos e sociais. Não existe a Copa 2014 nem a Rio 2016, que já estão garantindo fluxo intenso de investimentos e dando nova cara à nossa infraestrutura (sugiro um passeio pela Zona Oeste do Rio para ver de perto o que isso começa a significar). Não existe o Bolsa Família, nem o PAC, nem a nova política habitacional, nem uma economia muito bem conduzida, não existem os 8 anos que fizeram o Novo Brasil. A única herança de Lula, para a mídia de oposição, são as alianças que fez, para garantir governabilidade, com partidos tachados como “fisiológicos” – mais uma injustiça, já que Lula herdou essa prática de todos os seus antecessores. Aliás, infelizmente, isso é uma “herança” da própria democracia representativa.
Apesar de toda a campanha contra, Lula conseguiu eleger Dilma para sucedê-lo. Inicialmente, ela era tratada como marionete, burocrata, politicamente despreparada para o cargo. Ninguém foi capaz de dar valor a seu trabalho na Casa Civil, e pré-anunciavam uma administração fracassada. Espertamente, Dilma tratou de passar a mão na cabeça da classe média mal amada – e deu certo. Deu certo até demais. Tanto que os eternos “revoltosos” estão utilizando o lado “ético” do discurso de Dilma para montar uma armadilha – seja para ela mesma, seja para Lula e todo o PT. O ideal oposicionista seria usar a “faxina ética” para provocar o rompimento entre Dilma e Lula (puro delírio dos desesperados). Como isso é impossível, os lacerdistas de plantão esticam ao máximo o discurso “ético”, procurando tornar Dilma refém desse discurso. Como fizeram, por exemplo, Pedro Simon e Cristovam Buarque, que ao mesmo tempo em que pegavam carona no prestígio de Dilma tentaram colar na sua testa a ética como sua grande bandeira. Já dissemos aqui: ser ético não pode ser bandeira política, porque é obrigação de todo cidadão. Quem usa esse artifício quer imobilizar a política. Em 92, quando o PT, navegando na campanha anti-Collor, inventou o slogan “Honestidade tem Cara”, fui contra. Queriam usar esse conceito para a campanha de Benedita, mas preferi o conceito de “cara do Rio” (“Benedita – Prefeita pro Rio” era o slogan). Essa história de herança maldita deixada por Lula é pura jogada política. E por falar em jogada, há quem ache que a grande herança maldita que Dilma recebeu foi o Mano Menezes na seleção...
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sábado, 13 de agosto de 2011
Dave Axelrod: o mundo está de pernas pro ar – isso ajuda a reeleição de Obama
Entrevista com Dave Axelrod, o principal estrategista de Barack Obama.
Blog do Gadelha: O Presidente Obama não conseguiu diálogo com o Congresso, o acordo do teto do endividamento americano foi um fiasco, a Standard&Poors rebaixou a nota dos Estados Unidos, a Europa entrou em crise, o eleitorado americano está raivoso – você acha que Obama vai perder a eleição?Nota. É evidente que se trata de uma entrevista fictícia. Foi a forma que encontrei para dizer o que penso do imbroglio americano na questão do “acordo” sobre o teto do endividamento. Mas o pensamento de Paul Krugman foi pinçado de seu artigo publicado dia 31 de julho, no NYT, e traduzido pelo Globo de 2 de agosto.
Dave Axelrod: De forma alguma. Eu diria que, ao contrário do que se imagina, as chances de vitória são bem maiores hoje do que há um mês.
Blog do Gadelha: Explique essa mágica, que vai contra todas as análises.
Dave Axelrod: Não tem mágica. Você sabe, a gente trabalha com muita pesquisa, informação e, acima de tudo, sensibilidade para compreender o eleitor.
Blog do Gadelha: Ok, então explique sem mágica.
Dave Axelrod: Talvez você não acredite, mas nós planejamos a crise com o Congresso...
Blog do Gadelha: Uau! Essa é forte!
Dave Axelrod: ... e ele reagiu exatamente dentro do esperado. Principalmente entre os republicanos...
Blog do Gadelha: O Tea Party inclusive?
Dave Axelrod: Claro, são os mais previsíveis. O que víamos é que, apesar do pontaço que fizemos com a captura de Bin Laden, a crise econômica, com taxa de desemprego alta e resistente, tinha tudo para nos esmagar. É aquela velha história do “é a economia, estúpido!”, e nós não somos estúpidos. Calculamos que a oposição, meio perdida, bateria unicamente nessa tecla, exaustivamente, podendo até nos derrotar, se não reagíssemos.
Blog do Gadelha: Eles não têm nome forte para concorrer, estão divididos até a alma...
Dave Axelrod: É verdade, mas não podíamos correr risco. Resolvemos atraí-los para a armadilha que armavam contra nós. Eles pretendiam carimbar em nossas testas a responsabilidade exclusiva pela crise econômica, pelo drama de milhões de trabalhadores que perderam o emprego. Sabemos que o governo democrata herdou a crise de Bush. Mas a população não quer saber disso. Bush já está distante, a responsabilidade é do governo atual. Ou melhor, era. Hoje, no mínimo passou a ser dividida com a oposição, e, ano que vem, a responsabilidade pela tentativa de afundamento do país passará a ser creditada unicamente a ela. Ao expormos publicamente a intransigência dos republicanos – mais ainda do Tea Party –, deixamos bem definido quem é quem no jogo político, quem está realmente interessado no progresso e no bem-estar da nação e quem quer apenas ser do contra, com objetivos eleitoreiros.
Blog do Gadelha: E por que isso não foi feito em dezembro, como sugeriu Paul Krugman? Ele disse textualmente: “(Obama) poderia e deveria ter demandado um aumento do teto do endividamento em dezembro passado. Quando indagado por que não fez, ele respondeu ter certeza de que os republicanos agiriam de forma responsável. Que aposta”.
Dave Axelrod: Entendemos a ansiedade de Paul Krugman. Mas o jogo político é muito pesado. Precisávamos dar maior dramaticidade à intransigência dos republicanos, levar a questão a pontos extremos para melhor percepção de quem é quem.
Blog do Gadelha: Isso não foi muito arriscado? Não terá sido isso que levou a S&P a rebaixar a nota de crédito dos Estados Unidos de “AAA” para “AA+”?
Dave Axelrod: Foi um risco calculado. Mas, com relação à S&P, na minha opinião, eles foram muito irresponsáveis. Ninguém em sã consciência pode achar que os Estados Unidos não são “AAA”. A melhor prova disso foi a reação do mercado correndo em busca de dólares. O pior é que essa história toda prejudicou a Europa, que ficou com a credibilidade mais abalada. Ainda assim, a S&P acabou por facilitar nosso plano, porque amplificou a dramaticidade. Ela ajudou a colocar o mundo de pernas pro ar, e ao mesmo tempo ajudou o eleitor a ver mais claramente a importância de reeleger nosso Presidente.
Blog do Gadelha: Está tudo muito bonito, mas não esqueça que a popularidade de Obama caiu...
Dave Axelrod: Sem dúvida. Já contávamos com isso. Mas por incrível que pareça, o Presidente Obama agora tem mais condições de agir.
Blog do Gadelha: Será? Não é o que pensa Krugman, que diz que os republicanos agora poderão impor novas crises, com a certeza de que Obama voltará a entregar os pontos.
Dave Axelrod: Essa foi uma análise precipitada. Mais do que criticar o Presidente, a opinião pública condena a classe política – particularmente os políticos da oposição – por sua irresponsabilidade persistente. O Presidente Obama terá mais desenvoltura para tomar as medidas necessárias para recuperar a economia, iniciar a retomada do desenvolvimento e trazer de volta os empregos perdidos. Nossos maiores adversários em 2012 não serão os republicanos. Teremos que voltar a conquistar os votos dos desiludidos com a política. Só venceremos – como em 2008 – com a redução da abstenção. E é isso que vai acontecer, porque o eleitor tomará consciência de que Obama é a única esperança. Essa vitória está nas mãos de cada um de nós, no sonho de todo o povo – e o nosso povo sabe concretizar os seus sonhos.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Stand-up em voo da WebJet
Ontem estive em Brasília para me despedir de meu filho que partiu para morar na China, por dois a três anos. Dirigi-me bem triste, claro, para o avião de volta. Mas a tristeza foi logo atenuada. O comissário da WebJet fez um verdadeiro stand-up desde a entrada no avião. “Vamos partir para o RRRiiiooo de Jannneeeeiiro! Vamos que vamos!”, ele gritava de forma engraçadíssima. “Agora é pra valer, vamos lá!”, continuou , dizendo em seguida dezenas de gracinhas entremeadas pelas informações sérias. Antes de iniciar o voo, para delírio da plateia, ainda disse: “Podem ficar tranquilos – eu não sou o piloto”! Na chegada não foi diferente. E mais divertidas ainda eram suas versões para o inglês, com duas ou três palavras corretas acompanhadas de grunhidos delirantes. “Welcome to Rio de Janeiro, the Vasco da Gama city!” E para concluir saudou vários bombeiros que provavelmente tinham ido a Brasília pressionar o Congresso pela PEC 300. “Uma saudação aos bombeiros aqui presentes. Estamos de olho em vocês e torcendo por seu sucesso”, concluiu. Se a moda pega, os voos vão bombar ainda mais. Foi um verdadeiro stand up, up, and away, my beautiful baloon...
domingo, 7 de agosto de 2011
Fernando Henrique quer matar Lula
Fernando publicou hoje no Globo um artigo, “David e Golias”, onde faz uma boa análise do momento político e econômico do mundo. Diz ele, comentando a crise americana: “parece que as classes médias e os mais pobres querem gasto público maior e emprego mais abundante, os conservadores querem ortodoxia fiscal sem aumento de impostos, os muito ricos pouco se incomodam com o gasto social reduzido, desde que a propriedade de cada um continue intocável”. E acrescenta sobre a crise europeia: “Na Europa, as coisas não andam melhores. Cada solavanco da economia americana aumenta o contágio, esta doença internética: as taxas de juros cobrados dos países ultra-endividados vão para as nuvens. A rua se agita, não faltam movimentos dos ‘indignados’ que veem o povo sofrer as agruras do desemprego e da desesperança e ainda ser cobrado para que as contas se ajustem. E, naturalmente, como nos Estados Unidos, os que mais têm e os que mais especularam ou esbanjaram (inclusive governantes imprevidentes) balançam a poeira e querem dar a volta por cima. Esperam que mais aperto, mais rigidez no gasto público e menos salários resolvam o impasse. Não se estão dando conta de que a cada xis meses uma nova tormenta balança os equilíbrios instáveis alcançados”.
Até aí, tudo bem. FHC começa então a falar do nosso momento: “E nós aqui, nesta periferia gloriosa, a quantas andamos? Longe do olho do furacão, cantamos glória pelo que fizemos, pelo que de errado os outros fizeram e pelo que não fizemos, mas, pensamos, pouco importa, o vendaval do mundo varreu a riqueza de uma parte do globo para outra e nos beneficiou”. FHC lembra a necessidade de uma nova agenda – que já existiria, e “está exposta cotidianamente pela mídia”, mas que seria difícil de levar avante porque faltaria algo como “o antigo ideal americano, para conter as divergências, o choque de interesses, e guiar-nos para um patamar mais seguro, mais próspero e mais coeso como nação”. A partir daí FHC escorrega feio. O que poderia significar uma contribuição para compreensão e superação das dificuldades no jogo de poder inerente ao relacionamento executivo-legislativo esbarra no ego estilo Nelson Jobim que Fernando Henrique sempre leva a tiracolo. Angustiadíssimo por não ter sido o autor da frase “nunca antes na história deste país”, acaba lançando a culpa de tudo em Lula – o “predestinado”, como ele alfineta. Acusa: “o lulismo anestesiou qualquer crítica não só ao sistema mas a suas partes constitutivas”. Conclui que Dilma “é menos leniente com certas práticas condenáveis do sistema”. Mas “sem leniências e cumplicidades entre as várias partes, como obter apoios para a agenda necessária à modernização do país?” E em uma associação nem tão sutil de Dilma com David e de Lula com Golias justifica o título do seu artigo finalizando com: “não há dúvidas de que, para se desfazer da herança recebida, será preciso (...) refazer os sistemas de alianças. É luta para Davis e, no caso, Golias é pai de Davi”.
Fernando Henrique tira toda a significância do seu artigo unicamente movido pela inveja. E ele não pode esquecer que a inveja é mortal. Saul (verdadeiro “pai político” de David) por inveja bem que tentou matá-lo após a queda de Golias. Ao contrário do que acontece com Fernando Henrique, felizmente a inveja não faz parte do universo de Lula e Dilma.
Artigo completo:
DAVI E GOLIAS
Fernando Henrique Cardoso
Sem leniências, como obter apoio para a agenda necessária ao país?
A propósito do atual dilema americano, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que pela primeira vez em muito tempo não havia um abismo tão grande entre poder, economia e sociedade. Pode parecer banal, mas não é: nos Estados Unidos, o “ideal americano” dava solidez para um caminho em comum para o país. Havia tensões, tendências mais progressistas chocavam-se com outras mais conservadoras, o grande business sempre quis controlar mais de perto o governo, os governos ora se inclinavam para atender aos reclamos das maiorias, ora assumiam a cara mais circunspecta de quem ouve as ponderações da ordem, da econômica em primeiro lugar. Mas, bem ou mal, liberdade, democracia, prosperidade e ação pública caminhavam mais ou menos em conjunto.
E agora, poderia perguntar perplexa a secretária de Estado? Agora, digo eu, parece que as classes médias e os mais pobres querem gasto público maior e emprego mais abundante, os conservadores querem ortodoxia fiscal sem aumento de impostos, os muito ricos pouco se incomodam com o gasto social reduzido, desde que a propriedade de cada um continue intocável. No meio de tudo isso, a crise provocada pelo cassino financeiro surgiu como um terremoto. Logo depois, veio o marasmo da semi-estagnação e, pior ainda, desenha-se o que há pouco era impensável, a moratória do país mais rico do mundo! Por trás da peleja econômica corre a outra, mais profunda, a do poder: o Tea Party — os ultrarreacionários do Partido Republicano — levou o governo Obama às cordas. A agenda política, mesmo depois de “resolvida” a questão do endividamento, passou a ser ditada por eles: onde e quanto cortar mais no orçamento de um país que clama por muletas para reavivar a economia.
Na Europa, as coisas não andam melhores. Cada solavanco da economia americana aumenta o contágio, esta doença internética: as taxas de juros cobrados dos países ultra-endividados vão para as nuvens. A rua se agita, não faltam movimentos dos “indignados” que veem o povo sofrer as agruras do desemprego e da desesperança e ainda ser cobrado para que as contas se ajustem. E, naturalmente, como nos Estados Unidos, os que mais têm e os que mais especularam ou esbanjaram (inclusive governantes imprevidentes) balançam a poeira e querem dar a volta por cima. Esperam que mais aperto, mais rigidez no gasto público e menos salários resolvam o impasse. Não se estão dando conta de que a cada xis meses uma nova tormenta balança os equilíbrios instáveis alcançados. É como se daqui a 30 anos os historiadores olhassem para trás e dissessem: “ah, bom, a Grande Crise dos Derivativos começou em 2007/2008, foi mudando de cara, mas prosseguiu até que novas formas de produzir e de distribuir o poder começaram a dar sinais de vida lá por 2015/2020...”.
E nós aqui, nesta periferia gloriosa, a quantas andamos? Longe do olho do furacão, cantamos glória pelo que fizemos, pelo que de errado os outros fizeram e pelo que não fizemos, mas, pensamos, pouco importa, o vendaval do mundo varreu a riqueza de uma parte do globo para outra e nos beneficiou. Será que é assim mesmo? Será que a proeza de evitar as ondas da tsunami impede que a malignidade do resto do mundo nos alcance? Tenho minhas dúvidas. Falta-nos, como impuseram os reacionários americanos a Obama, uma agenda, mas que seja nova e não a desgastada do “clube do chá” americano. A nova agenda existe, está exposta cotidianamente pela mídia e não é propriedade de um partido ou de um governo. Mas onde está a argamassa, como o antigo ideal americano, para conter as divergências, o choque de interesses, e guiar-nos para um patamar mais seguro, mais próspero e mais coeso como nação?
Mal comparando, a presidenta Dilma está aprisionada em um dilema do gênero daquele que agarrou Obama. Só que, se no caso americano a crise apareceu como econômica para depois se tornar política, em nosso caso ela surgiu como política, mas poderá se tornar econômica. Explico-me: a presidenta é herdeira de um sistema, como dizíamos no período do autoritarismo militar. Este funciona solidificando interesses do grande capital, das estatais, dos fundos de pensão, dos sindicatos e de um conjunto desordenado de atores políticos, que passaram a se legitimar como se expressassem um presidencialismo de coalizão no qual troca-se governabilidade por favores, cargos e tudo mais que se junta a isso.
Essa tendência não é nova. Ela foi se constituindo à medida que o capitalismo burocrático (ou de Estado, ou como se o queira qualificar) amealhou apoios amplos entre sindicalistas, funcionários e empresários sedentos por contratos, e passou a conviver com o capitalismo de mercado, mais competitivo. Na onda do crescimento econômico, as acomodações foram se tornando mais fáceis, tanto entre interesses econômicos quanto políticos (incluindo-se neles os “fisiológicos” e a corrupção). No início, parecia fenômeno normal das épocas de prosperidade capitalista que seria passageiro. Pouco a pouco se foi vendo que era mais do que isso: cada parte do sistema precisa da outra para funcionar, e o próprio sistema necessita da anuência dos cooptáveis pelas bolsas e empregos de baixo salário, e precisa de símbolos e de voz. Esta veio com o “predestinado”: o lulismo anestesiou qualquer crítica não só ao sistema mas a suas partes constitutivas.
É nesse ponto que o bicho pega. A presidenta é menos leniente com certas práticas condenáveis do sistema. Entretanto, quando começa a fazer uma faxina, quebram-se as peças da engrenagem toda. Sem leniências e cumplicidades entre as várias partes, como obter apoios para a agenda necessária à modernização do país? E, sem ela, como fazer frente à concorrência da China, à relativa desindustrialização, ou melhor, “desprodutividade” da economia, e como arbitrar entre interesses legítimos ou não dos que precisam de mais apoio do governo, advenham eles de setores populares ou empresariais? É cedo para prever o curso dessa história, que apenas começa. Mas não há dúvidas de que, para se desfazer da herança recebida, será preciso não só “vontade política” como, o que é tão difícil quanto, refazer os sistemas de alianças. É luta para Davis e, no caso, Golias é pai de Davi.
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domingo, 24 de julho de 2011
A manchete do dia é do Meia Hora
Essa primeira página do Meia Hora de hoje é uma coisa horrorosa, mas que traduz bem o espírito da coisa. Não chega ao nível de manchetes como "Violada em pleno auditório" ou "Cachorro fez mal à moça", mas mandou bem.
sábado, 23 de julho de 2011
Back to Winehouse
Back to Black
Amy Winehouse
Composição: Amy Winehouse / Mark Ronson
He left no time to regret
Kept his dick wet with his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry, get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked, I'll go back to black
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us
I love you much
It's not enough, you love blow and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
Black, black, black, black
Black, black, black...
I go back to
I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Três hai-kai de 80
Reencontrei por acaso esses três poemas à moda hai-kai (que fiz na década de 80, presumo) e divido com vocês:
Pinçar as palavras.
Passa e pousa, limpo, o pólen.
Pensar um poema.
Barulho do voo.
As palavras batem asas.
Imaginação.
Um poema quasímodo
(ressurreição da palavra?)
quase que um quasar
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Mano e o pé de apoio
Não dá para justificar a eliminação da Copa América por causa de problemas no pé de apoio na hora dos pênaltis. A situação foi bizarra, mas não podemos nos fixar nos 10 minutos de incompetência brasileira em bater pênalti e esquecer os 400 minutos de jogo ruim de nossa seleção. Não adianta querer dizer que dominamos o jogo ontem e só não ganhamos por falta de sorte. Dominar os jogos contra Venezuela, Peru e Paraguai era apenas obrigação – mas nem isso conseguimos. O que vimos foi um monte de bons jogadores mal distribuídos em campo, sem saber direito o que fazer. O Ganso é uma águia no meio campo? Sem dúvida, mas nosso meio campo ficou meio amarrado. Neymar, Robinho e Pato são gênios da bola? Genial dizer isso, mas a verdade é que ficaram embolados o tempo inteiro. Os jogadores são ótimos, mas a seleção foi péssima. Quer um conselho para continuar técnico, Mano? Pede apoio.
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domingo, 17 de julho de 2011
Quem diria, escuta telefônica clandestina deu cadeia
Tudo indica que Rebekah Brooks, ex-toda poderosa do Grupo Murdoch na Grã-Bretanha, foi presa hoje de manhã pela Scotland Yard. Se for confirmado que se trata mesmo de Rebekah (a polícia inglesa não identifica os presos até que haja acusação formal), estaremos diante de um caso raro. E se a moda de prisão por escuta telefônica clandestina pegar, vai faltar cadeia no planeta. Leia mais no Washington Post.
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sexta-feira, 15 de julho de 2011
O enigma sino-americano
Tenho um amigo que costuma dizer que no futuro não teremos nem G-5, nem G-7, nem G-8, nem G-20 – “o mundo caminha para o G-2”, diz, referindo-se à concentração de poder entre China e Estados Unidos, trazendo à tona uma alternativa de mundo bipolar de triste memória. Mas, olhando o cenário da economia mundial e observando os laços indissolúveis das economias da China e dos Estados Unidos, prefiro dizer que infelizmente já vivemos uma espécie de G-1, onde os dois países praticamente viraram uma “unidade” e ao resto do mundo só resta rezar para que isso não conduza o Planeta Terra à bancarrota. Os dois gigantes não podem mais agir independentes um do outro, porque o risco de catástrofe é muito grande. Praticam um jogo de alto risco em que um não pode fazer uma jogada que seja inteiramente enigmática e deixe o outro sem saída. Vejamos algumas das notícias recentes sobre as dificuldades na economia americana:
- Se o Congresso americano forçar o Governo Obama (indo contra a própria Constituição) a dar um calote monumental, o seu maior credor (e o portanto maior prejudicado), com 1,15 trilhão de dólares em títulos do Tesouro americano, é exatamente a China. Outros grandes credores são: Japão (882,3 bilhões), Reino Unido (272,1 bilhões), exportadores de petróleo (211,9), Brasil (187 bilhões), bancos no Caribe (169 bilhões), Taiwan (155 bilhões), Rússia (151 bilhões), Hong Kong (135 bilhões) e Suíça (107 bilhões) – todos bem abaixo do total chinês. A situação indefinida já levou o Governo Chinês a aconselhar os Estados Unidos a tomarem juízo. Afinal, o calote é ruim para todo mundo (até para os Republicanos...)
- Anteontem, o presidente do FED, Ben Berbanke, falou de um novo estímulo à economia (seria o terceiro afrouxamento quantitativo). As bolsas ocidentais reagiram positivamente, prevendo maior aquecimento, mas a China chiou forte. Isso significaria também enfraquecimento do dólar (olha as reservas chinesas aí de novo...) e, pior, aumento dos preços das commodities, petróleo à frente. A China, como importadora gigantesca, seria enormemente prejudicada, não apenas pelos custos de importação como pelas dificuldades de exportação, inflação, etc. A sua reação contrária foi ainda mais forte (leia o artigo “Possible US QE3 sparks concerns”, de Hu Yuanyuan e Chen Jia, no China Daily). Ontem, Berbanke meio que desdisse o que falara na véspera, deu a entender que não haveria novos estímulos à economia. Resultado: as bolsas ocidentais caíram e as de Xangai e Hong Kong subiram.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Cesar Maia brilhante: descobriu que a herança de Lula é bendita
Pode-se ser contra ou a favor de Cesar Maia politicamente (eu, por exemplo, sou contra). Mas ninguém pode negar que ele é um obstinado investigador de marketing político. Erra aqui, acerta acolá, mas está sempre tentando aperfeiçoar-se. Suas falhas em marketing político geralmente estão associadas à sua obstinação conservadora na política. Hoje, no seu Ex-Blog, ele dá um bom puxão de orelha na oposição (basicamente nos tucanos) pela insistência em classificar Lula como “herança maldita” para o Governo Dilma ("Herança Maldita": um erro político primário do PSDB como Oposição!”). Diz ele: “O PSDB carrega o carma de Lula ter dado continuidade a algumas de suas políticas e ter ficado com o mérito. O PSDB carrega o carma de ter sido derrotado por Lula. E traumatizou essa relação. E quer buscar a forra”. E acrescenta: “Se o alvo é Lula, o resultado será a população concordar com ele e não com a oposição, e ainda tirar Dilma, que é a presidente, de foco, aliviando a tendência dela à perda progressiva de popularidade”. Percepção corretíssima sobre a herança de Lula para Dilma. O que ele não percebe é que a perda de popularidade de Dilma, caso ocorra, acontecerá junto à classe média conservadora, que acreditava que o novo governo seria anti-Lula. Junto à grande maioria do povo brasileiro, ela está com altos índices de aprovação. E até mesmo junto a classes privilegiadas. Assim como o PSDB, Cesar Maia também carrega o carma das recentes derrotas políticas. Isso, sim, é herança maldita.
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terça-feira, 12 de julho de 2011
A oposição “Pagot” pra ver, mas pelo andar da carruagem vai ficar a ver navios
Esses escândalos ligados a denúncias de corrupção não me atraem. Não é que pense que não se deva denunciar todo e qualquer indício de corrupção. Mas é que não agradam as inúmeras denúncias escandalosamente políticas. Ou escandalosamente vergonhosas, como acontece com o pessoal do Murdoch, que confunde jornalismo investigativo com jornalismo esculhambativo. Nessa história do DNIT e do Pagot, fez-se o maior auê, verdadeiro suspense, holofotes inteiramente voltados para o depoimento que ele faria hoje no Senado, como estivéssemos iniciando a Revolução Francesa, com as guilhotinas bem afiadas. Deixei a televisão ligada aqui ao meu lado e pude acompanhar alguns momentos. Até agora, 14:01h, me pareceu apenas uma grande chatice. O depoimento e as respostas do tal Pagot são extremamente sonolentas e aparentemente bem fundamentadas. Os parlamentares da oposição estão sem fala, silenciosos, abatidos. Não se ouve entre eles nem mesmo o piuiiii de um automóvel ou a buzina de um trem bão. Se continuar nessa andança, a oposição engarrafa de vez.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
90 anos do Partido Comunista Chinês: quem disse que o país iria de Mao a Piao?
A manchete foi do Jornal da Tarde: “A China vai de Mao a Piao”. Brilhante, dos tempos em que nossa imprensa desconhecia o pinyin e escrevia Mao Tsé-Tung e Lin Piao, ao invés de escrever Zedong ou Biao. Além do ótimo trocadilho, a manchete refletia perfeitamente o temor ocidental, no final da década de 60, com a ascensão da ultraesquerda na política chinesa através de Lin Biao, comandante do Exército Vermelho e primeiro na sucessão de Mao. Felizmente para o mundo ocidental quem ocupou o lugar de Mao, em 76, foi Deng Xiaoping (ou Teng Hsiao-Ping), autor da célebre frase “não importa a cor do gato, desde que pegue o rato”. Eu disse “felizmente”? Não sei se é bem assim que pensam atualmente as potências ocidentais. O pragmatismo de Deng Xiaoping foi muito além do imaginado. Graças a esse pragmatismo, ao comemorar hoje os 90 anos de existência do seu Partido Comunista, a China pode se orgulhar de estar ultrapassando os “capitalistas” sem precisar ter-se tornado inteiramente “comunista”.
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Cesar Maia denuncia: venda de armas nos Estados Unidos para população civil deixou de ser uma questão local
O Ex-Blog de hoje reproduz texto de Andrés Oppenheimer, do La Nacion, sobre a nova jogada de marketing da indústria de armas americana. Como a vendas está caindo entre a população civil, os estrategistas da violência engatilharam novíssimos produtos, cada vez mais sofisticados. Armas semiautomáticas com cartuchos de cargas múltiplas, por exemplo, são atrações para que os civis militarizem-se cada vez mais. Os Estados Unidos inventam (e distribuem por toda parte) esses produtos, invadem e bombardeiam países, e ainda querem parecer defensores da paz. Veja o texto do Ex-Blog:
EUA: FABRICANTES DE ARMAS CRIAM QUASE-FUZIS PARA CIVIS!
(Andrés Oppenheimer-La Nacion, 28) 1. Um novo estudo revela uma tendência assustadora: os fabricantes de armas norte americanos, confrontados pela queda nas vendas, estão produzindo armas cada vez mais sofisticadas - tipo militar - para uso civil. O relatório do Centro de Políticas sobre Violência (CPV), intitulado "A militarização do mercado de armas de fogo para civis'', diz que o mercado de armas para uso civil vem caindo há várias décadas nos Estados Unidos, entre outros motivos devido à crescente popularidade dos jogos eletrônicos e ao fato de que os jovens americanos e os imigrantes tendem a comprar menos armas.
2. Enquanto a população dos EUA cresceu 24% nas duas décadas até 2000, a produção de armas pequenas caiu 33%, diz o relatório. Então, qual tem sido a resposta da indústria? Trata de vender armas maiores, mais letais, muitas das quais acabam sendo usadas em chacinas, ataques contra a polícia, ou são vendidas para os cartéis de drogas no México e América Central.
3. "O mercado de armas civis tornou-se uma tenda militar", diz o relatório. Por exemplo, diante de uma lei de 1986 que proíbe a venda de metralhadoras a civis, a indústria de armas tem promovido nos últimos anos a venda de rifles semiautomáticos que se parecem com os AK-47 e M-16 de uso militar. Ao contrário das metralhadoras, as armas semiautomáticas requerem que se aperte o gatilho cada vez que se atira uma bala. Mas os fabricantes de armas constantemente adicionam novos recursos a estas armas semiautomáticas - como cartuchos de munição contendo até 75 cargas - o que torna seus produtos formidáveis máquinas de matar, afirma o estudo.
4. "A diferença entre os rifles semiautomáticos e as metralhadoras é mínima - disse Tom Diaz, autor do estudo. Os rifles semiautomáticos são tão ou mais mortíferos: você pode mirar melhor, porque eles não se movem para cima como as metralhadoras".
5. Minha opinião: a venda de armas de estilo militar nos Estados Unidos já não é mais um problema interno. Com mais de 40.000 mortos na guerra contra o narcotráfico no México nos últimos cinco anos e cada vez mais assassinatos de policiais por criminosos armados nos EUA, essa venda se tornou um problema regional.
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Strauss-Kahn X camareira: Sarkozy em maus lençóis
O New York Times de ontem provocou uma reviravolta no caso Strauss-Kahn ao revelar ligações suspeitas da camareira acusadora com traficante preso (Strauss-Kahn Case Seen as in Jeopardy). Durante os dois últimos anos, por exemplo, esse mesmo traficante seria um dos depositantes em uma conta bancária da camareira que já teria chegado ao valor de 100.000 dólares. Ela também estaria pagando mensalmente centenas de dólares em contas telefônicas de cinco companhias telefônicas diferentes – apesar de declarar que possui apenas uma linha. A polícia contaria até com gravações telefônicas que detonariam ainda mais a credibilidade da camareira e os promotores do caso já começariam a admitir “problemas”. Se tudo isso for confirmado e Strauss-Kahn for declarado inocente, vítima de armação, Sarkozy pode ter que arrumar as malas e deixar o seu Palais (ou seria “Hôtel”...) de l'Élysée. Se Strauss-Kahn já era favorito para a próxima corrida presidencial, agora, como “grande vítima de complô internacional”, vai estar com a cama feita.
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