quarta-feira, 30 de maio de 2007

Bom Dia, Brasil?

Hoje de manhã, minha filha de 6 anos fazia o dever de casa enquanto eu lia notícias na internet. Ao fundo, a TV ligada no Bom Dia Brasil. Minha filha começou a chorar e pediu para trocar o canal, porque estava com medo das notícias (na hora, passava a reportagem sobre a batalha no Morro do Alemão, Rio de Janeiro, Brasil). Atenção: as crianças já têm medo até do noticiário! Não é à toa que em pesquisa recente (feita 10 dias atrás, com 1.200 entrevistas, margem de erro de 2,8% para o índice de 50%), o item "segurança" aparece como preocupação espontânea de 53% da população da cidade do Rio de Janeiro. Ontem mesmo almocei com um amigo que dizia que seu sonho diário é sair do país por causa da violência. Vivemos um estado de urgência. E, por mais que a gente acredite nas boas intenções de nossos dirigentes, a verdade é que as políticas de seguranças ainda caminham a passos lentos.

Corrupção, corrupção, corrupção,

Dois suicídios no Japão, de autoridades envolvidos com corrupção. Na China, o responsável pela qualidade e segurança de alimentos e drogas em geral foi condenado à morte, depois de admitir que recebia propinas. Na Espanha, tivemos casos recentes de fraude eleitoral. A guerra do Iraque, por si só, é uma grande fraude. No Brasil, como no mundo, a corrupção está na ordem do dia. Isso não faz bem a ninguém e a corrupção precisa ser combatida, pelo bem da democracia e para que os governos possam se dedicar ao que interessa, desenvolvimento e bem-estar da população.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Existe progresso fora do mundo da corrupção

Apesar de políticos de toda parte procurarem marcar o mundo contemporâneo como o mundo da corrupção, é possível admirar um ou outro passo à frente dado pela humanidade. Este objeto da Sony é apresentado como o primeiro display OLED colorido e flexível construído com tecnologia TFT (thin-film transistor) em todo o mundo. Tem 2,5 polegadas, suporta 16,8 milhões de cores, tem 0,3 mm de espessura e pesa 1,5 grama. Vale a pena admirar.

A verdade sobre Renam

Renam resolveu entender as acusações que envolviam seu nome com corrupção como se fosse simplesmente uma questão de vara de família. Uma confusão entre Mônica e Verônica, essa foi a tônica. Duvido que alguém em plenário tenha acreditado no seu discurso - nem Mônica (a jornalista mãe) nem Verônica (a esposa traída). Mas, ontem, no plenário e nos depoimentos das diversas correntes políticas, isso não tinha a menor importância. O importante era pôr panos quentes na questão mais explosiva deste ano. Não interessa a ninguém que o caso Renam siga pipocando neste campo minado da política. Ao governo não interessa perder um elo fundamental de sua coligação. À oposição interessa conquistar de vez o coração do Presidente do Senado. E, principalmente, todos temem que, se ninguem colocar um fim nisso tudo, acabe sobrando imbroglio para todos - parlamentares, ministros, juízes, promotores, policiais, etc. A verdade é que este não é o momento de se falar a verdade. Os escândalos são tão poderosos, ameaçam de tal forma a confiança nas instituições, que não há quem deseje um avanço mais profundo nas investigações e nas acusações. Ao se fazer uma limpeza ética, teme-se, a própria democracia pode ser varrida. O que não deixa de fazer sentido. Renam sabe muito bem disso tudo. E sabe também que é no medo de verdades que está sua salvação política.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Eleições na Espanha: PP ganhou, mas perdeu

As eleições municipais espanholas de ontem registraram um grande crescimento do PP (Partido Popular, conservador) em número de votos, com uma diferença de 160.000 votos sobre o PSOE (Partido Socialista Obrero Espanhol). Realmente surpreendeu, graças principalmente à vitória em Madri. Mas isso não bastou para consagrar o PP como grande vitorioso. Como descreve El País: "La paradoja de la situación es que, pese a ese retroceso en el cómputo global, los socialistas no sólo tendrán más concejales, sino que están en disposición de ganar posiciones en el reparto de poder territorial por efecto de la pérdida de mayoría absoluta del PP en comunidades y ayuntamientos que venía gobernando". Ou seja: os socialistas, graças às possíveis alianças de esquerda, ganharão em locais que antes estavam com o PP. "El PP sigue siendo el partido más votado en la mayoría de las capitales de provincia, pero la suma del PSOE e IU (Izquierda Unida) podría hacerle perder una decena de alcaldías, equilibrando una relación que ha sido muy favorable al partido (...) desde hace 12 años". Aparentemente, o PSOE perdeu votos por causa do crescimento da abstenção. É importante notar também que, nas eleções municipais, questões imediatas tornam-se mais importantes do que as ideológicas. O PSOE, no poder, estaria relaxando, e Madri é bem exemplo disso. 39% dos eleitores da Capital identificam-se com posições de esquerda e 27% identificam-se com a direita. Acontece que, dos que se dizem de centro, mais do que o dobro dos que votam no PSOE votam no PP. Nem mesmo a forte política de cunho social conseguiu reverter essa tendência. É um alerta ao PSOE para as eleições legislativas de 2008.

sábado, 26 de maio de 2007

Sexo, política e corrupção

Luiz Macedo, dono da MPM, durante 17 anos a maior agência de propaganda do país e que durante muito tempo deteve as principais contas governamentais, costumava dizer: "Quando sexo e política se misturam, as coisas se complicam". Pura verdade. Quem não se lembra de Chappaquidick, que acabou com as pretensões presidenciais de Ted Kennedy? Ou do Príncipe Charles? Ou dos outros escândalos, com ingredientes político-sexuais tipicamente britânicos? Não esqueço também a queda do poderoso congressista americano, Wilbur Mills, envolvido com uma bombshell argentina, Annabel Battistela, que até me inspirou um poema, "Anna who?" (ver no sidebar). No passado brasileiro não muito distante tivemos a baixaria de Collor contra Lula. Tem os caos mais recentes das orgias brasilienses. Essa mistura de sexo e política tem sido assim, complicada, no mundo inteiro. E quando se acrescenta corrupção, a mistura fica ainda mais explosiva. É isso que estamos vivendo no momento. Uma mistura explosiva, partindo da Operação Navalha (na Carne...) e chegando às páginas escandalosas da revista Veja. É um cenário com os mais importantes atores da nossa política, envolvidos em uma trama de final imprevisível. Houve excessos da Polícia Federal? Talvez, e isso realmente deve ser evitado, principalmente se conduzir a um estado policialesco. Houve invasão de privacidade? Houve, sim, e isso deve ser evitado - desde que essa privacidade não envolva bens públicos. O fato é que vivemos uma situação delicada, de fragilização de nossas instituições, que merece muita atenção. É necessário ir fundo nas investigações, mas, ao mesmo tempo, não podemos acreditar que a solução se completa dessa maneira. A corrupção precisa ser combatida pelas raízes, é necessária a criação de mecanismos que não permitam que ela se oxigenize. Não podemos cair no conto dos "éticos de palanque", mas é claro que precisamos de um choque de ética na administração pública, se queremos preservar a democracia representativa. Quanto aos escândalos político-sexuais... esses não acabarão nunca!

O show da morte

Acredite se quiser, mas deu no New York Timesde ontem: "Jantar de primeira classe, com mordomos servindo hors-oeuvres ao som do "Danúbio Azul", em uma re-criação da última ceia do Titanic - essa é mais uma celebração do Cemitério Laurel Hill, um dos cemitérios históricos que surgem em número crescente para se renovar como destino de turistas de fim de semana". E o show dos cemitérios continua: paradas de cães vestidos em trajes históricos, concertos de jazz dominicais, brunches com com grandes chefs, festas de Halloween e até mesmo um calendário nudista. Tudo isso acontece porque cemitérios históricos estão desesperadamente precisando de dinheiro para fazer restaurações e correm atrás de público de tudo que é jeito. Nem depois de mortas as pessoas descansam em paz...

Relatório do Pentágono sobre a China parece obra de humor

Segundo o jornal O Globo, "o Departamento de Defesa dos Estados Unidos divulgou ontem um relatório anual em que demonstra estar muito preocupado com o que chama de crescente poderio militar da China. Segundo o documento, entregue ontem ao Congresso e à Casa Branca, Pequim aumentou a quantidade de mísseis balísticos de longo alcance, capazes de atingir qualquer lugar do território americano. (...) A estratégia militar chinesa, segundo o relatório O poderio militar da China, já deixou as tradicionais dimensões terrestre, aérea e marítima e “concentra suas forças em campos de batalha mais modernos, como o ciberespaço”. Até aí, tudo bem. É natural essa preocupação e é mais do que natural que o Pentágono investigue e analise os poderios militares espalhados pelo planeta. Mas o mais interessante foi a acusação que o relatório faz à China de manter uma política de “de falta de transparência sobre suas despesas militares". Vem cá, isso é piada ou é assim mesmo que se faz estratégia militar? O inimigo vem e diz: "Olha, pretendo produzir 30 bombas para atingir a sua Região Norte, daqui a 4 meses - tudo bem?" Aí o outro responde: "Certo, mas quero construir 33 mísseis para atingir a sua Região Sul, ok?" Fala sério! Qual o país que é transparente em seus gastos militares? A Venezuela? O Iraque? Os Estados Unidos? A Rússia? Israel? Talvez só mesmo o Irã...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Fraude eleitoral na Espanha: el "cheque cidadón"

Como tenho falado, fraude eleitoral, corrupção, isso tudo é um mal que se torna cada vez mais forte por todo o mundo e ameaça a democracia representativa. A notícia de hoje vem da Espanha, através de El País: "La Guardia Civil de Melilla ha destapado un supuesto fraude en la captación de votos por parte del Gobierno melillense, del PP, que pagaría a vecinos de la ciudad autónoma vales de alimentos de 60 euros a cambio de que votasen por correo a favor de la candidatura popular en las elecciones del próximo domingo". Esses vales são uma espécie de cheque-cidadão que aqui no Brasil - no Rio, em particular - ficou famoso como símbolo de política populista e foi apontado como instrumento de fraude eleitoral. O flagrante ocorreu em um centro de estudos de língua e a oposição ficou muito impressionada com a "eficiência" do curso: "Fue un curso muy eficaz porque en un día pasaron de no saber castellano, ni leer ni escribir a rellenar una solicitud de voto por correo"...

quinta-feira, 24 de maio de 2007

A manchete da semana

Sem dúvida essa é a manchete mais irônica dos últimos tempos. A Folha Universal, que pertence à Igreja Universal, dona também da Rede Record, acusa a TV Globo de ter virado igreja eletrônica! Era exatamente essa a acusação que sempre se fez à Rede Record... Para ser fiel à verdade, as duas acusações fazem sentido. Mas a acusação que se faz à Globo, no momento, faz mais sentido. A cobertura que a Globo deu à viagem do Papa foi vexaminosa, uma vergonha. E a Folha Universal busca apoiar sua acusação a partir de reportagens na "mídia especializada em televisão" que "condenou a postura da Globo". A reportagem abre dizendo que "a visita do papa Bento XVI reforçou uma antiga suspeita dos brasileiros: a Rede Globo de Televisão usa sua programação, de maneira explícita, para beneficiar a Igreja Católica e prejudicar igrejas evangélicas". A Folha Universal cita o site FolhaOnline para lembrar que “todas as manhãs de domingo, há quase 40 anos, a Globo transmite a ‘Santa Missa’. Trata-se do mais antigo programa da rede – está no ar desde 4 de fevereiro de 1968”. O jornal reclama da eterna perseguição da Globo aos evangélicos (que chegaram a ser tratados como membros de seita durante a visita do Papa) e, para humilhar, reproduz pesquisa do portal UOL onde a Rede Record foi apontada como "a emissora que realizou a cobertura mais isenta da visita do papa ao Brasil. (...) "A emissora recebeu 50,5% dos 6.616 votos computados. Em seguida, veio a Rede Bandeirantes, com 28,9% da preferência. A Rede TV teve 11,1% dos votos. A Globo, acusada de ser a emissora oficial da Igreja Católica, teve só 9,5%". A Folha Universal continua suas matérias de capa com uma charge sobre esporte, reportagens sobre "quebra de patente", "mais transportes às escolas", "cobradores de ônibus", "impetigo" e "desvantagens do penhor". Nada mais ligado a religião, tentando conquistar corações e mentes sem radicalismos. É a nova cara do grupo, que já faz tempo procura limpar a Record da marca negativa de "igreja eletrônica". Revela a evolução de seita para religião, mostrando mais organização e uma estratégia mais poderosa de conquista de fiéis. É mais uma etapa da guerra entre essas duas ongs gigantes da comunicação, a Rede Universal-Record e a Rede Católica-Globo.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

O fio da navalha

Não há mais o que refletir sobre a corrupção. É tempo de agir, buscar novos valores (com ou sem trocadilhos, tanto faz), pôr um fim a esse mal, caso contrário brevemente teremos corrompida a própria existência, a razão de ser humano. Essa corrupção que assola o mundo está colocando em cheque um dos pilares de nossa organização social, que é a democracia representativa. Afinal, que representantes são esses que lutamos tanto para eleger? Representam os diversos interesses da sociedade - procurando melhorá-la, solidificá-la, enriquecê-la - ou representam os seus próprios interesses financeiros e de meia dúzia de gautamas, blackwaters (Estado Unidos) e outras menos votadas? Vamos eleger pessoas para resolver os problemas de transporte ou que vão conduzir obras seguindo em direção aos interesses apenas das empreiteiras? Vamos eleger presidentes com política externa responsável, dedicados a defender nossas fronteiras e lutar pela harmonia internacional ou que prefiram terceirizar a política externa, lutando pelos interesses de indústrias armamentistas e pondo em risco a humanidade (como ocorre no Iraque, por exemplo)? Por tudo isso, precisamos de muito mais do que "operações navalha". Além de combater eficazmente (como parece que está sendo feito pela Polícia Federal) a corrupção, temos que desenvolver armas capazes de evitá-la. As reformas políticas são importantíssimas nesse sentido. Mas elas têm que ser pra valer, capazes de dar o rumo certo a nossos representantes, capazes de incluir mecanismos anti-corrupção. E nessa busca de novos valores anti-corrupção, temos que entender, acima de tudo, que a democracia está por um fio - e infelizmente ainda não foi inventado nada melhor para substituí-la.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Governo britânico planeja ampliar assustadoramente rede de informantes da polícia

Google O governo britânico estaria planejando transformar médicos e assistentes sociais em informantes, segundo documentos do Home Office (algo como um Ministério do Interior/Justiça) que vazaram e que estão levantando muitas críticas (The Christian Science Monitor). O pior é que o plano vai além de uma gigantesca rede de dedos-duros. A idéia do governo é transformar a ficção do filme Minority Report (lembram, aquele com o Tom Cruise?) em realidade. Esses informantes estariam a serviço de unidades do "pré-crime", orientando a polícia em mínimos detalhes que pudessem evitar que pessoas "predispostas" a cometer atos de violência pudessem concretizar seus desejos. Os sinais que "identificariam" essas pessoas poderiam ser um histórico familiar violento, alcoolismo ou problemas mentais. A unidade pré-crime então entraria em ação para tratamento do indivíduo. Obviamente os grupos de direitos humanos já demonstram preocupação com o que seria mais passo rumo à orwellização da sociedade inglesa. O clima de Big Brother com câmeras de circuito fechado de TV espalhadas por toda parte já assustam: são cerca de 4,2 milhões de câmeras, significando 1 para cada 14 britânicos. Deve-se dizer que também há muita gente a favor dessas ações, buscando maior segurança.

Gangorra Democrata da semana


Ils sont fous ces Démos! O sobe-e-desce das preferências pelos pré-candidatos do Partido Democrata para a eleição presidencial americana continuou na última pesquisa do Instituto Rasmussen. 35% para Hillary Clinton, 25% para Barack Obama. Ou seja: 10% pontos de diferença. Segundo análise do Rasmussen, a tendência é uma estabilidade favorável a Hillary Clinton. Isso porque a volatilidade estaria se restringindo aos eleitores independentes (em alguns estados, é permitida a votação de não-filiados). Os eleitores Democratas estão cada vez mais firmes com a Senadora (NY). Enquanto isso, a administração Bush continua batendo recordes negativos: 64% de desaprovação!

domingo, 20 de maio de 2007

Mercenários dobram a participação militar americana no Iraque

A Folha traz hoje uma reportagem de Sérgio Dávila ("Mercenários no Iraque se igualam a EUA") que é de arrepiar. Mostra que o contingente de "soldados privados", mais bem equipado e com salário maior, já é quase tão grande quanto a tropa oficial. "Soldados privados" é o termo usado para se referir aos homens empregados em ação de guerra, a maioria em atividades ligadas a segurança e defesa. Se você tratá-los por "mercenários" não estará errando. Eles já são entre 100 mil e 130 mil atuando no Iraque que se somam aos cerca de 145 mil "soldados oficiais". "Estima-se que US$0,40 de cada dólar destinado ao Iraque pelo contribuinte americano pare nas mãos de uma empresa de segurança privada", disse a democrata Jan Schakowsky, da Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes. Várias empresas beneficiam-se disso, como a Blackwater (a maior de todas, criada há dez anos por religioso ligado a republicanos, Erik Prince, um dos maiores doadores da campanha de Bush; Jeremy Scahill, autor de "Blackwater - The Rise of the World's Most Powerful Mercenary Army" (Ascensão do Exército Mercenário mais Poderoso do Mundo, Nation Books), defende que a empresa é a Guarda Pretoriana da Era Bush) e a USIS (subdivisão do Carlyle Group, que já teve Bush pai e filho no conselho). O pior é a falta de regras para o controle dos mercenários. "Diferentemente dos soldados, que respondem ao código de conduta do Pentágono, os 'privados" se encontram numa zona juridicamente cinzenta". Até 2007, eram regulados por uma Ordem 17, que determina que "os privados devem ser imunes ao processo legal iraquiano em relação às ações realizadas por eles enquanto a serviço de empresas". Resultado: em quatro anos de guerra, só dois mercenários em ação no Iraque foram levados à Justiça nos EUA, um condenado por matar um civil, outro acusado de ter pornografia infantil no computador. Agora, por iniciativa do senador republicano Lindsay Graham, foi aprovada lei que subordina os mercenários às mesmas regras seguidas pelos militares, desde que quando a serviço do Pentágono (o problema é que a maioria tem contrato com o Departamento de Estado...). Em geral, os "privados" ganham mais do que os "oficiais" - seja onde estiver, na protegida Zona Verde ou no fronte, o soldado norte-americano médio recebe entre US$ 28 mil e US$ 40 mil por ano; um "privado" trabalhando numa área perigosa pode receber a mesma quantia em apenas um dia. Isso tudo aponta para outro perigo: a terceirização da política externa americana, como alertou em entrevista telefônica à Folha o documentarista Nick Bicanic, autor de "Shadow Company" (A companhia fantasma). Com empresas tão poderosas e fora de controle, qualquer iniciativa do presidente americano em defesa de ações bélicas passa a ser inteiramente discutível. E não estamos falando do presidente de uma republiqueta qualquer. Trata-se do país mais poderoso do planeta, capaz de mudar os destinos da humanidade e que, assustadoramente, pode ficar à mercê de empresas fornedoras de "soldados privados". Perto disso, conviver com a violência do Rio ou de São Paulo parece brincadeira...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

PREFEITURA DO RIO: alguns dados pré-eleitorais

Tive acesso a alguns dados (apenas alguns) de enquetes recentes sobre a preferência do eleitorado do Rio para Prefeito na eleição de 2008 e anotei algumas curiosidades:
  • os principais candidatos ao Governo do Estado derrotados no ano passado são os candidatos preferidos para Prefeito da Capital - não necessariamente na mesma ordem que tiveram na última eleição (Obs.: é natural que estejam na frente, porque seus nomes ainda estão fortes na memória da população; agora é o momento dos outros candidatos começarem a trabalhar para fixação de seus nomes na mente do eleitorado)
  • Lula é o principal eleitor, seguido de perto por Sérgio Cabral e um pouco mais distante Cesar Maia (Obs.: também é um resultado natural, refletindo a escala de aprovação dos governos federal, estadual e municipal)
  • dos grandes partidos, apenas o PT tem um nome forte - apenas um, dentre 5 ou 6 pré-candidatos (Obs.: desde 88 - com Bittar - e de 92 - com Benedita -, o PT sempre se apresenta com alguma força, apesar de nunca ter conseguido fazer o Prefeito; destaque de força mais recente foi a candidatura de Benedita em 2000)
  • Garotinho está muito mal na Capital (Obs.: em 98, apesar de ter sido eleito Governador, Garotinho não conseguiu derrotar Cesar Maia na Capital, mas em 2002 Rosinha Garotinho foi eleita Governadora vencendo em todos municípios, até mesmo no reduto de Cesar Maia)
Se obtiver novas informações, divulgarei.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Manchetes dos sonhos

Essas duas notícias publicadas lado a lado no Globo On-line de hoje é o que podemos chamar de sonho de qualquer governo. De um lado, a notícia de que a geração de empregos formais em abril foi 31,4% superior ao do mesmo mês no ano passado. Um recorde. O melhor patamar desde 1982! Do outro lado, notícia sobre o grande momento da Bolsa de Valores de São Paulo - Bovespa, com direito a ironia do próprio presidente. Em 2002, ainda candidato, ele não era nem ao menos recebido em seus recintos. Hoje, ele pode declarar que "a Bovespa deve agradecer ao governo". Sem dúvida, o país vive momento muito especial. E não adianta atribuir tudo isso ao momento internacional favorável. O governo conseguiu apresentar avanços palpáveis na economia e, com isso, ganha respeito político nacional e internacional, ganha reconhecimento do meio financeiro e empresarial e ganha agradecimento da população, principalmente a mais pobre. Não lembro de momento igual tão positivo para o país (apesar da violência, dos eternos problemas na saúde e na educação, dos escândalos de corrupção...).

Pagodinho X Temporão: quem tem razão?

A questão da publicidade de bebidas alcoólicas ganhou muita repercussão e agora ganha as páginas dos jornais com um bate boca desnecessário. De um lado, o excelente Zeca Pagodinho, que costuma vender sua imagem em apoio à Brahma; de outro lado, o polêmico José Gomes Temporão, Ministro da Saúde e espécie de enfant terrible nesse mundo ministerial absolutamente careta. Os dois trocaram "adjetivos" que, na minha opinião, estão equivocados. Temporão qualificou Pagodinho de patético na sua participação em comerciais de cerveja, o que não é verdade - ao contrário, o cantor-compositor teve participações brilhantes e algumas mais ou menos, nenhuma patética. Pagodinho qualificou Temporão de incompetente por sua posição contrária à publicidade de bebidas alcoólicas, o que também não é verdade - o Ministro tem aparentado bastante competência em diversas questões e não está sendo incompetente nessa questão específica. Eu mesmo já criei centenas de peças publicitárias para inúmeras marcas de cigarro e de bebidas (uísque, cerveja, cachaça, conhaque, etc.). Hoje sou inteiramente contra a propaganda de cigarro e acho até (perdão, fumantes) que cigarro nem deveria existir. Com relação a bebida, tenho algumas dúvidas. Não creio que a bebida tenha um fator viciante tão forte quanto o cigarro. Embora também seja devastadora para a saúde. A bebida contribui para certos comportamentos sociais saudáveis. Confraternização, alegria, relaxamento. Embora isso esteja se tornando em ameaça cada vez maior entre os jovens. Não é verdade, como declararam profissionais da indústria cervejeira ao jornal O Globo, que "o investimento em publicidade não influencia no incremento das vendas, apenas na escolha da marca". Claro que tanto o marketing quanto a publicidade também têm responsabilidade no incremento de vendas, embora não devam arcar com todas as responsabilidades. Creio que o Ministro faz bem em propor controles nos estímulos ao consumo desvairado de bebidas - por mais que adore a frase de Humphrey Bogart: "A humanidade está sempre três uísques atrasada"...

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Bye-Bye, Papa: retrato em 3x4 das dificuldades da Igreja Católica

Hoje mais cedo estava andando e falando no celular com o Mello (Blog do Mello), quando dei de cara com a cena que reproduzo aí em cima. A jornalista da sala ao lado caminhava também e quase teve um troço. Berrava coisas assim: "Umf! Umf! Zifío...", não entendi nada. Desliguei e fotografei para o Blog. Trata-se de uma unidade da Igreja Universal do Reino de Deus (leia-se Bispo Macedo, Bispo Crivella, Rede Record) que não se sente satisfeita com a quantidade de fiéis que atravessam seus portais e decidiu ir pra rua, disputar fiéis com as mesmas armas dos pais de santo. Na tenda montada na calçada está escrito "Tenda do Pai das Luzes". E na tabuleta próxima temos a "oferta": "Consultas grátis! Na tenda do PAI das luzes". Essa foi a grande jogada dos pentecostais: deixaram de lado o "racionalismo" (se é que se pode falar nisso...) ou formalismo ou burocracia ou conservadorismo dos evangélicos tradicionais e buscaram técnicas de comunicação mais populares junto aos "terreiros", pais de santo, macumbeiros, etc. Não largaram inteiramente a Bíblia que serve de ajuda para garantir certa organicidade à coisa toda. E partiram para um marketing cada vez mais agressivo, roubando fiéis de quem estivesse pela frente, principalmente da Igreja Católica, de quem a Igreja Universal roubou até o nome, já que "católica" significa "universal". Essa é a diferença: enquanto os católicos chegam com um Papa branco, europeu, falando com muito sotaque, muita filosofia, pouca sabedoria e um santo de última hora, os pentecostais montam suas tendas dos milagres à maneira do nosso povo moreno e vão ganhando terreno, fiéis e muito dinheiro. Mais que uma religião, eles construíram uma rentável ong de comunicação.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Blair e Sarkozy

Bem interessante esse texto de José Blanco para o La Jornada, do México, comparando Inglaterra e França, Blair e Sarkozy. Pode clicar aqui para ler no site original ou ler aqui mesmo no Blog.
Blair llegó al famoso número 10 de Downing Street cargado con las armas del nuevo laborismo. Sus armas resultaron mucho más eficientes que las del resto de las economías europeas durante los 10 años que ha sido primer ministro. Quizá ya nadie lo recuerde, pero al anunciar su ambicioso programa del Estado de Bienestar del siglo XXI, propuso "trabajo para los que puedan trabajar" y "seguridad para aquellos que no pueden". Una economía robusta es la condición indispensable para tener una política social eficaz, y no al revés, fue su divisa fundamental. La excluyente economía de la dama de hierro sería mejorada en eficiencia y en justicia social.

Con medidas no exentas de autoritarismo, Blair desplegó un programa enérgico, de disciplina laboral, al tiempo que triplicaba su gasto en ciencia y tecnología; en su momento, por supuesto, produjo conflictos con la juventud, al exigir que todos los estudiantes contribuyeran con una parte del costo de su formación, de la que vivirían toda su vida. Se negó a mantener abiertos los centros educativos de nivel superior ineficientes.

En no mucho tiempo el ingreso per cápita de Inglaterra había rebasado al de Francia y al de Alemania. El número de jóvenes que hoy cursan estudios superiores aumentó considerablemente; 2 millones de personas salieron del estado de pobreza, y mejoraron en general la educación y la salud.

Llevó la paz a Irlanda, que se convertiría en una de las economías más dinámicas del mundo. Desposeyó de su escaño en la Cámara de los Lores a cientos de zánganos que lo poseían por herencia. Trabajó en favor de la autonomía de Escocia y Gales. Promovió los derechos de las mujeres. Lo propio hizo en el caso de los gays. Hace unos días, al anunciar su retiro, dijo, seguramente pensando en sí mismo, con petulante patriotismo: "los británicos somos especiales". Y al referirse a algunos momentos de su política exterior, expresó en términos típicamente imperialistas, que su política había dado los frutos necesarios en los casos de Bosnia, Kosovo, Sierra Leona y, en los primeros tiempos, en Afganistán. Y pidió perdón si es que se había equivocado en el caso de Irak.

El caso de Irak se convirtió en un inmenso y espeso mar de ignominia que cayó sobre él al asociarse sin más y basado en mentiras flagrantes con el adocenado del norte. De tal magnitud fue el peso de sus decisiones respecto del "terrorismo internacional", inventado en su magnitud por los halcones gobernantes gringos, que logró (junto con Bush) acrecerlo con unas tan torpes decisiones que, a la postre, hubo de despedirse y de lograr que el mundo olvidara lo mucho que sí hizo por buscar y en su caso encontrar una vía que modernizara el Estado de bienestar con una economía altamente competitiva. Inglaterra se volvió más socialdemócrata con el arte de saber cómo se maneja al mercado, y cómo no el mercado maneja a la sociedad. En el Reino Unido, hoy alrededor de 75 por ciento de la población activa tiene trabajo, una cifra muy superior al 64 por ciento de la media de la Unión Europea.

En tanto, la vieja Francia se quedó con su antiguo fordcito de crank. Su antiguo y noble Estado de Bienestar a fines de los años 60 había creado un Ministerio llamado de la Calidad de la Vida. Según esta idea la vida material estaba básicamente resuelta. Se trataba entonces de gente reunida en un ministerio dedicada a pensar cómo llevar una vida mejor el día con día: le plaisir. Todo mundo a la hamaca.

Pero vino la crisis mundial de principios de la década de los 70, y ese proyecto se fue al traste. Detrás de la crisis vino la nueva ola de globalización, la revolución tecnológica en el estadunidense corazón del capitalismo y el monstruo de la competencia internacional se puso enfurecidamente de pie. Francia se estancó; no sólo eso, mientras Inglaterra avanzaba, nuevas "conquistas históricas" de grupos diversos paralizaron al Estado francés. La quinta economía del mundo por su PIB per cápita cayó hasta el sitio 16. Hasta que la mayoría de los franceses decidió que era tiempo de darle el espacio a quien hablaba con una energía similar al Blair de sus campañas iniciales.

Las lucubraciones de Sarkozy, según dicen algunos trascendidos europeos, incluyen la sucia jugarreta de mandar a armar o a provocar el número y la intensidad de los desmanes y protestas juveniles en las banlieues, para poder contrastar con mayor fuerza su discurso sobre el relajamiento social ocurrido después del 68: él pondría orden en todo esto.

De otra parte, en la primera vuelta Ségolène Royal había dicho que adoptaría el modelo de Blair para la economía, pero, además de las eternas divisiones de las izquierdas, los medios descubrieron que Ségolène tenía un gran desconocimiento del tal modelo. A nivel del sufragio, Francia quedó divida. Está por verse cuánto puede Sarkozy moverse hacia el centro político, y si resulta eficaz: Blair sí le cree.

Bye-bye, Papa: o populismo dos evangélicos venceu mais uma vez

Essa visita do Papa comprovou o que todo mundo denuncia há décadas: a Igreja Católica não sabe mais falar com o povo. A visita de Bento XV, que teve monumental cobertura da mídia, não foi o sucesso de público que se esperava. Qualquer Edir Macedo consegue mais. O marketing católico carece de algo cada vez mais fundamental e cada vez mais raro em suas paróquias: a comunicação direta e fácil com o seu "rebanho". Um bom exemplo disso é o comentário do cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB sobre o desequilíbrio existente no episcopado brasileiro, que tem apenas 11 negros em cerca de 400 bispos, tentando provar que não há discriminação racial por parte da Igreja. Segundo ele, na Bahia, onde mora, 80% dos seminaristas “são negros e inteligentes”.(O Globo) Dá até para entender as boas intenções de suas palavras, mas elas são desastradas, passíveis de má interpretação, típicas de quem vive um mundo à parte. Quem apresenta dados que justificam essa alienação católica é o teólogo Fernando Altemeyer, da PUC de São Paulo. Segundo O Globo, ele aponta que "apenas 11 dos quase 400 bispos brasileiros são negros. A proporção se repete em todo o clero nacional. É de mil para 18.600 entre os sacerdotes. Além disso, apenas cerca de 30% das freiras são negras". Fernando Altemeyer lembrou ainda que o Papa tratou apenas superficialmente da questão negra e que evitou o encontro com as comunidades afro-brasileiras. Os representantes dos cultos foram impedidos de participar do encontro ecumênico com o Papa, em São Paulo, na última quarta-feira. "Em seus discursos, pouco se ouviu sobre a questão negra. E a Igreja hoje tem um perfil étnico europeu. O Brasil é o maior país negro fora da África. O apoio à caminhada do povo negro é um grande desafio para a Igreja hoje", disse o teólogo. Ora, uma Igreja que não consegue perceber uma questão básica como essa, terá dificuldade grande de comunicação. Por outro lado, os evangélicos pentecostais dão show nesse campo. Começa que eles não precisam de anos de enfurnamento em seminários (os evangélicos tradicionais, a exemplo dos católicos, também ficam longos anos em seminários) para formarem seus pastores - qualquer seis meses está de bom tamanho... Depois vêm os temas abordados pelos evangélicos: dinheiro-riqueza, casamento, drogas, alcoolismo, doença. São todas questões imediatas que são resolvidas rapidamente no caminho da salvação. Os pentecostais são mais rápidos, mais diretos, mais pragmáticos, como qualquer político populista (e não é à toa que nossos parlamentos estão repletos de evangélicos). A Igreja Católica é mais burocrática (à maneira de antigos burocratas da política). Perde tempo com santidades, vias sacras, sacrifícios, e outros caminhos tortuosos. Em tese, a fé seria a forma mais imediata, mais direta, de provar a existência de Deus (Santo Agostinho?) e alcançar a salvação. Mas a Igreja Católica resolveu fazer da fé um caminho longo e sinuoso.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Pesquisa mostra o óbvio: escocês bebe muito!

A notícia saiu no Plantão Globo das 14h27m: "Escócia é o país com mais alcoólatras do Reino Unido". Tem coisa mais engraçada do que noticiar algo assim? E a notícia continua: "Segundo uma pesquisa publicada hoje no país, a Escócia abriga seis das dez cidades onde há maior alcoolismo dentre os trabalhadores em todo o Reino Unido". Agora eu pergunto: a Escócia não é um lugar bem mais frio do que o resto do Reino Unido? E em lugares mais frios não é comum o consumo de álcool ser maior? E não é verdade também que a Escócia é o lugar onde mais se fabrica uísque (também conhecido por scotch...) Se você responde sim a todas essas perguntas, você certamente sabe o resultado da pesquisa... Parece até piada de... inglês.

A gangorra Democrata continua

É o maior sobe e desce que já vi. Agora a Senadora (New York) Hillary Clinton caiu (levemente) para para 35% e o Senador (Illinois) Barack Obama subiu para 33% na disputa pela indicação para ser candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos. É o 18º relatório do Rasmussen desde 17 de janeiro e a única certeza que se tem é que ainda não se tem um candidato certo, embora a gangorra tenda a movimentar-se a favor de Hillary Clinton. Acontece que Obama cresce quanto a pesquisa inclui eleitores independentes (permitido em alguns estados), mas a pesquisa é feita unicamente entre eleitores Democratas, Hillary Clinton fica com cerca de 8 pontos de vantagem. No geral, cinco nomes se destacam: três pelos Democratas (Hillary, Obama e Edwards) e dois pelos Republicanos (Giuliani e McCain). Tanto na possível disputa Giuliani x Hillary Clinton quanto na possivel disputa Giuliani x Obama o empate técnico predomina.

sábado, 12 de maio de 2007

Habemus Papo IV: São Paulo é sinônimo de marketing religioso

Tudo nessa viagem do Papa é obviamente planejado, tudo é pensado com o objetivo de retomada do crescimento da Igreja Católica no Brasil. Se bobear, até a escolha da cidade de São Paulo é uma alusão a São Paulo, o apóstolo, ou, como diria Nietzsche, "o primeiro cristão, o inventor do cristianismo". Para Nietzsche, até então "havia apenas alguns sectários judeus." Bento XVI parece mesmo repetir Paulo que, como afirma o teólogo Fernando Altemeyer Júnior, "além de fazer uma peregrinação missionária original, criando vínculos em cidades importantes, soube escolher pessoas para multiplicar seu trabalho". Novamente, vou reproduzir trechos de uma monografia (não sei quem é o autor) bem interessante com o tema "Igreja como empresa", que pode ser obtida na íntegra no site Marketing e Fé Católica. Apenas farei alguns destaques:
As pesquisas das últimas décadas mostram como a pequena seita judaica criada por Jesus conseguiu sobreviver de maneira surpreendente à guerra de 66-70 d.C., em que os romanos praticamente massacraram os judeus. Isso ocorreu por obra de um homem que havia sido um implacável perseguidor desse povo convertido: o apóstolo Paulo, nascido em uma família israelita de Tarso, na atual Turquia, com o nome de Saulo.
No ano 48 d.C., realiza-se o Concílio de Jerusalém. Nessa reunião, Paulo conseguiu convencer Tiago, irmão de Jesus e líder da seita que continuou na Palestina após a crucificação, a permitir que pagãos convertidos fossem dispensados de seguir a Lei judaica, que estabelecia, entre outras obrigações, a circuncisão e os princípios de seleção e preparação de alimentos. Paulo prossegue com sua missão, mas a doutrina pregada por ele já não era a mesma da Igreja de Jerusalém.
Para Tiago e seus seguidores, Jesus era o Messias, que teria vindo ao mundo para livrar o povo judeu da opressão. Era o escolhido para implantar o Reino de Deus, isto é, governar Israel conforme a Lei. Paulo, porém, apresentava Jesus sob o nome grego Cristo, cujo significado era o mesmo de Messias em hebraico: "Ungido". O Cristo anunciado por ele era o Filho de Deus.
Tiago é morto por apedrejamento quatro anos depois. Paulo é decapitado em Roma depois por ordem de Nero. Mas o mundo conhecerá somente o Cristo de Paulo.
O Cristo celestial de Paulo obscurece o Jesus histórico, cresce com o Império Romano e se expande para o mundo.
Segundo o que se conhece sobre aqueles tempos turbulentos, a Igreja cristã de Jerusalém praticamente morreu com o massacre comandado por Tito no ano 70. Tiago e seus seguidores teriam sido judeus de origem humilde, talvez com modesta formação intelectual, afirma Robert Eisenman, diretor do Instituto de Estudos das Origens Judaico-Cristãs, da Universidade do Sul da Califórnia, em Long Beach, nos EUA. O sofisticado Paulo, ao contrário, tivera sólida formação na cultura greco-romana e preparou o caminho para que a expansão cristã pudesse prosseguir após sua morte.
Paulo permaneceu 18 meses em Corinto, na Grécia, pregando aos trabalhadores do porto e marinheiros, que passaram a difundir sua mensagem. "Paulo enxergava a direção que tomava o mundo e agiu para fazer o cristianismo crescer no futuro", diz o teólogo Hermínio Andrés Torices.
A intuição do apóstolo faz com que ele apresente a fé cristã com uma dramatização comovente e arrebatadora para os homens de um mundo sob domínio político opressivo.
Paulo, que conhecera os filósofos estóicos, como o romano Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), cria uma doutrina semelhante em alguns aspectos ao pensamento deles. O estoicismo, que esvaziava da filosofia o conteúdo político em favor da moral e da realização subjetiva, surgira a partir da perda da liberdade política das cidades-estado gregas para os conquistadores macedônios no século 4 a.C. A liberdade do cristão, diz Paulo, é a salvação obtida somente por meio da fé e do amor em Cristo.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Habemus Papo III: Jesus - sua cruz e seu marketing

O site Marketing e Fé Católica, que conheço de longas datas e já fiz referência aqui no Blog, tem uma monografia (não sei quem é o autor) bem interessante com o tema "Igreja como empresa". Em vez de falar sobre o texto, vou reproduzir trechos, bem apropriados nesse momento de exacerbação do marketing religioso:
Como diz o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, “O progresso da ciência vai intensificar as crenças. Quanto mais rápidas forem as transformações da sociedade, mais as pessoas precisarão de um apoio, que pode estar na religiosidade”.
Sobreviverão as religiões que adaptarem-se a essas mudanças, principalmente no âmbito das novas tecnologias de comunicação, administração e Marketing.
É um Deus (personagem de Luiz Fernando Veríssimo) que conhece e faz uso de novas tecnologias, como a televisão, o e-mail (buscando de volta um pouco da vanguarda comunicacional que sempre pertenceu à religião).
e mostrar dados também de outras religiões que, ao contrário da católica, desenvolveram-se utilizando dos conceitos já desenvolvidos pelo marketing, coisa que Jesus e os apóstolos faziam sem cursos ou livre concorrência.
Em sua passagem meteórica pela terra, Jesus, o fundador da empresa cristã, utilizou muito bem as ferramentas de comunicação disponíveis, como analisa Kater Filho, consultor de marketing utilizado por instituições católicas.Para falar às multidões, ele subia às montanhas e usava o eco de sua voz para que um maior número de pessoas pudesse ouvi-la. Também escolhia o local em que praticaria os milagres. Fazia suas curas estrategicamente em cidades onde havia uma grande fluxo de viajantes. As pessoas que iam até as cidades para trocar produtos ou participar de festas voltavam para suas regiões levavam a notícia de que a boa nova estava acontecendo.
Sabia despertar em seus colaboradores ou discípulos o ardor missionário, ou, como diriam os homens de marketing de hoje, sabia motivar seus colaboradores para que fossem “por todo o mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura”. De forma simples, introduziu o conceito do Marketing boca a boca, presente nas diversas religiões até hoje. (...) Ele fez um reposicionamento do Divino no mercado, adotando uma nova estratégia de marketing.
“O americano Rodney Stark (...) explica o fenômeno do crescimento vertiginoso do cristianismo, que passou de 1.000 devotos no ano 40 para mais de 30 milhões três séculos depois. De acordo com Stark, uma epidemia, provavelmente de varíola, que matou um terço da população do Império Romano por volta do ano 165, foi a tábua de salvação do cristianismo.
Possuíam, como possuem ainda, um logotipo tão bom quanto simples: a cruz, que diz tudo, e é muito fácil de ser reproduzido, sendo facilmente identificável por qualquer cultura. A Igreja criou um dos primeiros veículos de comunicação de massa da história, que é o sino, em uma época em não havia sequer um megafone. Os padres, nomeados pelos discípulos, mandavam erguer torres e criavam códigos. Três badaladas rápidas significavam que o padre estava chamando para uma reunião religiosa, ou a missa. Badaladas lentas avisavam as mortes. Essa comunicação se estendia por um raio de vários quilômetros. Os primeiros outdoors foram as torres das igrejas. Quando se entrava em uma cidade, o que se via primeiro era a torre, que virava um ponto de referência para a população.
Segundo Kater Filho, a confissão funcionava como uma ótima pesquisa qualitativa. O padre conhecia os problemas e os anseios dos seus fiéis e oferecia soluções durante as missas dos domingos, com passagens retiradas do Evangelho.
"Além de fazer uma peregrinação missionária original , criando vínculos em cidades importantes, ele soube escolher pessoas para multiplicar seu trabalho", afirma o teólogo Fernando Altemeyer Júnior (referindo-se a São Paulo). "Se fosse nos dias de hoje, ele usaria a internet."
João Paulo II pode ser considerado um dos grandes marketeiros do nosso século, como afirma Kater Filho: “O gesto de chegar a um país e beijar o solo, que inicialmente deve ter sido espontâneo, foi uma grande jogada de marketing".

Habemus Papo II: o aborto e a escolha de Sofia

A elevação do tom na discussão sobre o aborto foi altamente planejado pela Igreja. Não bastava a criação do santo brasileiro - que serve para motivar os atuais fiéis e impedir sua fuga para outras religiões. O santo recém criado acrescenta pouco em novas conquistas. Era preciso algo mais forte e com profunda inserção política, algo polêmico e ecumênico. A discussão sobre o aborto cabia como uma luva. O surgimento inesperado, com um tom elevado além do normal, parece obviamente extemporâneo. Mas pôde ser bem incorporado à viagem papal, conferindo-lhe mais conteúdo. É um dogma mais forte do que o celibato dos padres ou o sexo somente após o casamento. Mais: mobiliza todas as religiões. Mais ainda: é um tema de paixões, de "ame ou odeie", sem grandes espaços para justificativas racionais convincentes. Recolocando esse dogma em questão, a Igreja Católica reforça seu posicionamento como verdadeira Guardiã da Verdade, aquela que conhece o verdadeiro caminho da salvação. Para fazer o jogo e entrar na discussão, quero dizer que eu, pessoalmente, como Lula, sou contra o aborto. Mas por outro lado acho que a realidade é bem mais complexa do que apregoam as vãs filosofias dessas religiões, com suas visôes simplistas e dogmáticas. Ao ameçar com o fogo do inferno a mulher que pratica o aborto e o cirurgião que a auxilia, a Igreja está lançando seus fiéis, na maioria pobres, num beco sem saída. Como, apenas como exemplo, tapar os olhos para os 10 milhões de crianças que morrem anualmente antes de atingirem 5 anos de idade? Nesse mundo de matança, como evitar os sofrimentos de mães e pais impotentes na busca de uma vida digna para seus filhos? Entre fazer um aborto e conduzir o recém-nascido para um mundo de sofrimento e morte prematura, qual a escolha certa, menos cruel? É uma "escolha de Sofia", onde não há escolha certa - só existe a exigência de escolher.

Habemus Papo I: a mídia a serviço da Igreja

É fabulosa a cobertura da mídia brasileira dada à vinda do Papa Bento XVI. É uma cobertura ao mesmo tempo ampla e detalhista. Todos os veículos de comunicação estão envolvidos na transmissão de todos os detalhes da visita. Do motorista do "papamóvel" ao "primeiro contato do Papa com o solo brasileiro através do pé esquerdo". É o resultado de um esforço monumental de marketing da Igreja Católica, que precisava retomar o pé da situação religiosa no Brasil. Tudo foi minimamente calculado, desde o Papa Bento XVI ficar hospedado no mosteiro de São Bento até o lançamento do primeiro santo brasileiro (não sei bem o nome dele). Tudo para que a fé católica volte a crescer (ou pelo menos pare de cair...) no coração do povo brasileiro, retomando o espaço conquistado pelos adversários evangélicos. Fala-se muito nos milhões que a Igreja teria gasto nessa viagem. Mas não se fala ainda dos milhões de reais em espaço (gratuito) garantido na mídia.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Iraque: mortalidade infantil cresceu 150%

A entidade beneficiente Save the Children publicou relatório sobre mortalidade infantil que põe o mundo árabe - riquíssimo em petróleo - em nível comparável ao da África sub-Saara. No Iraque, por exemplo, em 1990, a média da mortalidade em crianças até 5 anos era de 50/1000. Após 10 anos de sanções pela ONU e duas guerras, o pais chegou a 2005 com a média de 125/1000. Um crescimento de 150%. Apesar de outros países como Angola, Somália e a República Democrática do Congo, por exemplo, terem média acima de 200/1000, o crescimento da média fatídica é a maior do mundo. As sanções encorajadas pelos Estados Unidos tiveram um efeito devastador na infraestrutura e nos serviços de saúde iraquianos. Não se sabe ao certo quantas crianças morreram por causa das sanções, mas calcula-se que entre 1991 e 1998 o número tenha chegado a 500.000. Denis Halliday, que renunciou das funções de coordenador humanitário das Nações Unidas em protesto contra as sanções, declarou na época: "Estamos em processo de destruição de uma sociedade inteira. É terrível. É ilegal e imoral". Nesse mundo onde os homens não param de se matar, as crianças são as que mais sofrem: são cerca de 10.000.000 de crianças com menos de 5 anos que morrem por ano no mundo inteiro, quase 28.000 por dia. Veja a relação dos países com as 10 piores médias (9 na África sub-Saara mais o Afeganistão):
1. Serra Leone: 282 (por cada 1.000 nascimentos) 2. Afeganistão: 257 3. Níger: 256 4. Libéria: 235 5. Somália: 225 6. Mali: 218 7. Chade: 208 8. República Democrática do Congo: 205 8. Guiné Equatorial: 205 10. Ruanda: 203
Leia mais no The Independent e no CommonDreams

terça-feira, 8 de maio de 2007

Nasce uma Róisín

Na década de setenta, em andanças pela Universidade de Essex, em Colchester, Inglaterra, conheci uma irlandesa, não lembro o nome inglês que ela tinha - mas lembro bem do seu nome verdadeiro, irlandês: Róisín. Os conflitos envolvendo irlandeses católicos e protestantes e ingleses estavam no auge. Róisín era católica e nos contava algo chocante: os ingleses não permitiam que as crianças irlandesas tivessem nomes registrados em irlandês! Perdi o contato com Róisín, mas tenho certeza que hoje ela deve estar mais feliz com a Irlanda do Norte em paz, iniciando um governo comum de católicos e protestantes.

A gangorra Democrata continua: Hillary volta à frente

A disputa pela indicação do Partido Democrata para candidato à presidência da República nos Estados Unidos está se caracterizando pela alternância da Senadora Hillary Clinton (New York) com o Senador Barack Obama (Illinois) na preferência do eleitorado. Depois de 4 semanas de crescimento ininterrupto, Obama cai de 32% para 26% e Hillary Clinton volta a liderar a corrida, passando de 30% para 34% (pesquisa do Instituto Rasmussen, do dia 7 de maio). A gangorra parece não ter fim. A única coisa que se concretizou foi o sucesso do Senador Obama.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Sérgio Cabral usa Pezão para dar pontapé inicial na disputa pela Prefeitura do Rio

JB A notícia da possível candidatura de Luiz Fernando de Souza Pezão (atual Vice-Governador do Rio de Janeiro) à Prefeitura do Rio, em 2008, pelo PMDB, já corria de boca em boca, de notinha em notinha. Hoje, o Jornal do Brasil resolveu fazer uma grande reportagem a respeito, dando a entender que já está tudo certo. Falei com o Pezão agora há pouco e ele me respondeu: "Se eu mudar o título pro Rio, a Biluca (Maria Lúcia, sua mulher) me mata. Hoje ela já acordou com a maior tromba por causa dessa reportagem". Ele já havia me falado do convite, mas falou também da dúvida que tinha. O fato é que há muitas incertezas no PMDB, pelas divisões internas e por falta de um nome com mais tradição de partido e de cidade. O nome de Pezão, sem dúvida, é a grande opção do Governador Sérgio Cabral, com dificuldades na disputa interna com Garotinho e tendo que apresentar um nome vencedor. A dificuldade estaria no fato de Pezão não ser da cidade. Há incertezas em todos os partidos. Vejamos:
PMDB - além de Pezão (o melhor nome do partido e com altas chances, sem dúvida), o partido também pensa no ex-Prefeito Luiz Paulo Conde (que provavelmente vai ficar feliz em garantir seu lugar em Furnas), Eduardo Paes (ex-Deputado Federal, atual Sec. de Esportes, que teria que sair do PSDB) e em Garotinho (com altíssima rejeição na Capital).
PT - o nome mais forte é o de Benedita da Silva, ex-Vereadora, ex-Deputada, ex-Senadora, ex-Vice-Governadora, ex-Governadora, ex-Ministra, atual Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo Sérgio Cabral e principal liderança popular do partido no Rio. Na disputa interna, o PT ainda conta com o nome do Deputado Federal (ex-Vereador) Edison Santos. Vladimir Palmeira aparentemente está descartado por causa de seu desempenho fraquíssimo na última eleição.
PFL (DEM) - qualquer candidato com o apoio do atual Prefeito Cesar Maia é claro que começaria muito bem. Mas faltam nomes expressivos para garantir o sucesso. Eider Dantas, Solange Amaral, Índio da Costa, Rosa Fernandes e Rubem Medina não são garantia. O problema é que o novo DEM precisa ter candidato para identificar o seu número.
PRB - O Bispo Marcello Crivella tem um monte de votos garantidos pela Igreja Universal. Mas também é garantido que ele não se elegeria.
PCdoB - Jandira é outro nome forte das esquerdas. Mas saiu prejudicada na última eleição (para o o Senado) por ter conquistado a ira da Igreja Católica.
PPS - Denise Frossard teve ótimo desempenho na última eleição para Governadora (foi derrotada por Sérgio Cabral no 2º turno), mas era a única representante do campo conservador. Hoje, Cesar Maia não estará inteiramente a seu lado.
PSOL - Chico Alencar é o nome. Já foi mais forte em outros tempos e hoje não tem tempo na TV.
PSDB - A Vereadora Andréia Gouvêa Vieira destaca-se. Não tem nada a perder e é um nome em ascensão. Outros, como Octavio Leite e Luiz Paulo Correia da Rocha, não têm cacife.
PV - Sirkys não arreda o pé de ser candidato. Aliado de Cesar Maia desde os tempos do PDT de Brizola, hoje andam estranhados - mas não inteiramente afastados. Há quem sonhe com Gabeira ou até mesmo Gilberto Gil - um nome que poderia ser forte.
PDT - Falou-se em lançar Miro Teixeira, um nome forte como parlamentar, mas que (como aconteceu com Bittar, do PT) não conseguiu sucesso nas tentativas de eleição majoritária. Brizola Neto poderia poderia ser um teste.
O pontapé inicial já foi dado, mas o jogo está longe de ser definido. No momento, os papéis principais estão sendo jogados pelo PMDB e pelo PT.

Brasil, day after

O Brasil de hoje é a cara da contradição. A alegria das torcidas campeãs de futebol espalhadas por quase todo o país contrastando com as notícias de violência nas grandes cidades. Por trás de tudo isso, a necessidade cada vez maior de investimento social, redução drástica das desigualdades e também de uma política de segurança mais inteligente. Precisamos urgentemente comemorar um Brasil muito melhor.

Iraque, day after

Ontem, pelo menos mais 85 mortos no Iraque, sendo 9 soldados americanos. Ao todo, já foram 3.649 soldados coligados mortos, em 1.508 dias de ocupação, segundo o Iraq Coalition Casualties. A popularidade do invasor Bush chega ao seu nível mais baixo (28%), mas a guerra não acaba. Não podemos mais falar em "Iraq, day after". Parece ser "Iraq forever".

Paris, day after

El País De um lado, Sarkozystas, com a promessa de uma Nova França, de orgulho recuperado; de outro lado, as cenas que se tornaram comuns na França de hoje: conflitos envolvendo jovens, desempregados, imigrantes. Essa França dividida com certeza permanecerá por muito tempo. O resultado final é difícil prever.

domingo, 6 de maio de 2007

França: aconteceu o que já se esperava

Segundo a estimativa média das pesquisas dos principais institutos franceses (Ifop, CSA, Ipsos, TNS-Sofres), o direitista Nicolas Sarkozy venceu a socialista Ségolène Royal por 53,1% a 46,9% na eleição presidencial francesa de hoje. O resultado final deverá ter variação pequena, comprovando o que já se previa há quase uma semana. O supreendente foi a alta taxa de participação do eleitorado, entre 84% e 86% - muito maior do que costuma ocorrer nos Estados Unidos, onde o voto também não é obrigatório. A campanha de Ségolène Royal foi estimulante para as esquerdas. Mas o que fica daqui pra frente é a preocupação com a dimensão da guinada para a direita que a França pode dar, com o pretexto de "modernização da economia" ou de "sintonização com o mundo globalizado. Leia mais no Le Monde.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Eleição francesa, Cesar Maia e marketing eleitoral

Já falei aqui e vou repetir: por mais que não concorde politicamente com Cesar Maia, reconheço nele seu afinco em questões importantes, como o marketing eleitoral. Também discordo de algumas análises que ele faz nesse campo, mas concordo em muita outras. Hoje, no seu Ex-Blog, ele traz duas boas discussões, a reprodução de trechos do artigo de Felipe González El País, sobre a eleição francesa e a reprodução de trechos da entrevista que o diretor de campanha de Tony Blair, Alastair Campbell, deu ao Le Monde, antes do debate do dia 2, sobre a campanha eleitoral francesa. Copiei do Ex-Blog essa entrevista logo abaixo. Antes, até para confirmar algumas idéias, reproduzo trechos do que escrevi aqui no Blog sobre o mesmo assunto.
No dia 30/4: "Segundo pesquisa CSA feita dia 25, com 1005 eleitores, pelo telefone, a principal qualidade do candidato direitista na eleição presidencial francesa Nicolas Sarkozy é a solidez. A principal qualidade da candidata socialista Ségolène Royal é a simpatia. Nos demais itens as diferenças não são tão significativas. Como os dois estão tecnicamente empatados para o 2º turno no próximo dia 6, parece que a decisão vai ser no photochart, a favor de quem melhor souber aproveitar seus pontos fortes." (Eleição francesa: entre a "solidez" e a "simpatia") No dia 3/5: "Desde a roupa (escura-masculina, ao contrário da sua roupa tradicional branca-feminina) até a contundência, Ségolène Royal procurou demonstrar que pode disputar de igual para igual com qualquer candidato. É possível que suas pesquisas tenham indicado esse caminho como o melhor para conquistar o eleitor indeciso, até agora ainda não convencido de que basta a simpatia para resolver os problemas franceses. Veremos as novas pesquisas. Creio que ela ganhou a batalha, embora ainda falte alguma coisa para vencer a guerra do próximo dia 6." (França: esquerda e direita em debate) No mesmo dia 3/5, mais tarde, depois da primeira pesquisa sobre o debate: "É curiosa também a percepção que se passou a ter de cada um após o debate. Ségolène cresceu em competência, coragem e dinamismo e caiu em simpatia. Ao contrário, Sarkozy cresceu em simpatia, caiu em tranqüilidade e um pouquinho em coragem. Os estrategistas de Ségolène podem ter errado na dosagem de "mais competência, menos simpatia". Afinal, como já tínhamos visto aqui no Blog, simpatia era o ponto forte de Ségolène a ser explorado. Daqui de longe, achei que ela tinha se saído melhor. Mas não sou eleitor francês." (França: após debate)
Mostro esses trechos para procurar demonstrar que em marketing - eleitoral ou qualquer outro - não há muito o que inventar. É importante não ter medo de fazer o óbvio. No entrevista de Alastair Campbell (conheça o seu blog), analisando a campanha francesa, podemos ver que ele fala coisas muito próximas.
Le Monde - Antes do debate televisivo entre Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, quais conselhos o senhor daria aos dois candidatos? Campbell - Eles devem utilizar o debate para consolidar os seus pontos fortes e sublinhar as fraquezas do seu adversário, mas também para corrigir as fraquezas que lhes são atribuídas por outros. Não se trata para eles de reconhecer abertamente as suas supostas fraquezas, e sim de mantê-las em mente, e de se lembrar de que é por causa delas que uma parte dos eleitores não votou neles no primeiro turno. Simultaneamente, eles devem presumir que uma minoria substancial do seu público está disposta a conceder-lhes o benefício da dúvida. Le Monde - Será que eles precisam se limitar às mesmas mensagens políticas que eles apresentaram antes do primeiro turno? Campbell - Sim. Se eles mudassem fundamentalmente as suas mensagens, isso tornaria os eleitores desconfiados. Eles devem prosseguir a sua estratégia de campanha, tentando explicar por quais razões ela é perfeitamente compatível com o fato de uma parte do eleitorado não tê-los escolhido no primeiro turno. Le Monde - O senhor acredita na importância das "pequenas frases" num debate deste tipo? Campbell - Sim, sem dúvida. Mas elas precisam significar algo para aqueles que se pretende convencer, corresponder àquilo que os eleitores pensam estar no cerne da sua escolha, a um dos temas dominantes da campanha. Le Monde - Será que Nicolas Sarkozy ainda pode "suavizar" a sua imagem? Campbell - A essa altura da campanha, é perigoso deixar o público e a mídia pensarem que você quer mudar a qualquer custo. É por isso que os dois candidatos obterão melhores resultados, se eles tentarem reforçar, e, por assim dizer, destilar as duas ou três coisas essenciais nas quais eles acreditam. Le Monde - Será a imagem dos candidatos tão importante quanto o seu programa para convencer os indecisos? Campbell - O público de um debate televisivo baseia o seu julgamento na maneira com que se expressam os candidatos, na sua desenvoltura, mas também no domínio dos dossiês difíceis que eles mostram ter. As pessoas percebem se um debatedor compreende verdadeiramente aquilo de que está falando, se ele conhece a questão nos seus menores detalhes. Le Monde - Tony Blair inaugurou um estilo de comunicação muito direto com o público, que ainda não tem verdadeiramente um equivalente na França. Campbell - Nós estamos numa época em que o público sempre espera dos governantes que eles se expliquem. A qualidade da sua liderança depende em parte da sua capacidade de se explicar. Uma das grandes forças de Tony Blair não é apenas a sua força de convicção, como também o fato de ele acreditar na eficácia desta capacidade de persuasão. Isto foi a sua sorte e o seu azar: ter sido a personalidade política dominante no exato momento em que o universo da mídia estava impondo a sua onipresença. Uma sorte porque ele é um comunicador fantástico. Um azar porque ele teve diante dele meios de comunicação que não raro se mostraram venenosos.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

França: após debate

A mídia começa a divulgar que o direitista Nicolas Sarkozy venceu o debate contra a socialista Ségolène Royal na corrida para o 2º turno presidencial. Pode ser. A pesquisa Opinionway aponta nesse sentido. Mas aponta mais. Além dos 53% para Sarkozy e 31% para Ségolène como "mais convincente", mostra que 15% não acharam nenhum dos dois convincente. 1% não respondeu. A pesquisa, feita com 978 eleitores selecionados entre 1.415 destacados para assistir o debate, mostra ainda em que tema cada um foi melhor. Ségolène foi melhor na questão ambiental, na defesa das escolas deficientes, na redução das desigualdades sociais e na educação. Sarkozy foi melhor na questão da imigração, na defesa do aumento da jornada de trabalho, na habitação, na luta contra a insegurança, na reforma fiscal e no item funcionalismo. É curiosa também a percepção que se passou a ter de cada um após o debate. Ségolène cresceu em competência, coragem e dinamismo e caiu em simpatia. Ao contrário, Sarkozy cresceu em simpatia, caiu em tranqüilidade e um pouquinho em coragem. Os estrategistas de Ségolène podem ter errado na dosagem de "mais competência, menos simpatia". Afinal, como já tínhamos visto aqui no Blog, simpatia era o ponto forte de Ségolène a ser explorado. Daqui de longe, achei que ela tinha se saído melhor. Mas não sou eleitor francês...

Deus está em alta no Brasil

Não é à toa que o Papa vem ao Brasil produzir um santo brasileiro. As religiosidades estão em ascensão, mas a Igreja Católica (Universal) andava em queda no maior país católico do mundo. Esse é o momento para a retomada do crescimento. O carisma do Papa anterior talvez tenha ajudado a atar a sangria (apesar de um trabalho de marketing estratégico para a igreja, no site Marketing e Fé Católica, apontar sua saúde debilitada como um ponto fraco), mas o Papa atual não tem carisma algum - daí a necessidade de um santo. Quem não está gostando muito da história são os evangélicos - principalmente os pentecostais - que até agora navegavam em águas tranqüilas na disputa pelo mercado da fé. E o novo estudo da FGV - Fundação Getúlio Vargas, “Economia nas Religiões: Mudanças Recentes" parece justificar ainda mais essa preocupação, digamos, evangélica. É que, segundo o estudo, a Igreja Católica conseguiu estabilizar sua participação no mercado com os índices de 2000, pondo fim a uma queda que se estendia por décadas: 73,9%. Esse número contempla o objetivo determinado no trabalho de marketing (feito em 2000) que citei: "Estancar a tendência de êxodo dos fiéis da Igreja Católica num período máximo de 5 anos e, simultaneamente, estimular a adoção da Igreja Católica como ponto de encontro". Contempla também a sua visão: "Acompanhar as constantes mudanças e evoluções pelas quais o mundo passa, mantendo-se como líder no mercado brasileiro de apoio espiritual e, simultaneamente, se consolidando com uma participação superior a 70%". Voltarei a tratar do assunto. O trabalho de marketing a que me refiro chama-se "Planejamento Estratégico de Marketing - Igreja Católica Apostólica Romana", de Cristiane Pasquini Malfatti, Sérgio P. Bordonalli, Silvana Meneses, Valdir Luis Fodra Filho. IBMEC – MBA Marketing - Gerência Estratégica de Marketing: Claudio Tomanini - maio de 2000).

Socorro, o STF está solto!

Ok, o STF teve o bom senso de manter o Estatuto das Armas. O povo agradece. Mas o afrouxamento em algumas questões preocupa. Não poderia fazer concessões, por exemplo, ao tráfico de armas, por um motivo muito simples: mais e mais pessoas morrem por causa disso. Aliás, aí reside a questão constitucional maior: a vida humana não pode se submeter aos interesses dos fabricantes de armas.

França: esquerda e direita em debate

Todo mundo faz questão de afirmar que acabou a polarização "esquerda-direita", que isso é coisa ultrapassada, que a realidade vai além ("la realité est très complexe", diria Goddard em Alphaville), que as questões e as soluções muitas vezes são comuns às duas visões. Mas ontem, na França, no debate entre os candidatos do 2º turno para a presidência, até o sorteio das cadeiras parecia querer reafirmar o velho conceito de esquerda-direita: a socialista Ségolène Royal sentou à esquerda e o direitista Nicolas Sarkozy sentou à direita. E suas propostas para a França deixaram ainda mais evidente essa dicotomia fundamental: trabalho x capital, intervenção do Estado x laissez faire, base da pirâmide social x topo da pirâmide social. Além dessa reafirmação da esquerda-direita, o debate apresentou (segundo a imprensa local) muitos erros (ambos erraram muito, por exemplo, nos percentuais de energia nuclear utilizada atualmente na França, mas Sarkozy errou mais e de forma imperdoável) e também uma surpresa: a firmeza de Ségolène Royal. A expectativa era de que ela seria destroçada pelo experiente Sarkozy, mas o que se viu foi o contrário: ela esteve permanentemente na ofensiva, sendo irônica e chegando mesmo a se tornar indignada (na questão da educação de deficientes). Desde a roupa (escura-masculina, ao contrário da sua roupa tradicional branca-feminina) até a contundência, Ségolène Royal procurou demonstrar que pode disputar de igual para igual com qualquer candidato. É possível que suas pesquisas tenham indicado esse caminho como o melhor para conquistar o eleitor indeciso, até agora ainda não convencido de que basta a simpatia para resolver os problemas franceses. Veremos as novas pesquisas. Creio que ela ganhou a batalha, embora ainda falte alguma coisa para vencer a guerra do próximo dia 6.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

França: em debate

O debate Sarkozy-Ségolène, candidatos à presidência da França, foi muito interessante e mobilizou o povo francês. Quem viu percebeu a estratégia de cada um. Sarkozy procurou o tempo todo desqualificar sua adversária, seja pelo modo de questioná-la, fazendo questão de demonstrar que estaria fazendo uma pergunta sobre tema que ela não dominaria (e ele, em tese, sim, por estar no governo), seja procurando tratar tudo que ela falava como bobagem. Ela, por sua vez, procurou passar segurança, seriedade, responsabilidade, sem perder perder a emoção e a simpatia de ser mulher. No bloco da educação, chegou a demonstrar indignação - o que Sarkozy procurou marcar como "nervosismo". Ele desde o começo tinha mais a perder do que ela - e, na minha opinião, perdeu. A batalha da percepção pendeu a favor de Ségolène, que se mostrou disposta a ser presidente, com firmeza, mas com simpatia. De passagem por Paris, o blogueiro Roberto Moraes mandou a foto acima e o bilhete:
"Olá, Gadelha. Aí vai o registro da repercussão do último debate entre Sarkozy e Ségolène Royal. Paris praticamente parou para ver o debate que se encerrou há poucos minutos aqui em Paris. Na região do Quartier Latin, nas proximidades do Boulevard ST Germain com Boulevard Saint Michel, os bares e restaurantes estavam cheios de pessoas que assitiam interessadas ao debate. Pessoas paravam na porta destes restaurantes e também acompanhavam com interesse. Quanto às outras informações, você certamente está mais por dentro que eu, que cheguei por volta das 19 horas de Londres. Abs, Roberto Moraes Pessanha"

França: o debate ao vivo

Bem interessante o debate entre os candidatos à presidência da França, a socialista Ségolène Royal (à esquerda) e o direitista Nicolas Sarkozy (à direita). Ele, obviamente, procurando mostrar competência e tentando desqualificar a adversária. Ela, um pouco mais séria do que esperaria, mas principalmente não se deixando intimidar. O debate entre os dois corre livremente, com um e outro interferindo na fala do outro. Tudo muito muito civilizado e racional - mas, mesmo assim, emocionante. (Assista ao vivo agora, 17:14h)

Ex-Blog de Cesar Maia divulga pesquisa incompleta

No seu Ex-Blog de hoje, Cesar Maia escreve: "FRANÇA! LE NOUVEL OBSERVATEUR! HOJE QUARTA-FEIRA! Ipsos/Dell : SARKOZY 53,5%. SEGOLENE ROYAL 46,5%" Eele esqueceu de completar a pesquisa (que foi feita por telefone, no dia 30 de abril, entre 808 eleitores): os que vão votar e não quiseram declarar voto são 15%. Isso mostra total indefinição, porque os números finais são: Sarkozy 45,48%, Ségolène 39,52%, Indefinidos 15%. No instituto BVA, em pesquisa feita no mesmo dia, os resultados são: Sarkozy 46,28%, Ségolène 42,72%, Indefinidos 11%. É compreensível uma ou outra falha dessa. Tenho certeza que Cesar Maia corrigirá nas próximas postagens.
Atenção: na postagem anterior, onde apresento resultados do LH2, fui levado a engano por causa do Le Monde (que, hoje, não reapresenta a pesquisa). Segundo o site Challenges, a data de realização da pesquisa é 27-28 de abril, com 1002 eleitores. Como foi dito, 14% disseram que vão votar, mas não quiseram declarar voto. Mas o instituto vai além e diz que 20% dos que foram entrevistados declararam que estão indecisos. Isso significaria Sarkozy 41,6% e Ségolène 38,4% - e joga mais dúvidas sobre o resultado final.

terça-feira, 1 de maio de 2007

França: pesquisa LH2 pós-debate mostra crescimento de Ségolène Royal

A nova pesquisa LH2 feita no dia 30 de abril para verificar intenção de voto no 2º turno da eleição presidencial francesa mostra que, em uma semana, diminuiu de 8 pontos para para 4 pontos (sem contar os indecisos) a diferença do direitista Nicolas Sarkozy para a socialista Ségolène Royal. Considerando-se os votos dos 14% de indecisos (o que é correto), a diferença é de apenas 3,4%, configurando empate técnico e colocando a eleição em completa indefinição. E o mais curioso é que o ultra-direitista Jean-Marie Le Pen está conclamando os seus eleitores (ele teve 10,44% dos votos no 1º turno) a não votarem no direitista Sarkozy. Leia mais no Le Monde.

Barack Obama lidera corrida Democrata

Mostrando um desempenho surpreendente, o pré-candidato presidencial na eleição americana, Senador (Illinois) Barack Obama, passou a liderar a disputa pela indicação do partido Democrata. Agora tem 32% das intenções, contra 30% da Senadora (New York) Hillary Clinton e 17% do ex-Senador (Carolina do Norte) John Edwards. (Pesquisa feita do dia 23 ao dia 26 de abril - Rasmussen)