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domingo, 29 de agosto de 2010

Jorge Bastos Moreno prova que Jânio não conhecia Lula


No seu “Histórias do Moreno” de hoje, no Globo, o jornalista Jorge Bastos Moreno revela trechos inéditos de sua entrevista com Jânio Quadros ainda antes de ser anistiado. O título da história de hoje, “Jânio, há 32 anos: Lula é a esperança para todos nós” é enganador, porque dá a impressão que Jânio é um grande visionário, capaz de conhecer Lula melhor do que todos e perceber o Lula de hoje antes de qualquer um. Lendo o texto, notamos o ledo engano. Jânio acreditava que Lula era a esperança porque seria apenas um dirigente sindical, sem estar atado a interesses políticos e partidários. Ainda bem que ele estava enganado. Leiam o texto do Moreno:
Jânio sobre Lula: Mais de uma vez eu já disse que reputo esse Lula uma esperança para todos nós. E por quê? Porque ele é um dirigente sindical que não está atado a interesses políticos e partidários. A sua política é a do seu sindicato. E esse é pouco mais ou menos o pensamento do dirigente sindical americano ou inglês. Dirigente de um daqueles poderosos sindicatos da Inglaterra ou do poderoso consórcio dos sindicatos norte-americanos: não é trabalhista e nem conservador, no Reino Unido; não é republicano e nem democrata, nos EUA. Pessoalmente, ele pode até ter simpatias pelos trabalhistas, pelos democratas. Mas a sua política é o do seu sindicato. E, quando conversa com políticos, conversa com total independência.

domingo, 15 de agosto de 2010

Sapato Alto X Perna de Pau




A corrida presidencial chega a sua etapa conclusiva, a do Horário Eleitoral Gratuito, com a candidata de Lula, Dilma Roussef, disparando na frente (como já era esperado por este Blog). Começa agora o velho discurso do “não podemos ter sapato alto”. É sempre bom pensar assim, quando sapato alto significa arrogância (como foi o caso de FHC x Jânio, em 85) ou estímulo para baixar a guarda. Por outro lado, não podemos esquecer que o clima de “já ganhou” nem sempre é ruim. Ninguém gosta de perder o voto e grande parte do eleitorado procura votar em quem vai ganhar. É importantíssimo mostrar a cara vitoriosa, principalmente nos primeiros dias de programa na TV e também no final, para garantir o chamado “voto útil”. Tendo Lula ao lado isso vai ser tarefa fácil.
Para quem corre pela Oposição a coisa está cada vez mais complicada – está em queda livre, não pode nem bater nem apoiar Lula, está sem propostas arrebatadoras e o candidato Serra mostrou-se um verdadeiro perna de pau. Hoje mesmo o Vice Governador Pezão, do Rio de Janeiro, me ligou e comentamos o “desempenho” de Serra comendo churrasco com o povão em uma laje na Baixada Fluminense. Cheio de dedos, parecendo um extraterrestre. Não é à toa que a Folha de hoje comenta que Serra “caiu nos três Estados que ele mais visitou nas últimas três semanas, segundo o último Datafolha”. Entre as duas últimas pesquisas, “de 23 de julho até anteontem, ele teve pelo menos sete agendas de campanha em São Paulo, cinco em Minas Gerais e três no Rio de Janeiro (...) os maiores colégios eleitorais do país”. Em São Paulo, sua principal base eleitoral, caiu de 44% para 41%. No Rio, terra do seu índio, caiu de 31% para 25%. Em Minas, terra de Aécio, caiu de 38% para 34% (e Anastasia não quer vê-lo por perto). No único lugar que não visitou nesse período, o Distrito Federal, foi onde não caiu – continua com os mesmos 27%...
Onde Dilma pisa com segurança, Serra dá no pé. Tudo leva a crer que será uma vitória no primeiro turno, com muitos corpos à frente.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Túnel Rio-Niterói: deu no Globo... há 50 anos!

Reportagem do Globo de 7 de junho 1960:
O presidente do Comitê Pró-Construção do Túnel Rio-Niterói, Sr. Djalma Nunes, entregou ontem ao governador estudo sôbre a locação da bôca do túnel no Calabouço, do qual constam esquemas de um trevo submarino, o primeiro do mundo, que se destina a distribuir os veículos, procedentes de Niterói, para as zonas Sul e Norte do Rio. Os primeiros entrarão diretamente na Avenida Beira-Mar e nas pistas em construção no atêrro do Flamengo; os da Zona Norte ganharão a Avenida Perimetral.

Era outro mundo ... mas tudo igual. Na mesma edição podemos ver:
Apesar do desmentido do Sr. Abelardo Jurema, dizendo que jamais foi cogitada a anunciada “conferência de cúpula”, confirma-se agora que ela estava realmente sendo preparada. A citada conferência não foi realizada por ter o Sr. Jânio Quadros e recusado a participar da mesma. O sr. Silva Prado seguiu hoje para Brasília, a fim de expor ao ministro da Justiça as razões do Sr. Jânio Quadros, ficando desta forma superados os entendimentos em tôrno da escolha do candidato único. A renúncia de Lott e Ademar seria a nova fórmula com o lançamento de um terceiro candidato, o sr. Tancredo Neves, que teria o apoio do PSP, PTB, PSD, PR, PRP e PRB, além de considerável parcela da UDN.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lula: "Se dependesse de carisma, Fernando Henrique não teria sido eleito e Serra não seria nem candidato"

O título dessa postagem foi a resposta de Lula na excelente entrevista publicada no Valor Econômico de hoje. Lula disse também, exatamente como escrevi na postagem abaixo: "Quem sustentou essa crise foi o governo e o povo pobre, porque alguns setores empresariais brasileiros pisaram no breque de forma desnecessária". Outros trechos:
A gente não deveria ficar preocupado em saber quanto o Estado gasta. Deveria ficar preocupado em saber se o Estado está cumprindo com suas funções de bem tratar a população.
Se dependesse de carisma, Fernando Hemlque Cardoso não teria sido eleito e Serra não seria nem candidato. Jânio Quadros tinha carisma e ficou só seis meses.
Eu dei 45 dias de prazo, ontem, para que me apresentem o projeto de integração de todo o sistema ótico do Brasil.
Ainda neste ano vou apresentar uma proposta sobre inclusão digital. E vou apresentar, também, uma proposta consolidando todas as políticas sociais do governo. Vai ter uma lei que vai legalizar tudo, vai ser uma lei como a Consolidação das Leis do Trabalho. Será uma consolidação das políticas públicas, para sustentar os avanços conquistados.
Os empresários têm tanta obrigação se serem brasileiros e nacionalistas quanto eu!
Se o Bush tivesse a dimensão da crise e tivesse colocado US$ 60 bilhões na Lehman Brothers antes dela quebrar, possivelmente não teríamos a crise de crédito que tivemos no mundo.
O Estado tem que ter força. Aqui no Brasil durante os anos 80 se criou a idéia de Estado mínimo. O Estado mínimo não vale para nada. O Estado tem que ter força para fazer as políticas que fizemos agora, na crise, com a compreensão do Congresso Nacional.
Vocês têm dimensão do que foi ter uma Caixa Econômica Federal, um BNDES ou um Banco do Brasil? Foi extremamente importante. A Petrobras apresentou um estudo mostrando que deveria mudar o cronograma dos investimentos dela de 2013 para 2017. Convoquei o Conselho da Petrobras aqui para dizer: 'Olha, esse é um momento em que não se pode recuar'. A gente tem que avançar. Até no futebol a gente aprende que quando se está ganhando de 1 x O e recua a gente se ferra.
O que garante as pessoas ficarem no Estado é a estabilidade, não é o salário.
Quantos políticos têm carisma no Brasil? Se dependesse de carisma, Fernando Henrique Cardoso não teria sido presidente. Se dependesse de carisma, José Serra não poderia nem ser candidato. Carisma é uma coisa inata. Você pode aperfeiçoar ou não. Sempre é bom ter um pouco de carisma. O Jânio Quadros tinha carisma. Ficou só seis meses aqui.
Estou dizendo que para governar este país é preciso um conjunto de qualidades. E a primeira qualidade é ganhar eleição. Tem que ter muita humildade, determinação do projeto que vai apresentar. Tem que provar que é capaz de gerenciar. Hoje, com sete anos de convivência, não conheço ninguém que tenha essa capacidade gerencial da Dilma. Às vezes as pessoas falam 'ela é dura'. Mas é que a mulher tem que ser mais duramesmo. Porque numa discussão política, para você se impor no meio de 30 ou 40 homens, é assim. A Dilma é muito competente.
Feliz do país que vai ter uma disputa que pode ter Dilma, Serra, Marina, Heloísa Helena, Aécio.
Valor: O que o senhor pretende fazer depois que deixar o governo ?
Lula: Não sei. A única coisa que tenho convicção é que não vou importunar quem for eleito.
Vale a pena comprar o Valor Econômico e ler a entrevista completa.

domingo, 13 de setembro de 2009

Cesar Maia e a questão regional na escolha do Vice

No seu artigo (“A escolha do vice”) desse sábado, na Folha, César Maia faz duas afirmações que podem ser bem discutíveis. Primeiro ele diz, dando como exemplos os períodos 1946-1960 e 1989-2006, que “a escolha do candidato a vice-presidente da República não tem tido relação com a questão regional”. Não tenho elementos para concordar ou discordar disso e é bem difícil resgatar tudo que foi determinante nas escolhas. É bem possível que ele esteja certo. Até os anos 50, por exemplo, a sofisticação eleitoral ainda não tinha chegado a níveis milimétricos, os meios de comunicação eram rudimentares, o país era outro, as regiões eram outras. Mas isso não quer obrigatoriamente dizer que uma composição entre duas regiões do país não produzisse um efeito agregador, como ele afirma. Temos que lembrar que até a eleição de Jânio as votações de presidentes e vice eram separadas – inclusive, Jango, o vice eleito, compunha chapa com Lott, não com Jânio. Temos que lembrar também que o mapa regional brasileiro era outro: Sergipe e Bahia (hoje no Nordeste) faziam parte da Região Leste e São Paulo (hoje no Sudeste) fazia parte da Região Sul. Pegando como exemplo a eleição de 1950, os votos válidos para Presidente ficaram divididos assim: Norte, 3,20%, Nordeste 21,14%, Leste 38,91%, Sul 33,92%, Centro-Oeste 2,83%. A soma de Leste e Sul era 72,83%, enquanto que a soma dos eleitorados das Regiões Sudeste e Sul, hoje, é 58,55%. A soma de Nordeste e Leste, na época, era 60,05%. A soma de Nordeste e Sudeste, hoje, é 70,60%. Assim, quando Cesar Maia diz que em 1950, apesar do Vice Café Filho ser deputado do Rio Grande do Norte, o foco não era o Nordeste, ele está absolutamente certo, não havia razão para ser como agora: Café Filho (que foi derrotado no Nordeste) fazia parte do acordo com Ademar de Barros, de São Paulo. Nas eleições seguintes (JK-JG e JQ-JG), as dobradinhas vitoriosas eram do eixo Leste-Sul. Depois da ditadura, tudo mudou, o mapa eleitoral é outro. Nas últimas seis eleições presidenciais (incluindo aí a indireta), as chapas vitoriosas foram sempre com a composição Sudeste-Nordeste: Tancredo-Sarney, Collor-Itamar, FHC-Maciel (duas vezes) e Lula-Alencar (duas vezes, e observa-se ainda que Lula, em si, é um traço de união entre Nordeste e Sudeste). As chapas majoritárias sempre formadas por representantes das duas principais regiões do país, eleitoralmente falando. Coincidência? É óbvio que a escolha do Vice não pode se resumir à questão regional. Existem outras questões – talvez até mais importantes – como as ideológicas, de arranjos partidários, de tempo no rádio e na TV, etc. Mas não dá para afirmar tão categoricamente que não existe efeito agregador nas composições regionais. Essas dobradinhas no mínimo servem para reduzir efeitos desagregadores.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama & Campos & Lott & China

Recebi hoje de manhã um telefonema da China. Era meu amigo Campos, que está passando uns meses por lá, e queria confraternizar pela vitória de Barack Obama. "Um negro, mas acima de tudo um afro-americano, que a família morava na caatinga do Quênia", falou ele entusiasmado. Fiquei emocionado. Menos pelo Obama e mais pelo próprio Campos, um velho amigo comunista, daqueles de emocionar de verdade, por sua garra, seu entusiasmo, sua luta por um mundo melhor. Certa vez, no início da década de 80, ainda na ditadura, em uma dessas organizações clandestinas de esquerda, um militante dava palestra sobre História do Brasil (parece que era a partir de um livro do Hélio Silva) e relatava a dificuldade que o PCB teve na década de 60 para apoiar a candidatura Lott, considerada mais progressista do que a de Jânio Quadros, mas encarnada por um militar anti-comunista. Fez referência a um encontro, no Rio de Janeiro, do Lott com a garotada de estudantes do Partido Comunista. Lott, claro, baixava o cacete no comunismo e a garotada ouvia tudo em silêncio, porque, afinal, tratava-se do candidato "aliado". O constrangimento era total, até que um dos jovens comunistas não agüentou mais, levantou-se e fez um discurso de protesto contra tudo aquilo. A platéia comunista da década de 80, que absorvia fascinada aquele pedaço de história, ficou em choque quando viu o Campos se levantar e dizer: "Aquele garoto era eu". Campos, que primeiro conheci com o nome de guerra Juca, foi logo depois da campanha de Lott enviado pelo PCB para treinamento na Europa (estudou 6 anos na Tchecoslováquia) e voltou para tentar contribuir de algum modo pela revolução socialista brasileira. Hoje os tempos são outros, mas ele continua o mesmo: um apaixonado pela vida.