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domingo, 30 de maio de 2010

Primeiro-Ministro da Turquia:"Se os outros podem, por que o Irã não?"


Bem boa essa entrevista do Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, para Renata Malkes, do Globo:

O GLOBO: Apesar do acordo, novas sanções ao Irã são cada vez mais iminentes. Qual o próximo passo de Brasil e Turquia para evitá-las? RECEP TAYYIP ERDOGAN: Não há clareza agora. Ainda.
Quando a situação estiver mais clara, vamos decidir o próximo passo. Se o acordo for respeitado pelo Irã, nós, que colocamos nossos nomes, nossas assinaturas naquele documento, não vamos voltar atrás enquanto o Irã se mantiver fiel a esse acordo. O Irã provou ser membro da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), signatário do TNP e cumpriu o que se esperava nesse projeto de troca de urânio.
Por isso, a comunidade internacional deve nos apoiar
O GLOBO: Um dos pontos criticados pelos membros do Conselho de Segurança é o fato de o Irã poder seguir enriquecendo urânio. Por que isso não foi discutido?
ERDOGAN: O enriquecimento de urânio para fins civis pode ser feito no Irã e no resto do mundo. Muitos países enriquecem urânio. Por que estamos tão incomodados? Se outros países podem, por que não o Irã? Vamos falar de justiça e não de injustiça. Se você pressiona o Irã assim, nunca terá resultado algum! Há duas semanas, assinei um acordo com a Rússia para a criar uma usina nuclear na Turquia e vou começar a enriquecer urânio no futuro. E aí dirão à Turquia “não, vocês não podem enriquecer urânio”? Eu vou dizer que é para produzir energia.
Você pode enriquecer e eu não? Isso é inaceitável! A quantidade, sim, essa pode ser discutida.
O GLOBO: Também não houve acordo para permitir novas inspeções da AIEA no Irã . Por quê?
ERDOGAN: Há órgãos competentes, a AIEA, da qual o Irã é membro, além de signatário do Tratado de Não-Proliferação (TNP). Se as organizações internacionais querem inspecionar mais, saber mais, que sigam em frente e investiguem! Se não houver apenas uma usina nuclear, mas uma fábrica de bombas atômicas, então isso pode ser denunciado ao resto do mundo. Mas, isso nunca aconteceu até agora. Não podemos temer uma coisa que não existe.
Nos últimos meses, a imprensa internacional está sendo manipulada contra o favor que nós estamos fazendo. Está sendo atiçada diante de nossa boa vontade. Com o tempo, essa ventania passa e as coisas vão parecer mais positivas. Eu e o presidente Lula sabíamos que falariam contra. Mas, fomos decididos.
O GLOBO: No ano passado, o Irã omitiu a existência de uma usina secreta, em Qom. Diante desse histórico de desconfiança, pode-se confiar no presidente Ahmadinejad?
ERDOGAN: A AIEA não pode criticar as usinas iranianas ou classificá-las como fábricas de armas. A AIEA só fala de possibilidades.
Vamos nos ater aos fatos e não às possibilidades.
A comunidade internacional teme que essas instalações se transformem em fábricas de armas, mas não vejo assim.
Falo a verdade. Claro que considero essa possibilidade, mas não a uso para julgar pessoas.
Se não estamos falando da lei dos supremos, mas da supremacia da lei, temos que falar disso claramente. Os países alegam que haverá armas nucleares no Irã... E há a possibilidade de inocência... Então, vamos provar essas alegações! Enquanto essas alegações não forem provadas, não podemos culpar ninguém. Estamos de mãos dadas com Lula e Ahmadinejad e demos um passo adiante.
O GLOBO: Há uma tentativa de grandes potências impedirem o acesso de emergentes às questões diplomáticas internacionais?
ERDOGAN: Claro! Era função do Conselho de Segurança das Nações Unidas! E os membros permanentes são muito ativos, mas não foram efetivos. Não puderam dar passos concretos para resolver a questão. Não puderam sequer conversar com o Irã. A posição foi “ah, vocês vão falar com o Irã? Tragam-nos alguma conclusão”.
Foi o que nos disseram! O Brasil resolveu um problema significativo.
O Brasil e a Turquia podem resolver problemas no Irã.
E não podemos deixar de questionar: como os membros permanentes não podem resolvê-los? Deveriam ser capazes, mas cometem um grande erro; eles têm que mudar mentalidade e estratégia.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ex-Diretor Geral da AIEA e Nobel da Paz apoia acordo Brasil-Turquia-Irã



Cada vez mais, o acordo promovido pela diplomacia brasileira, que trouxe a possibilidade de um entendimento mundial na questão nuclear iraniana, ganha reconhecimento positivo em todas as esferas da política internacional.
Um apoio importantíssimo acaba de ser divulgado através de entrevista feita pelo Canal France 24 com Mohamed El Baradei, ex- Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU e ganhador do Prêmio Nobel da Paz 2005. Ele inclusive fala de 50% de transferência do urânio iraniano como muito positivo, ao contrário das alegações americanas, que agora exigiriam um mínimo de 70%.
“Acho que é um acordo muito bom. Sempre disse que o único meio de resolver a questão iraniana é pela construção da confiança. Transferir 50% ou mais dá a medida de confiança necessária para neutralizar a crise e dar aos Estados Unidos e o Ocidente espaço para negociação”, declarou Baradei.
Hoje a coluna “Toda Mídia”, além dessa notícia, tem outras sobre o tema:
  • Cita a declaração da ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright ao canal C-Span de que "estamos vendo um mundo muito diferente", em que "outros países tentam mostrar que têm um papel a interpretar. O Brasil claramente tem".
  • Em análise, a CNN avaliou que o país expõe "a crescente insatisfação com a ordem mundial datada e injusta".
  • O canadense "Globe and Mail", em coluna, disse que Brasil e Turquia estão "redesenhando as linhas que dividem as nações do mundo" e cobrou o Canadá por ficar para trás nesta "corrida ao centro".
  • O "Guardian" revela a primeira prova da bomba atômica israelense, publicando documentos sul-africanos de 1975, com a oferta feita por Israel para venda de armas nucleares ao regime do apartheid.
Todos esses fatos revelam o acerto da diplomacia brasileira (apesar das ofensas intermináveis que recebe da oposição fernandohenriqueana). Devemos destacar ainda a carta enviada por Obama a Lula, apoiando a iniciativa brasileira. Por que os Estados Unidos voltaram atrás? Qual a disputa interna que está por trás disso tudo? Qual o verdadeiro papel de Hillary Clinton na Secretaria de Estado? Quem divulgou a carta – terá sido o próprio Obama?
São questões vitais para nosso mundo – e que a Oposição parece desconhecer.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Acordo Brasil-Estados Unidos-Irã


Os Estados Unidos sabem que não há como impedir o avanço do Irã no campo da energia nuclear. O Irã não é Iraque, portanto não dá para resolver a questão na base dos velhos "marines" de mãos dadas com os "Tony boys". Nem dá para investir muito nas sanções da ONU, de eficácia relativa, já que China e Rússia não permitirão unanimidade no Conselho de Segurança apoiando sanções mais rigorosas.
O que os Estados Unidos querem, acima de tudo, é garantia de paz e bons negócios na região (para poderem se dedicar ao Afeganistão). Para isso, procuram ter certeza absoluta de que o Irã não produzirá arma nuclear. Uma das formas de controle seria que o enriquecimento de urânio iraniano fosse feito através de outro país. Claro que China e Rússia não seriam confiáveis. Por razões opostas, Japão (que já se ofereceu) também não. O Brasil se encaixa feito luva no papel. O Brasil tem permissão da AIEA para enriquecimento de urânio a 20%, é um dos países a dominar a técnica, com tecnologia própria, e tem interesse no acordo – por questões comerciais e estratégicas. É natural que Israel chie um pouco, mas todos sabem que, hoje, o acordo via Brasil é a melhor solução. A mídia oposicionista também não aceita, chia sem parar. Mas é apenas uma mídia boba... (Embora não concorde inteiramente com seu teor, sugiro a leitura da coluna de Merval Pereira, publicada hoje no Globo, que reproduzo no post abaixo)

Merval Pereira fala sobre acordo Brasil-Irã


Merval Pereira

O Gabinete de Segurança Institucional, subordinado diretamente à Presidência da República, começou uma série de consultas a órgãos ligados ao programa nuclear brasileiro para receber informações sobre que pontos poderiam servir de base para um eventual acordo com o Irã, a ser assinado na próxima visita do presidente Lula àquele país, em maio.
Se confirmado, esse acordo será mais um passo do governo brasileiro no sentido de blindar o governo iraniano, que vem sendo pressionado para submeter seu programa nuclear, que alegadamente existe para fins pacífico mas tem partes clandestinas, à supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.
O anúncio de que o país já estaria enriquecendo urânio a 20%, o que o torna potencialmente capaz de atingir os níveis necessários para a fabricação da bomba atômica, não foi suficiente para que o governo brasileiro participasse da pressão internacional, insistindo em que está conversando com o Irã para tentar uma saída negociada.
Mas o apoio ao governo de Ahmadinejad retira o Irã do isolamento internacional.
A aceitação de um fato consumado como o enriquecimento de urânio a 20% é explicada nos bastidores pelas autoridades brasileiras como sendo uma posição de autodefesa.
O Brasil já tem permissão de enriquecer urânio a até 20%. Aparentemente, o governo brasileiro não dá relevância ao fato de que o país tem autorização negociada com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para esse nível de enriquecimento, enquanto o Irã está fazendo de maneira clandestina.
Nas instalações de Aramar, em São Paulo, se utiliza uma centrífuga especial para enriquecimento de urânio, que o governo brasileiro protege por ser uma técnica pioneira.
Desenvolvida pela Marinha, é chamada de “levitação magnética”, realizada em uma centrífuga fabricada com tecnologia nacional, que tem velocidade e produtividade maiores.
A inspeção internacional é feita através de amostragem, sem que os inspetores possam ver a centrífuga. É lá em São Paulo que será construído um reator de propulsão naval para o submarino nuclear, mas dificilmente o enriquecimento chegará ao limite de 20%.
Deverá ficar entre 7% e 10%, sendo que os estudos ainda estão em processo.
Em Resende, uma fábrica semi-industrial que deve produzir o urânio necessário para o funcionamento das três usinas nucleares de Angra, o nível de enriquecimento pode chegar a 5%, mas o prazo de licenciamento está chegando ao fim e terá que ser renegociado com a AIEA nos próximos meses.
Também em maio há a reunião internacional para a revisão do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), e a posição brasileira é de não assinar o protocolo adicional que está proposto.
Ele prevê inspeção sobre toda a área, e não apenas pontual, o que vai além das salvaguardas atuais, que são meramente contábeis: um inspetor da AIEA, em visitas sem aviso prévio, conta o urânio que entrou, e depois o que foi enriquecido, e sabe exatamente qual foi o grau de enriquecimento que houve.
O argumento brasileiro é que as salvaguardas existentes hoje são suficientes para estabelecer se o urânio está ou não sendo usado para fins pacíficos. Além do mais, temos dois regimes de salvaguardas, um com a Argentina e outro com a AIEA.
Há também uma proposta de um banco internacional de urânio enriquecido que seria usado por países com questões tão distintas quanto Brasil e Irã, o que não é aceito pelo governo brasileiro.
O fato é que o Brasil, além de ter assinado o TNP, incluiu na Constituição de 1988 a proibição de fabricação e uso de armas nucleares, e o governo, com toda razão, considera que essas evidências, e mais as inspeções contábeis, são suficientes para garantir que o programa brasileiro tem fins exclusivamente pacíficos.
Poucos países dominam a técnica de enriquecer urânio — EUA, Rússia, China, França, Alemanha, Holanda e Inglaterra —, e o Brasil está entre eles. Além do mais, temos hoje a sexta reserva de urânio do mundo com apenas 30% do solo brasileiro pesquisado. A potencialidade é de termos a segundo maior reser va de urânio em poucos anos, só atrás da Austrália.
O problema é que, depois da descoberta do programa nuclear secreto do Irã, a AIEA passou a ser mais rigorosa, exigindo que os países abram cada vez mais seus programas nucleares, especialmente instalações de enriquecimento nuclear com potencial de produzir material utilizável em artefatos nucleares.
Recentemente, já no governo Lula, houve um desentendimento sério entre as autoridades brasileiras e as da AIEA em relação à inspeção de Resende, na tentativa dos inspetores de ver as centrífugas, o que acabou sendo contornado sem que o Brasil precisasse se expor a uma espionagem industrial.
Houve também um quase incidente diplomático por causa de uma tese de doutorado de um aluno do Instituto Militar de Engenharia do Exército (IME), o físico Dalton Ellery Girão Barroso, que destrinchou com cálculos e equações informações consideradas sigilosas sobre uma ogiva nuclear americana.
A agência internacional sugeriu que esse estudo indicava que o país estaria fazendo pesquisas que levariam à bomba atômica, além de revelar segredos que poderiam ser usados por terroristas. O Ministério da Defesa teve que entrar no circuito diplomático para impedir que o livro fosse censurado, como queria a AIEA.
Todo esse cenário indica que uma aproximação cada vez maior do Brasil com o Irã pode trazer problemas para nossas pesquisas no campo nuclear, sem nenhuma vantagem em troca, a não ser uma discutível afirmação política internacional.