segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vergonha! Preparem-se para 2014: Espanha 4x0 Brasil...

 Ontem vimos o retrato do futebol brasileiro: triste, sem imaginação, decadente. Aliás, confesso que nem vi direito o jogo de ontem – estava assistindo a apresentação de balé de minha filha, só vi trechos através do meu smartphone. Mas não perdi nada, porque é o futebol que praticamos todo dia, sob a batuta dos mano menezes da vida. Se ontem foi vergonhoso, imaginem na Copa de 2014: dificilmente estaremos na final... Nosso destino é ser musse do messi.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O desarranjo europeu


O ideograma chinês para se referir a Europa (ōu, em pinyin) significa “desarranjo”.  Talvez, infelizmente, seja exatamente isso o que melhor retrata a Europa que estamos vivendo. Talvez, não. Talvez “desarranjo” seja o que melhor retrata a Europa desde sempre, com suas guerras, seus desequilíbrios permanentes. Mas uma coisa é certa, o sonho da União Europeia é de um arranjo equilibrado, harmônico, bem diferente do que se vê. Talvez fosse apenas mais uma utopia (no grego – epa! – um “não-lugar”) tipicamente europeia. Os idealizadores da União Europeia talvez tenham sido apenas isso, idealistas. Não perceberam que na selva neoliberal “união” não faz parte do vocabulário – é cada um por si, Deus contra todos, como disse brilhantemente nosso “herói sem caráter”, repetido por Werner Herzog como título de filme (“Jeder für sich und Gott gegen alle”, apresentado no Brasil como "O Enigma de Kasper Hauser"). Percebemos, hoje, que na verdade a União Europeia nasceu para aprofundar a desigualdade e, consequentemente, para ser mais desunida. Como bem observou Francesco Saraceno, economista do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas, em entrevista a Deborah Berlinck publicada hoje no Globo (Com desequilíbrio externo, Europa ‘caminha na direção da depressão’), fizeram uma “Europa baseada na ideia de que o crescimento virá de fora. O que tentam fazer hoje é conter a demanda doméstica e a política macroeconômica, esperando que o crescimento venha das exportações. É o modelo alemão, o que é uma loucura”. Uma loucura principalmente porque tentaram empurrar um modelo padrão sem compensações em realidades tão diversas. Como é que a Grécia pode pôr seus produtos no mercado externo com uma economia frágil e uma moeda (euro) supervalorizada? Não dá, não deu. Nem mesmo a Alemanha está conseguindo se dar bem, com endividamento de 81,7% do PIB, bem acima dos 60% estabelecidos para a zona do euro. Depois desse massacre à economia europeia (ou às economias europeias...), o próximo alvo, natural, é a democracia, com forte ameaça de ressurgimento de governos autoritários. Sinceramente, a Europa não merece passar por mais uma dessas. Não existe desarranjo maior do que virar terra de gregos e germanos.

Abaixo, entrevista de Francesco Saraceno, texto distribuído pela Agência O Globo.
É melhor uma Europa menor e mais integrada
Francesco Saraceno
O economista Francesco Sarace­­no, do Observatório Francês de Con­­junturas Econômicas (OFCE), es­­tá inquieto: para ele, a nova União Europeia (UE) que está emergindo sob as rédeas da Ale­­manha vai caminhar para o buraco, se seguir o modelo rigoroso e ex­­por­­tador da chanceler Angela Merkel.
Mas a decisão de 26 países de avançar na integração, deixando de fora o Reino Unido, que se recusa a seguir, diz ele, vai salvar o euro. Melhor uma Europa integrada menor, do que uma grande ineficaz, argumenta.
O Globo: A cúpula de Bruxelas decidiu por uma UE em duas velocidades: um grupo avança com a reforma do euro, outro fica de fora. Não é isso que deveria ser evitado?
Francesco Sarace­­no: Esta é praticamente a única boa notícia. Houve um reconhecimento de que não é possível avançar com toda a UE. E ficou clara a vontade dos que querem avançar. A cúpula não poderia acabar sem uma decisão. Precisamos de uma Europa mais integrada. Se isso só vai acontecer com uma parte dos 27 países mem­­bros da UE, que seja. É arriscado, há algumas armadilhas, mas no longo prazo é melhor uma zona do euro menor, integrada e que coopera, do que uma maior que funciona mal.
O Globo: Um novo tratado com 26 países não será difícil de negociar?
Francesco Sarace­­no:Tentar um novo tratado com 27 países, alguns deles resistindo, nunca vai funcionar. Precisamos deixar claro que a Europa vai avançar com quem quiser realmente. Um novo tratado não deverá ser problema, porque a decisão foi bastante consensual. E não será problema especialmente se os europeus convencerem os mercados e outros atores de que o que estão fazendo faz sentido. Se você me perguntar: a direção que estão tomando é boa? Não. Acho que estão na direção errada. Falar sobre isso é como abrir uma caixa de Pandora [segundo a mitologia grega, ela libera todos os males do mundo, quando aberta]. O importante é que, metodologicamente, comecemos a pensar em fazer algo sério com os querem fazer parte. E os que não querem… Não significa que a UE não vai trabalhar com eles ou que a UE não funcionará.
O Globo: O Reino Unido está se distanciando da UE. O que pode acontecer com o país?
Francesco Sarace­­no: Não sei. Não estou nem certo de que isso é duradouro. Não sei como os britânicos vão conseguir resolver, até mesmo diante da opinião pú­­blica deles, o fato de que são os únicos que não querem avançar na integração. Quantos meses ou anos o Reino Unido vai conseguir se isolar? Em 1960, o país optou por ficar fora da UE. Só queria ter acordo de livre comércio com Áus­­tria, Suíça, Noruega etc. Isso durou menos de um ano. A força da atração da UE foi tão grande que o Rei­­no Unido rapidamente voltou [pa­­ra a Comunidade Europeia, como era chamada a UE na época]. Se con­­­­seguirmos construir um bloco integrado e bem-sucedido, a médio prazo isso atrairá quem estiver fora.
O Globo: O Reino Unido resistiria estando fora da UE?
Francesco Sarace­­no: Não poderia ficar fora de uma UE que funciona. Se ela fun­­cionar, aposto que em cinco, seis ou sete anos, os britânicos voltam.
O Globo: Que UE está surgindo?
Francesco Sarace­­no: A Alemanha conseguiu quase tudo o que queria: um euro baseado em austeridade fiscal, que nega qualquer papel para política macroeconômica, e acha que é virtude ter superávit na conta corrente. É uma Europa baseada na ideia de que o crescimento virá de fora. O que tentam fazer hoje é conter a demanda doméstica e a política macroeconômica, esperando que o crescimento venha das exportações. É o modelo alemão, o que é uma loucura.
O Globo: Por quê?
Francesco Sarace­­no: É uma loucura porque se todo mundo fizer isso, vamos ter de fazer comércio com o planeta Marte. Não se pode ter um mundo em que todos só exportam. Até os chineses entenderam isso. A China tem passado os últimos dez anos tentando reequilibrar o seu modelo de crescimento na direção da demanda interna.
O Globo: A Alemanha no comando da UE então é ruim?
Francesco Sarace­­no: Não necessariamente. Na His­­tória, há sempre um país dominante liderando o caminho. Logo no início, foi a França, com Jean Monnet, depois a França, com François Mitter­­rand, de­­pois França com a Alemanha de Helmut Kohl [ex-chanceler do período da reunificação alemã]. Está claro que é preciso li­­derança. Mas a Alemanha está liderando a UE na direção errada e impondo uma visão que não vai mudar. Acham que fizeram tudo certo, então, defendem que todo mundo tem que agir como eles. Isso é um erro, porque os problemas da Europa são de desequilíbrio externo: alguns países exportando muito e outros importando muito. Os países do sul precisam gastar menos e arrumar a casa. Mas, ao mesmo tempo, os que gastam pouco precisam gastar mais. Se o Sul para de gastar e o Norte também não gasta, o resultado será depressão. E estamos indo nessa direção.
O Globo: O senhor não está otimista quanto ao futuro do euro?
Francesco Sarace­­no: É uma questão difícil. Acho que o custo do fim da zona do euro seria tão alto que o euro não vai acabar. Nesse sentido, não estou pessimista: não sou o profeta do pior. Acho que vão fazer o que for necessário. Minha preocupação é o modelo que estão escolhendo, que é frágil. O maior risco não é a implosão do euro: é uma década perdida para a economia europeia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sarah Palin será a adversária de Obama?


Sarah Palin, aquela figura estranha que foi Governadora do Alaska e concorreu à vice-presidência na última eleição americana, ainda pode ser a escolhida do Partido Republicano para enfrentar Obama em 2012. Quem avisa é Rhodes Cook, colunista sênior do Sabato’s Crystal Ball, em artigo de hoje (texto completo clicando aqui). Segundo ele, a chance de Sarah Palin aumenta em função do calendário das primárias republicanas que, dessa vez, concentra maior número de eleições mais para o final. Se os principais nomes republicanos não desencantarem logo de início, darão chance aos ultraconservadores para lançar um nome como o de Sarah Palin. Vejam o texto (parcial):
Corrida republicana 2012: o cenário talvez não esteja definido 
Rhodes Cook
A sabedoria convencional diz que o cenário republicano na corrida à presidência está definido, e que é tarde demais para um novo candidato entrar na corrida.
Nos últimos anos, isso seria absolutamente correto. Ao longo das últimas décadas, dezenas de primárias e caucuses foram encaixadas na semana de abertura do ano eleitoral, com a tendência, no campo republicano, de seu candidato líder realizar nocaute rápido.
Mas, no próximo ano, o arranjo do calendário das primárias é muito diferente. É menos condensado no início, muito mais carregado de eleições na parte final, com a perspectiva bem real de um candidato de última hora tornar-se uma alternativa viável.
Não quer dizer que isso vá acontecer, mas é uma possibilidade. Tal cenário não poderia acontecer em 2008, quando as eleições de janeiro foram seguidas de perto pelas votações de uma Super Terça-Feira de Fevereiro que envolveu quase metade do país.
Mas o perfil alongado do calendário de votações de 2012 cria a oportunidade para um candidato de última hora. Se Mitt Romney se der mal nas primárias de janeiro em Iowa, New Hampshire, Carolina do Sul e Flórida, outro republicano talvez possa entrar na corrida no início de fevereiro e ainda competir diretamente em estados com pelo menos 1.200 dos 2.282 delegados do Partido Republicano. Muitos deles estarão na disputa após 1º de abril, com as primárias do tipo “leva-tudo” de alguns estados.
Da mesma forma, se as alternativas Newt Gingrich, Michele Bachmann e Rick Perry caírem por terra em janeiro, haverá tempo para a ala conservadora do partido encontrar um novo líder para levar a sua bandeira pela maior parte das primárias.
Em alguns aspectos, o perfil do calendário das primárias de 2012 assemelha-se ao de 1976, começando no auge do inverno com as eleições de Iowa e New Hampshire e crescendo com a da Califórnia no início de junho. Naquele ano, o presidente Gerald Ford e o ex-governador da Califórnia Ronald Reagan lutaram delegado por delegado até Ford prevalecer na convenção do verão em Kansas City. Foi a primária republicana mais acirrada e mais longa dos últimos 40 anos.
No lado democrata, esse arranjo de final de calendário estimulou duas pré-candidaturas no final de 1976, a do governador Jerry Brown, da Califórnia, e a do senador Frank Church, de Idaho. Cada um venceu várias primárias de primavera. Mas eles montaram suas campanhas muito tarde para compensar os delegados conquistados pelo ex-governador da Geórgia, Jimmy Carter, em sua campanha longa.
Oito anos antes, o senador Robert Kennedy, de Nova York, teve muito mais sucesso em sua estratégia de campanha curta. Ele entrou na corrida democrata após a primária de New Hampshire e começou a colecionar vitórias importantes, culminando com um triunfo “leva-tudo” na Califórnia no início de junho. Se ele não tivesse sido baleado na noite de sua vitória na Califórnia, Kennedy poderia ter tomado do vice-presidente Hubert Humphrey a indicação para a candidatura. A campanha inacabada de Kennedy é um dos mais intrigantes "e se fosse diferente?" da história americana.

Henfil continua



Sempre admirei o Henfil. E admiro também a batalha do Ivan para manter o trabalho do pai mais vivo do que nunca. Recebi esse e-mail do Ivan:
Amanhã (hoje, dia 8), vai ter aqui no Rio a entrega do 3º troféu Henfil, da Associação dos Voluntários do HemoRio.
No meio de 2009, eu adaptei este desenho da Graúna, que tinha sido feito pelo meu pai na dedicatória de um livro, e desenhei o fundo de uma bolsa de sangue, oferendo para a campanha do HemoRio. Entrei em contato com as pessoas que eu conheço na Globo, e consegui fazer veicular uma animação na programação, e sair também no O Globo (meia página), umas 4 ou 5 vezes.
A Associação já dava este prêmio aos voluntários (pessoas físicas, gráficas, imprensa, agências, empresas) que ajudavam de alguma maneira, mas ele nunca teve nome, e neste ano (2009), resolveram batizá-lo de "Troféu Henfil" e usar a imagem para confeccionar o troféu. Fico contente por minha iniciativa ter rendido frutos.
Quem puder, apareça por lá e divulgue este prêmio, que incentiva a imprescindivel participação de voluntários nas atividades do HemoRio.
Abraços
Ivan

Instituto Henfil
Ivan Cosenza de Souza
21-2229 4850
21-9872 3269

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Classificação real do Brasileirão


Não gosto de discutir futebol, porque é tudo baseado em muita paixão, onde ninguém tem razão. Por isso resolvi criar um Código Secreto de Objetividade (CSO) para definir os dez melhores (de fato) times desse Brasileirão:   
  1. Santos (Neymar e Ganso fazem a diferença)
  2. Vasco (Ricardo Gomes/Cristóvão, Juninho Pernambucano, Felipe, Dedé, Diego Souza, etc. fizeram um novo Vasco)
  3. (nenhum mereceu ser o terceiro melhor)  
  4. Flamengo, Fluminense, Internacional (saíram-se muito bem; destaque para Ronaldinho, Felipe, Fred e Dorival Júnior)
  5. ...   
  6. ...   
  7. Figueirense (emocionante)
  8. Coritiba (bela surpresa)
  9. São Paulo (grande decepção)
  10. Corinthians, Palmeiras (empataram na ruindade)
Obs.: bem que eu gostaria que o Botafogo estivesse entre os 10, mas o rigor do CSO não permitiu - que pena...
E não se discute!

domingo, 4 de dezembro de 2011

"A Europa está entregue aos especuladores. É preciso romper com os neoliberais", declarou Mário Soares


Entrevista publicada no Globo do ex-presidente português.

RIO - Mário Soares respirou política e socialismo a maior parte de seus 86 anos. Referência na esquerda portuguesa e europeia, ele abre o verbo diante do terremoto econômico e político que ameaça seu país e o continente, ao defender a democracia do assédio dos mercados. De sua boca saem palavras como "vergonha", "roubalheira", "criminosos" quando se refere aos especuladores e às agências de classificação de risco e à forma como vêm se impondo sobre os governantes europeus. Ex-premier, ex-presidente e europeísta, Soares acaba de lançar em Portugal a autobiografia "Um político assume-se". Na véspera da segunda greve geral no país este ano, há dez dias, ele encabeçou, com outros políticos e intelectuais, o manifesto "Mudança de rumo", atacando o neoliberalismo e incentivando os portugueses a saírem às ruas para protestar contra as medidas de austeridade: "Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina", diz ele, por telefone, da fundação que leva seu nome, em Lisboa.

Sandra Cohen: O senhor declarou que se a Europa não mudar, haverá uma revolução. O que é preciso mudar diante de tão grave cenário econômico?
MÁRIO SOARES: É mudar o modelo econômico, acabar com essas aventuras do neoliberalismo, com essas roubalheiras, com a economia virtual, com as agências de risco, que estão a descontrolar completamente a vida não só da Europa, mas do mundo inteiro. É preciso uma mudança de paradigma, uma ruptura. O que é extraordinário é que os dirigentes políticos atuais, aqueles que mandam ou que julgam que mandam, como é o caso da senhora Merkel e do senhor Sarkozy, não mandam. Quem efetivamente manda hoje são os mercados, não são os Estados. Os mercados e as agências de classificação de risco começam a dizer coisas, e as finanças mudam completamente às custas deles. Os Estados só obedecem. É absurdo que sejam os mercados a mandar. Sou a favor de uma sociedade em que haja o mercado livre, mas com regras éticas e disciplina.  
Sandra Cohen: Houve então uma distorção dos princípios da União Europeia?
SOARES: Houve uma total distorção e não só na União Europeia como em toda parte. Mesmo na ONU. Quando aparece uma série de organizações, como G-7, G-8 e o G qualquer coisa, são criações para acabar e destruir com a ONU e que paralisam os fenômenos. Veja, por exemplo, os Objetivos do Milênio, que foram assinados por cerca de cem chefes de Estado. Eram as melhores metas e não se fez nada até agora. Está tudo assim, descontrolado. E não é só na Europa e por causa do euro. Tudo está em causa. Li um artigo de uma autoridade do Reino Unido já cogitando o futuro depois do euro. Por que a libra esterlina não acaba? Porque há emissões sobre emissões, assim como se faz com o dólar nos EUA. Se o Banco Central Europeu fabricasse moeda, esses problemas desapareceriam. Mas tudo está entregue aos especuladores, que só se interessam em ganhar dinheiro e fazer fortuna.
Sandra Cohen: O senhor estava à frente de Portugal quando o país aderiu à União Europeia...
SOARES: Aderimos no mesmo dia que a Espanha, após oito anos de negociações difíceis. Foi um acontecimento imenso para a Península Ibérica e para a América Latina. Depois da nossa Revolução dos Cravos e da redemocratização da Espanha, após a morte de Franco, houve uma série de rupturas e mudanças em diversos países. Mas veio a queda da ideologia comunista e os americanos se acharam donos do mundo e lançaram o neoliberalismo, do qual estão sendo vítimas, como nós, europeus. Queremos agora outra revolução, uma ruptura com o neoliberalismo. Começaremos vida nova, com novo projeto de desenvolvimento.
Sandra Cohen: Qual a responsabilidade dos socialistas nessa crise?
SOARES: As duas famílias ideológicas que fundaram a UE foram, de um lado, os socialistas ou social-democratas, que são a mesma coisa exceto em Portugal. E de outro, as democracias cristãs. Foram essas famílias que fizeram esse projeto europeu, que era um farol e um exemplo no mundo inteiro. Foi o projeto mais importante que se fez no mundo, um projeto de paz, de justiça social e bem-estar para as populações, respeito pelos direitos humanos e pelas democracias. Isso nos deu um grande desenvolvimento. O mundo olhava para a União Europeia como um projeto extraordinário. Não é por acaso que povos que se debateram em duas guerras cruentas no século XX tenham vivenciado mais de 50 anos em paz. É isso tudo que está em causa hoje com essas mudanças econômicas e com esses especuladores, que são verdadeiros criminosos.
Sandra Cohen: Mas em que os socialistas erraram?
SOARES: Houve um socialista inglês chamado Tony Blair, que nunca foi socialista, que enganou as pessoas, mas não a mim. Ele tentou colonizar o Partido Socialista em função do que chamou de Terceira Via, que era uma ligação ao neoliberalismo. E muitos socialistas europeus prevaricaram com seus partidos, que entraram em crise e em decadência. E, por outro lado, houve quem colonizasse as democracias cristãs como partidos populares, que são outra coisa.
Sandra Cohen: Como o senhor vê os governos que são liderados por tecnocratas, como Grécia e Itália?
SOARES: Da pior maneira, isso ofende a democracia, onde tudo deve ser decidido pelo voto. Não faz o menor sentido.
Sandra Cohen: O que o senhor acha do governo do primeiro-ministro português, o social-democrata Pedro Passos Coelho?
SOARES: Ele é um homem sério, decente e um patriota. Mas é um neoliberal. Não é da minha família política. Não é com austeridade que se resolvem problemas como os que temos em Portugal. Temos que ter uma certa austeridade, mas não que arrase o crescimento econômico e faça subir o desemprego como está ocorrendo. Senão, daqui a um ano, teremos imposto muitos sacrifícios aos portugueses e estaremos ainda pior.
Sandra Cohen: Na semana passada, o senhor liderou um manifesto criticando as medidas de austeridade em Portugal...
SOARES: Não fui contra. Num momento em que Portugal estava numa situação muito difícil e sem liquidez, fui partidário de pedir dinheiro à Europa. Mas não é justo que senhores que vêm da troika (comitê formado por FMI, do BCE e Comissão Europeia) possam governar Portugal porque temos pouco dinheiro ou estamos em dificuldade.
Sandra Cohen: O senhor cogitou criar um novo movimento paralelo ao Partido Socialista, como foi especulado?
SOARES: Não, de jeito nenhum, é pura especulação. Fui um dos fundadores do PS, fui socialista durante toda a minha vida política ativa e nunca deixarei de ser. Nunca pensei em criar um movimento próprio.

O futebol ficou mais fraco: morreu o Doutor...



Obrigado, Sócrates, por tudo que fez. Não precisava ter tomado tanta "cicuta"...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Bonner & Fati

O Meia Hora, do Rio, ganhou destaque no hall da fama dos grandes mancheteiros com essa manchete:

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Manuel Castells, o euro e a democracia na Europa


“A quem serve o euro?”, pergunta o sociólogo Manuel Castells, dando destaque à verdadeira questão europeia do momento. É a resposta a essa pergunta que define os rumos das velhas democracias do Velho Mundo. Como temos dito neste Blog, a defesa do euro, nesse cenário de crise, serve unicamente aos bancos e governos franceses e alemães. São eles que estão decidindo pela mídia e pela política da UE. E já demonstraram claramente o desprezo pela democracia, quando ameaçaram a Grécia de Papandréou por convocar um referendo legítimo para decidir sobre a economia. Também demonstram esse desprezo ao influenciar no enfraquecimento de líderes e na eleição de novas lideranças neoliberais sintonizadas com seu poder. Não há salvação para o povo europeu enquanto se der prioridade à salvação do euro – basicamente é o que conclui Castells em seu artigo (publicado dia 12 no La Vanguardia e que, para minha surpresa, Cesar Maia traduz trecho no seu Ex-Blog de hoje).
A seguinte, o trecho traduzido por Cesar Maia e em seguida o artigo completo em espanhol.
MANUEL CASTELLS: "NÃO SE TRATA DE SALVAR O POVO, MAS DE SALVAR O EURO"!           
(La Vanguardia, 20)  1. O problema não é a complexidade da crise, mas a democracia. O que os políticos mais temem nesses momentos é que os substituamos, que roubemos deles esse poder delegado que mantêm, por um mecanismo controlado de eleições entre opções enquadradas nos limites do sistema, e legitimadas pela mídia.
2. Na realidade, não se trata de salvar o povo, mas de salvar o euro, como se fossem a mesma coisa. Por que tanto interesse? E de quem? Porque dez dos 27 membros da União Europeia vivem sem o euro e algumas de suas economias (Reino Unido, Suécia, Polônia) são muito mais sólidas que a média da União Europeia? Defender o euro até o último grego é a primeira linha de defesa para uma moeda que está condenada porque expressa economias divergentes e que não têm um estado que a respalde. Com Portugal e Irlanda na UTI, a Espanha na corda bamba, e uma Itália em permanente crise política e endividada até o pescoço de seu ex-líder, a defesa franco-germânica do euro tem outras explicações.
3. A primeira razão é obvia: salvar os bancos, principalmente os alemães e franceses, que emprestaram sem garantias para a Grécia e aos demais PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) mediante a manipulação de contas praticada, pelo menos no caso da Grécia, pela consultoria da Goldman Sachs (certamente, deve ser simples coincidência que Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu também foi empregado da Goldman Sachs).  De início, já aceitam que precisarão esquecer 50% da dívida da Grécia. Mas os outros 50% têm que ser tirados do sangue, suor e lágrimas dos gregos, para que o não pagamento não acabe impune.
4. Quebram os países para que os bancos não quebrem. Mas por que se faz isso? No fim, os Merkozy [Merkel e Sarkozi] não são funcionários dos bancos. Têm seus interesses políticos, nacionais e pessoais. A Alemanha necessita realmente que o euro seja a moeda europeia e que seus sócios não possam desvalorizá-la. Porque o modelo de crescimento alemão é na realidade, o mesmo que o chinês: crescer por meio de exportações favorecidas por uma moeda subvalorizada. Se houvesse um euro-marco forte, a Alemanha perderia mercados na Europa perderia competitividade em relação a exportações espanholas ou italianas.
5. Mas há outra dimensão político-pessoal. Tanto Merkel quanto Sarkozy precisam estabelecer sua liderança europeia por razões de política interna e por projeto de grandeza nacional que é preciso disfarçar, para não despertar velhos fantasmas. E as outras elites políticas europeias? O sentimento de serem europeus, em um mundo em mudanças desde a América do Norte até a Ásia, dá-lhes a impressão de ser algo mais que produtos aldeanos do aparato de partido que tanto desprezam.
6. E o sonho europeu? Ele pode ser construído com as pessoas, amando-nos uns aos outros, em vez de ver quem paga a conta. Quando pensar em euro, pense fraude. Quando pensar em Europa, pense amigos.
¿A quién sirve el euro?
Manuel Castells
Ya no cabe duda sobre el talante antidemocrático de la UE. La propuesta de Papandreu de preguntar a sus conciudadanos si aceptaban vivir en austeridad espartana para poder pagar en euros desencadenó una tormenta financiera y política que entre amenazas e improperios de Merkozy y Cameron provocó la crisis del Gobierno griego y puso al país patas arriba.
¿Qué hay de malo en que la gente decida sobre su salud, su educación y su empleo? ¿Son temas demasiado complejos para el populacho? No exageren, que algunos tenemos más estudios que los mandamases. Con algunos colegas me comprometo a explicar clarito a los ciudadanos de qué va el euro y su crisis y a quiénes benefician y perjudican y cuáles son las distintas opciones posibles, incluida el repatriar al euro a Bruselas. A condición naturalmente de tener la misma información que se reservan financieros y gobernantes. El problema no es de complejidad, sino de democracia. A lo que más temen los políticos en estos momentos es a que los ocupen, a que les arrebaten ese poder delegado que mantienen mediante un mecanismo controlado de elecciones entre opciones encerradas dentro de límites sistémicos y legitimadas mediáticamente. Un referéndum, sin ser una forma perfecta de decisión popular, abre el abanico de posibilidades, siempre y cuando sea limpio. Había que ver a asesores políticos europeos aconsejando que si se hacia el referéndum se hiciera con una pregunta inteligente, o sea sesgada hacia lo que conviene. Hay, profundamente, arrogancia elitista y repulsión hacia la voluntad popular, por mucho que se disimule. Porque aunque se equivocara el pueblo, tiene derecho a hacerlo. Ya pasó el tiempo de los que nos salvaban porque no sabíamos lo que hacíamos.
En realidad no se trata de salvar al pueblo, sino de salvar al euro, como si esto fuera equivalente. ¿Por qué tanto interés? ¿Y de quién? Porque diez de los veintisiete miembros de la UE viven sin euro y algunas de sus economías (Reino Unido, Suecia, Polonia) son mucho más sólidas que la media de Unión. Defender el euro hasta el ultimo griego es la primera línea de defensa para una moneda que está condenada porque expresa economías divergentes y no tiene un estado que la respalde. Con Portugal e Irlanda en la UVI, España en la cuerda floja y una Italia en permanente crisis política y endeudada hasta las orejas de su histriónico ex líder, la franco-germana defensa del euro tiene otras explicaciones que la historia de terror que nos cuentan sobre la catástrofe financiera que ello implicaría con efectos devastadores en nuestro cotidiano como si la vida dependiera de la bolsa. La primera razón es obvia: salvar a los bancos, sobre todo alemanes y franceses, que prestaron sin garantías a Grecia y demás PIGS mediante la manipulación de cuentas que, al menos en el caso de Grecia, hizo la consultoría de Goldman Sachs (Por cierto, debe ser simple casualidad que Draghi, el flamante nuevo presidente del BCE también fuera empleado de Goldman Sachs). De entrada ya tienen que olvidarse del 50% de la deuda de Grecia, aunque no está claro quién acabará pagándola. Pero el otro 50% lo tienen que sacar de la sangre, sudor y lágrimas de los griegos, prestándoles nuestro dinero, para que el impago no quede impune. Si Grecia denunciara la deuda, como hizo Islandia a quien le va tan ricamente, un dracma devaluado en 60% haría impagable el resto de la deuda. Más aun, el efecto contagio en mercados financieros llevaría al impago de gran parte de la deuda soberana, llevando a la quiebra a los bancos que se aprovecharon del euro para prestar sin solvencia.
O sea, se trata de salvar a unos bancos concretos y, en términos más amplios, evitar una nueva crisis del sistema financiero. Se quiebran países para no quebrar bancos. ¿Pero por qué se hace? Al fin y al cabo, los Merkozy no son empleados de banca. Tienen sus intereses políticos, de país y personales. Alemania es la que realmente necesita que el euro sea la moneda europea y que sus socios no puedan devaluar. Porque el modelo de crecimiento alemán es en realidad el chino: crecer mediante exportaciones favorecidas por una moneda subvalorada y reducir salarios (reducción del 2% en términos reales en el último quinquenio). Si hubiese un euro-marco fuerte, Alemania perdería mercados en Europa y competitividad respecto a exportaciones españolas o italianas. Pero hay otra dimensión político-personal: tanto Merkel como Sarkozy necesitan establecer su liderazgo europeo tanto por razones de política interna como por proyecto de grandeza nacional que se tiene que disfrazar de europeo para no despertar viejos fantasmas. ¿Y las otras élites políticas europeas? Algo semejante ocurre, su importancia personal y de país se realza siendo cola del león europeo porque la ratonez de su ámbito les viene estrecha. Sentirse europeos, en un mundo en tránsito desde Norteamérica a Asia, les da la impresión de ser algo más que productos aldeanos del aparato de partido que tanto desprecian.
¿Y nosotros en todo esto? Cierto que el desbarajuste financiero que ocasionará (no hay errata de tiempo de verbo) el advenimiento de la euro-peseta causará problemas de transición en la economía y en nuestros bolsillos, en condiciones que dependen de cómo se produzca la transición. Pero se recuperaría la soberanía de política económica, se ajustaría la realidad monetaria y financiera a la economía real, se incrementaría la competitividad, ganando mercados externos e internos, habría una explosión de turismo que sería a precios de ganga. Se podría reactivar la economía emitiendo moneda. Y por tanto se incrementaría el empleo. Porque lo esencial es crecer, no flagelarse. Claro: habría inflación. Pero es la mejor receta para reducir deuda, incluida la de su hipoteca.
¿Y el sueño europeo? Pues hagámoslo con la gente, amándonos los unos a los otros, en lugar de ver quién paga la cuenta. Cuando piense euro, piense estafa. Cuando piense Europa, piense amigas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Parabéns, Rio! Parabéns, Brasil!

A conquista da Rocinha realizada ontem pelo Estado do Rio de Janeiro, com apoio federal e municipal, vai além da vitória das forças de segurança contra os barões do tráfico. Significa um passo importantíssimo pela democracia e pelas desigualdades sociais. Mais do que o domínio da droga e da violência armada, o que existia ali - e em outros locais semelhantes - era o domínio do atraso. Os benefícios sociais estavam impedidos de subir a favela por causa de suas barreiras medievais. Ao contrário do que alguns podem crer, não havia Robin Hood na parada. Vivia-se sob o domínio do medo, sem acesso a nada. Contraditoriamente, o traficante Nem dava valor a certas conquistas sociais. Quando foi preso, fez questão de ligar para a mãe e aconselhar seus próprios filhos a não deixarem de ir à escola. Sem contar que ele declarava - e até pagava! - o Imposto de Renda... Significativamente, as pessoas que estavam ao meu lado (eu estava no interior do Rio), continham as lágrimas assistindo o discurso de Sérgio Cabral comemorando o feito. O dia13 de novembro de 2011 tornou-se histórico, passou a marcar uma espécie de Abolição da Escravatura na Rocinha (aliás a Princesa Isabel morreu em um 14 de novembro).
Nota: somente agora, dia 15, li a entrevista que Nem deu a Ruth de Aquino na revista Época do dia 11. Emocionante. Faz bem ler. Aqui.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Europa, entre o lengalenga e o bunga bunga


A Grécia de Papandréou deu uma contribuição imensa à salvação da Europa ao propor um referendo para julgar a “ajuda” da União Europeia nos termos prussianos que foram “oferecidos”. Era oportunidade única para demonstrar a democracia europeia em todo o seu esplendor. Os bancos franco-germânicos não concordaram. E a Europa, antes magnífica, continua sua nova sina de bundalelê, sem salvação nem à vista nem a prazo. O pior é que a justificativa mais comum para esse estado bunga bunga seria o excesso de bem-estar social europeu – uma forma óbvia de ocultar o mal-estar social do neoliberalismo. Quem vai salvar a Europa não sei. Mas sei, com certeza, que não serão Sarkozy e Merkel. Nem serão recessão e desemprego. Nem será o lengalenga que tomou conta das análises políticas e econômicas. Prefiro ficar com esse ótimo texto de Paul Krugman, “Legends of the Fail”, do último dia 10, que a Folha traduziu hoje.

Lendas do fracasso
Paul Krugman
É assim que o euro termina - não com uma explosão, mas com bunga bunga. Não muito tempo atrás, os líderes europeus insistiam em que a Grécia podia continuar na zona do euro e pagar suas dívidas na íntegra. Agora, com a Itália caindo em um precipício, é difícil imaginar de que modo o euro poderia sobreviver.
Mas qual é o significado do fiasco do euro? Que lições extrair?
Ouço duas alegações, ambas falsas: os problemas da Europa refletem o fracasso dos Estados de bem-estar social como um todo, e a crise europeia confirma a necessidade de austeridade imediata nos EUA.
A primeira alegação está sendo feita por republicanos como Mitt Romney, que acusou Obama de se inspirar nos "socialistas democratas" europeus e disse que "a Europa não está funcionando nem na Europa". A ideia é que os países em crise enfrentam problemas devido ao peso dos gastos governamentais.
Mas os fatos dizem o oposto.
É verdade que toda a Europa oferece benefícios sociais mais generosos - entre os quais serviços universais de saúde - e registra gastos governamentais mais altos que os EUA. Mas os países hoje em crise não oferecem mais bem-estar social do que os que estão se saindo bem.
Na verdade, a correlação indica o oposto. A Suécia, famosa por benefícios generosos, tem ótimo desempenho e é um dos poucos países cujo PIB atual é maior que o de antes da turbulência. E o "gasto social" em todos os países hoje em crise era menor do que na Alemanha.
A crise do euro, portanto, nada diz sobre a sustentabilidade dos Estados de bem-estar social. Mas justifica a necessidade de apertar os cintos numa economia já deprimida? Dizem-nos que os EUA têm de cortar gastos agora ou poderemos terminar como a Grécia. Os fatos também contam história diferente.
Primeiro, o fator determinante para os juros não é a dívida do governo, mas sim se a captação é feita em moeda nacional ou não. O Japão tem dívida bem maior que a italiana, mas os juros sobre os títulos japoneses de longo prazo são de cerca de 1%, ante 6% na Itália. As perspectivas fiscais britânicas parecem piores que as espanholas, mas o Reino Unido pode captar pagando 2% de juros; a Espanha paga quase 6%.
Na prática, ao adotar o euro, Espanha e Itália se reduziram à situação de países do Terceiro Mundo que precisam tomar empréstimos na moeda alheia, com toda a perda de flexibilidade que isso implica.
Por não poderem imprimir mais dinheiro em situações de emergência, os países da zona do euro ficam sujeitos a perturbações em sua captação que não afligem países capazes de tomar empréstimos em suas próprias moedas, como os EUA.
A austeridade, por sua vez, fracassou em todo lugar no qual foi tentada. Nenhum país com dívidas significativas conseguiu cortar gastos a ponto de recuperar o apreço dos mercados. A Irlanda, por exemplo, é o bom menino da Europa: respondeu à crise com medidas ferozes, que levaram o desemprego a mais de 14%. Mas os juros pagos pelos títulos irlandeses ainda superam os 8% - mais altos que os italianos.
Moral da história: devemos ter cuidado com ideólogos que tentam aproveitar a crise europeia para promover suas agendas. Se ouvirmos o que eles dizem, agravaremos ainda mais os nossos problemas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Grécia vai reinventar a Europa


Como Tales de Mileto (o primeiro filósofo ocidental, um grego que nasceu onde hoje é a Turquia), Geórgyios Papandréou é um grego que nasceu fora (Saint Paul, Minnesota, USA), estudou em Toronto, Amherst (Massachussets), Estocolmo, Londres e Cambridge (na Universidade de Harvard, também Massachussets). Formou-se em relações internacionais, economia e sociologia. Seu avô foi três vezes primeiro-ministro grego. Seu pai também foi. Foi para a Grécia com a volta da democracia, em 1974, e tornou-se ativista do mesmo partido do seu pai, o Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK, na sigla em grego). Quer dizer – embora tenha a cara do Patácio Peixoto da novela “Cordel “Encantado”, não tem nada de bobo. E acaba de provar isso, colocando no bolso todos os grandes líderes europeus, principalmente Sarkozy e Merkel. Quando todos achavam que Papandréou aceitaria feliz o “perdão” de 50% da dívida grega, ele deu um golpe de mestre, resolvendo submeter a aprovação do “acordo” a um referendo popular. Na verdade, esse “perdão” de 50% só agradou ao mercado financeiro. Na prática, a dívida continuava impagável (120% do PIB grego) e continuava exigindo um plano de austeridade máxima, com  redução de salários de servidores e aumento de impostos. Em outras palavras, fim de papo para o povo grego. Nem Papandréou nem a democracia teriam condições de se manter de pé. A resposta do referendo, caso aconteça, é óbvia: rejeição dos termos do “perdão”, fortalecimento de Papandréou e da democracia. Claro que os bancos franceses e alemães estão em pânico, que são os que têm mais a perder com o calote que se aproxima. França e Alemanha terão que agir rápido, se querem manter a União Europeia viva. Possivelmente providenciarão novo “perdão” que deixará a dívida grega em 85% do seu PIB. Caso não façam, o calote será inevitável e necessário para a sobrevivência grega. De um modo ou de outro, o atual modelo da União Europeia, onde o comércio só favorece um lado da balança, terá que ser repensado. E isso graças à ousadia e malandragem de Papandréou – embora , curiosamente, a opinião do Globo de hoje declare que ele, “com a manobra, (tenta) salvar seu futuro”. Pode ser que ele esteja salvando o futuro da Europa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cesar Maia e a doença de Lula

Cesar Maia fez o texto abaixo no seu Ex-Blog de hoje:

A ABSURDA DISCUSSÃO SOBRE OS EFEITOS POLÍTICOS DA DOENÇA DE LULA!
               
1. Os humanistas - que têm a pessoa humana como razão e centro dos objetivos políticos - devem se negar a participar de especulações sobre o futuro político em função da doença de Lula. O que cabe é a solidariedade pessoal, a energia de uns e a oração de outros, para que Lula se reestabeleça rápida e plenamente. E nada mais.
2. Até porque os efeitos sobre o imaginário popular - em curto e médio prazos - são imprevisíveis entre os latinos. Vide Argentina recentemente. Vide Brasil de Tancredo. Sendo assim, nem é cristã essa especulação, e ainda é inócua. As energias devem se voltar para a recuperação pronta de forma a que o debate político se dê em seu campo próprio com Lula na plenitude de suas forças. E aí sim as ideias devem ser confrontadas.
3. Mas a coincidência do mesmo mal em líderes em função de governo como Chávez, Lula, Lugo e Dilma, deveria levar a uma reflexão sobre a relação entre o estresse político e a alteração do equilíbrio celular. No caso de Kirchner isso ficou patente, embora não tenha falecido por ocorrência de tumor. Os líderes nos EUA e na Europa cuidam de suas jornadas de trabalho e dos períodos de férias e relaxamento. Aqui, os líderes se jactam por dar publicidade a serem workaholic - trabalhadores compulsivos.

sábado, 29 de outubro de 2011

Dos líderes latinos, Dilma tem a melhor avaliação


Apesar de ainda ser relativamente pouco conhecida, Dilma teve nota muito boa entre os líderes dos países latinoamericanos (mais EUA e Espanha), perdendo por muito pouco para o não-latino Barack Obama. Seu governo também está muito bem avaliado, atrás apenas do colombiano.
Essa é a conclusão da pesquisa realizada com 20,2 mil pessoas, entre 15 de julho e 16 de agosto, em 18 países latinos, e que foi divulgada na sexta-feira, dia 28, pela ONG Latinobarómetro, que ainda declara que Lula “es quizá el ejemplo más notable de esa nueva América Latina”.
(clique na imagem para ampliar)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aula de jornalismo do Globo



Olhei a foto de Lula e Dilma usando cocar na primeira página do Globo de hoje e fiquei interessado em ter notícia sobre a ponte em Manaus que eles foram inaugurar. Mas notei que o título tratava de outro assunto, o escândalo na área de esportes. Meio incrédulo, procurei a notícia da ponte e descobri, na vigésima sétima linha: "Em Manaus, onde inaugurou ponte ao lado do ex-presidente Lula (...)". Apenas isso sobre a ponte. Achei que tinha desaprendido tudo sobre jornalismo. Mas logo lembrei da "aula" dada por meu amigo Edson Vidigal, ex-presidente do STJ e meu contemporâneo nos primórdios da Veja. Eu fiquei em São Paulo e ele foi para a sucursal de São Luís. Depois de um tempo, a revista, cortando gastos, cortou a função dele. Acontece que Vidigal também tinha um jornal local, o JB (Jornal de Bolso), e, provavlmente cheio de raiva - mas também cheio de bom humor -, resolveu dar o troco. No mesmo dia em que Victor Civita, proprietário da Editora Abril, visitou São Luís, foi preso um contrabandista da região. Vidigal aproveitou para fazer a primeira página do seu JB igual a essa do Globo. Uma foto grande do Civita com a manchete: "Preso o contrabandista da região" (ou algo parecido). Sobre a visita de Victor Civita, apenas a legenda da foto. Com a "aula" de jornalismo que está dando hoje, só queria saber de que o Globo está querendo se vingar...

domingo, 23 de outubro de 2011

Barbárie


Na quinta, estava dirigindo e – como faço sempre – ouvindo a CBN, quando me tornei testemunha de verdadeira barbárie relacionada à questão líbia. A âncora Lucia Hippolito chamou Sérgio Besserman e apresentou, como destaque do dia, a possível captura de Kadafi. Nada mais apropriado, já que era o que se discutia na mídia internacional. Infelizmente, o que se ouviu em seguida foi uma sucessão de barbaridades, despropósitos, mau gosto, algo difícil de acreditar que estivesse sendo perpetrado por duas figuras relevantes em nosso mundo informativo, político e cultural. Lucia Hippolito começou ridicularizando Kadafi por conta de suas roupas extravagantes (como se essa fosse a maior de suas extravagâncias!). Mas essa bobagem não foi nada, diante do que veio a seguir. Besserman mostrou-se indignado sabem com o quê? Não admitia que Kadafi (que, segundo ele, já deveria saber há meses que seria derrotado) não tivesse se entregado há mais tempo para evitar tantas mortes na Líbia!!! Dá pra acreditar? As cenas que correm o mundo revelando os detalhes da morte de Kadafi será que respondem a Besserman? Lucia Hippolito sugeriu que ele, Kadafi, deveria ter-se matado. Besserman concordou, lembrando o suicídio de Allende!!! Lucia Hippolito diz que Kadafi deveria ter-se queimado em praça pública, se lançado do alto de algum lugar – e isso tudo dito aos risos. Afinal de contas, segundo eles, Kadafi somente fez o mal...
Como pode a CBN permitir algo assim? Por mais que Kadafi tenha tido ações extremamente condenáveis (como ajudar os Estados Unidos na tortura de presos políticos), ele também teve papel positivo para seu povo. Evitou a sangria das riquezas do petróleo que, antes, jorravam para o exterior, combateu o analfabetismo, fortaleceu e projetou o seu país no continente e no mundo. Independente disso, não se combate a barbárie com mais barbárie. A dupla de jornalistas deveria mirar-se no exemplo de Dilma que, opondo-se ao oportunismo belicoso de Obama e outros dirigentes ocidentais, demonstrou serenidade e visão de estadista, ao afirmar que “não é possível comemorar a morte de qualquer líder” e concluir que “não se faz apedrejamento moral de ninguém”.
Acredito que Lucia Hippolito e Sérgio Besserman sejam bem intencionados, por isso sugiro lerem a coluna de hoje, no Globo e na Folha, de Elio Gaspari, que lembra cena semelhante ocorrida em 1961 com o líder congolês Patrice Lumumba "amarrado, apanhando antes de ser fuzilado por compatriotas rebelados”. Na verdade, mais uma barbárie patrocinada por “civilizados” ocidentais, orientados pelo onipresente CIA.

Abaixo, o trecho da coluna de Elio Gaspari e depois texto do jornal mexicano La Jornada do dia 21.
Muamar Al Clinton
O vídeo dos minutos finais de Muamar Kadafi, ensanguentado e cambaleante, ecoa o filme de 1961 que mostrou o primeiro- ministro congolês Patrice Lumumba amarrado, apanhando antes de ser fuzilado por compatriotas rebelados. Em 1975 uma comissão do Senado americano mostrou que a CIA trabalhava para matá-lo. Em 2002, o governo da Bélgica assumiu a “responsabilidade moral” pela sua participação no crime e pediu desculpas ao povo congolês. O comboio em que estava o Kadafi foi atacado por aviões americanos e franceses. Hillary Clinton disse, dias antes, que esperava a morte de Kadafi para “breve”. Os vídeos “Lumumba seized, returned to Leopoldville” e “L’assassinat de Patrice Lumumba” estão no YouTube.
Kadafi y la hipocresía de Occidente
El asesinato de Muammar Kadafi, perpetrado ayer en su natal Sirte, marca el triunfo definitivo de la revuelta que empezó en Libia hace ocho meses y que fue desvirtuada, poco después de su inicio, por una masiva intervención militar de las potencias occidentales en la nación norafricana. Lo que habría sido una insurrección popular democratizadora fue convertida en una incursión de saqueo neocolonial, alentada por la ambición de Estados Unidos y Europa ante los enormes recursos energéticos del territorio sirio, en un nuevo mercado de armamento y, presumiblemente, en una vasta oportunidad para los negocios de "reconstrucción", a la manera de los realizados tras la invasión y destrucción de Irak, cuyos contratos beneficiaron a las empresas y consultoras del entorno del ex presidente George W. Bush. Por otra parte, está por verse si el heterogéneo Consejo Nacional de Transición (CNT) es capaz de reconstruir Libia, de gobernar con moderación, legalidad y soberanía, así como de emprender cambios reales en el país. En otro sentido, la exhibición del cadáver del antiguo hombre fuerte de Libia en los medios occidentales, así como la omisión de que su muerte y la de muchos de sus hombres cercanos fueron homicidios injustificables, exhibe una vez más la doble moral de las democracias occidentales, las cuales siguen haciendo redituables negocios con sátrapas del mundo árabe no menos impresentables que Kadafi, como los monarcas de Marruecos, Arabia Saudita y los emiratos petroleros del Golfo Pérsico. Asimismo, al festejar el suceso, Estados Unidos y Europa omiten el hecho de que, hasta hace menos de un año, Kadafi era recibido con cordialidad extrema por Barack Obama, José Luis Rodríguez Zapatero, Nicolas Sarkozy y Silvio Berlusconi, y que hay señalamientos sobre el financiamiento de las campañas políticas de los dos últimos por parte del régimen depuesto. Con tales antecedentes, es claro que el fin de la era de Kadafi en la intervenida nación del Magreb no necesariamente representa un paso hacia la democracia, la paz y el desarrollo en Libia. Por lo pronto, el asesinato del gobernante es una expresión de barbarie y de hipocresía.

domingo, 9 de outubro de 2011

Bresser Pereira: o Novo Desenvolvimentismo é mais responsável do que a Ortodoxia Convencional

Bem interessante essa entrevista de Bresser Pereira (FGV) que a GloboNews transmitiu ontem. Ao contrário do que afirmam os ortodoxos convencionais, diz ele, defendendo a nova atuação do Banco Central, "o Brasil não precisa da poupança dos outros para crescer". Bresser Pereira também tem a regra funtamental para ser respeitado lá fora: "fazer aquilo que nós achamos que devemos fazer, e não fazer aquilo que eles dizem que é pra gente fazer".

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Brilhante


Homenagem de Jonathan Mak, estudante de 19 anos da Escola de Design da Universidade Politécnica de Hong Kong, a Steve Jobs. Leia mais.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Pesquisa Mitofsky: o continente e seus dirigentes


Saiu mais uma avaliação dos presidentes dos países americanos feita por Consulta Mitofsky, instituto mexicano de pesquisas. A curiosidade maior está no último lugar ocupado por Piñera, do Chile, com 27%, bem distante dos 83% que Bachelet tinha quando deixou o governo. Certa surpresa na avaliação excelente de Rafael Caldera, do Equador, com 75%. A avaliação média de Dilma (49%), abaixo de Cristina Kirchner (50%), também surpreende e destoa da avaliação super positiva apresentada pela pesquisa CNI / Ibope da semana passada, com 71% de aprovação. Mas tem explicação: a pesquisa Mitofsky foi feita nos dias (agosto) dos escândalos de corrupção no Turismo – com a PF pondo algemas em altas personalidades do governo – e no dia da derrota do Brasil para a Alemanha. A avaliação baixa de Obama (42,7%) não surpreende.
Veja abaixo; clique na imagem para ampliar.


sábado, 1 de outubro de 2011

Pesquisa CNI/Ibope: Lula-Dilma, de Norte a Sul, de Leste a Oeste


Ou estou enganado ou os analistas de plantão estão se deixando enganar pela pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem. Embora discorram sobre o crescimento da aprovação de Dilma, dão muito destaque ao fato de sua aprovação ter crescido bem mais no Sul – até já ultrapassou – do que no Nordeste. Às vezes tratam disso quase como um confronto entre Lula (Nordeste) e Dilma (Sul). E esquecem o principal: o plano Lula-Dilma deu certo. A sucessão não poderia ser tentada por um “Lula 2”, um “alter ego” de Lula. Primeiro, porque não existia nenhum à disposição. Segundo, porque significaria radicalizar contra a classe média conservadora das regiões Sul e Sudeste. Isso tornaria a eleição mais arriscada e, no caso de vitória, dificultaria o governo. Foi preciso encontrar a figura complementar. Ou, mantendo o psicologismo, alguém que funcionasse junto ao eleitorado refratário a Lula como uma espécie de “superego” de Lula.

Dilma caiu como uma luva para o bom resultado eleitoral, e isso mostrou-se ainda mais eficiente no seu governo. Dilma inventou a faxina à la Jânio, demonstrou domínio nas questões econômicas e, de um modo geral, bateu pé na administração e na política, foi firme e independente em todos os pontos. Essa pesquisa é o melhor retrato: a aprovação de Dilma cresceu no Brasil inteiro, em praticamente em todas as regiões (apenas na região Norte / C. Oeste permaneceu inalterada), e trouxe o Sul e o Sudeste para os patamares do Nordeste. Lula e Dilma, juntos, conquistaram aprovação para seu projeto no país inteiro. Graças aos dois, o Brasil está mais harmônico. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, Lula e Dilma parecem dois bons cabra da peste... chê!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Aécio Neves inflaciona o discurso do atraso


Reconheço que não é fácil a vida de oposição no Brasil de Lula e Dilma. Falta aquilo que lhe daria vida, falta discurso. A oposição nunca soube falar com os mais pobres e agora ficou ainda mais difícil diante das políticas de inclusão social do governo e do progresso político e econômico que vivemos nos últimos anos. Começa a ficar difícil falar até mesmo com seu público tradicional, empresários, investidores, aqueles, digamos, melhor situados na pirâmide social. Tem sobrado apenas o discurso ético-conservador, insuficiente para conquistar os votos que garantiriam a volta ao poder.
Aécio Neves, que pretende tornar-se candidato à Presidência, pode ser o melhor exemplo dessa aridez no pensamento oposicionista. Nota-se a dificuldade nos temas de seus artigos semanais na Folha, na verdade artigos em busca de temas. Nos mais recentes, tentou “Steve Jobs”, “Copa”, “segurança” e, na última segunda-feira, escolheu o tema que ele certamente sonha que se torne o próximo tema eleitoral, “inflação”. Em um texto de 406 palavras (incluindo o título) escreve 8 vezes o termo “inflação” (incluindo “inflacionário”) – ou seja, uma taxa de 1,97%, bem alta para os padrões atuais. Procura recuperar o pesadelo da inflação (“Um pesadelo que os mais jovens, mas, só eles, não chegaram a conhecer.”), aproveitando-se da recente elevação de taxas provocada em grande parte pelo cenário internacional. Ataca a política de redução de juros atual e escreve: “Surpreendentemente, o governo adota medidas inflacionárias no momento de grande expectativa de que a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica”. Surpreendente foi a frase. Exatamente por que “a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica” é que fez mais sentido a redução da taxa Selic. Aécio argumenta que o ritmo da desvalorização da taxa cambial, associada à redução dos juros, “preocupa pela incerteza que sinaliza e pelo impacto inflacionário futuro”. Esquece que as grandes reservas brasileiras (bem acima do que havia no período tucano) dão boa margem de manobra ao Banco Central. E esquece mais ainda que um país como o Brasil de hoje não pode mais apostar na recessão, no encolhimento, no desemprego, na falta de ousadia. Aécio no seu artigo nos faz lembrar os congressistas do Partido Republicano americano que, buscando acima de tudo o sucesso eleitoral, preferem ver o seu país derrotado ao invés de adotar medidas econômicas vencedoras. As suas palavras finais servem para descrever exatamente o que pretende a oposição: “retorno a políticas (...) que emperraram no passado o crescimento da nossa economia, danificaram empresas e instituições e, o pior, penalizaram especialmente os mais pobres, limitando durante anos perdidos a possibilidade de uma vida melhor”. Atraso nunca mais!

sábado, 24 de setembro de 2011

Cordel Encantado, encantamento de cabo a rabo



“Assim como há gente que tem medo do novo, há gente que tem medo do antigo”, começa Augusto de Campos o seu delicioso “verso reverso controverso”. As autoras de Cordel Encantado, Thelma Guedes e Duca Rachid, mostraram que não têm medo nem do novo nem do antigo. Fizeram um trabalho preciso de valorização do nosso velho e querido Nordeste, reavivaram um dos elos mais marcantes da formação de sua cultura, o mundo medieval, e encantaram o novíssimo mundo, em novela riquíssima “de história, de texto, de direção, de interpretação, de direção de arte, figurino, cenário, produção musical e tudo mais”, como já disse aqui neste Blog (Carcará Encantado), uns quatro meses atrás. No final, apresentado ontem, o realce do maniqueísmo, também herdado da Idade Média, através da Igreja Católica, tão presente no universo nordestino, e que foi personificado principalmente por Jesuíno (“Jesus”) e Timóteo (“Respeita a Deus”). “A maldade sempre vai existir. O que nós nunca podemos esquecer, jamais, é de ter fé e esperança”, filosofa o profeta Miguezim (“Igualzim a Deus”). “O importante é a gente estar sempre junto, não é mesmo?, sabendo que pode contar uns com os outros, e lutando pelo Bem”, completa Jesuíno, em uma quase-ressurreição de Francisco Julião.
A sequência final do casal Jesuíno e Açucena (“Singela e Branca Flor”, em tupi) assistindo exibição de trovadores nordestinos foi excelente. E a frase-homenagem que as autoras escolheram para se despedir não poderia ser melhor:
ESTA OBRA É DEDICADA AOS POETAS POPULARES DO NORDESTE E AOS TROPICALISTAS QUE, A PARTIR DELES, NOS REINVENTARAM”.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Wiz chinês, resposta brasileira

Ontem, em Beijing, no quiz de um Texas Bar, duas das perguntas só tiveram respostas certas na mesa ocupada por alguns brasileiros. A primeira era fácil: "Qual o preço de um Big Mac no Brasil?" - cerca de 36 yuans. A segunda, bem internacional, exigiu atualidade: "Qual o político se orgulhou de ter11 mulheres fazendo fila para transar com ele, mas que ele só tinha pegado 8?" - para surpresa geral, a mesa de brasileiros respondeu corretamente 'Berlusconi'. Este Blog se orgulha de ter dado alguma contribuição à distância...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ricupero e a (im)precisão


Precisão talvez não seja exatamente o forte de Rubens Ricupero, ex-Ministro da Fazenda de Itamar. Apesar de ter sido considerado pelo próprio ex-Presidente “o sacerdote do Plano Real, mais até do que o FHC”, Ricupero acabou ganhando fama por sua fala transmitida via satélite graças a um microfone (im)preciso da TV Globo que ele não sabia que estava aberto: "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". Em artigo de hoje na Folha (“Relógio cuco”), Ricupero falou abertamente, sem esconder que apoia a recente decisão do Banco Central de redução da Selic para fazer frente à crise mundial. Ao contrário de muitos analistas da oposição, atrasados, que defendem sem parar o aumento dos juros, Ricupero declara que “se a Suíça arrisca fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta”.  E vai além: “Os pragmáticos helvécios concluíram que, na falta de remédios internacionais, o remédio é cada um cuidar de si”. E continua: “o início da redução do juro e a elevação do IOF sobre capitais especulativos trouxeram alívio temporário no câmbio, graças também ao recrudescimento da crise mundial”.  E conclui: “Se a crise apertar, a única saída será aproveitar a demanda interna para crescer. Para isso o remédio são ações mais fortes para estancar a hemorragia cambial. Sem dúvida é arriscado, mas como no dilema de Trotsky: risco em avançar, morte segura se ficarmos parados”. Nada mais preciso. Impreciso apenas seu texto de abertura: “Não é verdade, como pretende Orson Welles em O Terceiro Homem, que o relógio cuco tenha sido a única contribuição da Suíça à civilização”. Diferente do que lembrou Ricupero, Harry Lime, o personagem de Orson Welles no filme de Carol Reed a partir de novela de Graham Greene, pelo que lembro fala com certa visão crítica sobre a percepção que se tem da Suíça: “In Switzerland, they had brotherly love, they had five hundred years of democracy and peace, and what that produce?... The cuckoo clock”.
O artigo completo:
Relógio cuco
Rubens Ricupero

Se a Suíça arrisca fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta

Não é verdade, como pretende Orson Welles em "O Terceiro Homem", que o relógio cuco tenha sido a única contribuição da Suíça à civilização.
Basta pensar na Cruz Vermelha, em Rousseau, Benjamin Constant, Madame de Stael, Pestalozzi, Le Corbusier, Piaget, Giacometti, Godard, elenco mais impressionante que o de alguns gigantes pela própria natureza.
Eis que o relógio cuco dá nova contribuição ao soar o alarme contra o perigo mortal da anarquia do câmbio. Ninguém no mundo se compara aos suíços em cautela e horror do não convencional. Se arriscam fixar a cotação do franco suíço em euros é porque a situação está para além de preta.
A diferença entre nós e eles é que, como os sicilianos, eles jamais ameaçam: preferem agir sem preanuncio. Nós somos incendiários nas declarações e tímidos na ação e não apenas por amor à bravata.
É que os suíços podem arrostar ataques especulativos com alguma chance de sair com vida.
Nós, sempre no fio da navalha, corremos o risco de soprarmos em inflação que já arde em cima da palha seca se tomarmos medidas ousadas como o corte do juro ou o controle de capitais.
Por isso nos limitamos por muito tempo a denunciar a guerra cambial no G20 e a pedir à Organização Mundial do Comércio que estude o efeito do câmbio no comércio. São gestos louváveis, mas anódinos, pois o mundo vive em situação de anarquia cambial, isso é, ausência total de normas e governo na matéria.
Desde que Nixon abandonou em 1971 o sistema de taxas fixas de Bretton Woods, virou letra morta o artigo 4º do acordo do FMI relativo a disciplinas cambiais.
Dizia-se na época que, após meses de turbulência, o câmbio flutuante produziria seu próprio equilíbrio. Estamos esperando há 40 anos e as tempestades já obrigaram a intervenções urgentes como as dos acordos do Plaza e do Louvre.
Na OMC o panorama não é mais animador. O artigo 15 do acordo geral dispõe que os países devem se abster de manipular as moedas a fim de não frustrar os objetivos do acordo. Como nunca se definiu o que significa "manipular" e "frustrar", nada se pode fazer.
Não existem recursos legais: antidumping cambial, taxas contra o subsídio indireto da manipulação, tudo carece de base jurídica.
Os pragmáticos helvécios concluíram que, na falta de remédios internacionais, o remédio é cada um cuidar de si. Se der certo e outros como o Japão seguirem o exemplo, aumentará a pressão sobre a moeda brasileira. Fez bem, assim, o governo em deixar de se queixar ao bispo e começar a tomar medidas.
Entre elas, o início da redução do juro e a elevação do IOF sobre capitais especulativos trouxeram alívio temporário no câmbio, graças também ao recrudescimento da crise mundial. Nada garante que dure. Estagnada devido ao câmbio, a indústria pouco se beneficiou até agora da explosão do consumo, capturada quase toda pelas importações.
Se a crise apertar, a única saída será aproveitar a demanda interna para crescer. Para isso o remédio são ações mais fortes para estancar a hemorragia cambial. Sem dúvida é arriscado, mas como no dilema de Trotsky: risco em avançar, morte segura se ficarmos parados.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Orçamento participativo, sucesso petista, chega a Nova York


A notícia está no The New York Times de ontem: “4 Council Members, Each With $1 Million, Will Let Public Decide How It’s Spent” (“4 Vereadores Novaiorquinos, Cada Qual Com Um Milhão de Dólares, Deixarão a População Decidir Como Usá-los”). Os Vereadores (três democratas e um republicano) teriam ficado “curiosos com as experiências iniciadas no Brasil onde cidadãos comuns podem determinar como o governo deve usar o dinheiro dos impostos” (intrigued by experiments begun in Brazil to let ordinary citizens determine how government uses tax dollars).
A reportagem ainda fala que a experiência do Orçamento Participativo já se espalhou por partes da África, da Ásia, do Canadá e da Europa, e que já existe algo semelhante em Chicago, lançado há 2 anos pelo vereador Joe Moore, do Partido Democrata, que declarou que é “a iniciativa mais popular dos últimos 20 anos”. O Orçamento Participativo começou em 1986, pelas mãos do Prefeito Magno Pires (PT, Vila Velha, ES). Depois virou menina dos olhos de tudo que é prefeitura petista, exemplo maior de participação popular nas administrações municipais. O que ninguém esperava é que essa bandeira, empunhada unicamente por nossa esquerda, fosse hasteada em duas das principais cidades americanas.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

It’s the unemployment, stupid!


Obama herdou o pior dos mundos possíveis para um presidente americano. O país todo-poderoso no centro de uma crise econômica internacional, recessão, conflitos armados pipocando por toda parte, e pior ainda – a autoestima da população em queda livre. A descrença com o presidente – e os políticos de um modo geral – atingiu níveis altíssimos, e a reeleição do fenômeno eleitoral Barack Obama entrou em área de alto risco. Afinal, como satisfazer os milhões de novos (e futuros) desempregados de uma sociedade que aparentava ser imune às desgraças do mundo moderno?
Mas parece que Obama encontrou o rumo para dar a volta por cima na próxima eleição. É verdade que está sendo favorecido pelo fato de o Partido Republicano não contar ainda com nenhum nome eleitoralmente forte nem com respostas para a crise que eles mesmos, os republicanos, criaram, com seu neoliberalismo extremado e sua geopolítica troglodita. Já é possível perceber que Obama coloca de volta nos braços da oposição o fardo econômico que carrega desde que assumiu o governo. Usou a discussão sobre o teto do endividamento público para demonstrar que os republicanos estão sendo intransigentes em questões econômicas por motivos puramente eleitoreiros. Aproveitou o pânico generalizado com o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos, com a crise europeia e com os índices recordes de pobreza (15,1%) e de desemprego (9,6%) para fortalecer suas propostas de recuperação da economia. E finalmente apresentou um plano mais ousado de combate ao desemprego, colocando os republicanos em uma saia justa: ou eles apoiam o plano – e com isso ajudam Obama; ou eles não apoiam – e com isso assumem o ônus de não combaterem o desemprego e igualmente ajudam Obama. Consegue dessa forma que a crise tenha nome (desemprego) e sobrenome (republicanos). A melhor equação para a reeleição.

domingo, 11 de setembro de 2011

11 de setembro: Veja – e Leia?


Devia ser umas sete e meia da noite, eu estava chegando da praia do Arpoador, no Rio, quando recebi um telefonema de São Paulo. Era do Salomão (José Salomão David Amorim), meu amigo e ex-professor na Universidade de Brasília, que estava coordenando a formação dos futuros jornalistas da revista semanal da Abril. Ele me disse que eu deveria estar em São Paulo no dia seguinte para a seleção final da equipe. Corri para a Rodoviária. Na saída, ainda me despedi de minha amiga e vizinha, Glorinha, que estava na porta do prédio com o namorado (Cid Benjamin, se não me engano). Jamais poderia imaginar que só voltaria a vê-los nos cartazes de “Procurados” como “terroristas”.
Em São Paulo, fiz exame psicotécnico e uma entrevista com um psicólogo, suíço, acho, discutimos comunicação e filosofia, Sartre, fenomenologia, ele me pediu uma comparação entre o Super-Homem de Nietzsche e o Super-Homem das histórias em quadrinhos, eu respondi que já tinha publicado um artigo sobre isso ("Os dois Super Homens", Correio Braziliense, 1967). Saí dali para a glória: eu faria parte da equipe que lançaria a Revista Semanal da Abril, a nossa Newsweek (ou Time, como alguns preferem), o divisor de águas do jornalismo brasileiro! Foram cerca de três meses de preparação intensa. De manhã, palestras no Edifício Itália, feitas por nomes que se destacavam na época. À tarde, depois do bandejão no novo prédio da Abril, na Marginal, a parte prática, com orientação de grandes profissionais da época, sob o comando do Mino Carta. Dos 100 aspirantes, ficamos 50, e começamos as números zero da Veja. Foram 14, até o grande dia da número 1, com data de capa de 11 de setembro de 1968, data histórica, seriam 600 mil exemplares (mais 40 mil de reimpressão), inesquecível para mim, grande emoção, orgulho de ter o nome no expediente e de estar na foto da equipe número 1. Por questões legais, a revista se chamava Veja e Leia, e era uma alegria, toda segunda-feira, poder lê-la. Hoje, é triste, mas não consigo mais ler a Veja. Triste, como passaram a ser tristes todos os 11 de setembro.

sábado, 10 de setembro de 2011

Paul Krugman e os bancos centrais


O economista (Prêmio Nobel) Paul Krugman publicou há dois dias um artigo (“Setting Their Hair on Fire”, traduzido na Folha de hoje) que tem tudo a ver com a decisão do nosso Banco Central de baixar juros e que tanto chocou nossos “analistas de plantão”. O artigo é sobre o discurso de Obama com o plano para redução das taxas de desemprego que apavoram os Estados Unidos (e o mundo...), mas ele faz um parêntese para “discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago”. Evans teria afirmado que “o Fed (Banco Central de lá), tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos”. Guardadas as devidas proporções, isso me lembra o que escrevi neste Blog na semana passada: “(O Banco Central) não pode esquecer que não existe ‘sistema financeiro forte e eficiente’ sem princípios sociais”. Infelizmente, não é assim que entendem nossos analistas do mercado financeiro. Como diz Krugman, “hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação”.
Abaixo, o texto traduzido pela Folha, e você pode ver o vídeo do The Wall Street Journal onde o nosso Banco Central é tratado como "vanguarda".

Ateando fogo aos cabelos
Paul Krugman

Devemos ser gratos a Obama por ele perceber até que ponto a situação do emprego é desesperada
O novo plano de emprego do presidente Barack Obama me surpreendeu de maneira positiva. É muito melhor e mais audacioso do que eu esperava. Caso venha a ser aprovado, é provável que reduza o desemprego de maneira substancial.
Não é provável que o plano seja aprovado, evidentemente, graças à oposição do Partido Republicano. E tampouco é provável que qualquer coisa mais aconteça para ajudar os 14 milhões de americanos que estão sem trabalho. O que representa tanto uma tragédia quanto um ultraje.
Antes de chegar ao plano de Obama, permitam-me discorrer sobre outro discurso econômico importante da semana, pronunciado por Charles Evans, presidente do Federal Reserve de Chicago. Evans declarou sem meias medidas aquilo que alguns de nós esperávamos há anos ouvir de um dirigente do banco central.
Evans afirmou que o Fed, tanto em função da lei quanto por responsabilidade social, deveria se esforçar para manter tanto a inflação quanto o desemprego baixos – e embora a inflação provavelmente deva continuar perto ou abaixo da meta de cerca de 2% adotada pelo banco central, o desemprego permanece extremamente elevado.
Qual deveria ser a reação do Fed, portanto? Evans: "Imagine que a inflação estivesse correndo próxima aos 5%, ante nossa meta de 2%. Há alguma dúvida de que um dirigente competente de banco central reagiria de maneira vigorosa para combater uma inflação tão alta? Não. Estariam agindo com se os seus cabelos estivessem pegando fogo. Deveríamos trabalhar de maneira semelhantemente enérgica para a melhora das condições do mercado de trabalho".
Mas o cabelo do Fed não está em chamas, e a maioria dos políticos tampouco parece considerar a situação urgente. Hoje em dia, falta convicção aos homens e mulheres supostamente sábios que deveriam cuidar do bem estar da nação, enquanto os piores, representados por boa parte do Partido Republicano, estão repletos de intensidade apaixonada. E por isso os desempregados terminam abandonados.
Bem, quanto ao plano de Obama: requer US$ 200 bilhões em novos gastos -boa parte dos quais em coisas das quais necessitamos de qualquer maneira, tais como reparos nas escolas e redes de transporte, e medidas para evitar a demissão de professores - e US$ 240 bilhões em cortes de impostos.
O montante pode parecer muito elevado, mas não é. O efeito persistente do estouro da bolha na habitação e a dívida domiciliar remanescente criam um rombo anual de cerca de US$ 1 trilhão na economia dos EUA, e o novo plano -que não concretizaria todos os seus benefícios no primeiro ano - só supriria em parte essa lacuna. E não está claro até que ponto os cortes de impostos seriam efetivos como estímulo ao consumo e investimento.
Ainda assim, o plano seria muito melhor que nada, e parte de suas medidas, especialmente as destinadas a promover incentivos à contratação de pessoal, poderiam produzir resultado alto em termos de empregos gerados.
O cabelo de Obama talvez não esteja em chamas, mas certamente está soltando fumaça e devemos ser gratos por ele perceber até que ponto a situação é desesperada.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

The Economist põe nossos PIBs estaduais no mapa do mundo

Reportagem da The Economist faz a equivalência do PIB dos estados brasileiros (como já fez com estados de outros lugares) com o PIB de outros países. Procura com isso dar uma noção mais exata do que realmente representa hoje esse Brasil em ascensão no cenário mundial.  (Clique no mapa para ampliar)

Comparando os PIBs dos estados brasileiros com países
A ideia de que o Brasil está na vanguarda de um grupo de países emergentes em seu caminho para o estrelato das superpotências econômicas é tão amplamente aceita que se tornou banal. Mas até que ponto chegou o Brasil rumo a esse estrelato? Uma maneira de obter resposta rápida é comparar os estados brasileiros com países. O mapa abaixo apresenta os países equivalentes para todos os estados em termos de PIB, PIB per capita e população. Ele levanta algumas curiosidades: quem sabia que Alagoas, um Estado no Nordeste que atualmente é mais famoso por sua taxa de homicídio do que por suas magníficas praias, tem o mesmo PIB per capita da China? Ele também sugere que mesmo os estados comparativamente ricos nas regiões Sul e Sudeste ainda têm algum caminho a percorrer antes que possam ser comparados com os lugares ricos no Hemisfério Norte. Os gaúchos do Rio Grande do Sul não ficarão necessariamente felizes ao saber que o PIB per capita de seu estado é próximo ao do Gabão.
Clique aqui para ver o mapa completo.
Aqui para ver o dos Estados Unidos.
Aqui, China.
E aqui Índia.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A autonomia do Banco Central está em “cheque”


É isso mesmo, o Banco Central o tempo todo tem que checar nossa economia, saber o que é melhor para torná-la mais forte, buscar contribuir para que a sociedade seja beneficiada pelas ações econômicas. Está lá em destaque no seu site qual é a missão: “Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro forte e eficiente”. Ou seja, tem que controlar a inflação, com certeza, mas não pode esquecer que não existe “sistema financeiro forte e eficiente” sem princípios sociais. Pode parecer meio tatibitate, mas essa é que é a verdade. A autonomia do Banco Central só ficará em jogo se ele se desviar da missão que tem e entrar no jogo do cassino financeiro. O resto é blefe oposicionista.
O Banco Central mostrou que, como todo o Governo, está sintonizado não apenas na economia brasileira, mas também no momento da economia mundial. Temos que ficar de olho na inflação sem perder de vista a retração de Estados Unidos/Europa. Para nos proteger, temos que valorizar o mercado interno, evitar os países “chupa-cabra” e proteger nossa moeda para aumentar as exportações. Quem não pode ficar em xeque é o País.
Gostei da análise feita ontem pelo colunista da Folha, Vinicius Torres Freire, na contramão dos analistas convencionais:

JURO DESPENCAVA NO MERCADO DESDE JULHO
BC será criticado por "falta de autonomia", mas finança também previa piora grave na economia mundial

Hoje será dia da divulgação de notas de falecimento da autonomia do Banco Central e de diagnósticos sobre o enlouquecimento de seus diretores. O motivo, claro, terá sido a decisão do BC de baixar a taxa "básica" de juros de 12,5% para 12%, como que atendendo a pedido quase explícito de Dilma Rousseff.
Para juntar insulto à injúria, o talho nos juros ocorre quando a inflação ainda anda pela casa dos 7% anuais.
Mas, antes de assistir ao teatro das reações estereotipadas, é preciso prestar atenção a uns fatos da vida.
Primeiro, lembre-se que a taxa "básica" de juros futuros no mercado começou a desabar no início de agosto.
Em termos reais, descontada a inflação, caiu de 6,9% no final de julho para 5,9% em 19 de agosto. Ontem, estava em 5,5%. No pico da campanha de juros do BC, fora a 7,2% (início de julho).
O que houve no início de agosto? O tumulto da dívida dos EUA. Medo de calote de governos e quebra de bancos na Europa. Histeria no mercado financeiro. Ficou claro que a economia do mundo rico voltaria ao vinagre.
O mercado ajusta sua taxa "básica" com um olho na economia real e outro na política de juros do BC.
Em agosto, o governo começou a falar em novo "mix" de política econômica para enfrentar a crise mundial rediviva: menos gasto ajudaria o BC a reduzir juros; o BC insinuou ter gostado da ideia.
No mundo rico, ficou claro que não haveria gasto público adicional para estimular economias em quase coma. A recaída recessiva mundial bateria no Brasil, que também cresceria menos e, assim, teria menos inflação.
Logo, a tendência dos juros seria, em tese, de queda. O BC usou ontem esse argumento para justificar o corte dos juros. Mas o mercado vinha na mesma toada.
Segundo, note-se que, se o BC está louco, não é de agora. Desde o início do ano diz que a fraqueza da economia mundial levaria preços importantes para baixo, como os de commodities (petróleo, comida, minérios). Nessa campanha de alta de juros, forçou bem menos a mão que a diretoria do BC anterior, nas altas de 2008.
O Banco Central está certo? A prova do pudim será comê-lo. Pela nota divulgada ontem, o BC pinta um quadro muito ruim para a economia mundial e, mais importante, acha que o Brasil será contaminado de modo relevante, o que não é consensual.
Antes mesmo do corte de ontem, BC e mercado já divergiam sobre a inflação. Com Selic a 12,5%, o BC previa inflação de 4,8% em abril de 2012. O pessoal mais certeiro do mercado previa pelo menos 5,6%.
Pode ser que dê errado. Ainda assim, não haverá "descontrole inflacionário". Enfim, os problemas econômicos do Brasil estão muito além de meio ponto para cá ou para lá na taxa de juros.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A manchete do dia é Global

Engraçadíssima essa manchete na primeira página do Globo de hoje. Definitivamente, graças a suas trapalhadas na economia, os Estados Unidos estão virando piada.

domingo, 28 de agosto de 2011

Steve Jobs e a Bauhaus - bela homenagem

Na Folha de hoje, Fabio Cypriano escreve o artigo "Jobs massificou a utopia de design da Bauhaus", onde aponta os bits em comum entre as escolas Apple e Bauhaus, a grande escola de vanguarda do design, da arquitetura e das artes plásticas de 100 anos atrás. Não uso produtos Apple, até mesmo por questões (contraditoriamente) funcionais. Mas admiro Jobs e suas criações, assim como admiro a Bauhaus.

JOBS MASSIFICOU A UTOPIA DE DESIGN DA BAUHAUS
Fabio Cypriano

É difícil apontar alguém que melhor tenha conseguido pôr em prática, em escala massiva, a utopia da Bauhaus, a escola alemã criada em 1919, do que Steve Jobs.
O arquiteto Walter Gropius (1883-1969), fundador da escola, apregoava: "Queremos criar uma arquitetura clara, orgânica, cuja lógica interna será radiosa e despojada".
Essa pode ser uma descrição precisa de qualquer produto criado por Jobs.
Os computadores da Apple ou seus "gadgets" - como o iPod, o iPhone ou o iPad - seguem à risca o princípio de que "design é função, e não forma", como seu ex-presidente-executivo costuma defender, e o que é outro dos grandes pilares da Bauhaus.
Por isso, seus produtos não apenas inovaram no conteúdo -como no uso do MP3, nos celulares com touch screen e nos tablets- mas o design de todos eles foi criado de forma absolutamente coerente com o que cada um dos aparelhos proporciona.
E foi por isso que, assim como os produtos da Bauhaus, com seus móveis de linhas simples e funcionais, os produtos da Apple se tornaram os grandes objetos de desejo da primeira década do século 21.
Claro que por trás de tudo isso está também o designer inglês Jonathan Ive, mas se sabe que Jobs sempre exerceu grande influência sobre seu trabalho, obrigando, por exemplo, que o iPod tivesse um desenho mais simples.
Outra semelhança entre a Bauhaus e Jobs é a pesquisa de materiais.
O computador transparente, o iPod em plástico policarbonato branco e cromado reluzentes, os laptops em metais como titânio e alumínio, todos eles foram fundamentais na mistura de função e forma.
Mas um dos trunfos mesmo é a importância que Jobs deu aos detalhes, o que o colocou milhões de anos-luz das outras empresas.
A sofisticação das embalagens e até mesmo dos fios que conectam seus produtos à energia levaram a Apple a ser reverenciada por uma horda de viciados, que formavam filas intermináveis para o lançamento de cada nova invenção, como as filas para admirar a "Monalisa".
E a comparação, aqui, não é aleatória, pois Jobs, afinal, merece mesmo ser considerado o Leonardo da Vinci do século 21, como publicou a revista "Artinfo".

FolhaLeaks: mais uma vez a diplomacia americana demonstra arrogância e incompetência


A reportagem da Folha de hoje divulgando documentos do Itamaraty que foram sigilosos é um belo serviço à inteligência. Ou melhor: é a melhor demonstração de que arrogância e burrice estão intrinsecamente ligadas, têm a mesma matriz. Os documentos, de mais de 10 mil páginas, foram produzidos pelo Itamaraty e embaixadas brasileiras no período de 1990 a 2001, correspondente aos dos governos de Collor, Itamar e FHC (pelo Brasil) e de Bush pai, Clinton e Bush filho (pelos Estados Unidos). São 261 mensagens confidenciais que trazem “acusações de espionagem, violação de correspondência e de bagagens de diplomatas, além de críticas à política norte-americana”. Mas acima de tudo documentam a arrogância da “diplomacia” dos nossos “irmãos” do Norte. Vejam alguns trechos da reportagem:
Entre 1992 e 1993, lacres metálicos foram rompidos e as autoridades alfandegárias norte-americanas em Miami tentaram submeter as malas diplomáticas brasileiras a análises de raio-x, incluindo uma remessa proveniente da embaixada em Havana.
Em novembro (de 1992), o consulado informou que o secretário Fernando Vidal, do correio diplomático de Havana, "foi retido por funcionário da alfândega norte-americana para averiguações" sobre a bagagem que trazia de Cuba em avião de carreira.
O tratamento dado a turistas brasileiros pelos EUA nos consulados e na imigração foi tido como "inadequado" e "degradante" pelo Brasil. O então chanceler Celso Amorim, definiu como "inadequado" o tratamento e "motivo de humilhação" os questionários para obtenção de visto. O embaixador norte-americano Melvin Levitsky na ocasião (1994) admitiu que problemas aconteciam porque os EUA desconfiavam do Brasil – segundo ele, país com grande número de portadores de documentos falsos, só atrás de México e El Salvador.
Em 2000, foi chamado de "degradante" o tratamento dado a diplomata brasileiro, algemado e detido em cela após dizer, em tom jocoso, que o embrulho que levava era uma bomba. Há relatos de brasileiros, com vistos, que foram barrados e presos.
Em março de 2001, a poucos dias de uma visita do presidente Fernando Henrique Cardoso ao colega recém-eleito George Bush, os telefones da Embaixada do Brasil em Washington (EUA) começaram a ter uma "sensível perda de qualidade" e ficaram "praticamente" mudos. O embaixador brasileiro à época, Rubens Antonio Barbosa, encomendou uma varredura nos telefones. Técnicos lhe disseram que problemas semelhantes vinham ocorrendo em outras embaixadas, sempre às vésperas de visitas de presidentes e autoridades dos países. A primeira checagem nos aparelhos não encontrou sinais de grampo. Mas, dois meses depois, uma nova inspeção confirmou as suspeitas do embaixador.
O embaixador contou, em recado para o então ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, que "descobriu-se o que pareceria ser uma ligação telefônica direta entre o prédio da Chancelaria [brasileira] e o Departamento de Defesa norte-americano". "A ligação opera à semelhança de um ramal interno, isto é, ao se discar o dígito '0' atende uma telefonista daquele órgão do governo dos EUA", relata Barbosa.
Há inúmeras “gracinhas” desse tipo. E a arrogância é tanta que o Presidente, em 1990, o ex-Presidente Jimmy Carter (Democrata!) pretendeu participar do comitê preparatório para realização da ECO-92, no Rio! E o Senador Edward Kennedy (também Democrata!) pressionou (1992) o Brasil para cumprimento ao embargo praticado contra o Haiti.
As barbaridades são infindáveis. E o pior é que foram feitas contra um país tido como um dos principais aliados dos governos norte-americanos. Pura burrice. Com toda certeza, bastariam relações minimamente civilizadas para que o Brasil da época colocasse a proximidade com os Estados Unidos como principal objetivo estratégico. Foi essa arrogância absurda que valorizou o trabalho do WikiLeaks. Afinal, nada melhor do que colocar o prepotente no seu devido lugar. Mas ainda existe uma curiosidade que me deixa intrigado: o ex-Chanceler do Governo Fernando Henrique, Celso Lafer, aquele que tirou o sapato diante dos funcionários da Alfândega americana, disse à Folha que, “passados quase 20 anos dos incidentes, não se recordava dos problemas em Miami”. Pode?
Link para os documentos aqui.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A herança mal dita de Lula


Para a mídia da oposição, só existe uma herança deixada por Lula – a herança que ela mesma escreve. E ela, claro, só sabe falar mal.
Para essa mídia, não existe a herança de opção pelos pobres, que tirou 40 milhões de brasileiros da faixa da pobreza para elevá-los à classe média. Não existe o fortalecimento do mercado interno, cada vez mais invejado (e cobiçado) por outros países. Não existe o maior PIB da história brasileira pós-ditadura. Não existe o presidente que soube enfrentar a “tsunami” financeira mundial, transformando-a em “marolinha”. Não existe o nosso maior líder no cenário internacional, que deu altivez à nossa política externa e deu contribuição consistente para a formação do G-20. Não existe o reequilíbrio das regiões brasileiras, com um novo Norte-Nordeste em condições de oferecer vida digna a seus filhos e podendo até trazer de volta os que, anos antes, tiveram que sair em busca do “Sul maravilha”. Não existe um Centro Oeste explodindo de riqueza, com sua produção rural alimentando meio mundo. Não existe a defesa intransigente do pré-sal nem o engrandecimento da Petrobras. Não existe a grande transformação da nossa educação, começando a se preparar para maiores desafios econômicos e sociais. Não existe a Copa 2014 nem a Rio 2016, que já estão garantindo fluxo intenso de investimentos e dando nova cara à nossa infraestrutura (sugiro um passeio pela Zona Oeste do Rio para ver de perto o que isso começa a significar). Não existe o Bolsa Família, nem o PAC, nem a nova política habitacional, nem uma economia muito bem conduzida, não existem os 8 anos que fizeram o Novo Brasil. A única herança de Lula, para a mídia de oposição, são as alianças que fez, para garantir governabilidade, com partidos tachados como “fisiológicos” – mais uma injustiça, já que Lula herdou essa prática de todos os seus antecessores. Aliás, infelizmente, isso é uma “herança” da própria democracia representativa.
Apesar de toda a campanha contra, Lula conseguiu eleger Dilma para sucedê-lo. Inicialmente, ela era tratada como marionete, burocrata, politicamente despreparada para o cargo. Ninguém foi capaz de dar valor a seu trabalho na Casa Civil, e pré-anunciavam uma administração fracassada. Espertamente, Dilma tratou de passar a mão na cabeça da classe média mal amada – e deu certo. Deu certo até demais. Tanto que os eternos “revoltosos” estão utilizando o lado “ético” do discurso de Dilma para montar uma armadilha – seja para ela mesma, seja para Lula e todo o PT. O ideal oposicionista seria usar a “faxina ética” para provocar o rompimento entre Dilma e Lula (puro delírio dos desesperados). Como isso é impossível, os lacerdistas de plantão esticam ao máximo o discurso “ético”, procurando tornar Dilma refém desse discurso. Como fizeram, por exemplo, Pedro Simon e Cristovam Buarque, que ao mesmo tempo em que pegavam carona no prestígio de Dilma tentaram colar na sua testa a ética como sua grande bandeira. Já dissemos aqui: ser ético não pode ser bandeira política, porque é obrigação de todo cidadão. Quem usa esse artifício quer imobilizar a política. Em 92, quando o PT, navegando na campanha anti-Collor, inventou o slogan “Honestidade tem Cara”, fui contra. Queriam usar esse conceito para a campanha de Benedita, mas preferi o conceito de “cara do Rio” (“Benedita – Prefeita pro Rio” era o slogan). Essa história de herança maldita deixada por Lula é pura jogada política. E por falar em jogada, há quem ache que a grande herança maldita que Dilma recebeu foi o Mano Menezes na seleção...