segunda-feira, 29 de abril de 2013

Capriles virou chavista?


Interessante esse artigo de Rubens Ricupero hoje na Folha. Fala da importância eleitoral que têm as conquistas sociais na América Latina de hoje e dá uma informação muito boa: o oposicionista Capriles, na Venezuela, cresceu nas pesquisas depois de adotar o discurso chavista.
Mudar mas não tanto
Rubens Ricupero
O vencedor da eleição para suceder a Hugo Chávez foi o próprio Hugo Chávez, conforme observou um analista americano. Isto é, não só a apertada vitória de Maduro se deve ao voto de simpatia decorrente da morte do líder venezuelano. Também no sentido de que a campanha do opositor Capriles foi em boa parte pautada pela agenda chavista.
Capriles deu à sua equipe o nome de Simon Bolívar, enxertou em seus discursos frases e símbolos chavistas, declarou que seu modelo é o presidente Lula! Mais importante, prometeu manter todas as missões sociais de Chávez (30 e tantas) e acrescentar outras, anunciou aumentos significativos para salários e aposentadorias. Estreitou assim de dez pontos para menos de dois a margem de derrota em relação a outubro de 2012.
Esses fatos geralmente ignorados na maioria dos relatos jornalísticos sugerem que, em países pobres e marcados por desigualdade, o eleitor tende a conservar as conquistas sociais e limita o desejo de mudança à margem: corrigir excessos, retificar desvios.
Isso vale até para a Argentina. Lá, segundo me dizem, aspira-se por uma espécie de Cristina Kirchner melhorada, sem a corrupção e o espírito de "vendetta". No caso argentino, haveria razão adicional. O profundo trauma de 2001 vacinou os argentinos contra as soluções extremas como a convertibilidade de Cavallo-Menem. Ninguém crê que tenha chance uma plataforma de negação total e mudança radical, um "tiro para matar o tigre" como o confisco da poupança de Collor. As pessoas querem melhorar, mas devagar, sem balançar o coreto.
Se isso ocorre em dois países nos quais o agravamento da crise econômica e política já leva milhares de pessoas às ruas, o que dizer do Brasil, onde o processo de desgaste é mais recente e a sensação de bem-estar prevalece para a maioria? Aqui também tudo indica que o apetite por mudança não ultrapassa a proposta expressa na sentença "é possível fazer mais".
Terá sido muito diferente o espírito da "Carta ao Povo Brasileiro" de 2002 e a campanha vitoriosa de Lula em garantir que os contratos seriam honrados e a estabilidade preservada?
Na América Latina, os governos de desempenho econômico melhor que o social e sem reeleição (Peru, Chile, México) têm sido derrotados pelos opositores, que conservam, no entanto, a orientação econômica. Já os sociais e desastrados economicamente (Chávez, os Kirchner) ganham as eleições, mas aprofundam as políticas econômicas disfuncionais. Dessa maneira, o êxito eleitoral acaba sendo em longo prazo o bilhete para o desastre definitivo.
O Brasil se parece cada vez mais à Venezuela e à Argentina. A afirmação choca porque estamos longe de falsificar a inflação ou perseguir a imprensa. Contudo, nos indicadores econômicos básicos --inflação e, sobretudo, acelerada deterioração das contas externas e da dívida bruta-- vamos pelo mesmo caminho.
O atraso na crise e a demora na percepção pública favorecem as chances eleitorais do governo. A dúvida maior, portanto, é se após 2014 o país mudará para sustentar as conquistas sociais ou arriscará perder mais uma década de crescimento.

domingo, 28 de abril de 2013

EUROPA CONTRA A TROIKA!



Os ativistas do movimento europeu Que se Lixe a Troika (criado há um ano em Portugal) decidiram mobilizar o continente contra a política de austeridade imposta pelo capital financeiro através da troika composta pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), BCE (Banco Central Europeu) e CE (Comunidade Europeia). Reunidos esta semana em Lisboa, escolheram a data de 1º de junho para mobilização em todas as ruas de todas as cidades de todos os países. Vejam o manifesto na íntegra (copiado do Correio do Brasil, com pequenas adaptações para o português brasileiro):

A Europa está sob violento ataque do capital financeiro que se faz representar pela troika (FMI, BCE, CE) e pelos sucessivos governos que aplicam as políticas concertadas com essas entidades desprezando as pessoas. Sabemos que essa ofensiva aposta em vergar os povos, tornando-os escravos da dívida e da austeridade. Atravessa a Europa e também deve ser derrotada pela luta internacional.
Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da “ajuda externa”. É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos esse ataque.
O apelo que lançamos para uma manifestação internacional descentralizada circulou entre dezenas de movimentos na Espanha, França, Itália, Grécia, Chipre, Irlanda, Inglaterra, Escócia, Alemanha, Eslovênia… Na reunião de ontem, 26 de Abril, em Lisboa, estiveram presentes companheiros e companheiras de vários países da Europa, que discutiram em conjunto essa proposta.
Assim, chegamos ao consenso, a nível internacional, de que sairemos à rua no próximo dia 1º de junho: POVOS UNIDOS CONTRA A TROIKA!
Este é o início de um processo que se quer descentralizado, inclusivo e participante. Queremos construí-lo coletivamente, juntando as nossas forças. A partir de hoje a data de 1º de Junho será divulgada em escala europeia e todos e todas estão convidados a juntarem-se num protesto internacional contra a troika e contra a austeridade… a favor de que sejam os povos a decidirem as suas vidas.
Apelamos a todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido, com e sem emprego, com e sem esperança, apelamos a que se juntem a nós. A todas as organizações políticas, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, coletividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós.
Queremos continuar a alargar os nossos contatos tanto nacionais como internacionais, porque estamos conscientes de que será o somatório das nossas vozes que poderá travar a nova onda de austeridade que está sendo preparada. Os povos da Europa têm demonstrado em vários momentos que não estão disponíveis para mais sacrifícios em nome de um futuro que nunca chegará. Por isso pensamos que é chegada a hora de uma grande demonstração da capacidade desses povos de se coordenarem na luta e na recusa dessas políticas.
De Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!

Movimento QUE SE LIXE A TROIKA

sexta-feira, 26 de abril de 2013

No programa eleitoral do Eduardo Campos o pior foi o Eduardo Campos

Contradições do discurso pessebista apontadas pela Folha (clique na imagem para ampliar)

Interessante esse programa do Eduardo Campos veiculado ontem em cadeia nacional. Interessante em primeiro lugar pelo desequilíbrio. A produção, por exemplo, está bem correta, mas às vezes faz umas imagens ridículas, como uns closes do nariz do Eduardo Campos, usados obviamente para edição de falas.
A conceituação é bem esperta. Começa, corretamente, dirigindo-se à classe média, digamos, mais festiva, lembrando a união da sociedade contra a ditadura – e o PSB procura se denominar como “herdeiros da esquerda democrática”. Mais adiante, o programa muda o foco, passa a dirigir-se, mais espertamente ainda, à nova classe média (daí o slogan “passo adiante”). Aqui mostra que seguiu o conselho de Fernando Henrique dado em abril de 2011 ao próprio partido, ainda sob o impacto da derrota diante de Dilma, para “priorizar as novas classes médias, gente mais jovem e ainda não ligada a partido nenhum e suscetível de ouvir a mensagem da socialdemocracia”.  Nessa época, comentei aqui esse artigo de FHC (O Papel da Oposição): “Ele está apostando nas parcelas da nova classe média que vão procurar se adequar a novos valores, esquecer que um dia já foram povão”.
O programa tem algumas barbaridades, como a fala de Rollemberg, que procura assumir os louros da conquista dos trabalhadores e trabalhadoras domésticas – uma proposta da deputada petista Benedita da Silva. Ou ainda as várias contradições, como as apontadas pela Folha: critica a política federal para a educação, mas no governo de Eduardo Campos a rede escolar estadual tem avaliações inferiores à da média nacional; o PSB se diz defensor de alianças, mas em 2012 rompeu aliança com o PT para lançar candidato próprio à prefeitura de Recife; é contra o nepotismo, mas o governo pernambucano conta com parentes do governador.  E por aí vai. Mas o que mais me surpreendeu negativamente foi o desempenho de Eduardo Campos. Na verdade, já tinha notado que ele é fraco, mas que isso poderia ser corrigido. Não foi, e ele ficou horrível. Não passa verdade na sua cara. Tem sempre um sorriso falso estampado, olhos meio esbugalhados, um conjunto nada convincente. Acentua algumas frases, com um desenho esquisito da boca. O Aécio, por exemplo, nessas inserções recentes, apareceu muito melhor que ele. Gostei da sua frase final: “É hora de fazer o Brasil crescer para, juntos, ganharmos 2013”. Além de servir para driblar a lei eleitoral, ela traz uma verdade para o próprio PSB: aliado de Dilma, obviamente ganha 2013; separado, vai perder feio em 2014.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O homem de uma cara




Ninguém se iluda: Eduardo Campos não tem duas caras. Tem uma cara só – da oposição, cada vez mais conservadora. Esse papo de “base aliada crítica” é puro oportunismo. Oportunismo bem feito, diga-se de passagem. Quer fazer oposição sem perder as benesses do poder. Quer mostrar para o “mercado” e para a classe média conservadora do “sul maravilha” que bate no governo Dilma, ao mesmo tempo em que tenta vender ao povo nordestino a imagem de que sempre esteve ao lado de Lula. Tentar mostrar duas caras é o melhor que pode fazer para crescer nas pesquisas. Mas a verdade é que essa moeda tem uma face só – e isso o povo inteiro já sabe.
Mais um bom artigo de Janio de Freitas, hoje, na Folha.

ALIADO E OPOSITOR
Janio de Freitas

 Aspirante à sucessão presidencial e governador pernambucano, Eduardo Campos apresentará hoje na TV, se não mudar na última hora o programa gravado, sua lista do que considera os erros desastrosos de Dilma Rousseff. Pelos quais, no entanto, ele é corresponsável.
Se o PSB, conduzido por Eduardo Campos, se fez sócio dos êxitos do governo federal, não tem como fugir da condição de sócio do que sejam os erros e insucessos do governo em que tem até ministério e integra a "base aliada" no Congresso. Não há conversa farsesca que anule essa obviedade.
Eduardo Campos não faz crítica, como diz. Poderia e talvez devesse fazê-la se, como caberia mesmo a um aliado, examinasse a natureza do erro, como e por que ocorre. A mera atribuição de erro ou insucesso não é crítica, é oposição. "O Brasil caminha para a crise", como já disse Eduardo Campos a empresários do Sul, é uma advertência grave demais, sobretudo partindo do governador de Estado com a importância de Pernambuco, para que passe sem a exposição de embasamento sério, seja convincente ou não.
Do joguinho de aliado e opositor, de sugar proveito dos dois lados, o que resulta é simples: embuste como aliado e embuste como oposição, ou, vá lá, "crítico".
A mesma evidência ressalta deste ridículo: "Nós não temos um projeto de poder, nós temos um projeto de país". Até em nome do pudor alheio, se não puder ser do próprio, quem deixa lá o seu governo e sai pelo país em óbvia pré-campanha pelo poder - na qual ainda não ofereceu nem uma só ideia nova para o país - deve apresentar um engodo melhorzinho.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O vice-versa de Serra e Campos




Esse novo partido, o MD, nascido da fusão do PPS e do PMN - mas com focinho tucano -, é o elo da aliança de José Serra (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Com 13 deputados federais, 58 estaduais, 147 prefeitos, 2.527 vereadores e a permissão para atrair insatisfeitos com outras siglas, o MD poderá servir, em primeiro lugar, como instrumento de chantagem de Serra contra o PSDB. Ameaçando mudar de partido, ele teria mais cacife para ser escolhido candidato ou a Presidente ou a Governador de São Paulo pelos tucanos. Difícil, muito difícil, praticamente impossível.
Por outro lado, o MD poderia ser o partido alternativo para Serra candidatar-se tanto a Presidente quanto a Governador de São Paulo. Difícil? Nem tanto. Principalmente contando-se com uma aliança com o PSB de Eduardo Campos. Em São Paulo seria praticamente natural. Para a Presidência, poderia ser em um hipotético segundo turno.
2018 é mais uma face dessa aliança. Ou desaliança, já que Serra e Campos poderão se chocar na disputa pela liderança das oposições. Ou não. Poderiam fortalecer ainda mais a aliança para um segundo turno ou, quem sabe, poderiam um ser vice do outro. Será? Quase impossível.
Há muitos vices e muitas versões nesse vaivém partidário. A face verdadeira dessa questão é a economia. A oposição inteira aposta no fracasso da política econômica de Dilma. É uma aposta baseada principalmente em desejo (é sintomático que os investidores locais tenham apostado em alta maior para a taxa Selic, enquanto os estrangeiros apostavam em menor, como ocorreu nessa última alta). Com a aprovação recorde que vive Dilma, basta a economia se manter como está para que ela vença as eleições de 2014 no primeiro turno. Com o cenário de um crescimento razoável, inflação sob controle e aumento da oferta de emprego, à oposição só resta treinar para 2018. Sem chances de vice-versa.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Pesquisa Mitofsky: antes de morrer, Chávez conquistou altíssima avaliação

O instituto Mexicano de pesquisas Mitofsky acaba de divulgar os resultados da mais recente avaliação popular sobre os governantes de 19 países do continente americano. O campo foi feito no início do ano e aponta Chávez - seguindo Rafael Correa (Equador) e Danilo Medina (República Dominicana) - como um dos líderes na faixa da mais alta avaliação. É fácil entender porque o nome que ele indicou para sua sucessão, o ex-motorista Maduro, conseguiu vencer nas eleições deste domingo para Presidente da Venezuela.
Dilma Roussef, com 63%, confirma sua alta avaliação. Obama, com 48%, ficou na faixa média.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Violência armada americana: o campo perde espaço no controle do Congresso



Surge uma nova divisão na batalha em torno da legislação sobre posse de armas nos Estados Unidos. No lugar de Republicanos X Democratas, a disputa agora é entre Urbanos e Suburbanos de um lado contra Ruralistas do outro. E a grande surpresa é que o voto ruralista passou a ter menor poder de fogo. Os povoados rurais "onde a posse de armas é mais do que um modo de vida" estão encolhendo, enquanto o rápido crescimento dos subúrbios nos estados historicamente pró-armas está forçando os políticos a atender os pontos de vista mais centristas e pragmáticos dos “eleitores de bairros residenciais mais protegidos” (em tradução livre de voters in subdivisions and cul-de-sacs), como mostra reportagem do Washington Post. Graças a essa nova realidade, o Senado americano aprovou a continuação do debate em torno de uma legislação mais restritiva aos abusos dos fabricantes de armas. Ainda está longe de ser o tiro de misericórdia na legislação faroeste. Mas graças ao pragmatismo eleitoral a mira está cada vez mais ajustada.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Entrevista Uol-Folha com Zé Dirceu: imperdível




Não importa que você goste ou não goste do José Dirceu. Não importa que você já esteja com a opinião formada sobre o "mensalão" em função de tudo que leu, viu e conversou sobre o assunto. São 74 minutos. Talvez pareça longa, mas não é. Excelente entrevista. Parabéns para a Mônica Bergamo e o Fernando Rodrigues. E principalmente parabéns ao José Dirceu.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Thatcher - o mundo não precisava passar por isso


Não entendo como pode existir tanta viúva de Margaret Thatcher. Ou melhor, entendo: é puro radicalismo dos mais obtusos. Tem um amigo que diz que ela teve a coragem de fazer o que era preciso fazer. É verdade, teve a coragem de destruir as conquistas sociais britânicas para impor o receituário neoliberal. Mas acabou com a inflação, argumentam, e ainda alavancou a economia. Não é bem assim. Pelo que sei, ela pegou o país (1979) com inflação de 8,3%, chegou a baixar para 3,4% e no final do seu “reinado” (1990) estava em 9,5%. Pegou o país com 3,2% de crescimento do PIB e largou com 0,8%. Desemprego, nem se fala. Ela era boa de marketing, isso, sim. Hoje, na Folha, Vladimir Safatle publicou esse artigo, bem interessante.
Canonizando MargaretVladimir Safatle
"Não existe esse negócio de sociedade. Existem apenas homens e mulheres individuais, e há famílias." Foi com essa filosofia bizarra que Margaret Thatcher conseguiu transformar o Reino Unido em um dos mais brutais laboratórios do neoliberalismo.Com uma visão que transformara em inimigo toda instituição de luta por direitos sociais globais, como sindicatos, Thatcher impôs a seu país uma política de desregulamentação do mercado de trabalho, de privatização e de sucateamento de serviços públicos, que seus seguidores ainda sonham em aplicar ao resto do mundo.De nada adianta lembrar que o Reino Unido é, atualmente, um país com economia menor do que a da França e foi, durante um tempo, detentor de um PIB menor que o brasileiro. Muito menos lembrar que os pilares de sua política nunca foram questionados por seus sucessores, produzindo, ao final, um país sacudido por motins populares, parceiro dos piores delírios belicistas norte-americanos, com economia completamente financeirizada, trens privatizados que descarrilam e universidades com preços proibitivos.Os defensores de Thatcher dirão que foi uma mulher "corajosa" e, como afirmou David Cameron, teria salvo o Reino Unido (Deus sabe exatamente do quê). É sempre bom lembrar, no entanto, que não é exatamente difícil mostrar coragem quando se escolhe como inimigo os setores mais vulneráveis da sociedade e quando "salvar" um país equivale, entre outras coisas, a fechar 165 minas.Contudo, em um mundo que gostava de se ver como "pós-ideológico", Thatcher tinha, ao menos, o mérito de não esconder como sua ideologia moldava suas ações.A mesma mulher que chamou Nelson Mandela de " terrorista" visitou Augusto Pinochet quando ele estava preso na Inglaterra, por ver no ditador chileno um "amigo" que estivera ao seu lado na Guerra das Malvinas e um defensor do "livre-mercado".Depois do colapso do neoliberalismo em 2008, ninguém nunca ouviu uma simples autocrítica sua a respeito da crise que destroçou a economia de seu país, toda ela inspirada em ideias que ela colocou em circulação. O que não é estranho para alguém que, cinco anos depois de assumir o governo do Reino Unido, produziu o declínio da produção industrial, o fim de fato do salário mínimo, dois anos de recessão e o pior índice de desemprego da história britânica desde o fim da Segunda Guerra (11,9%, em abril de 1984). Nesse caso, também sem a mínima autocrítica.Thatcher gostava de dizer que governar um país era como aplicar as regras do bom governo de sua "home". Bem, se alguém governasse minha casa dessa forma, não duraria muito.

sábado, 6 de abril de 2013

Sábado de Satie

Acordei com Satie na cabeça. Vamos ouvir "Trois Morceaux en forme de poivre".


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Eleição 2014, RJ: como um jogo de Go, o tabuleiro é simples, os movimentos são complexos


São apenas 3 nomes que se apresentam com chances de vitória para Governador do Rio em 2014: Anthony Garotinho, ex-Governador do Estado, atualmente Deputado Federal (PR); Lindberg Farias, ex-Prefeito de Nova Iguaçu, atualmente Senador (PT); e Luiz Fernando Pezão, ex- Prefeito de Piraí, atualmente Vice-Governador (PMDB). Seus partidos fazem parte da base de apoio do Governo Dilma e é aí que começam os problemas.
O PR de Garotinho seria o de menor importância, mas Garotinho foi o deputado mais votado do estado, é quem lidera as pesquisas (23% para Garotinho, 17% para Lindberg e 16% para Pezão, segundo o Instituto Ideia deste mês) e quem mais provoca alvoroço no processo. Apesar de sua dianteira, Garotinho sabe que a rejeição ao seu nome costuma ser sempre alta. Por isso, seus próximos movimentos devem ser muito bem calculados, porque no momento ele ocupa um ponto chave para o seu partido e não pode correr o risco de ficar sem mandato. Não posso deixar de lembrar que ele adorou uma citação do Sun Tzu que coloquei em meu livro, “A Arte da Guerra Eleitoral”: “O General que vence uma batalha fez muitos cálculos no seu templo, antes de ser travado o combate”.
O PT do Rio encontrou em Lindberg o nome possível para tentar a sorte rumo ao governo estadual, um sonho de longas datas. O senador petista tem um desempenho considerado excelente nas disputas eleitorais e vive um momento de tudo ou nada. Dentro de seu projeto político-pessoal que tem como meta a Presidência da República, ele tem antes que garantir cacife ocupando o cargo de Governador do Estado. E esta poderá ser sua última oportunidade. Em 2018, é praticamente certo que o candidato do PMDB será o Prefeito Eduardo Paes, que entrará na eleição carregando os títulos de “cidade-sede da Copa 2014”, “cidade-olímpica 2016” e de “transformador da Zona Oeste e da Região do Porto” – ou seja, considerado praticamente imbatível. A conclusão, portanto, foi a de que ou se tentava agora ou era melhor dar adeus ao sonho, pelo menos até 2022 ou 2026. Mas a candidatura de Lindberg em 2014 significa pesadelos imediatos para o PT. Em primeiro lugar, porque prejudica a candidatura Dilma exatamente no estado onde ela obteve uma grande vitória em 2010, graças em boa parte à aliança PT-PMDB. Em segundo lugar, porque poderá contaminar alianças em outros estados. E em terceiro lugar porque no caso de uma provável derrota o PT ficará mais isolado no Rio de Janeiro. Como diz o Lula, o Lindberg tem todo o direito de tentar a sorte – pero... Seus movimentos com toda certeza são os mais difíceis de realizar, embora ele tenha demonstrado muita disposição.
Pezão, do PMDB, representa a continuação de uma administração bem avaliada. É vice de Sérgio Cabral, que soube fortalecer as alianças com Lula e Dilma e soube também aproveitar o excelente “momento Brasil”. Com ele, o Rio de Janeiro voltou a ser um lugar atraente e seguro. Pezão participou intensamente de todo o governo, embora sempre se mantivesse em segundo plano, quase desconhecido do grande público. Fez tanto silêncio de sua intensa atividade que foi tratado como um “poste”, quando Sérgio Cabral resolveu apoiá-lo para a sucessão. Mas é um político experiente, com grande atuação eleitoral. Em 96, quando se lançou candidato a Prefeito de Piraí, todos acreditavam que seria facilmente derrotado - e acabou sendo eleito com 69,44% dos votos válidos. Na sua reeleição, em 2000, teve o maior índice de votos válidos do estado, 86,06%. Apoiando-se no seu estilo “trator”, na alta avaliação da administração Cabral e nas máquinas administrativa e partidária, Pezão promete surpreender mais uma vez. Há um mês, antes das inserções do PMDB, tinha 13% das intenções de voto. Depois das inserções, foi o único que avançou, pulando para 16%, em empate técnico no segundo lugar com Lindberg. E há certos cenários em que Pezão está colado em Garotinho, na disputa pelo primeiro lugar. É um “poste” que já começa a andar, como ele declarou. Talvez seus próximos movimentos não sejam muito complexos, mas serão os mais trabalhosos.
Ainda existe algum tempo e bom espaço para manobra, claro. Mas todos os players têm que ter consciência de que não há lugar para movimentos em falso.

quinta-feira, 28 de março de 2013

É o Nordeste que está dizendo um sonoro “Não” a Eduardo Campos


Eduardo Campos com toda certeza esperava ouvir números mais afinados nas pesquisas de março rumo a 2014. Obviamente ele já sabia que não atingiria as notas mais altas, mas provavelmente sonhava com dois dígitos. Os últimos dados do Datafolha, no entanto, foram um balde de água do Rio São Francisco em suas pretensões. Comparando com os dados de dezembro, ele até que subiu (de 4% para 6%), enquanto Marina e Aécio caíram (de 18% para 16% e de 12% pra 10% respectivamente) – mas Dilma falou mais alto, cresceu de 54% para 58% e bateu recorde na aprovação do Governo.
No Sudeste, somente Dilma cresceu (de 49% para 53%), enquanto Marina deslizou de 19% para 18%, Aécio deslizou de 17% para 16% e Eduardo Campos manteve-se nos mesmos 3%. Poderia ser melhor, depois de toda a sua atuação midiática, mas o resultado é compreensível, porque o eleitor tucano ainda estava na escuta de Aécio. O problema foi no Nordeste, onde a sua candidatura não cresceu suficientemente – passou de 8% para 11%, enquanto Dilma cresceu de 59% para 64%. Ele percebeu, com esses números, que pode ficar inteiramente perdido como o cara que vai para os Estados Unidos, não aprende o inglês e esquece o nordestês. E seus aliados também já perceberam.
Quando a campanha começar pra valer e os nomes de Lula e Dilma correrem de boca em boca pelo Nordeste, o resultado poderá ser desastroso para o PSB. Dos 9 estados da região, 4 são governados pelo PSB – e todos os governadores (inclusive Eduardo Campos) devem estar em pânico com a aventura campista, seja por causa do risco de não se reelegerem ou do risco de não elegerem seus sucessores. É por isso que o nome Eduardo Campos já não ecoa tão bem. Ele já deu o passo em falso. Já perdeu a confiança do PT e do governo e viu que ficou mais difícil substituir Aécio no coração do Sudeste. Talvez só lhe reste garantir os cargos que tem em Brasília (em troca de apoio a Dilma em 2014) e lançar sua candidatura ao Senado. A conquista do Planalto Central tornou-se um sonho ainda mais distante, mas a base nordestina pode ser consolidada. Mais do que ensaiar o sudestês, Eduardo Campos precisa afinar o seu nordestês.

sexta-feira, 22 de março de 2013

2014 não está mais em pauta – o que está em pauta é 2018


Tucanos e campistas já perceberam que não têm como derrotar Dilma em 2014. A aprovação do governo está em alta, a economia começa a retomar um bom ritmo, os ganhos sociais crescem, a inflação está sob controle e o cenário externo, embora ainda carregue muitas incertezas, pode apresentar melhoras graças a alguma recuperação da economia americana. Além disso, tem o “fator máquina”, decisivo em qualquer eleição – e a “máquina federal” já começou a se movimentar rumo a 2014, para desespero das oposições.
Na verdade, os tucanos e campistas que em algum momento sonharam com vitória nas próximas eleições estão voltando ao projeto original, que era o de fazer bonito agora para se cacifar para 2018. Eles tinham começado tudo certo, ao procurar recompor uma forte aliança conservadora (que voltaria a unir também Nordeste e Sudeste) para enfrentar o governo de esquerda. Mas a disputa pela cabeça de chapa melou a aliança ainda no seu ninho. Em vez de somar, dividiram. E agora vão se engalfinhar para saber quem se sai melhor contra Dilma em 2014 – e com isso conquistar o título de melhor nome da oposição para a sucessão em 2018. Nessa disputa não conta apenas a eleição presidencial. Os governos estaduais e as vagas no Congresso e nas assembleias regionais serão disputados com unhas e dentes, porque essas conquistas é que darão mais gás para as eleições seguintes, principalmente considerando que Dilma não poderá se reeleger e o PT ainda não demonstrou ter escolhido o nome da sucessão. Por tudo isso, o melhor que os apressadinhos fazem é tomar um bom chá de camomila.

domingo, 17 de março de 2013

"Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino da Terra", Chico 2.0



A mídia está querendo transformar o novo Papa em aliado de sua luta contra os governos populares da América Latina (berço da Teologia da Libertação). Pode vir a ser, mas acho difícil. Essa luta não é o foco atual da igreja Católica e um escorregão nessa direção pode atrapalhar na sua questão principal, que é a luta contra o avanço dos evangélicos, basicamente os pentecostais e neopentecostais. Ao contrário do medievalismo católico, que oferece como única alternativa “concreta” a felicidade no Reino do Céu, os evangélicos acenam com riquezas bem terrenas a seus fiéis. A partir dessa diferença básica e com uma estratégia de marketing bem mais agressiva, os evangélicos arrebanham fatias cada vez mais expressivas das estatísticas católicas (principalmente nas áreas urbanas, com suas franjas lumpen). No Brasil, o maior país católico do mundo, de 1970 para 2010, a participação do catolicismo caiu de 91,8% para 64,6%, enquanto a participação dos evangélicos pulou de 5,2% para 22,2%. (Destacamos que, na Argentina, as estatísticas de 2008 mostram 75,5% de católicos contra 9% de evangélicos – mas com grande crescimento desses últimos, o que também ajuda a explicar um Papa argentino.)
Diante dessa realidade infernal, à igreja Católica – agora sob nova direção –, interessa muito mais aliar-se aos governos populares do que forçá-los a uma aproximação do universo evangélico. Se o Papa Francisco nos tempos das ditaduras foi conivente ou omisso, é uma questão que vai se tornar um “não foi nada disso”. E em vez de oferecer riquezas imateriais, a igreja Católica passará a acenar com riquezas mais palpáveis, capazes de abafar o canto da sereia evangélico. Para isso, terá que apoiar as políticas sociais e fugir como o diabo foge da cruz da política de terra arrasada dos neoliberais. "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”, como diz Lucas 6.20? Nem pensar. O mote é outro, surge a possibilidade de uma nova aliança popular. E quem saltou na frente estendendo a mão para esse novo acordo político-religioso foi o presidente Maduro, da Venezuela, que atribuiu aos conselhos do “apóstolo” Chávez a escolha do novo Papa. Apesar de esse Papa estar sendo visto (com razão) com certa desconfiança por parte da esquerda,  pode estar sendo lançada a Nova Igreja Católica Popular da América Latina.
(“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” Lucas 6.24 e 25)

quinta-feira, 14 de março de 2013

A igreja Católica em busca da vida eterna


Não há dúvida alguma, a escolha do papa argentino foi uma questão de ou tudo ou nada. Já que a vida eterna celestial não é garantida para ninguém, a igreja Católica Romana procura garantir sua vida eterna aqui no planeta Terra. Mas isso tem ficado cada vez mais difícil e os católicos têm perdido terreno por toda parte. Como estão em queda vertiginosa na Europa, fizeram uma jogada básica de marketing: recuperar suas energias a partir do ponto onde estão mais fortes, a América Latina. Contra o novo papa, pesa a história de apoio à ditadura argentina, o que poderá minar todo o esforço católico. Mas a acusação por enquanto mostra-se polêmica. Leonado Boff, um católico respeitável e progressista, ficou entusiasmado, considera que, com Francisco, "o povo vem antes da hierarquia", e que podem-se recuperar princípios do Concílio Vaticano. Vamos acompanhar. Enquanto isso, temos essa entrevista que ele deu a Fernando Molica (com Carlos Brito e Luisa Bustamante), publicada hoje no Informe do Dia:

ENTREVISTA
PUNIDO PELO VATICANO EM 1985, o teólogo e ex-frade franciscano Leonardo Boff não escondeu seu entusiasmo com a escolha do novo Papa e com sua decisão de passar a se chamar Francisco. Para ele, a escolha representou "um programa de governo". Na terça, Boff acertara o nome do futuro Papa: ao apostar na escolha do franciscano americano Seán Patrick 0'Malley, Boff escreveu, no Twitter, que ele adotaria o nome de Francisco. O brasileiro era contra a eleição de Dom Odilo Scherer, que, para ele, seria um Bento 16 "com menos luzes".
INFORME: Como o sr. avalia a escolha do novo Papa?
BOFF: Este é o Papa de que a Igreja precisava. Isto fica claro na escolha do seu nome: trata-se de um jesuíta com alma franciscana. O nome Francisco é um programa de governo. O novo Papa nasce com a inspiração franciscana de simplicidade, ética, solidariedade com os pobres, amor à natureza e liberdade de criação. Na primeira visão que teve, Francisco de Assis ouviu de Jesus o apelo para que reconstruísse a Igreja. São Francisco viu que a Igreja deveria voltar-se para o Evangelho, para os leigos. Este foi seu projeto de reconstrução. Ele era um leigo, nunca foi padre. Foi obrigado, no fim da vida, a aceitar o título de diácono, mas exigiu não receber qualquer salário. Além do mais, pregava em italiano, não em latim. Ou seja, era voltado para a comunidade.
INFORME: Que pontos chamaram sua atenção neste primeiro pronunciamento do Papa Francisco?
BOFF: Ele falou em caridade. Isso sempre foi uma luta nossa, dos teólogos: o primado da caridade sobre o direito canônico. Ele pediu pela fraternidade, colocou o povo no centro ao pedir que a multidão o abençoasse. Assim, ele recuperou o princípio do Concilio Vaticano 2º (assembleia que, entre 1961 e 1965, promoveu uma série de mudanças na Igreja). O novo Papa deixou claro que o povo vem antes da hierarquia. Ele certamente vai mudar o atual modelo de Igreja, absolutista, monárquico. Apostará no ecumenismo, no diálogo com as diferentes igrejas.
INFORME: Qual a importância da eleição do primeiro Papa latino-americano?
BOFF: Pela primeira vez temos um Papa do Terceiro Mundo, onde vivem 60% dos cristãos, isto é um fato inédito e muito importante. Francisco vem de uma experiência pastoral, não é um espelho de Roma, ele tem autonomia, tem capacidade de falar para o centro do poder da Igreja. Ele certamente vai propor uma profunda reforma da instituição. Em 2007, o cardeal Bergoglio foi um dos principais autores do documento final de Aparecida (Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino- Americano e Caribenho, que contou com a presença do papa Bento 16). Trata-se de um documento que fala na necessidade de uma nova evangelização. Como todos os jesuítas, trata-se de um homem muito bem preparado e que tem um sentido pastoral muito grande. Ele, como bispo, também aprovou a adoção de uma criança por um casal gay.
INFORME: O sr. acha que ele terá condições de dialogar com o mundo moderno?
BOFF: Certamente. Não será um Papa doutrinador, mas um Papa pastor, capaz de entender a vida do povo, problemas como a pobreza, o desemprego, a crise por que passam tantos países, as questões ecológicas. O centro não é a Igreja, mas a humanidade.
INFORME: No livro 'El Silencio' o argentino Horacio Verbitsky diz que o então bispo Jorge Bergoglio colaborou com a ditadura argentina. Lá, a Igreja Católica chegou a ajudar na prisão de dois padres. Como o sr. vê esta acusação?
BOFF: Não tenho detalhes da situação da ditadura. Mas conheço argentinos que negam que ele tenha tido qualquer tipo de colaboração com os militares. Sei que há uma certa tensão entre o novo Papa e os Kirchner (a atual presidenta, Cristina, e seu antecessor, Néstor, que morreu em 2010). O cardeal Bergoglio sequer foi convidado para presidir a cerimônia religiosa que marcou o início do mandato da atual presidenta.

domingo, 10 de março de 2013

As tristes lembranças do PIC

Na sua coluna de hoje, Elio Gaspari, tratando da morte de Rubens Paiva nas dependências da ditadura, fala de um detalhe no documento da Comissão da Verdade que me fez lembrar meus tempos de repórter da Veja, em São Paulo. Diz o documento que o assassinato de Paiva foi “consumado no Pelotão de Investigações Criminais do PIC do DOI/Codi do I Exército.” Elio Gaspari esclarece que “não existia PIC do DOI. O PIC era do batalhão da PE (Polícia do Exército). Funcionava no mesmo pavilhão que o DOI e seus oficiais circulavam pela central de suplícios”. Em 1968, apesar de fazer parte da editoria de Arte, fui cobrir uma entrevista de Norma Bengell que tinha acabado de ser libertada pela tropa da ditadura. Ela declarou na hora que tinha sido levada em um fusca de São Paulo para o Rio, conduzida para o Quartel da Polícia do Exército e colocada em uma sala “que tinha uma placa com PIC na porta”.  Acho que era uma quarta-feira, voltei para redação, levantei mais informações e só no dia seguinte escrevi a reportagem. Antes, notei que nenhum jornal diário tinha explicado o que significava PIC. Lembrei uma coisa que quase ninguém sabia na redação: Harry Laus, o subeditor de Artes Plásticas, tinha sido oficial do Exército. Foi ele que me falou que PIC significava Pelotão de Investigações Criminais. Fomos os primeiros a falar isso. Mas não é uma boa lembrança, evidente. Mesmo porque não era a sigla que importava. Se era para ter sigla, bastava uma: P.D.  –  Porões da Ditadura. Prefiro a sigla D.N.M. – Ditadura Nunca Mais.

domingo, 3 de março de 2013

Quem te vê, quem te viu: economia 1999 versus economia 2013


Aqui estão as principais manchetes da Folha de hoje, 3 de março de 2013, no caderno de economia. Em seguida, as principais manchetes da Folha do dia 3 de março de 1999 (governo Fernando Henrique), no caderno de economia. Que país é melhor para se viver?

3 de março de 2013
  • "Marolinha" reduziu em 41% crescimento do PIB no Brasil
  • Crescimento é considerado modesto em relação a países emergentes do G20; país cresceu 0,9% em 2012
  • Na contramão do PIB, setor de veículos engata a quinta marcha
  • Empresas sem controlador majoritário ganham espaço no Brasil
  • Usinas hidrelétricas do rio Madeira mudam o perfil da capital de Rondônia (Agronegócio perde espaço em Porto Velho para indústria do setor de energia)
  • Delator de fraudes no Brasil pode ganhar prêmio de US$ 100 mil dos EUA
  • emprego: Empregada, manicure dobra renda e consegue quitar dívidas
  • Cresce o número de 'office-velhos'
  • imposto de renda: 187 mil contribuintes entregam declaração no primeiro dia
  • ambiente: Petrobras ainda tenta controlar vazamento na bacia de Campos, no Rio
  • trabalho: Gol anuncia que retomará processo de demissão de 850 funcionários
  • Justiça condena Ford a pagar R$ 400 milhões
3 de março de 1999
  • Desemprego em SP é recorde com 9,18%
  • Trabalhador perdeu 0,5% da renda em 98
  • Emprego industrial cai pelo nono ano (Metodologia explica diferenças de taxas)
  • Governo aperta ainda mais o crédito
  • Dólar bate novo recorde apesar da atuação conjunta do BC e BB
  • Pedidos de falência são recorde nos EUA
  • Crise no Brasil afeta indústria argentina
  • Governo espera queda da taxa de câmbio
  • "Déficit menor repõe confiança no Brasil"
  • Reservas externas caem para US$ 35,6 bilhões em fevereiro
  • Empresas tentam rolar dívida externa dando mais garantias
  • Confaz não aprova redução de imposto
  • Grupo Bloch lacra gráfica de editora
  • Atividade industrial tem leve alta em SP
  • CNI defende intervenção do BC no câmbio e vê risco de calote
  • TST já admite conceder reajuste salarial com alta da inflação
  • Poupança vai render 1,67% até 1º de abril
  • Bolsa cai 1,38% e título da dívida despenca
  • "Gostaria de estar no governo", diz Franco

sexta-feira, 1 de março de 2013

O que segura Eduardo Campos?




O Panorama Político de quinta, dia 28, no Globo, traz a notícia de que Lula tentará convencer Eduardo Campos (PSB) “a não entrar na disputa contra a presidente Dilma” com o argumento de que “o PSB levaria a disputa para o 2º turno, colocando em risco a continuidade de um governo popular”. Obviamente, esse argumento não é pra valer. O que Eduardo Campos quer é exatamente substituir esse governo popular. Lula com certeza tem outros argumentos para segurar sua candidatura já em 2014.
No miolo do jornal, havia o argumento das compensações, com a Vice-Presidência agora (substituindo Michel Temer...) e a Presidência em 2018, apoiado pelo PT. Não compensa investir nessa argumentação, porque as variáveis são tão grandes que torna tudo imprevisível, não dá pra segurar nada.
Há quem ache que os argumentos mais consistentes vêm do PSB do G – o PSB dos irmãos Gomes. Eles são contra a candidatura à Presidência agora, porque isso os enfraqueceria na sua disputa pela liderança regional. E Campos, por sua vez, faria tudo para evitar um racha na sua principal base eleitoral. Mas será que seguraria a campanha?
No jornal de hoje fala-se da possibilidade de Eduardo Campos desistir se ficar com pouco tempo de TV. Bobagem. O tempo é importante, mas nem sempre é decisivo. Quando fiz a campanha de Garotinho para governador do Rio, ele tinha pouco mais de 3 minutos de tempo, enquanto os adversários (Cesar Maia e Luiz Paulo) tinham, se não me engano, mais do que o dobro. Ganhou Garotinho, com folga.
O argumento mais seguro para inviabilizar a candidatura de Eduardo Campos talvez seja a economia, mesmo considerando o que disse Cesar Maia no seu Ex-Blog de ontem: “A questão econômica só é determinante numa eleição num quadro crítico que afeta o emprego e o bem estar da população. (...) Se a eleição fosse em 2013, seria um fator desprezível”. Mas isso depende do público envolvido, ele mesmo reconhece: “Todas essas questões apontam para um público introduzido no economês, que não representa 2% dos eleitores, ou provavelmente já tem opinião formada. Mas tem utilidade na captação de recursos daqueles que se sentem incluídos na política econômica que o candidato projeta”. É aí que entra a campanha de Eduardo Campos, quando faz críticas à política econômica do Governo Dilma. Ele busca ao mesmo tempo falar o economês que agrada a quem traz recursos e que agrada também à classe média desiludida com os tucanos. Se a economia avançar significativamente – o que poderá acontecer até o segundo semestre –, ele ficará completamente sem argumentos. Talvez lhe baste, então, uma vaga promessa de apoio em 2018.
O importante é saber que a candidatura de Eduardo Campos é pra valer, ninguém tenha dúvida. O que ninguém pode assegurar é que ele vá conseguir seguir até o fim. Mas é só segurar mais um pouco que teremos a resposta.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

2Q14: como se posicionará Eduardo Campos?




No Globo de hoje, o professor e pesquisador do IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ), Marcus Figueiredo, escreve um excelente artigo sobre a sucessão presidencial em 2014 (ver abaixo na íntegra). Coloca o PT e o PSDB na condição de mais uma vez serem “cavalos” ganhadores e destaca Eduardo Campos, PSB, e Marina Silva como “fortes coadjuvantes, capazes de forçar um segundo turno”. É por aí mesmo, mas quero fazer algumas considerações.
Primeiro, que o PSDB já não é há muito tempo essa “barbada” toda. Com as derrotas de Serra (principalmente em São Paulo), o governo medíocre de Alckmin, a implosão do PFL/DEM (que lhe tirou o nordeste) e a crise mundial do neoliberalismo, os tucanos lutam para serem um “azarão” viável.
Segundo, que o partido de Marina ainda vai ter que “marinar” muito para pegar gosto.
Terceiro, que ainda existe uma crise de posicionamento do PSB de Eduardo Campos. Filho (ou neto...) da esquerda, não conseguiu manter uma identidade muito clara nesse campo. Inicialmente, faltou-lhe a base operária, a igreja e as organizações que fizeram o PT. Depois, quando poderia tornar-se o herdeiro dos votos pefelistas no nordeste (27% do eleitorado nacional), foi ultrapassado pelo furacão Lula. Como ainda é um partido pequeno no sudeste (43% do eleitorado nacional), o PSB viu no enfraquecimento do PSDB a sua oportunidade de conquistar o eleitorado da classe média conservadora, que se sente um pouco órfão, mas continua poderoso. A dúvida do momento é se Eduardo Campos deve ou não manter a indefinição por mais algum tempo e aliar-se ou a tucanos ou petistas. Na minha opinião, ele deverá apostar no esfacelamento do PSDB e assumir de vez o seu perfil de centro/centro-direita, principalmente no sudeste e no sul (15% do eleitorado nacional). Portanto, muito provavelmente terá candidatura própria. Seu maior risco passa a ser exatamente onde é mais forte, o nordeste. Um confronto direto com Lula poderá significar grande derrota nessa região (afinal, como acentua Marcus Figueiredo, “foi a maciça ascensão social que ganhou, estúpido!”) e aí ele poderá se acabar antes de ver o sertão virar mar. Eduardo Campos já concluiu que a virtude corre pelo meio. Só falta bater o martelo pelo melhor meio.

Foi dada a partida para 2014
Marcus Figueiredo
A semana que passou foi pródiga. Como se tivessem combinado, Dilma Rousseff, Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva apresentaram-se para disputar a próxima eleição presidencial. Com isso, dois fortes ex-candidatos tornaram-se fortíssimos “eleitores”: Lula e Serra.
O cenário que se deslumbra põe PT e PSDB, novamente, na condição, como se diz, de “cavalos” ganhadores nessa nova corrida. Eduardo Campos, PSB, e Marina Silva, a criar o seu partido, seriam fortes coadjuvantes, capazes de forçar um segundo turno. Este cenário será, mais uma vez, uma disputa ferrenha entre direita e esquerda. Isto ficou claro na festa petista de dez anos de poder e no discurso tucano no senado. O passo seguinte será o da construção de alianças. O PT já está coligado com o PMDB, o maior partido, porém sem garantias de apoio total, vale dizer, inclusive, nas bases municipais. Sendo uma federação de lideranças regionais com fortes interesses locais a possibilidade de “cristianização” parcial da Dilma pode ganhar corpo.
O resultado da eleição de 2012 nos grandes colégios eleitorais é um excelente indicador do que teremos pela frente. De um lado, as forças pró-PT, caso do PDT em Porto Alegre e Curitiba; Fernando Haddad em São Paulo; Eduardo Paes e Sérgio Cabral no Rio; e outras capitais menores. De outro, as pró-tucanas: Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte (não garantida), ACM Neto (DEM) em Salvador e Arthur Virgílio (PSDB) em Manaus. O desequilíbrio deste confronto vem com o PSB no nordeste, com suas vitórias em Recife e Fortaleza, daí a ascensão de Eduardo Campos.
Não há mais dúvida que Eduardo Campos tornou-se o pivô da eleição presidencial de 2014. Para onde ele for teremos resultados diferentes, no primeiro e/ou no segundo turno. Como na política tudo é possível, podemos arriscar falando do futuro longínquo.
Se Campos apoiar Dilma, saindo para o Senado, a eleição virará plebiscitária com fortíssima probabilidade de vitória do PT, mesmo com a economia ainda acanhada, pois o que fez Dilma ganhar foi a extraordinária mudança promovida pelo PT, “foi a maciça ascensão social que ganhou, estúpido!” Se Eduardo Campos apoiar Aécio, como seu vice, teremos um segundo turno que será definido no “photochart”, qualquer que seja a situação econômica. Como diria Nenê Prancha, filósofo do futebol de praia, “esse menino em qualquer posição desequilibra o jogo”.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PT e PSDB fizeram acordo de cavalheiros – e o PMDB se beneficia




Houve acordo no mínimo tácito entre petistas e tucanos sobre as linhas dos discursos feitos anteontem. Aos tucanos, em frangalhos, interessava serem classificados como a alternativa ao PT. Querem chegar às próximas eleições com alguma autonomia de voo, e o fato de serem escolhidos como principais adversários do partido mais forte fez com que batessem asas de alegria. Ao PT, era conveniente valorizar um adversário sem muito futuro, mais fácil de derrotar e que garantisse mais brilho à sua estrela. Por trás dos panos, o arrulhar da pomba do PSB. Tanto petistas quanto tucanos querem evitar que Eduardo Campos alce (epa!) voo, o que é bem justo. Para o PT foi mais fácil. O partido está de bem com a vida e teve uma boa oportunidade de mostrar sua unidade e de que está mais do que disposto a enfrentar os ataques incessantes da mídia. Seus discursos foram coerentes, entusiasmados e trouxeram boa comparação com os tucanos. Do lado tucano, representado pelo cambaleante Aécio, o gorjeio foi mais fraco, mas serviu para garantir fôlego junto à mídia. Quem ficou na moita, prestando atenção a tudo que estava no ar, foram os peemedebistas, fortalecendo-se ainda mais para 2014. Não é que eles pretendam abandonar o barco petista – longe disso! –, mas viram seu cacife aumentar para as eleições regionais – governos, senado, câmara e assembleias. Certamente continuarão como vice. Mas ganharão muito mais por isso.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sinal dos tempos: a Igreja Católica vai acabar




Não sou contra as religiões, por princípio. Elas têm importante função de dar certa racionalidade ao irracional. Mas às vezes elas se tornam mais irracionais do que as irracionalidades que fazem parte de sua origem. Vejam a Igreja Católica, esse gigante medieval que não sabe mais o que fazer para sobreviver aos novos tempos. Conseguiu sobreviver à Reforma, mas dificilmente conseguirá aos tempos da internet. Ratzinger, um sobrevivente da Escuridão, arregou e saiu atirando. Os que vão sucedê-lo terão o desafio hercúleo de dar sobrevida a essa entidade trapalhona que procura ditar o destino a mais de um bilhão de seguidores em todo o planeta. Como explicar que o objeto luminoso que cruzou ontem os céus da Rússia não é produto da ira divina, mas apenas um entre milhares de objetos que chegam diariamente a nosso planeta? Como explicar que o homossexual pode ser tão católico quanto o hétero? Como aceitar que os pobres católicos das periferias de cada país, de cada cidade, possam ter tanta relevância quantos os engalanados de Roma? Nesse mundo da instantaneidade e da universalização da informação, a igreja que nasceu com a pretensão da universalidade (católico, na sua origem grega, significa universal) tem dificuldade em se manter de pé diante dos terabytes de informação nova. Evidentemente há boas cabeças pensantes tentando evitar o que parece inevitável, como a desse teólogo brasileiro, Mário França, que tem entrevista hoje no Globo. Leitura agradável. Aproveito para pôr também o link (enviado pelo Blog do Mello) de entrevista antiga de Leonardo Boff feita para a Caros Amigos em 98.

‘A Igreja muda ou acaba’, diz teólogo brasileiro
Mário França crê que o modelo atual da Santa Sé trai a origem da fé católica
Transição. Bento XVI caminha após sua audiência no Vaticano na quarta-feira: seu sucessor vai herdar uma série de desafios e problemas que o Papa atual não conseguiu resolver, desde escândalos na Igreja a disputas internas por poder na Cúria de Roma 
Por onze anos, Mário França, 76, fez parte da Comissão Teológica do Vaticano, onde conquistou o respeito do então cardeal Joseph Ratzinger. Hoje, professor da PUC-Rio e autor de obras sobre a teologia, defende uma nova Igreja, longe da hierarquia e das ortodoxias de Roma, e com espaço para gays e padres casados. 
O GLOBO: Como a Igreja vai sobreviver ?
Mário França: Chegou um momento em que a Igreja, só com os oficiais, padres, bispos e Papa, não aguenta mais. Esta estrutura foi uma traição à Igreja primitiva, em que todo mundo participava e tinha direitos iguais de participação. Todos são iguais, não tem homem, mulher, judeu, gentio ou escravo e senhor. Depois a Igreja erigiu uma estrutura monárquica, um pouco copiada de Roma. Foi consequência da chegada dos príncipes, que começaram a nomear parentes para tomar conta das muitas propriedades da Igreja. Era preciso estruturar ou tudo ia ficar na mão de famílias poderosas, nobres. Para evitar isso, o laicado foi afastado do poder da Igreja - o laicado não era o povão, eram estes príncipes que estavam cada vez incomodando mais. Passou o tempo e a Igreja ficou identificada por seus bispos, padres etc. É errado, né? Todo cristão, todo católico, tem o direito de formar um grupo, com o qual a hierarquia não pode se meter. A Igreja do futuro vai ser predominantemente leiga ou então não vai aguentar.
O Grupo de diversidade católica, que reúne gays, é um exemplo do que o senhor está dizendo?
Mário França: Exatamente. É um grupo de pessoas que são assim. A Igreja não pode excluir, tem de atender todo mundo. É uma maneira de a Igreja mostrar sua abertura. A consciência histórica é lenta. Teve um tempo que os missionários se perguntavam se tinham que batizar ou não os negros da África, por que não sabiam se eram animais ou gente. Muita coisa que achamos normal hoje, daqui a 50 anos será considerada intolerável. Os laicos vão obrigar a Igreja a criar um espaço de debate público, que não existe. A qualquer problema, corre-se para o bispo.
Mas as mudanças têm sido lentíssimas.
Mário França: Não se mexe da noite para o dia com 1,2 bilhão de pessoas. Não se podem criar traumas, as pessoas têm mentalidades muito diversas e, como diz o Rubens César Fernandes, do Viva Rio, o importante é que a gente mantenha todo esse pessoal dentro da Arca de Noé. Os sociólogos dizem que tudo pode mudar, menos o religioso, porque o ser humano tem necessidade de segurar alguma coisa. A gente percebe que isto não tem sentido. O sagrado também é construído através de uma linguagem e de práticas.
Esta posição está afastando muita gente.
Mário França: É, há paróquias que viraram agências de fornecer sacramento, isto está condenado. Tem de ter o sentido missionário. É o que se está tentando fazer agora. Mas é lento. Quando eu fui da Comissão Teológica do Vaticano, não tinha nenhuma mulher, agora já tem quatro. Não há dúvidas de que o fim do celibato já deveria ter acontecido, Paulo VI era a favor disso - mas uma coisa destas vai mudar a estrutura.
A questão da contracepção também está mais do que na hora de ser enfrentada.
Mário França: São questões morais que têm se ser mudadas, mas é uma coisa lenta. No papado de João Paulo VI, o cardeal de Bruxelas disse: na minha arquidiocese é permitido camisinha - ele estava com um problema seríssimo de explosão de Aids entre trabalhadores imigrados. Resolveu assumir e disse: aqui é preciso usar camisinha. O Vaticano não disse uma palavra.
A Igreja não vem conseguindo acompanhar as mudanças sociais?
Mário França: São rapidíssimas. Na PUC, a mudança de uma geração para a outra se dava em 20 anos, depois passou para 10, agora com dois ou três anos, você já vê aluno do quarto ano que não consegue entender o calouro. É uma sucessão vertiginosa que não conseguimos mais acompanhar, que provoca um curto-circuito na cultura.
Quem é o mais progressista entre os candidatos a Papa?
Mário França: Os cardeais terão de fazer um perfil de uma pessoa que entenda o mundo e saiba enfrentar esses desafios todos. Tem de ter boa formação pastoral e intelectual, capaz de se cercar de pessoas competentes. Tem um candidato de Honduras, Luis Alfonso Santos, que é uma pessoa muito possível de dar um bom Papa. Sabe línguas, é sensível, mora no país mais pobre da América Central: é uma pessoa que marca pela inteligência. Tem Luiz Antonio Tagle, um filipino progressista também, mas ele é muito novo. Tem 55 anos. Mas eu duvido que queiram colocar um cardeal de 50 anos, pois ele ficaria 30 anos. A turma não quer isso não. Cardeal Ravasi, encarregado da Cultura, também é muito aberto.
Resumindo: o senhor diz que a Igreja tem de mudar?
Mário França: Já está mudando. Ou muda ou acaba. É um momento sério da sociedade, faltam líderes. Onde estão os Churchill, De Gaulle, Adenauer? Não tem mais, está faltando líder. Na Igreja também, e os problemas são muito grandes. As religiões têm um papel muito forte no mundo de hoje, e a Igreja tem de ser uma 
reserva ética, apesar dos mal feitos da cúpula.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O pouso tucano



Em 5 de novembro de 2010, fiz aqui no Blog o post "Cid apoia Aécio: qual é a do PSB?", que reproduzo mais abaixo. Falava sobre a aproximação entre tucanos e pessebistas, na época representados principalmente pelos irmãos Gomes. Hoje a história se repete, dessa vez com o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, encabeçando os pessebistas e com uma grande vantagem sob suas asas - a desintegração tucana. Eduardo Campos hoje é um nome mais forte do que Aécio e representa, sozinho, a força nordestina (que vai tentar tirar um pouco de Lula) mais a classe média conservadora do Sul-maravilha que busca um novo ninho para seus tucanos. Claro que Eduardo Campos conhece suas limitações. Seu partido ainda é pequeno e dificilmente terá condições de vencer a aliança Lula-Dilma-PMDB em 2014. Mas ele pretende crescer no Congresso, tentar mais governos estaduais e aposta no desgaste petista-peemedebista nas eleições seguintes. Vai procurar ser a força nova da política brasileira. Embora saiba que só poderá levantar voo se contar com as asas das forças mais atrasadas...

Cid apoia Aécio: qual é a do PSB?
Este Blog já falou, ainda no ano passado, se não me engano, sobre a aproximação entre o tucano Aécio e o pessebista Ciro Gomes. Seria a possibilidade de um eixo de força política, ligando Minas e o Nordeste e formando o núcleo de uma nova oposição de centro-direita. A fala de Cid Gomes, Governador do Ceará, apoiando Aécio para a Presidência do Senado pode ser o primeiro salto nessa direção. Mas pode também restringir-se a uma questão de voos internos do partido, marcando a rinha entre Eduardo Campos, Governador de Pernambuco, e os irmãos Gomes. Ou ainda pode ser apenas um pouco de chantagem para que o partido se aninhe melhor sob as asas do Governo Dilma. Mais provavelmente, significa um pouco de tudo isso. Seja como for, daqui pra frente, o PSB será outro. O partido saiu bastante fortalecido dessa eleição e vai bater asas em todas as direções na busca de mais espaço nos céus da política. Isso até que alguém resolva cortar suas asinhas de tucano...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Marco Aurélio Mello está errado!


No seu artigo de domingo, dia 10, na Folha, o ministro Marco Aurélio Mello começa com a frase “A ordem natural das coisas possui força insuplantável, norteando a vida em sociedade”. Eu não quis nem saber o que vem depois. Está errado. Não existe “ordem natural das coisas” em questões jurídicas, políticas ou sociais. O que existe é uma ”ordem interpretativa das coisas”. O Supremo existe para interpretar a Constituição. E às vezes interpreta “juridicamente”, às vezes (quase sempre) interpreta politicamente ou por questões pessoais, às vezes sei lá por qual motivo. Não me venha agora dizer que existe uma “ordem natural das coisas”. Papo furado. Não entendo como um Ministro do STF é capaz de dizer algo assim.