Mostrando postagens com marcador UPPs. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador UPPs. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Escondidinho, na sexta-feira



Durante um tempo, na década de 80, as minhas “nights” de sexta-feira tinham “embalos” bem diferentes da maioria das pesoas. Morava em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e mal chegava da empresa onde trabalhava (MPM Publicidade) saía de carro novamente. Pegava a Rua Alice, atravessava o túnel Rio Comprido e parava o carro na Rua Barão de Petrópolis, ali na entrada da comunidade do Morro do Escondidinho. Subia e, bem lá no alto, batia na porta de uma companheira de movimento político clandestino. Ela juntava outras pessoas e íamos para um posto de saúde, sempre fechado, onde discutíamos, entre outras coisas, “O Capital”, de Marx.
O tempo passou, durante o Governo Sarney foi consolidado o fim da ditadura, as minhas (poucas) noites de sexta-feira no Escondidinho ficaram na lembrança. Com o domínio do tráfico nas comunidades cariocas, o “capital” passou a ser de outro tipo, a violência armada ditou o ritmo local. Recentemente (no ano passado), indo para uma produtora de vídeo mais ou menos perto dali, em Santa Teresa mesmo, dei de cara com um jovem de granada na cintura e uma pistola na mão. Não aconteceu nada demais, foi um encontro casual. Comentei o fato com o Governador Sérgio Cabral que me deu uma resposta que, de alguma forma, me fez sentir certa esperança no ar. Na madrugada de sábado para domingo, saiu a resposta que estava escondidinha. O Escondidinho e mais 8 comunidades das proximidades foram ocupadas pelas forças policiais do Rio de Janeiro, com participação também da Marinha e da Polícia Rodoviária Federal. Tudo com eficiência e tranquilidade, cumprindo o cronograma de implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Daqui pra frente, os “embalos” do Escondidinho serão mais animados.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tomada do Alemão: The Day After


Para falar sobre o “day after”, fui procurar informações no passado e liguei para o recém-eleito Deputado Estadual (PT-RJ) Zaqueu Teixeira, que foi Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, em 2002, durante o governo petista de 9 meses de Benedita da Silva, e que sempre revelou afinidade com o Complexo do Alemão. Em setembro de 2002, ele também ocupou o Alemão, com cerca de 600 policiais civis, em busca de Elias Maluco, o chefão do tráfico que tinha matado o jornalista Tim Lopes. A tensão, na época, era muito grande, havia imensa pressão da imprensa e da sociedade para que Elias Maluco fosse preso a qualquer custo. Zaqueu lembra que a primeira coisa que fez foi isolar o Alemão da Vila Cruzeiro, com um bloqueio exatamente ali onde todos nós vimos na semana passada cerca de 200 traficantes fugindo desesperadamente. Ele queria ao mesmo tempo evitar a fuga dos bandidos do Alemão e inviabilizar um ataque vindo da Vila Cruzeiro. Durante 3 dias fizeram trabalho de inteligência e de busca no local, e finalmente prenderam Elias Maluco. “Sem dar um tiro”, ele se orgulha, “apenas com uso da inteligência”.
E sobre essa tomada do Alemão feita agora? “Foi excelente”, ele responde, “foi importantíssima. Garantiu a presença do estado e o fim do império do medo”. Zaqueu se entusiasma com a ação policial e, embora não tivesse participado diretamente dela, gosta de sentir-se participante. Lembra que quando estava no Ministério da Justiça, durante apresentação da proposta do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) para Lula, ele falou do Complexo do Alemão, sobre como tinha ocupado anteriormente e sobre a necessidade de ocupá-lo definitivamente. E acrescenta: “Como disse o Governador Sérgio Cabral, o PRONASCI é o pai e a mãe das UPPs”.
Para Zaqueu, a tomada do Alemão foi um golpe mortal na facção criminosa mais poderosa do Rio. “Perderam armas, perderam homens, perderam o quartel-general, perderam a droga que tinham em estoque, perderam a credibilidade. E ainda estão com grande dívida no mercado, porque essa droga é entregue na base da consignação. Eles precisavam vender para poder pagar – e como perderam, só ficaram com a dívida. Não deve demorar muito para todos eles ou a maioria serem presos”.
E daqui pra frente? “Daqui pra frente é a presença do estado. As forças de segurança têm que liberar os territórios dominados pelo tráfico e as UPPs têm que se alastrar. Ação policial para consolidar a conquista do território e ação social muito forte, apoio à economia dos locais liberados, cidadania para todos. É aí que entra o PRONASCI com todos os seus Programas. O Protejo, por exemplo, incorpora o jovem que vivia na franja do tráfico e abre uma perspectiva para que ele possa conquistar emprego, ter profissão, possa ter futuro. O Mulheres da Paz é outro projeto que tem como objetivo incentivar as mulheres da comunidade a ajudar a desenvolver, coordenar e fortalecer a prevenção e o enfrentamento às violências que envolvem jovens expostos. De imediato o importante é que o Governo não permita que outros bunkers como o do Alemão se desenvolvam”.
Existe esse risco? “Existe, sim. O perigo mais iminente me parece que é a Mangueirinha, em Caxias, que já está até sendo tratada como “Complexo”. (É verdade, verifiquei que até no verbete “Mangueirinha” da Wikipédia podemos ler que “atualmente o complexo tem recebido muitos traficantes oriundos de comunidades pacificadas da cidade do Rio de Janeiro”.)
Você acha, como o Luiz Eduardo, que o tráfico "é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas – mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente"? “Acho que há mudança, sim, nesse perfil do tráfico. Mas não podemos nos iludir, isso não pode frear a ação do estado. Quero acrescentar que o tráfico não é burro e já assimilou o método da milícia. Na Ilha do Governador, eles já não se restringem à droga e exploram também o gatonet, o gatogás, o gatotudo”.
E o que você acha do Exército substituindo a polícia no Alemão, até que seja implantada a UPP? “Pessoalmente, prefiro a Força Nacional, acho melhor preparada e já provou isso. Mas acho que essa é uma questão que vai se intensificar até 2014: quem vai comandar a segurança da Copa – a Força Nacional, que comandou com sucesso durante o Pan, ou as Forças Armadas, que estarão no comando do Alemão?”
Realmente, é uma disputa política que promete ser forte, entre o Ministério da Justiça petista e o Ministério da Defesa peemedebista. Mas o principal no nosso “day after” é a conclusão de que agora podemos vislumbrar um novo Rio de Janeiro, sem submissão a narcotraficantes e com uma vida pacificada. Ainda falta muito, claro, mas o futuro já foi disparado.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tomada do Alemão: Fatos & Aversões


Fotos O Globo

7:29h – é fato que esse foi um momento histórico. Um momento que simboliza uma decisão difícil, de iniciar uma operação que sob muitos aspectos poderia indicar banho de sangue. Simboliza a possibilidade de vida bem melhor para quase 100 mil moradores do Complexo do Alemão, imersos em uma subvida de tensões, ameaças, agressões, subdesenvolvimento. Simboliza a possibilidade do Rio de Janeiro dar um salto na qualidade de vida de toda sua população. Simboliza mais um passo do Brasil rumo a uma posição de mais prestígio internacional.
Sérgio Cabral, Beltrame – o Governo do Rio de Janeiro criou um fato novo na política de segurança nacional, ao provar que é possível integrar políticas sociais com inteligência, rigor e eficácia policiais. E soube melhor do que ninguém integrar-se ao Governo Federal, dando mais musculatura às suas forças.
Rodrigo Pimentel – de fato, o autor e inspirador do “Capitão Nascimento” do Tropa de Elite é uma referência em questões de segurança pública. Mostrou uma análise diferenciada entre os comentaristas apresentados na mídia. Demonstrou conhecimento e, ao mesmo tempo, uma visão tranquila e bem humana. Nada de teorizações ou vociferações, tão comuns. Apoiou toda a ação, mas demonstrou preocupação (medo, mesmo) com a possibilidade de derramamento de sangue. Hoje, no Bom Dia Brasil, revelou sua dificuldade em dormir no sábado, pensando nos amigos – e até um irmão – que poderia perder, porque estavam na linha de frente da operação. Destaque também para a atuação do Júnior, do AfroReggae.
Comentaristas da bala – causou aversão assistir certas análises que apoiaram a ação do Governo aparentando ver nela a vitória de uma certa política do “bandido bom é bandido morto”. Um analista chegou a dizer que era o fim da política do “bandido cidadão” ou “bandido social”. Não é bem assim. O grande valor desse Governo na área de Segurança foi saber integrar políticas sociais, valorização da cidadania, com inteligência e eficácia policial. Não se pode confundir oportunismo populista ou banditismo eleitoral com política social séria. Os erros do passado não devem ser justificativa para apertar gatilho a torto e a direito.

Pezão e o PAC – o fato de o chefão do Alemão ter o mesmo apelido (Pezão) do Vice-Governador e coordenador do PAC no Rio de Janeiro foi muito curioso. Primeiro, porque gerou uma série de piadas com o Vice-Governador – a principal delas, como ele mesmo me contou, foi dizerem que “aquela mansão fantástica encontrada no alto do morro foi construída com o dinheiro do PAC”. Mas o fato mais importante foi o hasteamento das bandeiras da vitória (nacional e estadual) ter sido feito na estação do teleférico que está sendo construída com verba do PAC...
Mídia – a atuação impecável da mídia, dessa vez, foi fato gerador de otimismo no Rio e até no país. Globo e Record deram show. Na TV, na Rádio, na Imprensa, na Internet, os noticiários foram amplos, elucidativos e na maioria das vezes tranquilizadores. Destaque para os tuiteiros do Alemão, garotada de prontidão, atenta aos acontecimentos e antenada com as novas tecnologias.
População – um fato marcante foi a unanimidade: todos estavam favoráveis à ação, não queriam mais dar espaço à bandidagem com seus atos de terror e, acima de tudo, acreditaram na polícia.
Marketing e criatividade – os traficantes acharam que estavam sendo muito criativos com suas ações terroristas, mas conseguiram apenas causar aversão. Erraram violentamente no seu marketing. Desesperados pelas perdas de espaço e de faturamento causadas pelas UPPs, concluíram que espalhar o terror enfraqueceria as forças de segurança. Contaram com a revolta tanto da mídia quanto da população contra o Governo. Mas foi um grande equívoco. O terrorismo fez a população dar um basta! e ainda mobilizou a mídia a favor da polícia. Foi isso que estimulou o Governo Federal a aumentar sua participação e que permitiu o Governo do Estado a agir com firmeza e de forma definitiva. Os traficantes, sempre muito espertos, ignoraram uma lei básica: a comunicação pode ser criativa, mas tem que estar associada a um marketing que – por natureza – deve sempre ser óbvio. O fato é que o tiro saiu pela culatra

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Novo passo para a Segurança no Rio: obrigar os chefões do tráfico a assistirem a TV


As cenas de Tropa de Elite 3 que o país assistiu ao vivo durante todo o dia de ontem lavaram a alma do brasileiro, particularmente do povo carioca. Revelaram que: 1) as forças de Segurança estão bem preparadas, com capacidade de organização e de reação firme ao narcoterrorismo; 2) que o poder de fogo da bandidagem é grande, mas não é imbatível – aliás, ficou claro que os traficantes estão em desespero; 3) que a população, principalmente a mais pobre (espremida nas vitrines das lojas de eletrodomésticos, bares e bancas de jornal, assistindo a TV), quer paz e apoia a polícia quando ela se mostra eficaz sob todos os aspectos.
Agora é importante reabrir os canais de informação com os chefões que ordenaram o terror. É necessário eles assistirem com urgência as imagens da tomada da Vila Cruzeiro. Precisam comprovar que a Segurança agora é outra, que eles não têm o poder de enfrentamento que imaginavam e que suas ações acabaram tendo o efeito contrário ao que pretendiam. Se tiverem um mínimo de bom senso (isso existe naquelas bandas?), ordenarão o fim do terrorismo. Caso contrário, verão seus “soldados” tombarem aos magotes. As cenas de ontem demonstraram o que disse aqui no Blog há dois dias: “Não há como o tráfico ter ganho nessas ações”.
A população aguarda com ansiedade o capítulo final dessa série de terror.

O campo de batalha...

(gráfico do Globo - clique para ampliar)
... e o M113, um dos heróis da batalha


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Provocação 1: o Rio tem tudo para sair dessa fortalecido


A série de ataques narcoterroristas no Rio de Janeiro é horrível. Mas é a melhor demonstração de que a política de segurança do Governo está dando certo. E o cálculo é simples: essas ações estão dando mais despesa do que lucro aos traficantes. São operações desgastantes que prejudicam ainda mais o comércio de drogas. Traduzem muito mais desespero pela perda de pontos de venda e, consequentemente, queda na receita e deserção de “soldados”. Não há como o tráfico ter ganho nessas ações – a não ser o aspecto motivacional, dando estímulo a seu "exército" (que anda meio acuado, graças ao sucesso das UPPs) e até conquistando um ou outro novo “soldado”. Mas isso dura pouco. Principalmente porque a reação do Governo tende a ser proporcionalmente bem maior. Narcoterroristas começarão a ser presos, o cerco federal será mais amplo e mais eficaz, o espaço de manobra dos traficantes ficará mais reduzido e inviável. Com o isolamento ainda maior dos líderes que estão presos, caberá aos líderes locais buscar outras regiões para se acomodarem. Apesar do tumulto e do pânico iniciais, surgirá um Rio melhor.