sábado, 14 de fevereiro de 2009

Serra faz a manchete mais hilária da semana

Sempre existiu campanha política antecipada. E vai continuar existindo. Há quem diga que o candidato vitorioso é definido bem antes de se iniciar a campanha oficial (às vezes tem exagero nisso, mas tem muito de verdade). Todo político sabe que é assim que a banda toca, e aqueles que se sentem prejudicados por “pré-campanhas” tentam apenas combater os excessos dos adversários enquanto recuperam o fôlego. É o que está acontecendo agora com a oposição, atônita, sem saber o que fazer para combater a popularidade de Lula que não pára de crescer. Sem ter definido o nome para a eleição 2010, a oposição começou a se preocupar (com toda razão) com a estratégia bem montada para dar visibilidade a Dilma Roussef como candidata de Lula. Ao mesmo em que tenta evitar no Supremo as viagens de Dilma, a oposição fez o quê? Fez o mesmo que a pré-candidata petista. Serra e Aécio começaram a circular fora de seus estados e tanta contradição provocou essa manchete acima (clique na imagem para ampliar), de hoje, no jornal O Globo. Flagrado em uma feira agropecuária do Paraná, fazendo sabe-se lá o que, Serra disse que “ao contrário da ministra Dilma Rousseff, que tem acompanhado o presidente Lula nas viagens pelo país, ele tem se dedicado apenas a governar São Paulo”. O festival da comédia eleitoral está apenas pré-começando...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Eleição israelense: Estados Unidos e Europa perto de escolherem o novo Gabinete

Os governos americanos e europeus já mandaram o recado: não querem ver um governo de direita assumindo em Israel. O direitista Benjamin Netanyahu (que pretende ser o Primeiro Ministro, apesar do seu partido, o Likud ter ficado em segundo lugar) seria um desastre para as negociações de paz com os palestinos. Pior ainda para a pretensão da formação de dois estados e para a melhoria nas relações com o Hesbolá e com o Irã. Estados Unidos e União Europeia trabalham para que Kadima e Likud se aliem, de preferência sob o comando de Tzipi Livni. Ou pelo menos que o Kadima ocupe postos chaves como Relações Exteriores, Defesa e Fazenda. Seja como for, nada avançará sem o voto de Obama, Sarkozy, Gordon e Merkel. Leia mais nas reportagens U.S., EU say prefer Kadima-Likud unity gov't e King of comeback do jornal Haaretz.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Eleições em Israel: quem será o infiel da balança?

A rigor, em política não existe o fiel da balança. O equilíbrio político é na verdade conquistado com o recurso de pequenas “infidelidades” (raramente são grandes “infidelidades”). Essa eleição de Israel – sempre cenário de grande confusões – dá exemplo do que é isso. O partido centrista Kadima, do atual Primeiro-Ministro Ehud Olmert e da vitoriosa Tzipi Livni, venceu (para surpresa geral) porque conquistou o maior número de cadeiras no Parlamento (28 cadeiras, do total de 120). Mas podemos dizer que há um empate técnico. Logo atrás veio o direitista Likud, de Benjamin Netanyahu, com 27 cadeiras. Em seguida vêm o Yisrael Beitenu, Avigdor Lieberman, de extrema direita, com 15 cadeiras, o tradicional Avoda (Partido Trabalhista), de Shimon Peres e Ehud Barak, com 13 cadeiras, e o Shas, de direita (embora faça parte do atual governo), com 11. Por último, vêm 7 partidos menores que, juntos, conquistaram as 26 cadeiras restantes (outros 22 partidos – ou coligações –, entre eles o "Partido do Poder do Dinheiro", o "Partido dos Direitos dos Homens" e o "Partido dos Sobreviventes do Holocausto", não tiveram votos suficientes para conquistar lugar no Parlamento). Agora começa a parte mais “xadrez” da eleição: as negociações para determinação do Primeiro-Ministro e seu Gabinete. A disputa está entre Tzipi Livni e Benjamin Netanyahu, e a questão estritamente ideológica passa distante. O Kadima de Tzipi Livni (que venceu detonando o campo da esquerda, como disse Yossi Verter, do Haaretz) acena para a direita e não me espantaria ver o Yisrael Beitenu participando do governo, substituindo o Partido Trabalhista (que conta com a liderança de Ehud Barak, atual Ministro da Defesa, que comandou os ataques a Gaza!), que poderá ir para a Oposição. Fidelidades ideológicas, para quê? A verdadeira união é feita em torno da guerra à Palestina. Veja a relação dos partidos e suas cadeiras:
  • Kadima ("Avante", centrista) 28 cadeiras
  • Likud ("União", de direita) 27 cadeiras
  • Yisrael Beitenu (de extrema direita, com base entre imigrantes vindos da antiga União Soviética) 15 cadeiras
  • Avoda (Partido Trabalhista, centroesquerda, de Shimon Peres, David Ben-Gurion, Yitzhak Rabin, Golda Meir e Ezer Weizman) 13 cadeiras
  • Shas (partido de direita) 11 cadeiras
  • Judaísmo Torah Unido (ultra ortodoxo) 5 cadeiras
  • União Nacional (direita) 4 cadeiras
  • Hadash (árabe-judeu, de esquerda) 4 cadeiras
  • Lista Árabe Unida -Ta’al (nacionalismo árabe-israelense, com influência muçulmana) 4 cadeiras
  • Lar Judeu (religioso, de direita) 3 cadeiras
  • Meretz (Vitalidade, de esquerda) 3 cadeiras
  • Balad (auto definido como partido nacional progressista para os cidadãos palestinos de Israel) 3 cadeiras

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Brasil 3 x 0 Itália

O Brasil venceu a Itália no campo esportivo (2 x 0) e no campo jurídico (1 x 0).

Israel: o eleitor do Partido Trabalhista sacrificou o partido, mas tentou impedir a vitória da direita

Até o momento, só temos 43% dos votos computados, mas tudo leva a crer que o Kadima ficou em primeiro lugar, em uma virada sensacional, tirando a liderança do direitista Likud. Não está certo ainda que a representante do Kadima, Tzipi Livni, consiga assumir o cargo de Primeira-Ministra. Vai depender dos resultados finais e dos acordos com os partidos. O Partido Trabalhista, preocupadíssimo com a sua queda de popularidade, ameaça ir para a oposição. Mas não é isso que os setores progressistas querem. O importante agora é uma forte aliança contra a preocupante direita israelense. Vamos aguardar os resultados. NOTA: com 52% dos votos apurados, a possível aliança de centroesquerda tem 65 cadeiras contra 55 da direita. Com 86%, a possível aliança de centroesquerda tem 67 cadeiras contra 53 da direita.

A guerra contra a Itália

Na década de 70, fiz reportagem sobre motoristas de táxi brasileiros em Nova York (sugestão do Paulo Francis). Um deles me falou: “Vivia nas noites cariocas e resolvi dar a volta ao mundo em 10 anos, mas parei em Nova York”. Sem dinheiro, pensou em trabalhar na construção civil, mas foi logo alertado: “Latinoamericano não tem a menor chance, porque o sindicato é dominado pela máfia italiana”. Mesmo assim ele foi tentar e falou diretamente com o presidente, que lhe disse: “Você tá maluco? Não vai conseguir emprego aqui nunca! Você é brasileiro e o Brasil acabou de derrotar a Itália!” (tratava-se provavelmente do 4x1 da Copa de 70...) Quer dizer, a disputa Brasil x Itália é antiga e acirrada. Quase tão forte quanto Brasil x Argentina. E a partida de hoje tem o tempero adicional da disputa em torno da não-extradição de Cesare Battisti. Vai ser uma guerra. A título de curiosidade, continuo o relato do taxista brasileiro: “Percebi que ele (o italiano presidente do sindicato da área de construção civil) gostava de futebol e comecei a falar sobre os grandes craques europeus. Ele se entusiasmou e me tornei o primeiro sulamericano a trabalhar em construção. Fui trabalhar na construção do World Trade Center e logo nos primeiros meses um tijolo caiu de raspão no meu ombro. Todo mundo gritou para eu me jogar no chão e fiz isso. Fiquei um ano parado recebendo seguro. Aí fecharam acordo comigo e me pagaram uma bela indenização. Foi com ela que comprei o meu táxi. E posso dizer que já dei a volta ao mundo...”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Um guia para o esquerdista israelense perplexo

A esquerda israelense não vive apenas o drama humanitário causado pelos bombardeios de Gaza. Vive o drama da sua própria identidade. E esse drama torna-se maior diante da decisão que tem que ser tomada nas eleições desta terça-feira. É mais importante votar em um partido que melhor representa a esquerda ou votar naquele que, taticamente, melhor serve para derrotar a direita representada pelo Likud ("União", em hebraico, de Benjamin Netanyahu)? A indecisão permanece até os últimos instantes. Para tentar ajudar, Akiva Eldar, do jornal Israelense Haaretz ("Terra", de tendência de esquerda), publicou A guide for the perplexed leftist, onde apresenta testes comparativos entre os partidos Kadima ("Avante", centrista, fundado por Ariel Sharon, partido de Ehud Olmert e da candidata Tzipi Livni), o tradicional Avoda ("Partido Trabalhista", centroesquerda, de Shimon Peres, David Ben-Gurion, Yitzhak Rabin, Golda Meir e Ezer Weizman) e o Meretz ("Vitalidade", de esquerda, socialdemocrata). Uma decisão difícil de tomar para quem é de esquerda em um país como Israel. Vale a pena ler o artigo. E tomara que o resultado da eleição contribua com mais paz para a região.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Eleições israelenses: as bombas contra palestinos servem de cortina de fumaça para a crise econômica e social em Israel

Nas eleições da próxima terça-feira, dia 10, não importa quem vença, Israel vai obedecer ao comando de “direita, volver!”. Sem ter como viabilizar propostas capazes de solucionar os graves problemas econômicos e sociais que afligem o país, os partidos de esquerda e de centro buscaram um discurso mais próximo da direita, fundamentado na questão da segurança. O bombardeio de Gaza foi conseqüência natural. Conseguiram embaralhar a cabeça do eleitor e passaram a ter chances em uma eleição que já estava praticamente perdida. Enquanto isso, um quarto das famílias vive abaixo da linha de pobreza, 1/3 da população não tem meios para comprar remédio e a metade não dispõe de plano de aposentadoria. Curiosamente, a parcela da população em estado mais crítico é a que apóia os candidatos da direita, com sua proposta neoliberal e de radicalismo antipalestino. Que os deuses de todas as religiões ajudem a região! Leia mais no Le Monde: Législatives en Israël: l'économie une nouvelle fois éclipsée par les questions de sécurité, do correspondente em Israel Benjamin Barthe.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Aécio em festa

Ontem, Aécio Neves, Governador de Minas e pré-candidato à presidência pelo PSDB, aproveitou sua estada em Brasília e deu uma esticada com sua namorada na festa que rolava no Brasília Palace - para total surpresa dos três aniversariantes que promoviam a festa! Provavelmente estava tentando iniciar as prévias tucanas...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O ciao de Mino

Na postagem anterior, reproduzi um texto que, a propósito de Cesare Battisti, bate fortemente em Mino Carta. Agora, reproduzo a despedida jornalística que Mino colocou em seu Blog na quarta-feira. Nesse mesmo dia, o Mello me perguntou o que eu achava do Mino, já que tinha trabalhado com ele na Veja. Devo confessar que é difícil analisar agora, tantos anos depois. Eu estava apenas começando na vida adulta, profissional e paulista. Posso dizer que o Mino inegavelmente tem um lugar de grande destaque no jornalismo brasileiro. Quatro Rodas, Jornal da Tarde, Veja, Revista Senhor (segunda fase), jornal República, IstoÉ, Carta Capital, etc. que não me deixem mentir. Na minha época de Veja, lembro do Léo Gilson Ribeiro, crítico, editor de literatura da revista e eterno gozador, referindo-se a Mino Carta como Napoleão - provavelmente parte pela semelhança na altura, parte pelas semelhanças regionais (a Córsega onde nasceu Napoleão está mais ligada à Gênova de Mino do que à própria França) e parte pelas semelhanças como chefes. Não consigo ir muito além disso. Eis o texto-despedida:
quarta, 04 de fevereiro de 2009 às 12:59
A despedida
Quando escolhi o Brasil como lugar definitivo da minha vida, optei também pelo jornalismo. Existe uma indissolúvel conexão entre as duas atitudes. E explico. Até o golpe de 1964, fui jornalista com séria dedicação profissional. De alguma forma mercenário, no entanto.
Diga-se que, depois da renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, quando a pressão militar só permitiu a posse de João Goulart, sucessor constitucional, ao forçar a adoção do parlamentarismo, eu ficara de sobreaviso. Mas o golpe se deu também sobre a minha alma e motivou minhas escolhas definitivas.
Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.
Quarenta e cinco anos depois, vivo uma quadra de extremo desalento, em contraposição às grandes esperanças alimentadas durante a ditadura.
Logo frustradas pela rejeição da emenda das eleições diretas após uma campanha a favor que honra o povo brasileiro. Fez-se, pelo contrário, a conciliação das elites, nos exatos moldes previamente desenhados pelo general Golbery do Couto e Silva. A aposta do Merlin do Planalto estava certa e vale até hoje.
Fez-se a conciliação para eleger Fernando Collor e para derrubá-lo. E novamente para eleger Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. A Carta aos Brasileiros assinada por Lula foi uma tentativa de aparar arestas antes do pleito de 2002, aparentemente mal-sucedida, por ter convencido um número bastante diminuto de privilegiados. A conciliação veio depois da posse, a despeito do ódio de classe que até o momento cega a mídia.
A mim, que estou de olhos escancarados, a Carta convenceu por considerá-la sincera. Naquela época, não cansei de definir Lula como um conciliador desde os tempos da liderança sindical. No governo, contudo, ele foi muito além das minhas expectativas. Ou, por outra: deu para me decepcionar progressivamente.
O balanço de seis anos de Lula no poder não é animador, no meu entendimento. A política econômica privilegiou os mais ricos e deu aos mais pobres uma esmola. Há quem diga: já é alguma coisa. Respondo: é pouco, é uma migalha a cair da mesa de um banquete farto além da conta. O desequilíbrio é monstruoso. Na política ambiental abriu a porta aos transgênicos, cuidou mal da Amazônia, dispensou Marina Silva, admirável figura, para entregar o posto a um senhorzinho tão esvoaçante quanto seus coletes.
A política social pela enésima vez sequer esboçou um plano de reforma agrária e enfraqueceu os sindicatos. E quanto ao poder político? O Congresso acaba de eleger para a presidência do Senado José Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos. Outro que foi para o trono, no caso da Câmara, é Michel Temer, um ex-progressista capaz de optar vigorosamente pelo fisiologismo. Reconstitui-se o “centrão” velho de guerra, uma das obras-primas da conciliação tradicional. Enquanto isso, o Brasil ainda divide com Serra Leoa e Nigéria a primazia mundial da má distribuição de renda, exporta commodities, 55 mil brasileiros morrem assassinados todo ano, 5% ganham de 800 reais pra cima. E 2009 promete ser bem pior que pretendiam os economistas do governo.
Houve, e há, justificadíssima grita quanto às privatizações processadas no governo FHC. E que dizer do BNDES que empresta aos bilionários para armar a BrOi, a qual (é uma modesta previsão) acabará nas mãos de ouro de Carlos Slim? E que dizer da compra pelo governo de 49% das ações do Banco Votorantim à beira da falência?
Em um ponto houve melhoras sensíveis, na política exterior. E aí vem o caso Battisti. Até este serve ao propósito da conciliação, a despeito das críticas bem fundamentadas da mídia. O ministro Tarso Genro disse em Belém que a favor da extradição de Battisti se alinham os defensores da anistia aos torturadores da ditadura, “com exceção de Mino Carta”. Agradeço a referência, observo, porém, que o ministro cai em clamorosa contradição. Não foi ele quem, em rompante que beira a sátira volteriana, sugeriu à Itália baixar uma lei da anistia igual àquela assinada no Brasil pelo ditador de plantão?
Talvez o ministro não saiba que enquanto no Brasil vigorou o Terror de Estado, na Itália houve uma gravíssima e fracassada tentativa terrorista de desestabilizar um Estado democrático de Direito estabelecido desde o fim do fascismo.
Se eu digo que o Festival de Besteira assola o País desde a época de Stanislaw Ponte Preta, e que se o ministro merece o Oscar do Febeapá, ao menos o professor Dalmo Dallari faz jus a uma citação, recebo as mensagens ferozes e as agressivas admoestações de centenas de patriotas. Pois não é bobagem (sou condescendente) dizer que na Itália dos anos 70 estava no poder um governo de extrema-direita, ou que se Battisti for extraditado, de volta ao seu país corre até risco de vida? Ou afirmar que Mestre e Milão, norte da península, são muito distantes, quando entre as duas cidades há menos de 200 quilômetros? Sem contar que, como me levam a observar vários frequentadores do meu blog, Battisti foi o autor do homicídio de Mestre e apenas o idealizador daquele de Milão. Está claro que o ministro Tarso não erra ao dizer que a mídia nativa está sempre a agredir o governo de Lula, e contra esta forma desvairada de preconceito CartaCapital tem se manifestado com frequência. Ocorre que, ao referir-se à extradição negada a mídia está certa, antes de mais nada em função dos motivos alegados, a exibir ao mundo ignorância, falta de sensibilidade diplomática e irresponsabilidade política, ao afrontar um estado democrático amigo.
De todo modo, Battisti transcende sua personalidade de “assassino em estado puro”, segundo um grande magistrado como o italiano Armando Spataro, para se prestar a uma operação que visa compactar o PT e empolgar um certo gênero de patriotas canarinhos.
Isto tudo me leva a uma conclusão desoladora, embora saiba de muitíssimos leitores generosos e fiéis: minha crença no jornalismo faliu. Em matéria de furo n’água, produzi a Fossa de Mindanao, iludi-me demais, mea culpa.
Donde tomo as seguintes decisões: despeço-me deste blog e, por ora, calo-me em CartaCapital.
Creio que a revista ainda precise de minha longa experiência profissional, completa 60 anos no fim de 2009. Eu confiei muito em Lula, por quem alimento amizade e afeto. Entendo que o Brasil perde com ele uma oportunidade única e insisto em um ponto já levantado neste espaço: o próximo presidente da República não será um ex-metalúrgico com quem o povo identifica-se automaticamente. Conforme demonstra aliás o índice de aprovação do presidente, cada vez mais dilatado.
Vai sobrar-me tempo para escrever um livro sobre o Brasil. Talvez não ache editor, pouco importa, vou escrevê-lo de qualquer forma, quem sabe venha a ser premiado pela publicação póstuma.

CartaCapital e o país de Pinocchio

Recebi esse texto, que reproduzo na íntegra:
CartaCapital e o país de Pinocchio
Giuseppe Cocco, 5/2/2009
GIUSEPPE COCCO , 52, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, "Glob(AL): Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada".
No Brasil, as vivas polêmicas suscitadas pelo caso Battisti foram e são atravessadas por dois grandes vieses. Obviamente, um deles tem origem na Itália. O outro, só um pouco menos óbvio, é fato da conjuntura política brasileira.
A violenta reação da classe política italiana à decisão brasileira de conceder “refúgio” a Battisti tem dois determinantes.
O primeiro diz respeito à composição fortemente reacionária do atual executivo italiano presidido por Berlusconi. Se o berlusconiano ministro do exterior, Frattini, chamou de volta o embaixador, foram os pós-fascistas a ameaçar com a suspensão do “amistoso” de futebol entre Brasil e Itália; e um deputado da "Lega Nord" a declarar que o Brasil é conhecido por suas “dançarinas” e não por seus juristas.
O segundo determinante diz respeito à composição da classe política italiana considerada em conjunto. Até o Presidente italiano, apesar de seu pouco peso (o regime italiano é parlamentar, e quem 'manda' é o Primeiro Ministro), o pós-comunista Napolitano, protestou veementemente e de maneira deselegante, em carta aberta ao presidente brasileiro. A cobertura da grande mídia brasileira não traz nenhuma novidade. Quando se trata de Bolívia e Equador, ela prega firmeza e critica a postura conciliatória do governo brasileiro. Quando se trata de Itália, ela repercute (e dá legitimidade a) a pressão italiana, sem nenhuma preocupação com a firmeza “nacional” que a mesma mídia prega nos outros casos. A elite é isso mesmo: “forte com os fracos e fraca com os fortes”! Mas, há uma segunda vertente de críticas à decisão brasileira no caso Battisti: trata-se das colunas do editor-proprietário de CartaCapital e de um magistrado, ex-chefe da repressão ao narcotráfico (sob FHC) que publica colunas no mesmo semanário, no Terra. Na realidade, essa 'segunda' vertente não faz diferente do que faz a grande mídia: é mais do mesmo, mas piorado. Ao mesmo tempo, há dois traços específicos nessa 'segunda' vertente.
Em primeiro lugar, Mino Carta e Walter Maierovitch pretendem-se inseridos no cenário político brasileiro nacional, no campo progressista, até de centro-esquerda. Sobretudo em função de uma inegável independência do jornalismo da Carta Capital – os dois beneficiam-se das vantagens dessa imagem, entre o público de esquerda. Em segundo lugar, ambos apresentam-se como profundos conhecedores da realidade italiana, sabe-se se por suas origens familiares, sabe-se lá se por algum outro critério pessoal indecifrável. E é assim que se lê, na Carta do Mino (de 28 de janeiro de 2009) que “o ministro Tarso Genro expõe ignorância em relação à história recente da Itália”. As colunas desses dois autores atacam a decisão de Tarso com argumentações supostamente mais rigorosas no plano histórico, jurídico e político. Muitos, na esquerda, ficaram perplexos com o que leram essa semana. O fato é que aqui se viu uma interpretação reacionária à brasileira do balé reacionário encenado por praticamente toda a classe política italiana.
Em outro site[1], Walter chega a formulações de bem baixo nível, que deixamos que o leitor avalie: “Caso Battisti: Tarso Genro protagoniza tragicomédia e vai do masturbador a Bobbio”.
Mas em italiano existe uma frase bem adequada ao paradoxo aparente dessa situação: “non tutto il male vien per nuocere”, nem todo o mal vem (só) para o mal! A postura dos dois colunistas nesse caso é uma boa ocasião para ver, por um lado, que, nesse caso, seu jornalismo não é tão independente como eles desejariam que fosse; pelo outro, que eles são incapazes de apreender as dimensões políticas dos processos sociais e de seus conflitos.
Grosso modo, Mino mobiliza três argumentações. Uma, geral, que diz muito sobre sua visão dos problemas do Brasil: trata-se de um país que deve firmar-se em nível internacional, ou seja ser sério, nos termos dos palpiteiros que decidem sobre "níveis de risco".
Assim, para Mino, o que pensa o The Economist constituiria alguma espécie de Magna Carta... ou seja uma Carta Capital. A decisão sobre Battisti é ruim, diz ele, porque The Economist não gostou. Para Mino o Brasil ainda seria uma criança que “vive em estado de ignorância”.
A segunda argumentação mobiliza um método jornalístico estranho. Afirmando-se como especialista dos detalhes da vida política italiana e de sua história, Mino elogia a carta aberta enviada a Lula pelo presidente italiano, o “comunista”, diz ele, Giorgio Napolitano. Mas Mino não chama de comunista, de pós ou de ex-comunistas os membros do PD (para onde convergiram os ex-membros do PDS, ex-PCI e os ex-membros da Democrazia Cristiana, DC). Tudo bem, até aí, nada de grave. Mas, logo depois, Mino fala de uma outra carta, dessa vez enviada pelo presidente do Congresso italiano (Camera dei Deputati), Gianfranco Fini, a seu homólogo Arlindo Chinaglia.
Ora, no Brasil, todo o mundo sabe que Chinaglia é do PT. Mas ninguém sabe de que partido é Fini. Se usamos o mesmo critério pelo qual Mino apresentou Napolitano ("comunista"), Fini tem de ser apresentado como "fascista": é dirigente do partido (MSI) criado pelos sobreviventes do regime mussoliniano no imediato pós-guerra, partido que, recentemente, se transformou em "Alleanza Nazionale". Diante disso, o que pensar? Por que esse tratamento desigual, em artigo de jornalista tão bem informado? Será que Mino não sabia como resolver a incongruência dessa unanimidade entre “comunista” e “fascista”? O nariz de Pinocchio não cresceu. O jornalista não escreveu uma mentira. Simplesmente omitiu o fato que atrapalhava sua coreografia. E isso, depois de anunciar que, “como recomendaria Hannah Arendt, vamos à verdade factual” (sic).
Ou por ignorância da situação italiana, ou por ter-se atrapalhado com tantos malabarismos jornalísticos, Mino surrupia ao leitor um elemento importante: o drama da classe política italiana está justamente no fato de que comunistas e fascistas têm idêntica opinião sobre os anos 1970, sobre o Brasil de hoje e sobre várias outras coisas. Pobre Hannah Arendt, condenada à revelia a nos ensinar esse tipo de 'verdade'. A 'verdade' que Mino noticia nada é além da 'verdade' de todos os ex-comunistas e ex-fascistas que negam aos militantes revolucionários dos anos 1970 a possibilidade de, hoje, quase 40 anos depois, serem diferentes do que foram. Por que tantos são hoje “pós”... e os militantes revolucionários daquela época não podem ser? Pobre Oswald de Andrade, cujo Stanislaw Ponte Preta é citado à toa, para falar do Brasil desde um ponto de vista eurocêntrico que ele tanto criticou!
Por que, em outro parágrafo, falar do fato de que o advogado de Battisti defende também Dantas, e não lembrar que o mesmo advogado defendeu também o MST? MST que assinou manifesto em favor de Battisti e ocupa 8 páginas do mesmo número do semanário?
Por que, quando fala do Tortura Nunca Mais pelo avesso que haveria na Itália, não citar o detalhe de que o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro apoiou a decisão do Ministro Tarso?
No mesmo numero do semanário, Walter começa sua coluna falando de Gramsci morto na prisão, por mãos dos fascistas. Não pergunta a pergunta indispensável: o que pensaria o pobre Gramsci, se visse uma situação na qual pós-comunistas e pós-fascistas andam juntinhos?
Não, não. Ninguém aqui pretende mobilizar Gramsci em prol de Battisti. Mas, sim, haveria boa coluna a escrever, sim, sobre o que pensaria Gramsci sobre o voto dos ex-comunistas italianos a favor da guerra do Afeganistão e da guerra do Kossovo. O que pensaria Gramsci, sobre isso? E o que pensaria Gramsci sobre direita e esquerda italianas estarem hoje unidas, também, numa furiosa discriminação dos imigrantes estrangeiros? E sobre a imposição das bases militares dos EUA em Vicenza, imposição que a população daquela cidade rejeitou em plebiscito legal (e estamos falando de 2008!) e que direita e esquerda italianas aprovaram? E o que pensaria Gramsci sobre o ex-comunista Walter Veltroni e o líder dos DS, o qual – quando prefeito de Roma –, ante um fato de delinqüência sexual praticado por um grupo de imigrantes romenos, clamou por punição coletiva, étnica, para todos os “roms” (quer dizer, todos os ciganos)? Mino e Walter falam da volta do “Febeapá do Lalau” e se pretendem conhecedores finos da realidade italiana. Walter nos explica que as leis especiais de repressão da luta armada não eram “de exceção” mas de “emergência” – sutileza equivalente ao requinte busheano de chamar a tortura praticada em Guantánamo de “novos métodos de interrogatório”.
E então vem Mino e nos diz que “a Itália (...) não alterou uma única, escassa vírgula da sua Constituição para combater o terrorismo”. Pois é. Difícil supor que Mino não saiba que a Constituição italiana co-habitou por muito tempo não apenas com a máfia e a corrupção, mas, sobretudo, com o "Códice Rocco" – que leva o nome do jurista fascista que o redigiu durante o período mussoliniano. Assim também as relações entre Estado e Igreja continuaram sob o marco do também mussoliniano “concordato”, sem que a Constituição representasse obstáculo a qualquer daquelas legislações fascistas. Até a discriminação atual dos imigrantes é constitucional.
Walter se afirma profundo conhecedor da vida política italiana e escreve: “[na Itália] o terror começou em dezembro de 1969 com a explosão de Piazza Fontana”. Não. A Itália inteira sabe que esse atentado, conhecido como “strage di Stato” (massacre praticado pelo Estado), está na base da chamada “strategia della tensione” – uma série de atentados (nos trens, em manifestação em Brescia, na estação de trens de Bologna) cometidos por fascistas ou agentes do Estado ligados a uma organização paralela da Otan, chamada "Gladio", dirigida por Licio Gelli entre outros.
O que fez a Itália supostamente democrática dos anos 1970, a Itália do tão elogiado presidente Pertini, para salvar as centenas de italianos e milhares de descendentes de italianos que eram torturados e exterminados na Argentina? Será que a seleção nacional italiana se recusou a jogar o mundial argentino por causa disso? Será que Walter sabe nos dar alguma resposta?
A Itália dos anos 1960 e dos anos 1970 era assim: políticos da Democrazia Cristiana misturados com mafiosos, generais golpistas, lojas maçônicas, bancos do Vaticano e bombas cegas destinadas a ameaçar o movimento operário e estudantil. Afirmação política que chegou à imortalidade na peça de teatro “Morte acidental de um anarquista” de Dario Fo, prêmio Nobel de literatura. É essa verdade política que nossos dançarinos optaram por não revelar a seus leitores.
O primeiro ato violento da esquerda foi – em 1972 – o homicídio do Delegado Calabresi, acusado de ter defenestrado o anarquista Pinelli para acusar o movimento desse horror. O intelectual Adriano Sofri, na época dirigente do grupo "Lotta Continua" (que tinha 20.000 militantes e publicou ao longo da década um jornal quotidiano do mesmo nome), está pagando com longos anos de prisão uma condenação por responsabilidade moral nesse assassinato. E isso não é político? E Feltrinelli, editor, homem de esquerda e amigo pessoal de Fidel Castro, que morreu também em 1972, tentando sabotar uma torre de energia para tentar acordar os grupos de resistência contra as ameaças fascistas? Feltrinelli foi criminoso comum?
Essa verdade política estava na rua, nas manifestações de milhões de italianos ao longo de toda a década. O Estado italiano nunca desvelou as conspirações e cumplicidades que o ligaram à estratégia da desestabilização (strategia della tensione). Aliás... por que os ministros italianos fascistas não mandam chamar de volta o embaixador italiano no Japão, para conseguir prender, afinal, um dos acusados por vários atentados? Mino e Walter não lembram do clima daqueles anos? O golpe militar contra Allende (em 1973), o esmagamento da revolta dos estudantes gregos pelos tanques não teriam tido, para eles, nenhum impacto nos movimentos de toda a Europa?
Não eram pequenos grupos. Eram manifestações oceânicas, sistemáticas e repetidas, manifestações de rua que diziam: “Grécia, Chile: mai piú senza fucile” [Grécia, Chile, nunca mais sem fuzil].
O próprio compromisso histórico não foi, pelo menos em parte, fruto do veto norte-americano à chegada ao poder do Partido Comunista Italiano? Para não falar de Ustica: será que Mino e Walter ouviram falar de Ustica? Se sim, como justificam que o Estado italiano tenha acobertado todos os elementos que indicavam que o avião foi derrubado por um míssil, em acidente que matou 81 pessoas? Por que a Itália nunca chamou o embaixador dos Estados Unidos, quando retiraram clandestinamente de território italiano os pilotos militares que derrubaram a cabine de um teleférico ('bondinho'), matando 20 italianos?
Por que não se romperam relações diplomáticas com os Estados Unidos, quando norte-americanos metralharam um carro do serviço secreto italiano cujos ocupantes participavam de uma operação de libertação de uma refém em Bagdá?
Por que as mortes ligadas a Battisti seriam mais pesadas do que todas as outras? Não é problema de justiça, ainda menos de moral. Trata-se afirmar uma razão de Estado.
A Itália quer afirmar sua razão de Estado como a única, para que ninguém ouse mais contestá-la. Mino e Walter dançam por essa música.
Chegamos assim à terceira argumentação. Mino e Walter tentam demonstrar tecnicamente que Battisti seria delinqüente comum.
Usando magistralmente os relatórios de polícia (diga-se de passagem que, na época, era "polícia política"; depois, passou a ser designada por uma sigla, DIGOS), Mino e Walter dizem que Battisti teria sido recrutado pelas organizações armadas, depois de ter sido preso por crimes comuns. Aí, Mino e Walter têm de se decidir, é uma coisa ou a outra: se na Itália daquela época não havia crimes políticos... quando ter-se-ia dado a mágica de transformar-se o crime de Battisti, de crime comum, em crime político? Por que os relatórios de polícia tanto se empenhariam para estabelecer o momento e a forma de sua “politização”?
O fato é que Mino e Walter estão constrangidos numa visão da história que, por mais simpática que tantas vezes seja à histeria anti-Lula da elite brasileira, não tem nenhuma dimensão política. Além disso, tampouco têm capacidade de apreender o papel constituinte das lutas sociais, inclusive quando são violentas.
Será preciso lembrar a Constituição dos Estados Unidos que prevê o direito à revolta contra o poder constituído? Thomas Jefferson, agora, mais um perigoso terrorista?
Bem mais recentemente, em seu discurso sobre a questão do racismo, o atual presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, não reivindicou explicitamente as lutas dos negros, inclusive das revoltas violentas? Não tentou a direita republicana usar contra ele, então, sua relação com um antigo militante dos weathermen (movimento de guerrilha contra a guerra do Vietnam)?
Battisti, e com ele centenas de milhares de jovens operários, estudantes, desempregados na Itália dos 1970, participou de um movimento revolucionário, que atacava as bases do sistema de acumulação capitalista e alimentou, até meados dos anos 1970, um processo de libertação que a normalização pós-comunista e pós-fascista ainda não zerou.
Sim, os operários italianos lutavam contra a ordem fabril e contestavam a constituição italiana “fundada sobre o trabalho”, ou seja, sobre a exploração do trabalho. Sim, os novos movimentos contestavam a sociedade disciplinar como um todo e construíram a base da abolição dos hospitais psiquiátricos, das lutas pela democratização das prisões, contra o serviço militar autoritário, pela universalização do acesso horizontal ao ensino superior, pela habitação popular e a gratuidade dos serviços. Essas lutas conquistaram o direito ao divórcio, os direitos das mulheres ao aborto e até as vitórias do Partido Comunista nas municipais de 1975.
Depois, essas lutas foram derrotadas pela espiral dos massacres perpetrados pelo Estado e das respostas armadas que militarizavam o movimento. A repressão desse movimento pela qual optou a esquerda institucional (com o “compromisso histórico”, quer dizer, com a conciliação com o histórico partido de poder, a Democrazia Cristiana) não significou apenas a derrota do movimento: significou a derrota da própria esquerda.
Um ano depois da grande operação política de repressão do dia 7 de abril de 1979, a Fiat demitiu dezenas de milhares de operários e começou a contra-revolução neoliberal que se tornaria hegemônica mundialmente até os dias de hoje. Resultado: a esquerda institucional italiana não existe mais.
Os pobres que todo o dia lutam renovando os princípios éticos, quer dizer, constituintes, dos direitos e do direito entendem muito bem que, para além dos graves erros políticos da década de 1970, na Itália, como no mundo todo, aquele ciclo revolucionário está presente, inclusive e sobretudo nos governos democráticos da América do Sul, nas dinâmicas de radicalização democrática que os atravessam. A decisão do ministro Tarso é uma dessas dinâmicas radicalmente democráticas.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Boal e o mundo

Discurso de Augusto Boal, diretor artístico do Centro de Teatro do Oprimido, para o Fórum Social Mundial 2009.
A mídia costuma publicar só o que é espetacular, sensacional, mesmo que tenha que esconder a verdade. Hoje, fala-se mais da cor da pele de Barack Obama do que do seu projeto político, como ontem falou-se mais dos seios da Carla Bruni do que das idéias direitistas do seu marido Sarkozy.
A mídia tem dono, e reflete as opiniões do seu proprietário: o Fórum Social Mundial não tem dono, e deve refletir as nossas.
Foro, Fórum, significa etimologicamente a praça pública, onde se pode discutir livremente. Este nosso Foro é mundial e deve, portanto, discutir os assuntos do mundo.
Temos que saudar o fim da era Bush e seus parceiros, mas ficar atentos à nova era que começa. Aplaudir os primeiros atos de Barack Obama, mas analisá-los com cuidado. Aplaudir sua decisão de fechar Guantânamo, mas lembrar que isso não basta: é necessário restituir Guantânamo ao seu legítimo dono, que é o povo cubano. Aplaudir a ordem de acabar com a tortura, mas lamentar que os torturadores não sejam punidos por esse crime de lesa-humanidade e continuem nos seus postos de comando. Aplaudir o desejo do novo presidente em dialogar com todos os países, mas explicar que não queremos, como ele promete ou ameaça, não queremos ver o seu país liderando o mundo - essa tarefa não compete nem aos Estados Unidos nem ao Paraguai, mas sim à Organização das Nações Unidas que para isso foi criada e tantas vezes tem sido desrespeitada pelo país de Barack Obama.
O Fórum é social, e temos que falar do genocídio dos palestinos. Temos que separar, de um lado, o cruel governo de Israel e, de outro, as centenas de milhares de judeus que com ele não concordam. Não devemos cometer a injustiça que se fez com os alemães, pensando que todos fossem nazistas, quando muitos morreram lutando contra Hitler e seus asseclas.
Milhares de judeus, dentro e fora de Israel, condenam e se envergonham do que fez e faz o seu governo, que representa tão somente aqueles que o elegeram, mas não o judaísmo. Dentro de Israel existem organizações como a dos Combatentes Pela Paz, de Chen Allon, que condenam a invasão e denunciam seus crimes. Tenho orgulho em dizer que, para isso, usam o Teatro do Oprimido entre outras formas de combate.
No Oriente Médio já se inverteu a distribuição de papéis: se, ontem, Israel foi o pequenino David, hoje é o gigante Golias, filisteu. O novo Golias, apoiado pelos Estados Unidos, em 22 dias matou mais de 300 crianças e centenas de mulheres e homens, civis ou combatentes. Eu chorei vendo a fotografia de um menino, um pequenino David palestino, jogando pedras contra um tanque de guerra. Se a lenda de David e Golias, ontem, foi apenas lenda, a história de Golias e David, hoje, é triste realidade: os 1.300 mortos ainda estão sendo retirados dos escombros, sem as solenes pompas fúnebres dos 13 soldados israelenses. O Fórum e o mundo não podem esquecer esse crime antes mesmo que sejam enterradas suas vítimas.
Nosso Fórum é pluralista, e deve se manifestar contra o colonialismo italiano que ofende a nossa soberania, que tenta interferir nas decisões da nossa Justiça, como está sendo o caso da concessão de asilo a Cesare Battisti. Existe uma lei brasileira que proíbe a extradição de pessoas condenadas em seus países à pena de morte ou à prisão perpétua. É este o caso, é esta a lei! O ministro Tarso Genro apenas cumpriu a lei – a lei brasileira. O presidente Lula foi claro explicando aos italianos as sólidas bases da nossa decisão, mas parece que eles não entenderam, nem disso são capazes. Por quê?
A Itália, que foi o berço do fascismo e deveria ser também a sua sepultura, mostra agora que a ideologia colonialista ainda está viva e pretende anular decisões soberanas do Brasil, invadindo o nosso Judiciário e querendo nos ensinar a diplomacia da obediência e da submissão. Temos que repudiar essa ofensa e libertar o prisioneiro!
Nosso Fórum é social, e a economia também. A maioria dos países que estão em crise, ou dela se aproximam, sempre disse não ter dinheiro para melhorar a Educação, a Saúde, a Previdência Social. De repente, para socorrer seguradoras, bancos e montadoras, esses governos descobriram que tinham bilhões e trilhões de dólares, euros, iens e libras. Nosso Fórum tem a obrigação moral de interrogar os senhores da Davos: de onde veio esse dinheiro? Quem os escondia? Quanto sobrou? Onde estão?
O nosso Fórum Social também é brasileiro e é camponês: devemos saudar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, que é o mais democrático e bem organizado movimento de massas que o Brasil já teve, e que completa agora 25 anos de luta pela terra, luta que continua.
O Fórum Social Mundial não é daqueles que dizem Hay Gobierno? Soy Contra, e, porque assim não é, deve se alegrar em receber tantos presidentes de tantas Repúblicas sulamericanas juntos neste evento: Evo, Correa, Kirchner, Chavez, Lugo e Lula. Nunca se viu fraternidade igual. Queremos agora ver os resultados concretos dessa irmandade.
Devemos, muito cordialmente, lembrar aos nossos presidentes que a Política não é a arte de fazer o que é possível fazer, mas sim a arte de tornar possível o que é necessário fazer!
Caminhar não é fácil! As sociedades se movem pelo confronto de forças, não pelo bom senso e justiça. Temos que avançar e, a cada avanço, avançar mais, na tentativa de humanizar a Humanidade. Não existe porto seguro neste mundo, porque todos os portos estão em alto mar e o nosso navio tem leme, não tem âncoras. Navegar é preciso, e viver ainda mais preciso é, porque navegar é viver, viver é navegar!
Eu sou homem de teatro e não posso deixar de falar de Arte e Cultura quando falo de Política, porque a Política é uma Arte que a Cultura produz.
Temo que, mesmo entre nós, muita gente ainda pense em arte como adorno, e nós dizemos: não é! A Palavra não é absoluta, Som não é ruído, e as Imagens falam. São esses os três caminhos reais da Estética para o entendimento: a palavra, o som e a imagem. São também os canais de dominação, pois estão os três nas mãos dos opressores, não dos oprimidos: a Palavra dos jornais, o Som das rádios, as Imagens da TV e do cinema estadunidense, dominam nossos meios de comunicação e invadem nossos cérebros com seu pensamente único, seus projetos imperiais e suas mercadorias.
Acabou-se o tempo da inocência... o tempo da contemplação já não é mais. Temos que agir!
Palavra, imagem e som, que hoje são canais de opressão, devem ser conquistados pelos oprimidos como formas de libertação. Não basta consumir Cultura: é necessário produzi-la. Não basta gozar arte: necessário é ser artista! Não basta produzir idéias: necessário é transformá-las em atos sociais, concretos e continuados.
A Estética é um instrumento de libertação.
Eu felicito o nosso Ministério da Cultura pela criação de mais de mil Pontos de Cultura no Brasil inteiro, onde o povo tem acesso não só à Cultura alheia, mas aos meios de produzir sua própria Cultura sem servilismos, sua Arte sem modismos, porque entendemos que Arte e Cultura são formas de combate tão importantes como a ocupação de terras improdutivas e a organização política solidária.
Sonho com o dia em que no Brasil inteiro, e no inteiro mundo, haverá em cada cidade, em cada povoado ou vilarejo, um Ponto de Cultura onde a cidadania possa criar e se expressar pela arte, a fim de compreender melhor a realidade que deve transformar. Nesse dia, finalmente, terá nascido a Democracia que, hoje, só existe em Fóruns como este!
Ser cidadão, meus companheiros, não é viver em sociedade: é transformar a sociedade em que se vive!
Com a cabeça nas alturas, os pés no chão, e mãos à obra!
Muito obrigado.

Imagem do Dia

Essa é uma das matérias da capa do jornal O Dia de hoje. Diz o texto: "Para evitar que os 59 alunos do Jardim Escola Rosa de Sarom deixem de freqüentar as aulas, a proprietária do colégio, Terezinha Narciso de Oliveira, improvisou um meio de transporte inusitado. “Forro o fundo de um carrinho de mão e levo as crianças com segurança até as mães, na esquina”, explicou Terezinha. A escola tem alunos com idades de 3 a 6 anos, que não conseguem caminhar pelo lamaçal da Rua Aurora Monsanto."

Pesquisa CNT/Sensus: se a crise continuar, Lula chega aos 100%...

Está todo mundo impressionado com os recordes de popularidade de Lula e de seu governo apesar da crise mundial. A oposição faz tudo para transformar Lula no culpado de tudo, sem êxito. Esssa primeira página do Globo de hoje é exemplo disso. A foto do evento em que Lula anuncia a construção de 500 mil casas populares serviu apenas para tentar associá-lo à queda na indústria. Mas não tem jeito, com crise ou sem crise Lula está em alta. Há dois meses atrás, na postagem César Maia demonstrou, ontem, porque Lula bateu recorde de aprovação no Datafolha de hoje, citei uma pesquisa do Instituto GPP no Rio onde foi feita a seguinte pergunta:
Com essa crise e perspectiva de aumento da inflação e desemprego, você acha melhor – votar num candidato do Governo Federal, votar num candidato da Oposição, ou não sabe o que dizer?
O resultado foi:
* Votar num candidato do Governo Federal – 40,5%
* Votar num candidato da Oposição – 32,3%
* Não sabe – 27,2%.
E continuei:
A conclusão é óbvia. Os governos anteriores ao de Lula estão todos associados a “oposição”. E todos estão associados também a péssimas administrações, desde Sarney até Fernando Henrique. Assim, diante da necessidade de se escolher um governo com capacidade de enfrentar os problemas gerados pela crise internacional, qual a opção lógica: governos associados ao fracasso ou um governo que está fazendo tudo certo até agora? (...) Lamento informar, mas o Governo Lula é a resposta natural. E nessa pesquisa do GPP a Oposição só teve índice tão alto porque o povo sabe que Lula não é candidato – mas já deixa claro que prefere um candidato indicado por ele.
Hoje, a situação continua igual (a diferença é que Dilma subiu e Serra caiu), e Ricardo Guedes, responsável pela nova pesquisa CNT/Sensus que dá 84% de aprovação a Lula, praticamente repete isso:
— O povo acredita em Lula e nas medidas do governo contra a crise. O cidadão percebe o desemprego, mas acredita que as medidas vão funcionar.
Está difícil, Oposição, cada vez mais difícil...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Lula, Temer e Sarney: fizeram barba, cabelo e o bigode

O que aconteceu no Senado e na Câmara foi exatamente o esperado. O PMDB mostrou sua força para decidir 2010 e Lula também mostrou a sua. Ninguém em sã consciência poderia imaginar que Lula, a essa altura do campeonato, apostaria em uma candidatura petista que serviria principalmente para inviabilizar a aliança com o PMDB em 2010. A vitória de Sarney para Presidente do Senado não poderia ser melhor para o projeto Dilma 2010. Da mesma forma, Michel Temer como Presidente da Câmara ajuda a neutralizar a "tendência" oposicionista do PMDB paulista, ao mesmo tempo que agrada o peemedebista meio lá meio cá Geddel Vieira Lima. Barba, cabelo e bigode - nada mais apropriado para a vitória dos três.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vivendo da guerra

A guerra, em primeiro lugar, traz morte, destruição, dor, trizteza, tudo isso. Mas muita gente acaba ganhando novo sentido (e dinheiro) na vida, graças à guerra (sem falar, claro, da grande indústria armamentista, dos senhores das guerras). A reportagem que a Folha trouxe nesse domingo, feita por Raphael Gomide, seu enviado especial à Faixa de Gaza, dá uma luz sobre o dia-a-dia dos túneis palestinos de ligação com o Egito. Vejam como é impressionante:
Bloqueio a Gaza faz de túneis negócio rentável e canal vital
O ar é pesado, faz calor, e a respiração, difícil, tem gosto de terra. Não é preciso ser claustrofóbico para se sentir desconfortável dez metros abaixo do solo, ainda mais sob as precárias estruturas de madeira que escoram a terra em um dos 1.800 túneis subterrâneos que ligam a faixa de Gaza ao Egito. Não é reconfortante saber que se está dentro de um alvo potencial de aviões israelenses.
Os túneis cresceram como alternativa ao rígido bloqueio econômico imposto por Israel à faixa de Gaza, após o movimento extremista islâmico Hamas, que havia vencido as eleições legislativas do ano anterior, romper com o Fatah e assumir o controle, em junho de 2007. Hoje, as importações ilegais do Egito têm papel vital na arruinada economia local.
Como as fronteiras estão totalmente fechadas, quase todos os produtos são contrabandeados pelos túneis: comida, roupas, celulares, cigarros, motos e combustível -perigosamente armazenado em casa, em tinas e galões. Até animais entram em Gaza por baixo da terra.
A Folha entrou em uma dessas passagens. Para descer os 10 metros até o túnel propriamente dito, senta-se numa cadeirinha improvisada com ripas de madeira presas a cordas, atreladas a um gancho. Um cabo de aço passa por uma roldana até o "carretel". É esse motor que solta o cabo até embaixo, trazendo para cima e para baixo pessoas e mercadorias.
Dentro, é preciso quase engatinhar, as mãos no chão de terra, ultrapassando galões e sacos de produtos, sob a luz de esparsas lâmpadas ligadas a fios presos às paredes de contenção de madeira. Três rapazes, descalços, guiam o repórter com lanternas. Escondem o rosto, mas posam para fotos, e um exibe os bíceps trabalhados na academia subterrânea, a face coberta pela camiseta, qual um Hulk sem cabeça.
O túnel foi um dos afetados pelo bombardeio israelense da última quarta. Com britadeiras manuais e pás, tentavam desbloqueá-lo. O caminho subterrâneo ficou obstruído por um deslizamento de terra após cerca de 40 metros. Não fosse isso, seria possível chegar ao Egito por baixo do posto de fronteira em 30 minutos -para entrar oficialmente, são 5h30. Trata-se de um empreendimento irregular, mas amplamente tolerado. Em Gaza, as entradas ficam às claras, formando uma extensa fila de ostensivas tendas de plástico, com intervalos de 20 ou 30 metros e buracos que parecem poços artesianos expostos.
Fica evidente que, se o Egito quisesse, fecharia as bocas do seu lado, interrompendo o fluxo -que hoje o beneficia. Israel, que acusa o Hamas de contrabandear armas pelos túneis, poderia destruir todos com poucos ataques, mas, durante a guerra, estima-se que apenas 300 ou 400 dos cerca de 1.800 buracos tenham sido atingidos por bombas.
A área onde foram construídos era residencial. Com o bloqueio e a proliferação do negócio dos túneis, quarteirões foram demolidos e deram lugar aos buracos. "As pessoas venderam as joias de suas mulheres para investir como sócios neste negócio", conta o homem que se identifica como Abu Jihad, 31, sócio de um túnel construído há seis meses. À distância, sente-se o odor da gasolina que sobe por mangueiras até caminhões-tanques ou caixas-d'água de 3.000 litros presas a caçambas.
O dono do terreno recebe participação do operador. Os funcionários -de 10 a 20 por túnel- recebem de US$ 30 a US$ 50 dólares por dia. Um quilo de carga, independentemente do conteúdo, custa US$ 1. Assim, cem quilos de banana, cigarros ou telefones custam o mesmo. Passam de duas a três toneladas de produtos diariamente por túnel. A maioria nega transportar armamentos, embora um atravessador no Egito tenha dito à Folha que leva fuzis para a faixa de Gaza.
Os contrabandistas circulam com desenvoltura, sentam para almoçar ou conversar do lado de fora, sem serem importunados por fiscalização, numa linha de "trincheiras" com terra revirada, a 100 metros do muro da fronteira com o Egito.
Guaritas de militares egípcios têm vista privilegiada dos buracos. Na guerra, antecipavam bombardeios israelenses aos donos de túneis. Segundo comerciantes, o contrabando chega a quadruplicar os preços. Os 1,5 milhão de moradores de Gaza paga a conta. O Hamas cobra uma taxa anual dos donos das bocas, de US$ 4.000. "Se Israel abre as fronteiras, acabam os túneis", diz Ibrahim Dia, dono de sapataria.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Tucanos perdem Sarney

Os tucanos perceberam claramente que seus votos não tinham grande valor na eleição de Sarney para a Presidência do Senado e decidiram apoiar o petista Tião Vianna. Tentam com isso criar confusão no processo de escolha, não apenas no Senado, mas também na Câmara, com ameaças de traição a Temer. Talvez tenham contribuído para fortalecer ainda mais a aliança Lula-PMDB.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Tucanos: ser ou não ser Sarney

A disputa pelas Presidências da Câmara e do Senado, obviamente, têm fortes conotações fisiológicas. Afinal, disputam-se orçamentos astronômicos (3,5 bilhões na Câmara e 1,5 bilhão no Senado – algo assim) e uma imensidão de cargos, poder que não acaba mais. Mas é 2010 que está na pauta principal. As Presidências das duas Casas serão decisivas na agenda dos próximos meses pré-eleitorais e tudo isso terá influência determinante nas alianças nos estados e para a Presidência da República. Sarney na Presidência, os tucanos sabem, fortalece a aproximação entre Lula e o PMDB, dá maior envergadura à candidatura de Dilma, o que exaspera tucanos de todas as plumagens. Por outro lado, apoiar Tião Vianna não prejudica tanto a aproximação Lula-PMDB. Muito ao contrário, pode irritar profundamente os peemedebistas contra a oposiçaõ e – pior – deixará os tucanos sem os almejados cargos na mesa. Tenta-se melar o jogo com a ameaça de traição na até aqui eleição tranquila de Michel Temer para a Presidência da Câmara. Mas tudo isso parece que já são favas contadas. Em vez de viver o drama de ser ou não ser Sarney, os tucanos devem tratar de buscar outra sarna pra se coçar.

Bolsa Família e a crise

A mídia procurou atacar a decisão do Governo de ampliar o Bolsa Família como sendo uma decisão contraditória. "Lula amplia Bolsa Família um dia após cortar o Orçamento", diz a manchete do Globo de hoje. Não há contradição. Bloqueio provisório do orçamento e ampliação do Bolsa Família, ambos foram determinados pela chamada crise financeira global. A ampliação do Bolsa Família é um dos principais instrumentos de combate à crise que o Governo tem. Na passagem de 2003 para 2004, escrevi, em um trabalho de marketing para uma rede de varejo, o que se devia esperar para o ano que começava: "Todos esperam queda dos juros, recuperação econômica do país e forte investimento do Governo na área social. Isso significa mais emprego, maior poder aquisitivo da população e maior inserção da população mais pobre na faixa de consumo". Essa foi uma das chaves do sucesso da política econômica do Governo Lula. E é aí que está chave para abrir a porta da esperança (com perdão do pieguismo) nos próximos meses. Investimento em infraestrutura, fortalecimento das políticas sociais, ampliação do mercado interno – esse é o segredo. O resto é desespero oposicionista.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A mente subdesenvolvida de Nelson Motta

Nelson Motta sempre procurou ter seu nome associado ao que há de mais avançado da cultura. Desde os tempos do Nelsinho que morava na Paissandu (rua do Flamengo, bairro da Zona Sul do Rio), por exemplo, ele esteve junto à nascente “bossa nova” – e escreveu um bom livro que fala disso, “Noites Tropicais”, que ainda não li todo, mas um dia vou ler. Lembro dele também presente no Tuca (teatro da PUC de São Paulo), em 68, defendendo Caetano Veloso das vaias da juventude retrógrada contra “É Proibido Proibir”, entrevistando o poeta concreto Augusto de Campos. Nelson Motta tornou-se praticamente um tropicalista de carteirinha. Participou de grandes lançamentos do mundo musical, foi, enfim, figurinha fácil no melhor do nosso mundo cultural. Apesar de tudo isso, ele outro dia escreveu um artigo (“Churrasco e pizza - Não, ministro, a Itália não é nóis”, O Globo, Estadão) que revela uma cabeça típica de subdesenvolvido subserviente, bem atrasado mesmo. A sua crítica à decisão de Tarso Genro de impedir a extradição do italiano Cesare Battisti fundamenta-se principalmente no conceito de que a Itália é um país mais desenvolvido, melhor do que o Brasil, logo, a Itália está certa e o Brasil está errado. Mas Nelson Motta faz ainda pior, demonstra um primarismo histórico de arrepiar. Disse ele: “(A Itália tem) uma tradição democrática e judiciária muito mais sólida do que a nossa, não recorreu ao terrorismo de Estado, a tribunais de exceção, prisões ilegais e torturas, mesmo nos anos de chumbo". Na “tradição democrática e judiciária” italiana ele esqueceu de incluir o fascismo. Ele deveria também ler a Revista Piauí (aparentemente acima de qualquer suspeita no caso) que diz em reportagem sobre Cesare Battisti: “Havia quem argumentasse que, com leis como a dos arrependidos, a Itália dos anos de chumbo não deveria ser considerada um Estado de direito”. Também na Piauí podemos ler: “Só então soube que, três meses antes, o irmão mais velho, que trabalhava na colocação de placas em estradas, havia sido atropelado e morrera. A família lhe mandara cartas com a má notícia, mas o procurador-adjunto as confiscara”. Nelson Motta finaliza seu artigo dizendo que, “criado na cultura do churrasco sangrento, em cavalgada desabrida pelos pampas da História, como um anti-Garibaldi sem Anita, Tarso Genro deve estar pensando que na Itália tudo acaba em pizza”. Nelson Motta, que conhece pizza muito bem (li um artigo seu delicioso sobre a pizza do Supermercado Zona Sul, no Rio), deveria saber que a Itália com sabor de Berlusconi certamente prefere que tudo acabe em Mussolini.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama toma posse, Palestina agradece

Uma das primeiras manifestações de força positiva de Barack Obama foi obrigar Israel a retirar suas forças de Gaza antes da posse. Talvez com isso tenha favorecido a direita israelense nas próximas eleições, mas ficou dado o recado de que Israel, mesmo sendo um aliado estratégico, não continuará ocupando a cadeira da "co-presidência" americana. Outros avanços poderão ocorrer: formação do Estado Palestino, redefinição de fronteiras e indenização pelas ações desumanas de Israel. A paz é possível, e o Governo Obama poderá dar contribuição decisiva para isso. Yes, they can.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Playing For Change: Song Around the World "Stand By Me"

200 anos de Poe

Hoje, 19 de janeiro, faz 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe - que morreu aos 40 anos. Poeta, contista, ensaísta brilhante. "Os Assassinatos da Rua Morgue" e "A Carta Roubada" são referências em literatura policial. Seus trabalhos de criptografia ganharam fama e, segundo o tradutor e biógrafo Oscar Mendes, "formaram a base para a decifração de uma das mais importantes mensagens, em código secreto, enviados pelos alemães durante a Grande Guerra de 1914-1918". Seu poema "O Corvo" (Raven/nevaR) é fortíssimo.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O governo de Israel já alcançou o seu objetivo: vitória eleitoral

O grupo que está no poder em Israel fez uma equação bem simples. Bastam 1.000 mortes (incluindo 300 crianças), milhares de feridos e desabrigados, destruição de alguns hospitais, algumas escolas, inúmeras residências e, de quebra, representações da ONU e de jornalistas. Pronto, o resultado só pode ser um: vitória da coligação que está no poder nas eleições parlamentares do próximo dia 10. No começo do mês a BBC divulgou depoimento de Mouin Rabbani, analista-sênior para o Oriente Médio do International Crisis Group, baseado na Jordânia: "A política interna israelense certamente foi um dos fatores para os ataques. Um dos maiores desafios para Barak (Ministro da Defesa, do Partido Trabalhista) e Livni (Ministra da Política Externa, possível primeira-ministra com a vitória do Kadima) era o fato de que Netanyahu (do oposicionista Likud, que defendia uma posição mais dura contra os palestinos) estava à frente nas pesquisas. A popularidade de Barak (antes dos ataques) estava tão baixa que ele se tornou uma não-entidade". Israel não contava com o nível de reação que o Hamas apresentou, demonstrando firmeza e mais preparo do que era contabilizado. É curioso também do histórico das relações de Israel com o Hamas. Assim como os Estados Unidos inventaram Saddam Hussein para enfrentar o Irã e depois tiveram que destruí-lo, Israel inventou o Hamas (junto com Arábia Saudita e a Síria) para enfrentar o Al-Fatah de Arafat. Como a criatura obviamente voltou-se contra o criador, agora eles tentam destruí-lo - e com isso ganhar uns votos a mais. Mas se a "criatura" conseguir manter-se viva, os votos podem mudar de lado...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Uma voz israelense pela paz possível

O jornalista israelense Tom Segev é colunista do Haaretz e escreveu para o Washington Post esse artigo que O Globo reproduziu:
Um novo fatalismo
JERUSALÉM. Ao fim do 10º dia da operação de Israel na Faixa de Gaza, eu estava zapeando na TV.
As imagens se tornavam mais e mais horríveis. Então um amigo me ligou para falar que um canal estava transmitindo “Cristo no Monte das Oliveiras”, de Beethoven.
Ao ouvir Beethoven na TV eu estava fazendo o que mais e mais israelenses tendem a tentar nestes dias: escapar das notícias e se refugiar em atividades culturais e não-políticas. Esse escapismo reflete o novo fatalismo israelense.
Pertenço a uma geração de israelenses que cresceu acreditando na paz. Ao fim da Guerra dos Seis Dias, de 1967, eu tinha 23 anos e não tinha dúvidas de que em 40 anos a guerra árabe-Israel teria acabado. Hoje, meu filho, de 28 anos, não mais acredita em paz assim como muitos israelenses. Eles sabem que Israel talvez não sobreviva sem paz, mas de guerra em guerra, eles têm perdido o otimismo.
Agora me vejo como parte dessa maioria de israelenses que não acredita mais na paz.
Acredito num melhor gerenciamento do conflito, incluindo diálogos com o Hamas, um tabu que precisa ser quebrado.
A necessidade do engajamento dos Estados Unidos tem me conduzido, assim como a muitos israelenses, a abrigar esperanças na administração de Barack Obama.
A coisa mais amigável que Obama pode fazer por Israel seria induzir o país a se voltar para sua proposta original: ser um Estado judeu e democrático.
O governo Obama poderá ser mais útil e ter mais sucesso tentando simplesmente gerenciar o conflito, mirando no mais urgente objetivo: fazer a vida mais suportável para israelenses e palestinos.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Israel está perdendo a guerra

Quero dizer em primeiro lugar que não consigo mais assistir às imagens dessa guerra suja. A matança de centenas de civis, incluindo mais de 200 crianças, me deixam completamente arrasado. Mas não podemos recuar. Temos que nos unir a todos aqueles que lutam contra o absurdo dessa sórdida invasão israelense. O povo israelense merece viver em paz, e não pode ficar entregue a seus governos sanguinários. O povo palestino idem. No campo da opinião pública, está a derrota mais óbvia dos truculentos de Israel. Mas a derrota também está evidente no campo político e no campo militar. Um dos exércitos mais poderosos do mundo não consegue uma vitória desde 1982, quando derrotou a OLP em Beirute (ver adiante texto do Counterpunch com entrevista com o líder do Hamas Khaled Meshal), e agora, depois de já ter completado mais de duas semanas de fogo intenso, não consegue nada conclusivo contra um inimigo praticamente desarmado, sem água, sem alimento, sem ter para onde correr. Militarmente, essa investida é um desastre. E politicamente é pior ainda. Conseguiu fortalecer o seu maior adversário (Hamas), conseguiu unir os árabes, conseguiu até mesmo unir as Nações Unidas contra suas ações e, pior, não conseguiu atrair o Irã para uma aventura na região. Sob a pressão das eleições parlamentares agora em fevereiro (a candidata Tzipi Livni do Kadima, partido da situação, estava em desvantagem nas últimas pesquisas contra o ultradireitista Netanyahu, do Likud) e pressionado também pela posse de Barack Obama agora no dia 20, Israel fez um movimento extremamente arriscado que pode levar a perdas significativas. Dificilmente poderá evitar a formação do Estado Palestino. Dificilmente manterá as fronteiras atuais. Dificilmente deixará de devolver pelo menos parte da água que usurpou. O tempo logo mostrará. Por enquanto, vale a pena ler o texto de Alexander Cockburn, do Counterpunch, que inclui trecho da entrevista com Khaled Meshal:
Israel's Onslaught on Gaza: Criminal, for Sure; But Also Stupid
By ALEXANDER COCKBURN
In contrast to the grim forecasts of many fine contributors to this site over the past days, your CounterPunch editors have been inclined to take the view that Israel’s onslaught on Gaza, appalling though the carnage has been, is not only a crime but a blunder, like the attack on Lebanon in 2006, which demonstrated Israel’s military weakness, and the corruption of its armed forces after long years of bravely tormenting unarmed Palestinian peasants at check points, sawing down their olive groves and crushing their homes with bulldozers and high explosive.
The left has a tendency to demonize its enemies in terms of proficiency in administering their dastardly onslaughts. Through this optic, the claims of the arms manufacturers are always taken at face value, whether about the effectiveness of bunker busters, or devices to detect Hamas’ Qassams. In our latest newsletter we print a long interview with Hamas’ leader in Damascus, Khaled Meshal, conducted by CounterPuncher Alya Rea, myself and others, including former US Senator James Abourezk. Meshal made a case for Israel’s decline in military effectiveness:
Meshal: Since 1948, if we want to draw a curve of Israel’s progress, do you think that this curve is still heading up, or maybe is at a plateau, or is heading down? I believe that the curve is now in descent. And today, the military might of Israel is not capable of concluding matters to Israel’s satisfaction. Since 1948, you may notice that Israel has defeated 7 armies. In ’56 they defeated Egypt. In ’67 they defeated 3 countries: Egypt, Syria, and Jordan. In ’73, the war was somewhat equal in both sides between Egypt and Israel, if not for Nixon’s airlift to Israel’s forces at that time, the map of the world would be different. In ’82 Israel defeated the PLO in Beirut.But since ’82, 26 years ago, Israelis has not won any war. They did not defeat the Palestinian resistance, and they did not defeat the Lebanese resistance. Since that time, Israel has not expanded but has contracted. They have withdrawn from southern Lebanon and from Gaza. These are indicators that the future is not favorable to Israel. Then today Israel, with all its military capabilities – conventional and unconventional – are not enough to guarantee Israel’s security. Today, with all these capabilities, they can’t stop a simple rocket from being launched from Gaza. Hence the big question is, can military might ensure security? Hence, we may say that when Israel refuse the Arab and the Palestinian offer, a state of Palestine on the border of 1967, Israel is losing a big opportunity. Some years down the road, a new Palestinian generation, new Arab generations, may not accept those conditions, because the balance of power may not be in Israel’s favor.
Hamas, as I remarked last week, has been greatly strengthened by the current attack and the status of President Abbas reaffirmed as a spineless collaborator with Israel; Mubarak likewise; Syria and Turkey alienated from Western designs; Hezbollah and Iran vindicated by the world condemnation of Israel’s barbarous conduct. For months Israel besieged Gaza, starving its civilian inhabitants of essential supplies with no effective international reproach. It’s hard to take dramatic photographs of an empty medicine bottle, but easy to film a bombed out girl’s dorm or a Palestinian mother weeping over the bodies of her five dead daughters, featured on the front page of the Washington Post two weeks ago. Efforts to keep reporters out of Gaza have not been entirely successful, and both UN and Red Cross workers on the ground have sent outraged reports denouncing Israel’s barbarities. They have also been fierce State Department memos from USAID workers.
As we go into the weekend, an admittedly toothless resolution in the UN calling for a ceasefire was not vetoed by the US. The UK Guardian ran a story on Friday suggesting that my view expressed last week, that there were two ways to read Obama’s initial silence about the onslaughts – which he was finally forced to break after Israel killed nearly 50 women and children trying to shelter in the UN School. The Guardian story began:
The incoming Obama administration is prepared to abandon George Bush's ­doctrine of isolating Hamas by establishing a channel to the Islamist organisation, sources close to the transition team say.The move to open contacts with Hamas, which could be initiated through the US intelligence services, would represent a definitive break with the Bush presidency's ostracising of the group. The state department has designated Hamas a terrorist organisation, and in 2006 Congress passed a law banning US financial aid to the group.The Guardian has spoken to three people with knowledge of the discussions in the Obama camp. There is no talk of Obama approving direct diplomatic negotiations with Hamas early on, but he is being urged by advisers to initiate low-level or clandestine approaches, and there is growing recognition in Washington that the policy of ostracizing Hamas is counter-productive. A tested course would be to start ­contacts through Hamas and the US intelligence services, similar to the secret process through which the US engaged with the PLO in the 1970s. Israel did not become aware of the contacts until much later.
One has to caution that there could be more than one reason for such a leak from the transition team – including an alert to the Israel lobby to start piling on the pressure to head off any such contacts. With men like Emanuel and “special assistant on the Middle East” Dan Kurtzer at Obama’s elbow, I imagine the Israeli embassy won’t have much difficulty in monitoring Obama’s plans, though his National Security Advisor, Jim Jones, apparently once filed a report to Condoleezza Rice with criticisms of Israel’s conduct so harsh that the whole report was hastily deep-sixed.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Será que a Míriam Leitão está se sentindo bem?

Parece que já é normal ver a comentarista do Grupo Globo, Míriam Leitão, demonstrar raiva contra tudo que possa significar algo positivo do atual governo brasileiro. Notícia ruim, pra ela, é pura felicidade. Por isso estranhei esse trecho de sua coluna de hoje (é verdade que raramente leio) no Globo:
"Para quem se assustou com a queda da produção industrial e a diminuição de demanda e produção nos últimos dias, vale uma conversa com o economista John Welch, analista de economia global do Itaú. Filho de americano com brasileira, John passou os últimos tempos em bancos americanos e europeus.
— Estou feliz de estar no Brasil. O ambiente aqui é muito melhor. Na Europa e nos Estados Unidos a crise é muito maior. Principalmente na Europa, onde a crise não é apenas contágio como se imagina. Eles têm também um problema imobiliário grave, como a Inglaterra, a Irlanda e a Espanha, e demoraram muito mais que os EUA a agir contra a crise e, por isso, entraram em recessão primeiro — conta ele".
Deve existir uma explicação pra isso, mas não sei qual é. A jornalista da sala ao lado, que acaba de voltar de um tour pela Europa, berrou: "É verdade! O que esse John tá falando é pura verdade! Lá todo mundo só trata o Brasil como o país sem crise!"

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O exército de Israel, além de cruel e poderoso, é incompetente

Aquele comentarista do Manhattan Connection chamado Diogo Mainardi - que apóia os bombardeios feitos pelo governo israelense - disse na semana passada que "Israel vai voltar com o rabo entre as pernas". Está certo ele. Pelo menos é o que podemos deduzir pelo fracasso da operação contra o Hesbolá há 2 anos e por algumas notícias que recebemos agora. Acho que foi ontem que ouvi na rádio que Israel reconhecia as mortes de alguns soldados, mas causadas pelo fogo de suas próprias tropas. Tem absurdo maior, vindo do exército considerado como um dos mais preparados do mundo? Claro que alguma coisa deve estar errada nessa informação ridícula. Outra burrice monumental - além da crueldade, claro - é essa história de bombardear criancinha. A opinião pública internacional obviamente não perdoa. Mas o pior é o Shimon Peres explicar que só morrem crianças palestinas porque eles, israelenses, cuidam melhor de suas crianças. Tem asneira maior? E ainda tem mais: criticam tanto a falta de pontaria do Hamas e eles bombardeiam logo o quê? A escola da ONU, matando mais de 40 crianças! Definitivamente, isso tem que acabar. Israel tem todo o direito ao seu Estado, mas os palestinos também têm. E têm direito às suas terras e suas águas e seu direito de ir e vir. A paz é possível. Desde que outros interesses (como o eleitoral, ou o que gira em torno do petróleo) sejam deixados de lado.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Dear James

Em 1975, na Inglaterra, costumava frequentar quase diariamente a biblioteca da Universidade de Essex, em Colchester (a mais antiga cidade inglesa). Era uma biblioteca muito boa e, nas sextas-feiras, tinha a revista Veja da semana, meu principal elo com as informações do Brasil, naqueles tempos pré-internet. Entre os diversos livros que li na época, um deles bem interessante foi o que publicou a troca de correspondências entre Ezra Pound e James Joyce. Me chamou atenção principalmente um bilhete, de 1920, onde Ezra Pound diz que ficou sabendo, através de ex-autoridade do governo britânico, que durante a guerra o serviço secreto andava muito preocupado com o livro "Ulysses" (de James Joyce), achando que era tudo código. Ri muito com a história. Os tempos eram de grandes inovações nas artes em geral e o trabalho de Joyce era sem dúvida o mais ousado. A "inteligência" estabelecida não conseguia compreender o que acontecia e obviamente os serviços de contraespionagem seguiam na mesma linha. Como homenagem a esses dois inventores importantíssimos, decidi codificar o bilhete, utilizando um código de mínima redundância (a partir de Claude Sannon, Robert Fano e David Huffman). O código-árvore (para língua inglesa) que encontrei no livro "The Information Theory and its Engineering Applications", de D.A. Bell, foi perfeito. Peguei cartolina, régua, esquadro e lápis de cor e iniciei a tarefa. Criei um cartaz (devo ter guardado até hoje) que pretendia imprimir, mas esqueci. No mês passado, retomei o projeto - dessa vez com animação - e lancei-o no YouTube, como pode ser visto a seguir. (Em tempo: resposta de James Joyce, que vivia à míngua, ao bilhete de Ezra Pound: "Com relação a essa pessoa que foi do governo, quero dizer que, se ele não tiver dinheiro para me dar, nunca mais quero ouvir falar dele, seja nesta ou na próxima vida" (algo assim).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Cuba, 50 anos

Ver hechos realidad los sueños por los que luchamos
Comandante de la Revolución Juan Almeida Bosque
El 1ro. de enero de 1959 es el inicio de un año agraciado, extraordinario e inolvidable: la explosión sentimental del triunfo revolucionario.
Las cárceles abrieron sus puertas de hierro. Los liberados olvidaron su venganza y gritaron juntos con los carceleros por el triunfo de la Revolución. Llegaban los aviones cargados de exiliados que encontraban el calor familiar y el agradecimiento de la patria. Solo los asesinados y desaparecidos no pudieron alcanzar el triunfo, pero vivirán en el recuerdo de familiares, amigos y compañeros de lucha.
Obreros, estudiantes, jóvenes, hombres y mujeres, todo el pueblo, aclamaba a los combatientes que íbamos en cientos de vehículos, una caravana que marchaba por la Carretera Central donde miles de personas aguardaban. A los mandos militares y las estaciones de policía en manos de los rebeldes, de las milicias y del pueblo, iban llegando los detenidos: malversadores, testaferros y colaboradores del régimen, otros por haber cometido crímenes. Los más connotados eran juzgados y sancionados en el acto.
Había delirio y entusiasmo en la población que aclamaba a Fidel en su recorrido, gritos de alegría, abrazos, besos dulces, nobles y tiernas caricias; fotos en grupo; regalos de detentes, estampas y medallas. El repicar de las campanas, los pitazos de claxon de autos y camiones repletos de personas enarbolando banderas. ¡Todo era una fiesta, como en un bello sueño!
El pueblo, en multitud, unido en júbilo a su Revolución, hacía suyo el triunfo. La gente se fundía en un crisol de sentimientos y alegría. Hasta en las ciudades de los más obstinados y recalcitrantes sectores, el triunfo revolucionario provocaba la trasgresión de las costumbres raciales. Blancos y negros cogidos de las manos, se abrazan, se miran sorprendidos, ríen, gritan, saltan juntos por la Revolución. Es el momento de la alegría, de la fraternidad. El negro y el pobre redimidos, con el blanco y el rico igualados. Como una melodía subía y bajaba el diapasón del coro de cientos, de miles de voces. Desde que tomamos el fusil por primera vez, estos fueron los momentos más conmovedores, grandiosos y emocionantes. Era el canto inefable a la victoria y a la fe revolucionaria en el futuro de la patria. No hubo asta de bandera que no tuviera los colores de la patria.
Las Marianas, que tomaron el nombre de la insigne madre de los Maceos defensoras de la libertad con el fusil, eran saludadas con amor, ternura y admiración.
Arribamos al Campamento Militar de Columbia. La multitud a nuestro alrededor nos conduce hasta la tribuna. El día corrió su telón y dio paso a la noche, La tensión es rota por la voz de Fidel:
Creo que estamos en un momento decisivo de nuestra historia, La tiranía ha sido derrotada. La alegría es inmensa y sin embargo, mucho queda por hacer todavía. No nos engañemos creyendo que en lo adelante todo será fácil. Quizás en lo adelante todo será más difícil.
Ahora, a 50 años de aquella histórica fecha en que alcanzamos la libertad plena, la independencia absoluta y la soberanía total, a las emociones y momentos antes narrados, añado el orgullo por lo logrado, la satisfacción por el esfuerzo realizado antes y después del 1ro. de enero, la fe y la confianza que tuvimos, recibimos y mantenemos en nuestro pueblo y en particular en las nuevas generaciones continuadoras de esta causa, a quienes hemos dedicado los mejores años de nuestras vidas y por ellos estamos dispuesto a cualquier sacrificio como lo hacen los Cinco héroes que cumplen injusta sanción en las cárceles del imperio.
Saludo a Fidel, el hermano de lucha, el que nos guió al triunfo revolucionario y ha continuado al frente durante estas cinco décadas para alcanzar las nuevas victorias de la Patria, deseando que nos siga acompañando como líder histórico de este proceso revolucionario para ver hechos realidad los sueños por los que luchamos.